Arquivo mensal: Outubro 2009

Vladislav Delay – Anima

09.03.2001
Vladislav Delay
Anima
Mille Plateaux, distri. Ananana
6/10

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Depois do exercício de « deep house » de « Vocalcity », em nome de Luomo, e de duas interessantíssimas incursões no minimalismo electrónico, “Mutila” e Vapaa Muurari Live”, Vladislav Delay/Uusitalo decidiu experimentar a capacidade de encaixe dos ouvintes, submetendo-os a 62 minutos “non stop” de “chill out” que intitulou de “alma” (“Anima”, em latim). Sabendo-se que o “chill out” surgiu como resposta à necessidade de descanso do corpo e da mente na ressaca de longas sessões de dança, “Anima” não será, porventura, o tónico ideal para o cumprimento deste desígnio. Como músico “experimental” que é, o finlandês polvilhou a sua hora de ambientalismo com pequenos cortes e deslocações clínicas, de manufactura Oval/Microstoria, procurando desencadear correspondências nos neurónios no ouvinte. Agitações que cedo se tornam redundantes, hesitando entre fazer tocar o despertador ou abandonar-se ao cansaço.

Tindersticks – Curtains

20.06.1997
Paixões de Chita
Tindersticks
Curtains (6)
This Way Up, distri. Polygram

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“Oh, for the glamorous life!”, derrete-se o crítico do NME. O do Melody Maker desfaz-se igualmente em maneirismos, consedendo-se o luxo das lágrimas. Mariconsos! Eles, os Tindersticks, motivo de tantos soluços e deslumbramentos, são a noite, “onde nada acontece, mas de uma forma maravilhosa”, a solidão do celulóide, Hollywood e Londres abraçadas num ampexo de dona de casa arranjada para sair, as cordas encharcadas em grandiosa futilidade, o easy listening” disfarçado de dor e, acima de tudo, chafurdando numa imensidão de superior autocomplacência, o “crooning” que faz desfalecer os corações, de Stuart staples.
Já tínhamos ouvido esta conversa mole, antes. Periodicamente, há quem não resista, nem queira, à tentação de mergulhar nestes universos artificiais mais brilhantes, embora tantas vezes mais monótonos, do que a realidade. Bateram-se palmas aos Roxy Music (mas não confundamos, estes senhores arriscavam), como se bateram a Marc Almond, e se continuam a bater aos Divene Comedy. Enfim, a tendência é para se ficar embasbacado com a pose, na música como no resto.
A música dos Tindersticks, se lhe subtrairmos – é preciso reconhecê-lo – a sua indubitável capacidade de sugestão e arrancarmos o seu brilho nocturno de lantejoulas, é um amontoado do clichés. A sua falsa escuridão interior e os eu “pathos” são cuidadosamente encenados e embalados num invólucro de seda. Mas a alma dos Tindersticks é feita da chita da capa, ondes as flores ostentam cores foleiras e as emoções saem amarrotadas. São fox trots e rumbas cheias de estilo, baladas acetinadas como as do Nick Cave recente e convertido, iluminações aprendidas dos infernos obscuros de Scott Walker e Leonard Cohen.
Nesta cadência morna, os Tindersticks vão levando a água ao seu moinho. a todo o momento nos confessam que nada do que dizem e mostram é verdadeiro. “Quando é que seperde a habilidade de parar para ter a noção do nosso próprio ridículo? Afinal de contas, não passam de canções…”, canta Staples em “Ballad of the Tindersticks”, fazendo uma síntese lúcida da estética do grupo. É uma música confortável, toda ela a piscar estilo e classe, uma música que tanto serve para vestir para uma sortida nocturna, como para nos embrulharmos com ela, como um cobertor, antes de irmos para a cama sonhar.
O despertador toca em dois momentos. A cortina afasta-se para revelar sinais de vida. Ainda há sobressaltos no manto de estrelas de ‘polyester’ dos Tindersticks. Em dosi temas que redimem “Curtains” da sensaboria solene com que finge ser clássico: “Fast One”, em que as notas subitamente entram numa convulsão de dissonância apaixonada, e “bearsuit”, um delicioso passo de equilibrismo vocal sobre um órgão de realejo. Mas são duas ilhas, num mar morto onde os espectros se deixam ficar eternamente a dançar.

Sten Sandell – Bio Elektrika

09.03.2001
Sten Sandell
Bio Elektrika
LJ, distri. A Orelha DE Van Gogh
7/10

LINK (“Trio Braam Dejode Wachter And Sten Sandell Trio” Parte 1)
LINK (“Trio Braam Dejode Wachter And Sten Sandell Trio” Parte 2)
LINK (“Trio Braam Dejode Wachter And Sten Sandell Trio” Parte 3)

Biologia e electricidade. Vida e energia. Stan Sandell, compositor sueco algo deslocado no seio da falange jazz que domina o catálogo da LJ, construiu com ambas um bloco de electrónica densa com base em samples e efeitos vocais do próprio inseridas nas drones e pulsações criados nos sintetizadores. “Röstrytmer” abre com uma obscura cerimónia tribal onde a voz é emitida por um híbrido entre o animal e o humano, no meio de descargas de estática. Em “Re-tala-tala” a voz é massacrada por ruído aleatório, e “Re-damp” e “Under the loop” recuperam o registo industrial de um Asmus Tietchens, criando atmosferas em que a própria electricidade assume a forma de entidade ameaçadora. “Lungs”, por seu lado, poderia passar pelo equivalente masculino de um mantra desenhado por Fátima Miranda, pulverizado por explosões de napalm e mastigado por mandíbulas de metal. Um álbum difícil e escuro, indicado para rituais secretos.