Arquivo mensal: Março 2009

Present – Nº 6 (conj.)

26.05.2000
Hardscore
Surf, Wind & Desire (8/10)
Present
Nº 6 (8/10)
Carbon 6, distri. Sabotage


present

Na transição dos anos 70 para os 80, “Trikaidekaphobie” e “Le Poison qui Rend Fou” foram dignos representantes do chamado “new chamber rock”, apadrinhado pela editora Recommended. Assinavam estes dois discos “progressivos” e sombrios, os belgas Present, liderados por Roger Trigaux, guitarrista da formação original dos seus compatriotas Univers Zero, com os franceses Art Zoyd, um dos expoentes do movimento. “Nº 6” mantém intactas as características dos primeiros discos, com longas “suites” como “The limping little girl” e “Ceux d’en bas”, construídas em vários andamentos harmónicos e rítmicos de extrema complexidade e densidade. Dos Magma a Bartok, da escola Rock In Opposition (monitorizada pelos Henry Cow) aos King Crimson (“Le rôdeur”, um tormento de terror frippiano) e às aequitecturas BD fantástico-monumentais da dupla Schuiten/Peeters, “Nº 6” é um garante de solidez de uma cidadela cujos dois pilares principais são hoje os 5Uu’s e os Motor Totemist Guild (cujo último álbum, “City of Mirrors”, incluo nos melhores do ano passado). “Surf, Wind & Desire” parte dos mesmos pressupostos para chegar a lugares menos sinistros que os dos Present. Em vez de “rock de câmara”, os também belgas Hardscore (com Frank Wuyts, dos Aksak Maboul) fazem “canções de câmara”, não rebegando a electrónica nem uma voz feminina para se divertirem com um jazz Frank zappiano, com citações aos jogos vocais do autor de “Hot Rats” mas também aos barrocos Gentle Giant, numa pop exótico-experimental da escola dos Non Credo e No Secrets in the Family. Dois álbuns “fora-de-série” e do circuito das modas.

Johnny Winter – The Progressive Blues Experiment (conj.)

12.05.2000
Reedições
Fábulas Góticas
Praticamente desconhecido, mesmo dos mais conhecedores da música progressiva dos anos 70, o nome dos Fuchsia conquistou, volvidas três décadas, o estatuto de culto, sendo a edição original em vinil do seu único álbum uma raridade. “Fuchsia”, editado em 1971, surge agora com uma capa cartonada e sem menção da editora. A gravação leva a fidelidade ao som original ao ponto de reproduzir os ruídos de um vinil já com algum uso… não, não se trata de qualquer figura de estilo de mais um disco chique de hip hop mas tão só de uma transcrição de má qualidade. Passemos então adiante, ficando apenas o registo da existência deste estranho objecto desenterrado de um passado esquecido?
Seria assim se “Fuchsia” não fosse, como é, um daqueles álbuns possuidores de um estranho fascínio, como se transportasse consigo o perfume de algo realmente valioso. Os Fuchsia eram um sexteto acústico onde pontificavam as vozes dos seus três elementos femininos, Janet Rogers, Vanessa Hall Smith (ambas também violinistas) e Madeleine Bland (que também tocava violoncelo, piano e órgão de pedais). Três rapazes encarregavam-se do formato normal guitarra-baixo-bateria, com Tony Durant, o guitarrista, também encarregado das partes vocais. Tocavam um folk-rock gótico de tonalidades sombrias, e contavam histórias de assustar, com castelos perdidos na bruma, paixões bizarras e seres sobrenaturais. Por vezes a música lembra os Comus, de “First Utterance”, noutras os Spirogyra, noutras ainda vem à memória o registo mais doce dos Tudor Lodge, dos Trader Horne e dos Storyteller, com o mesmo gosto pela fábula surreal que Peter Gabriel encetou com os Genesis em “From Genesis to Revelation”. Pode ver-se nesta música (ouça-se com atenção um tema como “A tiny book”, um cruzamento dos Kinks com folk e psicadelismo) uma antecipação ingénua de grupos como os Kula Shaker ou Gorky’s Zygotic Mynci. Ou simplesmente um livro de histórias coberto de poeira para abrir e folhear com cuidado capaz de excitar a curiosidade do melómano-arqueólogo. (Sem editora, import. Lojas Valentim de Carvalho, 7/10).


jw

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Sem estranheza de qualquer espécie, além do facto de ser albino, o guitarrista Johnny Winter dedicava-se em 1969, como se dedicou (ele e os eu irmão Edgar Winter) durante toda a sua vida de músico, aos “blues”. Mas como a época era de progressivismos, era de bom tom acrescentar-lhe qualquer designação mais rebuscada do que a “simples” raiz da música negra e do rock ‘n’ roll. Johnny Winter chamou então a um dos seus trabalhos, “The Progressive Blues Experiment”, uma série de blues eléctricos da sua autoria (mas também versões, como “It’s my own fault”, de Muddy Waters), que acima de tudo deixavam bem vincadas as suas extraordinárias qualidades de guitarrista. Por vezes excitante, sempre carregado de energia (1969 foi, de resto, um ano em que a música parecia querer explodir a cada instante…), “the Progressive Blues Experience” ficou como um bom exemplo de um movimento, o blues progressivo, que vingou sobretudo em Inglaterra (Graham Bond, Alexis Koner…), onde atingiu o zénite em dois álbuns seminais de John Mayall: “Bare Wires” e “Blues from Laurel Canyon”. (BGO, distri. Megamúsica, 7/10).

Já em plena decadência do progressivo e com o punk a martelar em pleno, ainda havia gente, como os alemães Frumpy, que acreditava que a salvação do rock estava em perder 10 minutos em cada faixa com solos de órgão ou de guitarra e na adaptação de técnicas de execução sacadas à música sinfónica. “Frumpy 2”, de 1976, é considerado o álbum clássico do grupo e há mesmo quem o inclua numa lista dos melhores de sempre do “krautrock” (como os autores da enciclopédia “A Crack in the Cosmic Egg”). Digamos que o “krautrock” não sai propriamente dignificado com esta nomeação, nem os quatro longos temas que aqui correm numa cavalgada de solos conseguiram fazer com que os fãs dos Deep Purple ou dos Uriah Heep trocassem a adoração por estas bandas pelos Frumpy. Há no entanto momentos de rock sinfónico (ugh!) bem conseguidos e a voz rouca da vocalista Inga Rumpf (que ganhou alguma notoriedade na banda de que fez parte a seguir, os Atalntis) até conseguirá eriçar alguns pêlos aos entusiastas do hard rock… (Repertoire, distri. Megamúsica, 6/10).

E já que se falou em punk, concentremo-nos em “Hypnotised”, segundo álbum (1980) dos irlandeses The Undertones que, por acaso, nem eram punks mas uma banda do que então se designava “power pop”. A voz de Feargal Sharkey soava aqui tão grande como o seu nariz e “Hypnotised” está repleto de hinos aos rapazes e às raparigas que contam as pequenas alegrias e dramas da vida nos subúrbios em canções directas com melodias, por vezes, viciantes. Como “My Perfect Cousin”, editado em single e que se tornou um sucesso de vendas, a tal que fala de Kevin, o primo “perfeito” da “upper class”, a quem a mãe ofereceu um sintetizador e, como brinde, os Human League para o ensinarem a tocar. (Dojo, import. Lojas Valentim de Carvalho, 7/10).

Fechemos este artigo com uma descida à cave. Para ouvir o rugido que sai das profundezas da música de Jeff Greinke, compositor norte-americano intérprete da vertente mais telúrica da música electrónica. Greinke aprendeu com os ensinamentos de Brian Eno, em “On Land”, só que, em vez da superfície, escolheu como local de meditação, os abismos do interior da terra. “Over Ruins” e “Moving Climates” (agora juntos no mesmo CD) pertencem à sua discografia dos anos 80, tendo sido editados antes, respectivamente em 1985 e 1986, apenas em cassete. O que significa que estão mais próximos das texturas densas de “Trimbal Planes” do que da clonagem das paisagens do quarto mundo de Jon Hassell de “Big Weather”. Aqui os sintetizadores de Jeff Greinke eram ainda feitos de pedra, electricidade e lava, fazendo estremecer o solo como os passos de um gigantesco dinossauro. O lado nocturno da música de Steve Roach. (Raum 312, import. Lojas Valentim de Carvalho, 8/10).

The For Carnation – The For Carnation

26.05.2000
The For Carnation
The For Carnation (7/10)
Domino, distri. Ananana


tfc

Devagar se vai ao longe, costuma-se dizer. Muito devagar, no caso dos The For Carnation, parentes dos Low na arte do arrastamento. “The For Carnation” é um daqueles discos dos quais se diz que “criam ambiente”, por oposição aos que carregam instantes explosivos que atingem o auditor como uma martelada na cabeça. Armados de um razoável equipamento instrumental, os cinco elementos do grupo – Bobb Bruno (guitarras, teclados, sampler), Steve Goodfriend (bateria), Todd Cook (baixo), Michael McMahan (guitarras, “space echo”) e Brian McMahan (voz, teclados, guitarras) – contam ainda com um naipe de convidados que acrescentam ao som do grupo as percussões, mais teclados e violoncelo. Entre estes convidados está John McEntire, dos Tortoise, encarregue de colorir a música com os seus sintetizadores. Os seis temas de “The For Carnation” avançam todos lentamente como uma maré imparável capaz de fazer naufragar os sentidos. Rock (deixe-se, por uma vez, de parte o termo pós-rock…) ambiental, construído a partir de “drones” e fluídos instrumentais vários, tem o apelo das coisas misteriosas, dos recantos escuros e das emoções difusas. Nota-se em todo o disco o dedo de John McEntire, decisivo na criação de uma atmosfera ritualística num tema como “Being held”, através do recurso ao som de sinos, mas também na estrutura geral da música do grupo, como em “Smoother”, um tema na linha dos Tortoise ou dos The Sea and the Cake. “tales (Live from the Crypt)” ressuscita por momentos o espectro de Nico (na introdução, em dueto com Kevin Ayers, do fabuloso “The Confessions of Dr. Dream”). Na forma como tira partido do poder de sugestão, insistindo numa aura paisagística, “The For Carnation” devolve ao presente os dias de escuridão e melancolia que grassavam numa certa música dos anos 80.