Arquivo mensal: Junho 2009

Megadrums – The World Is Full Of Rhythms – 15 Years of Megadrums

21.04.2000
Megadrums
The World Is Full Of Rhythms – 15 Years of Megadrums (6/10)
Intuition, distri. Dargil

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Megadrums é um colectivo internacional com base nas percussões formado em 1986 pelo saxofonista austríaco Reinhard Flatischler que se reúne regularmente com formações variáveis, consoante a disponibilidade dos diversos percussionistas de várias nacionalidades envolvidos no projecto, entre os quais o indiano Pandit Arjun Shejwal, o brasileiro Dudu Tucci, o ganês Aja Daddy, o norte-americano Milton Cardona, o japonês Leonard Eto, o alemão Heidrun Hoffman e os grupos Samulnori, da Coreia, e The Bamboo-Gamelan “Suar Agung2 do Bali. Participa igualmente nas sessões dos Megadrums o saxofonista e flautista, também austríaco, Wolfgang Puschnig, presença regular nas edições do selo ECM. O álbum não força a nota do exibicionismo técnico mas também não prima por grandes enredos musicais, ficando-se algures no território das fusões étnicas de sabor jazzrock (Brand X, Spirogyra, Passport) ou minimalista sobre temas tradicionais de múltiplas proveniências geográficas ou composições do colectivo. Flatischler tem da música uma visão simplista não muito afastada da de um Andreas Vollenweider quando, dada a multiplicidade de culturas envolvidas, se poderia esperar teias intricadas e cruzamentos susceptíveis de darem origem a novos países musicais. Acontece, porém, que apesar de “mega”, as “drums” remetem-se aqui amiúde ao papel de figurantes, submetidas ao jugo colonialista dos dois saxofonistas ocidentais de serviço. Assim, num álbum de percussões, a vitória de Pirro cabe às melodias.

Solvent – Solvently one Listens (conj.)

21.04.2000
Destruição, Gelados e Diversão
Funkstörung
Appetite for Destruction (8/10)
Studio !K7, distri. MVM

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Solvent
Solvently one Listens (7/10)
Suction, distri. Matéria Prima
Tele:Funken
A Collection of Ice Cream Vans Vol. 2 (8/10)
Domino, distri. Ananana
Tone Rec
Demo Pack Démoli (8/10)
Quatermass, distri. Ananana
Sexo, violência, confusão e disciplina, a electrónica agita-se num paroxismo sanguinolento na música dos Funkstörung, uma dupla constituída por Michael Fakesh e Chris de Luca. Funk industrial, consistente, num conglomerado que em “Try dried frogs” e “A8 KM 34” arrasa por completo a arquitectura hip hop e em “Sounds like a breakrecord” e “Grammy winers” (ambos com a participação de Triple H) assume um lado activista através de um rap e scratch demolidores. Lembramo-nos de Mark Stewart e da sua “máfia”. “Think”, “1/10” (swing de metal percussivo) e “Red shirt, white shoes” (música industrial em levitação, coisa rara) contam com as vocalizações aéreas de Greenwood e Carin sobre massas incandescentes. “A bottle, a box and a mic” larga a mesma energia dos Einstürzende Neubauten combinados com os Public Enemy num “drum ‘n’ bass” pegajoso e residual que se cola à pele, antes de os 16 minutos finais de “Mind the gap” abrirem uma cratera de poeira radioactiva em suspensão no trip hop dos Portishead. Uma torneira de escape para tanta tensão.
O som dos Tele:Funken é mais analítico, proporcionando outro tipo de estímulos. Electrónica swingante na linha dos Shabotinski, FX Randomiz, Isan e Holosud que do krautrock extraiu a filosofia e do uso lúdico das novas tecnologias fez uma síntese para usar no imenso parque de diversões em que se transformou a música electrónica neste final de milénio. “Theme from Tele:Funken” abre em carrossel num convite a Gary Numan para se divertir com as suas “replicas” numa montanha-russa.
Os Solvent é que não escondem o seu fervor pelo passado, citando como influências os Human League, Depeche Mode, Soft cell, Fad Gadget, Yazoo e os Skinny Puppy, além de Lowfish e Aphex Twin. Pop electrónica, polida e ritmada, para fazer dançar robôs. Arrumar, depois de gasta, ao lado dos Mikron 64 e Nova Huta.
Em fase de reconhecimento nos meios da electrónica europeia, os radicais franceses Tone Rec, surgem pela primeira vez menos radicais, num álbum de remisturas, metade a cargo deles próprios, metade assinada por Fennesz, pelos primos Dat Politics e pelos To Rococo Rot. Da operação saíram experiências mais dançáveis do que o habitual no mundo angular dos Tone Rec, mais anarquizantes no caso de Fennesz, dos Dat Politics e nuns surpreendentemente virulentos To Rococo Rot do que na própria banda francesa que em “Trend” rubrica a faixa mais irresistível de toda a sua carreira – uma coisa viciante e oleada, alimentada a mel e gasolina, que é uma resposta absolutamente imparável à “auto-estrada” aberta pelos Kraftwerk. E quem quiser brincar ao giroflé e ao mesmo tempo dançar tecno à maneira dos Tone Rec só tem que ouvir “Giroflex”, saltar como um doido e ser conduzido em seguida ao manicómio.

Paul McCartney – Flaming Pie

07.05.1997
Paul McCartney
Flaming Pie
MPL COMMUNICATIONS, DISTRI: EMI-VC

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A estrada longa e ventosa, não se sabe onde irá dar. era uma vez um grupo que desapareceu numa das suas curvas. Um dos elementos desse grupo ficou por lá. Os outros três regressaram e fizeram frente ao mundo. Paul foi quem tirou maiores proveitos. Encetou o seu próprio caminho e foi andando. Com asas. Mas a encruzilhada teria de chegar um dia. E Paul mccartney acordou, abandonou os Wings e lembrou-se de quanto gravar discos, acima de tudo, um prazer. Discos como os mais antigos do tal grupo. Discos como os seus dois primeiros a solo, “McCartney” e “ram”, deliciosas peças de artesanato nas quais o ex-Beatle punha em relevo toda a sua fabulosa capacidade para inventar melodias perfeitas. Paul passou os últimos anos a escrever canções. Na sua quinta, tranquilamente. Sem pressões. A recente “Antologia” com material de arquivo dos Beatles despertou-o para esses tempos em que a simplicidade era o caminho para a magia. Então Paul entrou de novo em estúdio armado apenas com a confiança em si próprio e gravou mais um doce. a sua tarte flamejante.
Em “Flaming Pie” ouvimo-lo tocar quase todos os instrumentos, guitarras, piano, baixo, bateria, vibrafone, percussões. Com poucas ajudas. a sua mulher, Ringo Starr (não, paul Mccartney não é casado com Ringo), uma orquestra ocasional num ou noutro tema. E Jeff Lyne, que ficou daprodução da “Antologia”. É, na verdade, um retorno à simplicidade de processos. Mas a ingenuidade perdeu-se. Porque o passado não se repete.
Mesmo assim, saboreia-se com deleite esta tarte confeccionada com requintes de culinária. Serve-se cortada em quatorze canções. Uma delas, para juntar à galeria dos -clássicos de McCartney: “Somedays”. Por instantes, ficamos com a ilusão de que a estrada longa e ventosa não está deserta. (7)