Arquivo mensal: Junho 2009

Negativland – Escape From Noise (conj.)

22.09.2000
Reedições
E agora, algo completamente igual…

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Chegou finalmente a reedição por que todos ansiavam, a começar pelas donas de casa. Sim! O álbum de 1987 dos Negativland, “Escape from noise”, é uma peça fundamental do lar. Mas agora há motivos de sobra para nos regozijarmos com esta nova reedição, já que se trata, nem mais nem menos do que uma “exactomasterização”, como vem anunciado na embalagem de forma exuberante. A única e inconfundível masterização que deixa tudo exactamente como estava. Ou seja, não há temas extra, o som não sofreu qualquer melhoramento ou modificação e apenas a gravura da capa é agora uma ampliação da que vinha na anterior reedição pela Cuneiform. A outra mudança, como o grupo faz questão de notar, é o desaparecimento, entretanto, da União Soviética, que servia de mote ao tema “Time Zones”.
É mais um dos múltiplos truques que os Negativland costumam usar para fintar a indústria, mas não é por isso que “Escape from Noise” vê diminuída a sua condição de obra fundamental dos anos 80, com continuação à altura nos anos seguintes em trabalhos como “Free” ou “Disepsip”.
Álbum de colagens, de sons caídos em desgraça e melodias em estado de graça, “Escape From Noise” é um manifesto contra a paranóia americana, contra a paranóia internacional, contra a paranóia individual. O álbum é todo ele, de resto, uma paranóia. A crítica é feroz, o ataque ao “mainstream” – no tema “Michael Jackson”, simples enunciação de nomes presentes regularmente nas “charts” norte-americanas completada com a frase que dá tótilo ao álbum, “Há alguma forma de escapar ao ruído?” – mortífero. “The Playboy Channel”, “Stress in marriage”, “Methods of torture”, “Car Bomb”, dissecam a loucura, cospem na sopa e fazem literalmente explodir bombas na sala de estar do conformismo. E “Christianity is Stupid”, claro, que serviu de base a um dos mais geniais embustes da história da pop através do qual os Negativland cobriram de ridículo toda a rede dos “media” dos Estados Unidos, história que o grupo daria a conhecer em pormenor no álbum seguinte, “Helter Stupid”. Experimentalismo e humor unem-se a uma excentricidade iluminada neste álbum quenos anos 80 deu um novo sentido à palavra síntese, servindo de manual de guerrilha a toda uma geração de músicos mais novos para os quais a música pop é um fato demasiado apertado. Colaboram em “Escape from Noise”, outros mutantes como os Residents, Jello Biafra (dos Dead Kennedys), Steve Fisk, Fred Frith, Jerry Garcia (o guru, já falecido, dos Grateful Dead), Henry Kaiser, Mark Mothersborough (dos Devo), Tom Herman (dos Pere Ubu) e Alexander Hacke (dos Einsturzende Neubauten). Hoje, como ontem, é difícil escapar ao ruído. Mas enquanto não é descoberta a fórmula definitiva para eliminar a poluição, auscultadores nos ouvidos e volume no máximo, até rebentarem os tímpanos com “Escape from Noise”! A surdez é a solução final. Se ainda não tem, compre já! (Seeland, distri. Ananana, 10/10).

“Pioneers who got Scalped” é uma antologia bastante completa dos Devo, os andróides de Akron que se metamorfosearam em batatas, usavam abat-jours na cabeça, defendiam a teoria de de-evolução e, a brincar, iravolta na pop electrónica. Dos 50 temas retirados de toda a sua discografia fazem ainda parte, além de remisturas, ver~soes alternativas, incluindo as gravadas pelo projecto Booji Boy, que viria a dar origem aos Devo, como “Jocko Homo” e “mongoloid”. Excelente, divertido e uma boa aposta para surpreender nas festas mutantes deste Outouno. (ed. e distri. Warner Music, 8/10).

Haverá quem ainda se lembra de “Déjà Vu”, o álbum resultante da junção do trio David Crosby, Stephen Stills e Graham Nash – que já gravara antes “Crosby, Stills & Nash” – com Neil Young, vindo dos Buffalo Springfield. As harmonias vocais que ficaram como imagem de marca tornaram-se mais ricas mas a excessiva preocupação em dividir a composição em partes iguais pelos quatro não resultou numa melhoria sensível em relação ao álbum anterior, apesar da crítica o considerar um dos clássicos da “country pop” dos anos 70. Mas canções como “Helpless”, “Déjá Vu” e “Our House” ilustram de forma mágica a época dourada do pós-psicadelismo americano: “cool”, melódica e mais interessada nas emoções veiculadas numa canção do que nos golpes de experimentalismo ácida dos sons e da mente… (Atlantic, import. Lojas Valentim de Carvalho, 7/10).

Que foi que fez, e de que maneira, Eric Burdon, um dos profetas do psicadelismo na sua versão “bad trip”, que explorou de forma quase demencial, antes de se lançar nos barcos do “funk” com o grupo “War”. Mas os The Animals eram, nos anos 60, animais selvagens e o ácido corria-lhes nas veias. “Winds of Change”, do ano de graça de 1967, é um clássico do psicadelismo de tonalidades carregadas. Burdon pulverizava-se em máscaras vocais. “Sitars”, vibrafones, guitarras tripantes e toda a espécie de distorsões de estúdio criam um mundo de sombras onde até as letras são “viagens” com as quais é preciso saber lidar. A versão de “Paint it black”, dos Stones, faz assim sentido num ábum que em pleno “Verão do Amor” atirava à cara dos “hippies” temas como “The black plague”, “Hotel hell” e “It´s all meat”, este último uma apologia do sexo enquanto tráfico de carne capaz de fazer estremecer as doutrinas do “flower power”. E “San Francisco nights” é um voo planante e uma extraordinária canção pop que voa tão alto como “8 miles high” dos Byrds… (Polydor, import. Lojas Valentim de Carvalho, 8/10).

Entre as bandas do progressivo que se gabavan de lidar com o diabo, os Black Widow rivalizavam com os Black Sabbath, tendo em Jim Gannon o seu antipapa do oculto. “Come to the sabbat”, incluído no primeiro e melhor álbum da banda, chegou a ser um hit mas ao terceiro álbum, “Black Widow III” (1971), já sem Gannon e com uma formação descaracterizada, o grupo afadigava-se em alinhar riffs onde o saxofone, a flaita e os teclados não necessitavam já de qualquer exorcismo para poderem ser ouvidos por qualquer bom cristão (Repertoire, import. Fnac, 6/10).

Negativland – Desipsip

07.11.1997
Pipse-Cola
A Escolha De Uma Geração Negativa
Negativland
Desipsip (9)
Seeland, import. Ananana

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LINK (Over The Edge Vol. 7: Times Zones Exchange Project (1994) – parte 1)
LINK (Over The Edge Vol. 7: Times Zones Exchange Project (1994) – parte 2)

“Desipsip”, “Ideppiss”, “diseipso”. O título, construído a partir de um anagrama com a palavra formada pelas letras “P”, “E”, “P”, “S” e “I”, do novo álbum dos Negativland, “o pesadelo das marcas registadas”, como já são conhecidos, é facultaivo. Quem estiver interessado em saber o nome verdadeiro e a sua pronúncia correcta, poderá fazê-lo através do telefone 510-466-5253, durante este ano e o próximo. Desta feita, o massacre tem como alvo a Pipse-Cola, como antes já tivera os U2 (“a pior banda do universo”, na óptica dos Negativland).
A este propósito, recorde-se que esta banda norte-americana editou também, por escrito, “The Story of the Letter ‘U’ and the Numeral ‘2’, na continuação do seu jogo do rato e do gato contra o sistema em geral e contra quela banda irlandesa em particular. Lembremos ainda o xeque-mate aos “media” levado a cabo no álbum “Helter Stupid”, onde conseguiram cobrir de ridículo os jornais e a televisão norte-americanos, pondo a nu as disfunções do processo de difusão de informação pela comunicação social.
“Psisiped” começa por ser um achado, logo pela capa, o síbolo tauista da totalidade, expressa na dualidade Yang/Yin, que os Negativland imprimiram com o vermelho e o azul da Pipse. Bingo! O jogo passou a ser jogado a uma escala planetária. Todas as faixas aludem a esta marca de refrigerantes, mas o discurso opta, de forma inteligente e cem por cento eficaz, pela ironia, na dissecação da sociedade de consumo nos seus vários aspectos – das técnicas de controlo à subjugação e alienação das massas. Em termos gráficos, outro triunfo. Quem abrir a caixa do CD terá ao seu dispor uma enorme garagalhada. Há ainda um livrete de conselhos à Pipse e à Caco-Cola, “A Proposal to Coke and Pepsi” (com os respectivos sinais de marca registada), para obtenção dos melhores resultados nas suas respectivas estratégias de dominação planetária, da autoria da “One World Advertising”, contendo informações confidenciais (!) relativas às “conclusions of the Corporate Cola Strategy Analysis Project, with non-problematic solution recommendations”.
Verifica-se assim que, em definitivo, a obra dos Negativland passou a ser indissociável de um conceito termático central, determinante de toda a componente musical, algo que já se pressentia, embora ainda numa perspectiva gçlobalizante, no genial “Escape From Noise”. Tal estratégia tem como risco principal tornar irrelevante a música propriamente dita e foi isso que, de facto, aconteceu, em álbuns como “U22, “Guns” e em partes de “Helter Stupid”, onde as palavras, e a sua manipulação, passavam o discurso musical para um plano secundário.
Posteriormente, porém, os Negativland emendaram a mão e, depois do magnífico “Free”, “Pedispis” volta a colocar o grupo na vanguarda dos grandes corruptores da pop. Não desapareceram, como seria de esperar, essas apropriações de discursos fragmentários arrancados, neste caso, de programas de rádio, anúncios da Pipse, cassetes privadas de empresas ou excertos do julgamento de O. J. Simpson, entre outras fontes, mas funcionando como separadores de canções que são já pura subversão, na medida em que esfrangalham o contexto original da “genuína” música norte-americana, atirando a “country music” e a “surf music” dos Beach Boys para o esgoto do risível. Neste sentido, os Negativland estão bastante próximos de um grupo como os Residents, com a diferença de que a sua estratégia e métodos de trabalho são mais claros e directos que os dos “eyeballs” de São Francisco.
As habituais elaborações electrónicas, de uma falsa pop electrónica, fazendo lembrar, por vezes, Steve Fisk (que participa no ´lbum) e Chris Burke (de “Idioglossia”), disfraçma-se numa ingenuidade “naif” que trai os seus “tenebrosos” (para a indústria…) propósitos. Temas como “Drink it up” (sobre a viciação), “Why is this commercial?”, “A Most Successful Formula”, “The Greatest Taste Around” ou “Voice Inside My Head” são alguns dos hinos e manifestos de uma lucidez quase cruel, ou anedotas assassinas, de “Siedpsip”, o álbum mais acessível e imediatista de toda a discografia dos Negativland mas, por este motivo, aquele onde a mensagem passa com maior intensidade. Os Negativland transforma em música a farsa consumista do final do século, arrastando consigo a devoção de muitos e a maldição de uns quantos. “This is the choice of a negative generation”, proclamam, numa oração invertida em honra da Pipse. Têm razão. Pertence-lhes a tarefa, escatológica, de fazer chafurdar o cidadão respeitável no líquido das suas iniquidades. Quer ele tenha o rótulo de “Caco-Cola” ou “Pipse-Cola”.

Steve Roach – On This Planet (conj.)

07.11.1997
Electrónica
Enfermagem Planetária
Ligar “on”. “Turn on”. Todos os circuitos “ok”. Sequenciadores, monitores, sintetizadores – máquinas em movimento. Esta semana o “laser” varre uma série de discos de música electrónica de vários estilos e quadrantes. Do “easy listening” cerebral à respiração da Terra. O Planeta em busca de uma cura.

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LINK (Mystic Chords & Sacred Spaces (4 CD Collection) – parte 1))
LINK (Mystic Chords & Sacred Spaces (4 CD Collection) – parte 2))
LINK (Mystic Chords & Sacred Spaces (4 CD Collection) – parte 3))
LINK (Mystic Chords & Sacred Spaces (4 CD Collection) – parte 4))
pwd: newage

Além da Califórnia, o infinito. O radiotelescópio de Steve Roach continua assestado aos consfins da galáxia, lá onde o silêncio reina, emitindo para a Terra os seus sinais anteriores à própria Criação. “On This Planet” é o mais recente trabalho deste prolífico compositor californiano erradamente conotado, em alguns sectores, com a “new age”. Autor de obras importantes como “western Spaces” e “desert Solitaire”, ambas com a colaboração de Kevin Braheny, “Dreamtime Return”, “World’s Edge”, “Kiva” (com Michael Stearns e Ron Sunsinger), “Well of Souls” (com Vidna Obmana), “Halcyon Days” (com Stephen Kent e Kenneth Newby) e as duas colaborações com Robert Rich, “Soma” e “Strata”, Steve Roach deu origem, mais recentemente, a uma derivação da “ambient music” a qual recebeu a designação de “sombient”, ou “Ambient noire”, através de um álbum seminal, “The magnificent Void”. A “sombient”, enquanto protótipo de uma nova categoria musical, tem paralelo com a “discreet music”, de Brian Eno, na mesma medida em que estabeleceu novas regras e paradigmas estilísticos.
“On This Planet” aterra outra vez no plantea, tomando como ponto de partida uma abordagem “ao vivo” do som, com posterior recriação em estúdio. Em termos estéticos e de uma filosofia que, sem preconceitos, poderemos designar de ecologista, está mais próximo de “World’s Edge” e dos dois álbuns gravados pelos Suspended Memories (Roach com o mexicano Jorge Reyes e o espanhol Suso Saiz) do que das mais recentes incursões na “sombient”. Predominam os sons cardíacos da Terra: didgeridoos, pedras, potes de água percutidos, flautas pré-hispânicas, em relação harmoniosa com os samplers, os sintetizadores analógicos e digitais e os sequenciadores. Ouvem-se trovoadas, rios de lava, vento e chuva, a ondulação dos vastos oceanos, reflexos de estrelas na superfície calma de um lago. Fogo e pedra, pulsações surdas de um planeta que ora repousa na frágil ondulação de uma flor, ora se agita em violentas convulsões. Temas como “Heart of the tempest”, “Trilobite”, “Cloud watching with the toolmaker” e “A darker star” funcionam como símbolos da interactividade do Espírito humano com a Natureza, dando a escutar os ritmos primevos da vida, em ligação estreita com o Cosmos. Que esta ligação se faça também através da tecnologia electrónica mais sofisticada, eis uma das maravilhas de uma música que verdadeiramente nos religa à Totalidade (Fathom, distri. Strauss, 8).

Do fundo dos oceanos, subamos à superfície para um banho de espuma. Para tal, nada elhor que o “jacuzzi” musical dos Turn On, projecto de Tim Gane e Andy Ramsay, dos Stereolab, com Sean O’Hagan, dos High Llamas, onde a vertente “easy listening” dos autores do recente “Dots and Loops” se sobrepõe a quaisquer intenções metodológicas de maior fôlego. “Turn On” são 29 curtos mas limpos minutos de borbulhar e “glissandos” analógicos (com uma única intervenção vocal de Laetitia Sadier, em “Ru Tenone”) em que os Turn On propõem a sua própria música de fundo para ouvir na Estação MIR, transformando a “space age batchelor pad music” de Esquível num bailado espacial festivo. É como se os Can se tivessem metamorfoseado numa borboleta e voado dentro de uma bolha de champanhe. Ouçam um tema como “Glangorous” e flutuem nos sonhos da vossa cápsula pessoal. (DuophonicSuper’45, import. Symbiose, 7)

A leveza do mais recente trabalho de Pete Namlook (correspondente ao 758º álbum editado na Fax, no mês de Setembro de 1996), desta feita em colaboração com Move D, vulgo David Moufang, é de tipo diferente da dos Turn On, uma leve fogagem na epiderme servida com o pomposo título de “Exploring The Psychedelic Landscape”. Como acontece com a generalidade dos álbuns da Fax, a música parece ter sido gerada a partir de um único “take” e durante uma única sessão de gravação, dando ideia de que os músicos nem sequer se terão dado ao trabalho de mudar mais do que uma ou duas vezes os registos dos sintetizadores. Psicadélica não é de certeza, e de exploratória tem muito pouco, esta “lanscape” que não é tecno, nem “trance”, nem ambiental, onde os sons, embora agradáveis, desde muito cedo esbarram na monotonia de programações preguiçosas e em timbres electrónicos já mil e uma vezes ouvidos em anteriores e bem melhores trabalhos de Namlook. (Fax, import. Symbiose, 5)

Finalizamos com uma ligação a máquinas mais ameaçadoreas e ruidosas. Os neurónios vibram ao contacto com os circuitos da fábrica electrónica dos To Rococo Rot, projecto dos irmãos Robert e Ronald Lippok com Stefan Schneider, também mentor dos Kreidler. Depois de “Veiculo”, chega ao mercado nacional o disco de estreia desta banda alemã, singelamente intitulado “CD”. Mais ainda do que em “Veiculo”, torna-se evidente a filiação dos To Rococo Rot não só no minimalismo fabril dos Cluster e, em particular, no abstraccionismo matemático característico da obra a solo de um dos seus elementos, Dieter Moebius, como também nos exercícios fragmentários de todoa a primeira fase da discografia de Conrad Schnitzler, membro fundador dos Kluster (pré-Cluster) e dos Tangerine Dream. É por aqui que o pós-rock tem terreno livre à sua frente para avançar, numa música que dispensa a tentação do programático para se abandonar ao prazer da sensação pura. (Kitty-Yo, import. Ananana, 8)

Para os adeptos da “new age” de papel (reciclável), há a registar ainda a chegada ao mercado nacional de novas referências do catálogo Hearts of Space, outrora um excelente selo de “space music” (experimente-se a audição dos primeiros álbuns de Constance Demby, Michael Stearns, Kevin Braheny, David Lange ou Robert Rich). “Nomad”, de Paul Sauvanet, envernizamento digital de uma música pretensamente com raízes árabes, “Bridges”, de Oysten Sevag, tecno ambiental para uso em casas de banho de escritório, e “Klezmer Soul”, de Kol Simcha, música “klezmer” em registo de variedades, recomendam-se talvez apenas aos demonstradores de alta-fidelidade.