Arquivo mensal: Março 2010

Füxa – Accretion

18.12.1998
Füxa
Accretion (8)
Mind Expansion, import. FNAC

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Indiferentes ao esvaziamento progressivo do termo pós-rock os ingleses Füxa não esmorecem no seu empreendimento de redescoberta e utilização das sonoridades do sintetizador Moog que os Progressivos dos anos 70 usaram e abusaram há quase 30 anos atrás. Depois da violência escamosa e de uma certa faceta ritualística do seu disco de estreia, “3 Field Rotation” e da estranha obsessão com o órgão electrónico presente no posterior “Very Well Organized”, os Füxa parecem agora, mais do que nunca, extasiados, com a manipulação dos famosos filtros de frequência do Moog. “Accretion” é um manancial de sonoridades analógicas imediatamente reconhecíveis, de blips, e oims (peças como “City”, “Metro”, “Some soviet station” e “Karmaloop” são, neste particular, verdadeiros rebuçados para o ouvido) às quais, contudo, os Fuxa conferem uma aura de excitação e de novidade, como se este som só agora fizesse sentido, num trabalho de higiene contra o terrível branco asséptico de projectos de escritório como Oval e Microstoria. Com os Füxa os sintetizadores tornam-se de novo máquinas ao serviço dos humanos, com as imperfeições próprias de quem as manuseia mas também com a frescura e o deslumbramento de crianças a desmontarem os seus brinquedos. O “hip hop” é atirado para o caixote de lixo dos detritos sonoros (o mesmo caixote de lixo amachucado que os Jessamine poliram e deixaram estragar no seu novo álbum…) em “Convective envelope”, enquanto “Landings” relembra as velhas cerimónias rítmicas de “3 Field Rotation” e “Tonality” presta uma engraçada vassalagem aos OMD. Não podia ser mais pós-rock esta massagem sónica que os Füxa nos oferecem com a candura de quem sabe retirar o máximo prazer do som.

Festival Bluespot 2001

23.11.2001
Bluespot

Khan

Também proveniente de Colónia, mas turco de nascimento, chega Khan, aliás, Can Oral, também conhecido como El Turco Loco, o mesmo nome que atribuiu à sua companhia discográfica. Can Oral (o nome soa a pornográfico) foi companheiro de apartamento de Jimi Tenor, fez tecno e cultivou os germes da cena illbient, exercendo um indiscutível fascínio no pessoal, já de si pouco “normal”, das editoras Fat Cat e Ninja Tune. Aprendeu com os anos 80, identificando-se com as suas margens mais daninhas, dos Contortions a Lydia Lunch, dos Einstuerzende Neubauten aos Pere Ubu, dos The Gun Club aos Public Enemey. E com Diamanda Galás, “Miss Peste”, que, apesar do seu ódio visceral aos turcos, não se escusou a participar como convidada no mais recente álbum de El Turco Loco, “No Comprendo”. Da mesma forma que não é fácil compreender a mistura musical deste idiossincrata que tanto amolga o lounge, a new wave e a música industrial como passeia de mãos dadas nos jardins edénicos de Julee Cruise.

Kid606

Génio ou “hype”? Depende do ponto de vista pelo qual se analise a ascensão deste quase adolescente de origem venezuelana que nasceu para dialogar com os computadores e com eles fazer uma música com tanto de dilaceração como de humor. O pito 606 já se apresentou no Número Festival do ano passado, assinando uma perfomance onde a matemática andou de mãos dadas com o caos. É um mestre do ruído mas também da articulação surrealista de fontes sonoras que combinam numa simbiose bizarra os “found sounds”, a samplagem em registo de esquizofrenia e as linguagens programáticas do computador, organizados em forma de assalto aos sentidos em álbuns como “Down with the Scene” ou “PS I Love You”. Kid606 é um tecnicista dos chips, um iconoclasta das civilizações em colapso, profeta do sado-masoquismo monitorizado. Mas talvez não passe de um puto reguila em quem o espírito punk continua vivo e cujo principal fito é desancar as convenções. Consta que em alguns dos seus espectáculos lança objectos para o público.

Mouse on Mars

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Provavelmente nenhum outro grupo da nova cena electrónica alemã conciliará com tanta eficácia e criatividade o experimentalismo e uma faceta lúdica como os Mouse on Mars MOM, dupla de Colónia (berço de krautrockers pioneiros como os Can) constituída por Andi Toma e Jan St. Werner. Na sua anterior visita a Portugal, decerto entusiasmados com a onda de entusiasmo que então se gerou à sua volta, desbundaram na maquinaria, produzindo uma sucessão infatigável de grooves e breakbeats que terá pecado por demasiada vassalagem às dance floors e menor cuidado na exploração da vertente mais abstracta do grupo, presente em álbuns essenciais, clássicos da electrónica contemporânea, como “Ihaora Tahiti”, “Niun Niggung” ou o novo e orgulhosamente autista “Idiology”. Alemanha, séc. XXI, com os Mouse on Mars, as máquinas reaprenderam a sorrir.

Saturnia – The Glitter Odd

09.11.2001
Saturnia
The Glitter Odd
Cranium
7/10

Revisionista ou não, a música dos Saturnia tem como efeito impregnar os sentidos das vibrações de uma “rave” intemporal, em que o Psicadelismo, o chill out cósmico, o transe e a dança convergem em espirais onde o passado e o futuro se cruzam. Se no álbum anterior deste grupo composto por Luís Simões e Francisco Rebelo eram óbvias as referências à “space music” dos anos 70, personificada pelos Gong, Ashra ou pelos Ozric Tentacles, em “The Glitter Odd” ressalta uma vertente mais etérea apadrinhada pelos Pink Floyd (os Air são outros dos seus afilhados, sem que alguém se sinta chocado com isso), em temas como “Still Life” ou na sequência “A Trick of the Light”/”Azimuth/Menodel” onde assoma o mesmo tipo de experimentalismos de “Ummagumma”. O resto são sintetizadores ondulatórios, trip-hop espacial e, no título-tema que fecha “The Glitter Odd”, finalmente o toque mágico no gongo capaz de atirar os Saturnia para os confins da galáxia dos “pot head pixies”. O Saturno dos Saturnia não será o mesmo planeta, do caos primordial, que Sun Ra habitava, mas esta viagem para lá da órbita da Terra vale bem mais que qualquer sessão sem amanhã nas “dance floors”.