Arquivo mensal: Abril 2010

Annexus Quam – Osmose (conj.)

12.09.1997
Krautrock
Do Fundo Da Cornucópia
No seu “romance” pessoal sobre o “krautrock” dos anos 70, “Krautrocksampler”, Julian Cope passou ao largo de grande parte da produção discográfica dos grupos germâncios dessa época, cingindo-se aos nomes que fizeram história, dos Faust aos Amon Düül II, dos Kraftwerk aos Neu!, dos Popol Vuh aos Tangerine Dream. Mas essa história foi feita por muitos mais. Em Portugal está-se a desenterrar os tesouros esquecidos.

A viagem começa, precisamente, por uma das bandas referidas por Cope no seu livro, os Harmonia, confluência dos Cluster, de Dieter Moebius e Joachim Roedelius, com Michael Rother, dos Neu!, e pelo seu segundo álbum, “DeLuxe”, de 1975, que contou ainda com a participação do baterista dos Guru Guru Mani Neumeier. Obra fundamental do “krautrock”, mais acessível do que a estreia “Musik Von Harmonia”, nela a batida metronómica funciona como pista para o expresionismo electrónico de trio, bem ilustrado no kratwerkiano tema de abertura, com os Harmonia rolando na sua própria “autobahn”. “DeLuxe” é um disco fundamental para se compreender a transição da fase inicial, mais cósmica, do “krautrock” para o niilismo mecanicista (exemplificado no vertiginoso andamento do tema “Monza”) que infectaria a alma das grandes metrópoles teutónicas, anunciando o “punk” e o radicalismo de atitude de uma banda posterior, os La Düsseldorf, pilotados pela outra metade dos Neu!, Klaus Dinger. (Brain, import. Torpedo, 9.)
Seguindo o rasto, encontramos precisamente os La Düsseldorf, também no seu segundo álbum, “Viva”, de 1978, ou seja, no auge do “punk. Numa altura em que, em Inglaterra, os jovens de alfinetes queimavam os sintetizadores, os irmãos Klaus e Thomas Dinger equacionavam o seu uso num contexto derivado do pioneirismo dos Kraftwerk, pondo em ligação a estética do grito “bávaro”, como Cope lhe chama, com os circuitos integrados das máquinas, transformadas em monstros de metal. Também desta banda volta a estar disponível o seu álbum de estreia, “La Düsseldorf”, igualmente na versão japonesa, da qual, como se pode ler no aviso da capa, foi copiada a anterior edição pirata com o “selo” Germanofon. (Captain Tripi, import. Torpedo, 7.)

LINK

Avancemos para outro disco clássico, este já sem a chancela de Julian Cope: “Osmose”, com data de edição original de 1970, na Ohr, dos Annexus Quam, outra banda com origem em Düsseldorf. Representativo de uma área explorada, de forma mais sofisticada, por bandas como os Kraan ou Release Music Orchestra, “Osmose” entrelaça, por vezes de forma anárquica, as tendências jazzísticas que viriam a ser sistematicamente desenvolveidas no álbum posterior, “beziehungen”, com a mesma costela cosmico-percussiva de “Atem”, dos Tangerine Dream. (Spalax, import. Torpedo, 7.)
Ash Ra Tempel e Guru Guru são duas das bandas mais representativas do “krautrock”. “Ash Ra Tempel”, a estreia, em 1971, do colectivo liderado pelo guitarrista e sintetista Manuel Göttsching, foi a primeira de muitas “acid jams” que culminariam no encontro, patrocinado pelo esquizoguru da “Kosmische Muzik”, Rolf-Ulrich Kaiser, com o guru do LSD, Timothy Leary, em “Seven Up” e que apenas parecem fazer sentido para uma cabeça igualmente encharcada em ácido lisérgico. Como a de Cope, que inclui este álbum na sua lista de preferências. (Spalax, import. Torpedo, 6.)
Já “Tango Fango”, álbum de 1976 dos Guru Guru, constitui uma amostra pouco representativa do poder implosivo que caracteriza os dois primeiros álbuns desta banda, desde sempre impulsionada pelo barerista Mani Neumeier, “UFO” e “Hinten”. Em “Tango Fango” mistura-se o jazz-rock trazido pelo novo recruta Roland Schaeffer, nos sopros, com tangos, música de variedades, marchas folclóricas, anedotas absurdas e canto “yodelling”. Interessante mas demasiado derivativo. (EFA, import. Torpedo, 6.)
Lado a lado com os grupos cujo som era declaradamente “kraut” (leia-se “cósmico”, “libertário”, “exploratório”, “tripante”…) coexistiram, na Alemanha, muitos outros, apostados em fazer música com menos conotações regionais, que cantavam em inglês e, em geral, cometiam o pecado de dominar tecnicamente os instrumentos que tocavam. Os Grobschnitt incluíam-se nesta categoria. Entre 1972 e 1989, gravaram 13 álbuns, chegando a alcançar níveis elevados depopularidade, no seu país de origem. “Ballerman”, de 1974, um duplo álbum na versão original, em vinil, á marcado por influências díspares e por uma veia “progressiva” bem assimilada, onde avulta a longa “suite” “Solar Music”, com os seus 33 minutos de experimentações variadas em torno de sequenciações electrónicas, psicadelismo tardio e efeitos de produção. Este mesmo tema seria ampliado para mais de 50 minutos numa posterior versão garavada ao vivo e editada em 1978, com o título “Solar Music – Live”.
“Rockpommel’s Land”, de 1977, é um álbum conceptual, mais sereno e inspirado nos Genesis, onde se conta a odisseia do pequeno Ernie, entre a sátira e a preocupação de emular na perfeição os mestres ingleses. Um álbum de pormenores e subtilezas que “trepa” a cada audição. (Brain, import. Planeta Rock, 6 e 7).
Eroc, de seu nome verdadeiro Joachim H. Ehrig, era o percussionista dos Grobschnitt. Mas os álbuns que gravou a solo (onde estende os seus talentos de executante aos teclados, acordeão, vibrafone e percussões várias) não tinham rigorosamente nada a ver com a música do grupo. “Wolkenreise” é uma colectânea de temas gravados entre 1975 e 1982, que vão do “easy listening” alpino, seja lá o que isso for, a neuroses ambientalistas, entre a paródia aos românticos e delírios electrónicos de sintetizadores perdidos nos seus próprios devaneios. Saliência para “Des zauberers traum”, de “Eroc”, uma dos mais estranhos álbun gravados por esta personalidade, arrumada entre Manuel Göttsching e Michael Rother. (Brain, import. Planeta Rock, 6)
Para os Novalis não se punham dúvidas quanto aoa estilo a seguir. Eram românticos declarados, como os Wallenstein, Hoelderlin ou Parzival, não escondendo a sua paixão pelos sons dos progressivos do outro lado da Mancha. “Banished Bridge” (agora em versão remasterizada), com a qual se estrearam em 1973 na Brain, denota a influência descarada dos Pink Floyd, da fase “A Saucerful of Secrets” e “Ummagumma”, no tema conceptual de 17 minutos que dá título ao álbum, com base no “mellotron” e restantes teclados de Lutz Rahn. Apesar disso, desprende-se dele magia e um ambiente de estranheza que cativa. Os restantes três são mais exibicionistas, oscilando entre a pirotecnia dos Emerson, Lake & Palmer e o barroco insuflado dos Procol Harum (Brain/Repertoire, import. Torpedo, 7.).
Guardámos para o fim a maior surpresa. “Full Horn”, dos Cornucopia, é uma pérola que poucos conheceriam. É o único álbum gravado por este septeto – auxiliado ainda por Jochen Petersen, saxofonista e flautista do grupo de Achim Reichel – que teve contra si o facto de estar demasiado avançado no tempo. Na altura ninguém quis saber deles e os Cornucopia não tiveram outra alternativa senão desistir. Mas “Full Horn”, de 1973, faz justiça ao título, mostrando ser uma verdadeira cornucópia de onde jorram a cada instante renovados prazeres. Antes e mais, a banda era constituída por executantes de excepção. Mas ao contrário do que era frequente acontecer, punham as suas capacidades ao serviço de uma música inclassificável, com uma complexidade talvez apenas comparável aos Gentle Giant e um gosto pelo bizarro que, nalguns momentos, traz à memória Frank Zappa. Os 19 minutos de “Day of a Daydream Believer” evoluem de forma imprevisível através de vocalizações arrevesadas, na linha dos Amon Düül II, e constantes mudanças de ritmo e ambiente. “Morning Sun – Version 127 (for the charts)” evoca a subtileza da escola de Canterbury enquanto “And the Madness” mergulha no mesmo universo de alienação iluminada dos Gentle Giant de “In A Glass House” ou dos Gracious. “Spots on You, Kids” faria boa figura num catálogo seleccionado da Recommended. Um clássico. (Brain/Repertoire, import. Torpedo, 8.)
Na Planeta Rock encontram-se ainda disponíveis álbuns dos Faust (“The Faust Tapes”, “71 Minutes of Faust” e o novo “You Know FaUSt”), Jane (“Here We Are”, “Jane III”, “Lady” e “Fire, Water, Earth & Air”), Grobschnitt (“Solar Music – Live”, “Illegal” e “Last Party – Live”) e Nektar, que eram ingleses mas fizeram carreira na Alemanha, acabando por ser adoptados pela grande família do “krautrock” (“Journey to the Center of the Eye”, “A Tab in the Ocean” e “Remember the Future”. Na Torpedo pode encontrar os Agitation Free (“Last”), os Cluster (“Cluster III”), Guru Guru (“UFO e “Hinten”), Faust (“Rien”), Harmonia (“Musik von Harmonia”), La! Neu? (“Düsseldorf”) e Moebius & Plank (Rastakraut/Material”)

Nota: Os Harmonia voltaram ao activo. Ao trio Moebius, Roedelius e Rother juntou-se um quarto elemento, nada mais nada menos do que Brian Eno, que, de resto, já gravara com a dupla dos Cluster os álbuns “Cluster & Eno” e “After the Heat”. O novo álbum dos Harmonia, a sair em breve, tem como título “Tracks & Traces”.

Comus – First Utterance (conj.)

08.08.1997
Não Tenham Medo, Eles Só Precisam Da Vossa Amizade
Passados 25 anos sobre a época mais produtiva e estimulante do progressivo, entre 1970 e 1974, o prazer está na busca dos pequenos e grandes tesouros que se ocultam nas bandas menos conhecidas, embora algumas delas sejam dignas de figurar ao lado dos seus pares bem sucedidos.

Para os pesquisadores, a vaga de reedições de música progressiva dos anos 70 que tem chegado à discoteca Torpedo constitui material de consulta essencial. Torna-se possível a descoberta de nomes e segunda linha que, por este ou aquele motivo, nunca lograram a mesma projecção mediática ou o sucesso alcançado pelos nomes que constam nas enciclopédias mais generalistas. Nomes como King Crimson, Gentle Giant, Van Der Graaf Generator, Yes, Genesis, Jethro Tull ou Emerson, Lake and Palmer, para só falar dos ingleses.
Passados 25 anos sobre a época mais produtiva e estimulante do progressivo, entre 1970 e 1974, o prazer está na busca dos pequenos e grandes tesouros que se ocultam nas bandas menos conhecidas, embora algumas delas sejam dignas de figurar ao lado dos seus pares bem sucedidos. Já aqui escrevemos, há tempos, sobre os álbuns dos CMU (“Open Sppaces” / “Space Cabaret”), Tonton Macoute (“Tonton Macoute”), Spirigyra (“ST. Radigunds”) e Beggars opera (“Waters of Change”). A estes acrescente-se agora “First Utterance”, dos Comus, “(Have No Fear, I Only Need Your) Friendliness”, dos Stackridge, “Time Is…” dos Raw Material, e “Sea Shanties”, dos High Tide.

LINK

“First utterance”, dos Comus, é um dos clássicos menosprezados dos 70. David Bowie descobriu o grupo em 1969. Infelizmente para os Comus, Bowie não constituiu grande ajuda, já que ele próprio, nessa época, lutava para sair do anonimato. A crítica não soube o que fazer, na data da sua edição, em 1971, com “First Utterance”. A revista “Sounds” definiu o tema de abertura como “o cruzamento entre uma versão histérica do coro das bruxas de McBeth com guinchos de Marc Bolan a ser estrangulado até à morte”. Na “Record retailer” falou-se numa “cacofonia de sons incoerentes”. O crírtico da “Record Mirror2 foi mais sucinto: “Soa aos T. Rex a 94rpm.” Houve apreciações favoráveis, como a de John Peeel, mas mesmo nestas perpassava uma evidente perplexidade. Opinião unânime era a deque não havia, então, mercado para o tipo de música que os Comus tinham para oferecer.
Volvido mais de um quarto de século, continua a assustar esta mistura endemoinhada (e agora remasterizada) que aliava a teatralidade vocal dos Genesis com um gosto por melodias clássicas, de uma forma esquizofréncia, e cosntantes desvarios do violino e do oboé, prenunciadores de um free rock extemporâneo. Alguns anos mais tarde, os Comus foram aceites pela Virgin, para a qual gravara, “To Keep From Crying”, um álbum mais acessível que contava com as colaborações de Lindsay Cooper, dos Henry Cow, e Didier Malherbe, dos Gong. (See for Miles, 8)
Delicioso é o termo que melhor define, e abreviando o título, “Friendliness”, dos Stackridge, um grupo de pop progressivo que se tornou conhecido sobretudo pelo lado cómico-provocatório das suas prestações ao vivo. Em disco, porém, a doçura de canções como “Lummy days”, o luminoso instrumental, “Friendliness”, “Syracuse the Elephant” ou o impagavelmente intitulado “Father Frankenstein is behind your pillow” estavam ao mesmo nível da excentricidade e de um talento inato para a composição demelodias que deviam tanto aos Beatles como à poesia rural de um álbum como “Treason”, dos Gryphon. (Repertoire, 8)
Em “Time is…”, segundo álbum dos Raw Material, esta banda não escondia que os seus heróis eram os Van Der Graaf Generator. “Ice queen” é uma emulação dos “riffs” típicos da banda de Peter Hammill, com o seu saxofonista e flautista, Michael Fletscher, a fazer uma imitação razoável de David Jackson. Faltava, era claro, aos Raw Material o génio de Hammill, mas a combinação demelodias psicadélicas com longas passagens instrumentais, nos sopros e teclados, de temas como “Empty houses” ou “Insolent lady” conferiam a este disco uma aura de amgia peculiar, embora toda a segunda parte não consiga manter a mesma criatividade, socorrendo-se de alguns “clichés”, já então estafados, do cósmico-progressivo à maneira dos Hawkwind. (Repertoire, 7)
Também interessante é “Sea Changes”, dos High Tide, um “power-trio” alucinado impulsionado pela guitarra de Tony Hill e com a loucura adicional do violino eléctrico de Simon House, futuro elemento dos Hawkwind e esporádico acompanhante de Bowie. Veja-se aqui a versão britância e, apesar de tudo, mais elegante dos energúmenos alemães Guru Guru. Curioso mas massacrante em último grau. (Repertoire, 6)
Falta acrescentar que se encontra escondido nas prateleiras da “megastore” da Virgin o “Second Album” dos Curved Air, onde a voz de Sonja Kristina, o violino de Darryl Way e os tecladfos de Francis Monkman ensaiavam, de forma magnífica, a sua visão de uma música rock com pretensões sinfónicas, que haveria de pulverizar-se no conto de fadas surreal e experimental do ´lbum seguinte “Phantasmagoria”, uma das chaves-mestras de todo o progressivo. (Warner Bros. import. Loja Virgin, 8)
Para ler e consultar, encontra-se disponível na discoteca Planeta Rock a versão inglesa da enciclopédia de grupos progressivos italianos editada pela Vinyl Magic. Reúne farta informação, com discografias completas, entrevistas, reprodução de capas e, como bónus, um CD. Com ela chegaram também os álbuns de algumas dessas bandas: Stormy Six, Quella Vecchia Locanda, Corte dei Miracoli, The Trip, Delirium…

Maddy Prior – Flesh and Blood (conj.)

25.07.1997
Três Inglesas Românticas
A folk britânica está nas mãos de três mulheres. São inglesas e têm uma visão romântica da música tradicional, enquanto projecção de estados de alma subjectivos ou lugar onde as forças cósmicas confluem no indíviduo. A alegria, em eliza Carthy. A sensualidade, em Kathryn Tickell. A magia em Maddy Prior. Entre cada uma delas existe uma diferença de idades de mais ou menos dez anos, começando em eliza e acabando em Maddy. Aproxima-as a entrega à música que amam. E uma visão: de que a Tradição é algo sempre vivo e inacabado.

Eliza Carthy é a mais nova das três. Filha de pai e mãe ilustres, Martin Carthy e Norma Waterson, gravou com eles um par de álbuns de luxo que vieram reorientar a “folk” inglesa no sentido de ajustamento ao veio mais sólido da tradição, “Waterson: Carthy” e “Common Tongue”.
Só que no seu novo álbum, “Eliza Carthy & The Kings of Calicutt”, a jovem Carthy decidiu romper com os progenitores, pondo os seus talentos de violinista e vocalista ao serviço de uma música com outro tipo de energia que deve tanto às danças “morris” como ao rock. A sua ligação aos Kings of Calicutt – quarteto de bateria, baixo, acordeão-vox e saltério-voz – corresponde, no fundo, a um fenómeno de retorno periódico dos “folkers” ingleses ao “folk rock”, dando razão aos que não encontram nas bases tradicionais material suficiente para uma progressão e manutenção, a longo prazo, no sentido da sua modernização. Exemplos não faltam: dos Fairport Convention aos Steeleye Span, dos Fotheringay aos Woods Band, dos Home Service aos Albion Band, dos New Celeste aos Pyewackett, dos Whippersnapper aos Blowzabella.
Com o quarteto, uma secção de sopros (na velha tradição dos Brass Monkey, Albion Band e Home Service, mas também da música do princípio do século, como foi recriada pelos New Victory Band) e o violinista convidado, John McCusker, dos Battlefield Band, o grupo recria de forma eficaz os “jigs” e demais danças da praxe, por vezes num registo próximo do “bluegrass”, resguardando-se os instrumentos solistas numa linguagem mais tradicional, enquanto a secção rítmica se socorre dos compassos rock. Como vocalista, Eliza continua a evoluir a passos largos. Ouçam, para comprovar, a profundidade a que já consegue chegar, em “Mother, go make my bed”. Imagine-se a música dos pais, sem o tom épico do pai e da tragédia da mãe, aumentada pela alegria juvenil de quem já reservou o seu lugar na História. (Topic, distri. Megamúsica, 8)

LINK

Maddy Prior, essa já ocupa o seu há muito tempo. Para esta cantora carismática, o tempo tem sido repartido, nos últimos tempos, pelo seu grupo de sempre, os Steeleye Span, as aventuras pela Música Antiga, com os Carnival Band, e álbuns a solo, com ou sem a participação do seu marido, Rick Kemp, também elemento dos Steeleye Span. Depois do fabuloso “Year”, a voz que compartilha com June Tabor os louros de melhor cantora folk inglesa actual regressa com “Flesh And Blood”, que inclui, uma vez mais, um longo tema conceptual, neste caso a suite “Dramatis Personae”, composta de parceria com o marido.
É menor a tensão criativa que pulsava em “Year”. A voz opera prodígios, como sempre, mas sente-se que a altura é de descompressão, de pausa num período de intensa actividade na carreira da cantora. Entram no reportório uma composição de Todd Rundgren e outra do clássico Sibelius, entre três tradicionais e um tema do grupo (Nick Holland, teclados, Troy Donockley, “uillean pipes”, guitarras, “whistles” e cistre, Terl Briant, bateria e percussão, e Andy Crowdy, baixo). Sem sobressaltos, mas também sem grandes rasgos. Um prazer, a abertura de “uillean pipes” na “Finlandia” de Sibelius. Certas facilidades rítmicas, nos restantes temas (aos quais falta, desta vez, a força dos Steeleye Span, que também usaram e abusaram do rock…) eram dispensáveis.
“Dramatis Personae”, com os seus sete segmentos unificados pelo conceito da personalidade e o recurso ao esoterismo e à topografia mágico-biológico dos “chakras” (centros nervosos etéreos), constrói-se em torno de um piano clássico, com assento na “new age”, numa peça que só por simpatia podemos associar à “folk”. Para abreviar, estamos em presença da melhor “folk progressiva”, com mudanças constantes, predominância dos teclados e alternância entre momentos épicos e contemplativos, um pouco à maneira dos Renaissance. Bom álbum, embora inferior ao anterior, “Year”. (Park, distri. Megamúsica, 7)

Quem não se debate com problemas de qualquer espécie é Kathryn Tickell. É bonita, toca “Northumbrian pipes” como se fosse o instrumento mais sensual do planeta e “The Gathering” é daqueles álbuns que faz correr água na boca de princípio ao fim.
As “pipes” provocam arrepios logo a abrir, com “Raincheck”. Não poderiam soar desta forma nas mãos e no coração de um homem. Apetece apertar, beijar quem assim faz da música algo tão próximo do Paraíso sobre a Terra, perdoe-se-me o tom, talvez demasiado literal, da linguagem. É que “The Gathering” pertence àquela categoria de discos onde a análise sucumbe e os sentidos se deleitam. Quanto a técnica, ouçam o tema seguinte, “Lads of Alnwick”, e estamos conversados. O mesmo se podendo dizer, no difícil registo dos compassos lentos e interiorizados, de “Redesdale”.
Na segunda parte do disco, o violino de Kathryn adquire maior predominância, num álbum que ainda por cima é abençoado pelo ecletismo, seja na valsa “cajun”, “La betaille dans la pétit arbre”, seja em dois duetos alucinantes com a harmónica de Brendan Power. Quem ainda chora a saída do grupo da acordeonista Karen Tweed pode ir secando as lágrimas – “The Gathering” é um dos grandes discos deste ano. (Park, distri. Megamúsica, 9)