Arquivo mensal: Junho 2009

Camané – Esta Coisa da Alma

05.05.2000
Camané
Esta Coisa da Alma (9/10)
Ed. e distri. EMI-VC

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LINK (Sempre de Mim – 2008)

Esta coisa da alma tem que se lhe diga. Que o fado é a alma a cantar já toda a gente sabe, ou devia saber, mas tem que ser alma antiga. Nada a fazer, quanto a isto. Aos mais novos resta cumprir os desígnios de melhores ou piores vozes, que o fado, fado, apenas nasce das feridas e do fim das viagens mais longas. E chegamos a Camané, que é fadista novo, mas com a alma já batida e enobrecida por mais do que uma cicatriz, viajante da dor que no fado – e é também para isso que ele serve – se alumia. Não por acaso um dos fados se chama aqui “A luz de Lisboa (claridade)”, que, também não por acaso, é um instrumental. Camané é uma das vozes com que o fado pode contar para cantar aquilo que é eternidade. Ouça-se “Dor repartida”, por exemplo, com letra de Manuel de Freitas e da mulher de Camané, Aldina Duarte, também fadista e música do “Fado Primavera” de Pedro Rodrigues, para se compreender, ou sentir, o que querem dizer versos como “Cinzento porque chovia / Todo o céu me cobria / Comigo chorava tanto / Mas ali à minha frente / Afastado e tão presente / O rio secou o meu pranto.” Mas também quando o fado enfia as mãos nos bolsos e se torna mais gingão. (“Por um acaso”, “Fado da recaída”) Camané sabe decifrar e dar corpo aos seus sentidos. As palavras de David Mourão Ferreira, João Monge (da Ala dos Namorados), Edmundo Bettencourt, Júlio Dinis e Fernando Pessoa e a música de Alfredo Marceneiro, Reinaldo Varela ou José Mário Branco, entre outros, são dignificadas pela voz e, mais do que a voz, pelo sentimento de Camané que em “Quem, à janela”, canção de Amélia Muge, mostra que a sua alma é igualmente capaz de olhar através de outras janelas que não a janela duramente envidraçada do fado. Ou talvez tudo, como nesta canção, se transforme em fado quando cantado o fundo. No centro da cruz.

Pram – The Museum Of Imaginary Animals

29.09.2000
Pram
The Museum Of Imaginary Animals (6/10)
Domino, distri. Ananana

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LINK

Reza a lenda que os quarto Pram se conheceram num supermercado K-Mart. Matthew Eaton e Max Simpson estavam atrás do balcão, as duas meninas, Rosie Cuckston e Sam Owen, apesar de já fazerem parte de um grupo chamado Cindy’s Mole, iam fazer compras. Nestas coisas nunca se sabe como a conversa vai acabar e, embalagem puxa embalagem, formaram uma banda. Enfiaram-se na chamada cena de Birmingham ao lado dos Plone e dos Broadcast e chamaram para influências gente como Syd Barrett, Richard Thompson, John e Alice Coltrane, The Fall, Black Uhuru, Slits e Raincoats. Ora bem, eu escolheria as Raincoats, porque, no capítulo vocal, embora não cheguem ao extremo de desafinar, as duas meninas incluem-se na categoria das “vozes engraçadas com tendência para desmaiar”. “the Museum of Imaginary Animals”, inspirado numa série de figuras expostas num museu de Gotemburgo, compostas por partes diferentes de animais, é um daqueles trabalhos feitos com mil cuidados, repletos de sons frágeis e exóticos de xilofones e theremins, mas incapaz de se manter imune à debilidade vocal já apontada. Assim não há pós-pop que resista nem música “subaquatic cinematic” que não naufrague. Muitas imagens estragadas. Relógios de music-hall parados no tempo. Histórias de fadas recicladas. Eu diria que estas fadas não fadam nem deixam fadar ao mesmo tempo que encaminharia os hipotéticos adeptos deste tipo de relicário pop para os braços dos Combustible Edison ou dos High Llamas. Ou, em “Cat’s cradle”, de uma fusão dos Non Credo com os OMD.

David Shea & Scanner – Free Chocolate Love

14.04.2000
David Shea & Scanner
Free Chocolate Love (8/10)
Quatermass, distri. Ananana

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“’Free Chocolate Love’ vai seduzi-lo dos estúdios de Robin Rimbaud e de David Shea para lhe trazer os sons exóticos do nosso tempo tocado nas máquinas de hoje. Uma colecção de ritmos e melodias maravilhosos para os amantes de todo o mundo. Dos mecânicos aos sentimentais, numa viagem cinemática através do espaço espectral.” É desta forma que Robin Rimbaud (vulgo Scanner) e David Shea introduzem este primeiro volume de uma série, “Themes”, inteiramente preenchida por parcerias e cujo próximo capítulo será um trabalho conjunto de Atom Heart com Stock, Hausen & Walkman. Em “Free Chcolate Love”, Shea e Rimbaud reformulam os códigos do “easy listening” e da “loung music” em moldes inovadores. Fazem-no em “Theme from Lost, Lonely and Vicious”, variante minimalista que transporta para os domínios da música funcional os parâmetros repetitivos de David Borden ou dos Regular Music, ou em “Theme from love of light”, um cocktail de sombras que evoca os ambientes mais opressivos do recente álbum de instrumentais dos Scanner, “Laubwarm”, enquanto “Theme from smootchy” faz descer um manto de negrume sobre a “party music” de alguns dos primeiros navegadores do “easy listening” como Les Baxter, martin Denny e Arthur Lyman. “Themes from waterfall” é krautrock na forma e volátil como uma emanação alcoólica e “Theme from peach garden” uma orquestra exótica de harpas e cetins a tocar para David Lynch. A fechar, “Theme from moon landing” enterra a “space music” de Esquivel num lamaçal de ambientalismo pegajoso do qual Eno jamais se conseguiria libertar. “Free Chocolate Love” não é tanto uma tijela de paixões achocolatadas como uma banda sonora de um sonho húmido.