Arquivo mensal: Janeiro 2010

Xutos & Pontapés – Tentação

13.02.1998
Xutos & Pontapés
Tentação (7)
EMI, distri. EMI-VC

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“Tentação”, banda sonora composta pelos Xutos para o filme de sexo, religião e drogas com o mesmo nome realizado por Joaquim Leitão, mostra que ninguém está livre do pecado. Os Xutos e Pontapés encontraram a sofisticação, as programações electrónicas (da responsabilidade de Kalú) e o espaço, numa colecção de oito faixas originais das quais apenas metade são canções. De passagem, encontraram os Pink Floyd. Os efeitos de estúdio na introdução do título-tema são quase decalcados de “Echoes”, os sequenciadores iniciais de “A voz do mal” vêm de “Dark Side of the Moon”. Por outro lado, a amplitude das guitarras de Zé Pedro e João Cabeleiro bebe da cartilha de David Gilmour. Os velhos Xutos emergem em “Para sempre”, a canção de amor de letra simplista que servirá para “single”, e “Tão longe de ti”, muito boa, das que soam como hinos, submentendo o ouvido por arrastamento. Há ainda “Enquanto a noite cai (remix)”, um exercício de tecno, outra vertente nunca antes explorada na discografia prévia dos Xutos. Foram várias as tentações e os “pecados”, como se vê, de que estes genuínos “rockers” se redimiram com agilidade e o entusiasmo de quem recebeu de presente um novo brinquedo. Se os Xutos construíram até aqui a sua reputação com base numa credibilidade de grupo de estrada, com este novo e curioso registo mostram agora que o estúdio pode ser muito mais do que um campo de batalha. A partir de “Tentação” torna-se mais arriscado apostar no próximo lançamento dos dados.

Rão Kyao – Navegantes

13.02.1998
Rão Kyao
Navegantes (7)
Ed. e distri. Polygram

LINK (“Em’Cantado” – 2009 – Parte 1)
LINK (“Em’Cantado” – 2009 – Parte 2)

Menos só do que é costume, universalista como sempre e agora mais do que nunca abrindo um enorme sorriso para a música do mundo, a flauta de bambu de Rão Kyao prossegue a sua viagem. “Navegantes” é um a´lbum de passagem pelo mar. Levanta a âncora com o espírito na Índia, passa pelo reggae, em “No balanço”, e aporta em meditações solitárias no aconchego do estúdio, em “multitrackings” interiorizados da flauta, em “Ecos Tribais”, e da ocarina, em “Oca”. A Índia, com toda a sua carga religiosa ligada à prática musical, bem como a influência do mestre indiano da flauta, Hariprasad Chaurasia, fazem sentir a sua mensagem telepática, infiltrando mesmo os temas que se diriam mais fortemente enraizados na tradição rural portuguesa, como é o caso de “Na vindima”, onde a própria voz da convidada Filipa Pais se aproxima de algumas das típicas inflexões indianas, e de “Festa do vinho”. “Arab” é, como o título diz, dança do vento e da argila do Sul ao ritmo de uma “darbouka” árabe. A “new age”, com as suas consonâncias oníricas mas também sem a profundidade de um registo verdadeiramente dramático, povoa as margens de “Nas asas do sonho” e “Jhinjhoti”, ganhando reflexão em “Moda lusa”, diálogo sereno da flauta de bambu com o piano de Renato Júnior. Rão Kyao também canta, ou faz a voz dançar, como em “Sa-ni-sa”, ainda aqui com o coração na Índia, que é a sua segunda pátria, varrendo como uma onda as cordas de um saltério, em “Lençóis de trigo”, numa aproximação ao universo multifacetado de Stephan Micus.

Steve Shehan – Safar

13.02.1998
Steve Shehan
Safar (9)
Al Sur, distri. Megamúsica

LINK (Parte 1)
LINK (Parte 2)

Todo o percurso musical de Steve Shehan, desde o já longínquo “Arrows”, com o selo Made To Measure, a “Indigo Dreams”, passando pela colaboração com o músico árabe Baly Othmani, em “Assouf”, se tem caracterizado pela busca de um Sul imaginário, onde convergem as moléculas cósmicas da “new age” e o escaldão das areias do deserto. “Safar” é o mais recente capítulo desta viagem que propõe a instauração de uma miragem permanente, no território pouco firme, mas prenhe de possibilidades, das músicas de fusão.
Com recurso a uma panóplia imensa de instrumentos, das percussões étnicas aos samplers, e a um não menos extenso grupo de músicos convidados, quase todos eles de origem árabe, Shehan percorre o seu mundo preferido, em busca de aventuras, vestindo as roupas e a mente impoluta de um Indiana Jones, na sua demanda da última fusão. Umas vezes roçando o quarto mundo de Jon Hassell, outras respirando as atmosferas amplas de Steve Roach, outras ainda equacionando o mesmo tipo de convergências e complexidades panculturais cultivadas pelos italianos Roberto Musci e Giovanni Venosta, Steve Shehan alcançou um posto de observação único, a partir do qual tem sabido ligar, de maneira não menos original, alguns dos …dões perdidos da música deste século. “Safar” é como um sonho de ópio para os viajantes do além.