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Sérgio Godinho – “Pano-Cru” – Série:”Os Melhores De Sempre – Música Portuguesa”

Pop Rock

15 de Novembro de 1995
Os melhores de sempre – música portuguesa

Sérgio Godinho
Pano-cru


SG

Como foi

“É um disco em que – à excepção de um trecho, ‘O homem-fantasma’, com arranjo do Zíngaro – os arranjos são consequência da contribuição dos outros músicos”. Sérgio Godinho, naquele que para muitos é o seu melhor disco de sempre, prefere repartir responsabilidades e dividir os louros por toda a equipa. “Foi um método de trabalho em que peguei numa série de pessoas, nomeadamente o Guilherme Inês, o Zíngaro, o meu irmão Paulo, ou o Pedro Osório, e trabalhámos até encontrar soluções que me conviessem. De uma maneira informal e sem arranjos pré-escritos”. Uma opção “que vinha um bocado de trás” e “consequência de um trabalho que nunca deixou de acontecer mas foi talvez assumido de uma maneira mais funda neste disco”. Desta união de esforços resultaram uma “simplicidade instrumental e arranjos bastante básicos”, mas que o autor considera “bastante eficazes”. “Tem um som, agora com a história do CD, que eu ouvi e achei muito límpido. O próprio som do Moreno Pinto, um técnico que na altura fazia trabalhos muito bons, agrada-me muito”.
Disco de clássicos, “Pano-Cru” corresponde a um pico de inspiração na carreira discográfica de Sérgio Godinho. “Tínhamos saído um pouco da ressaca pós-PREC. Estava-se num período de mudança muito rápido e havia uma energia criativa que sentia à minha volta. A minha energia estava então mais virada para o futuro do que para lamentar o passado. Não gosto de chorar sobre o leite derramado. Havia coisas que se tinham perdido, mas, por outro lado, estavam em elaboração outras que, para mim, eram exaltantes, como o facto de poder trabalhar ao vivo com os músicos que eu queria, algo que na altura do PREC não era possível. Nessa altura, por exemplo, o Zíngaro tocava muitas vezes comigo. Tudo isto se reflecte no disco que foi imediatamente testado ao vivo numa digressão que fiz, de genérico, ‘Sete anos de canções’, correspondente à aparição de uma cooperativa, a Era Nova. Onde estavam o Zeca, o Fausto, o Vitorino, e da qual a primeira iniciativa foi esta digressão, um pouco por inspiração do Camilo Mortágua, que era um bocado a ‘alma pater’ desta cooperativa. Foram 24 espectáculos em 20 capitais de distrito. De uma maneira, para a altura, heróica, e da qual saímos com magros resultados financeiros. Fomos a sítios onde não havia nada e nos chegavam a perguntar se íamos tocar ‘variedades’”.
Entre todas as canções de “Pano-Cru” há uma que permanece, de uma maneira quase obsessiva, na memória: ‘O primeiro dia’. “Curiosamente, não começou por ser um ‘hit’ evidente. Demorou até ser interiorizada”. Sérgio Godinho define-a como “uma canção de ruptura, de repensar as coisas e encontrar uma certa sabedoria para o futuro”. “Nesse aspecto”, diz, “é uma canção que me persegue. No espectáculo ‘Escritor de Canções’ fiz questão de não a cantar, para a deixar repousar um bocado.” [Sérgio Godinho abriu aqui um parênteses para anunciar a edição, já no princípio de Dezembro, de um disco ao vivo, com o título “Noites Passadas”, registando os espectáculos no Coliseu e no S. Luiz, em Lisboa, e no Rivoli, no Porto, do ano passado e no qual se inclui uma versão, ‘muito boa’, de “O primeiro dia”.]
“Balada da Rita”, do filme “Kilas, o Mau da Fita”, é outro momento inesquecível de “Pano-Cru”. Uma canção “assumida no feminino”, e “cantada por um homem”. “Foi composta para ser cantada por uma mulher, a Lia Gama, aliás, como acontece na primeira versão, numa edição raríssima, da banda-sonora, e no próprio filme”. Sérgio Godinho deixou, no entanto, sempre no ar a possibilidade de ser ele a cantá-la. “Agrada-me essa ambiguidade de cantar na primeira pessoa do feminino, uma coisa que, curiosamente, foram sobretudo os brasileiros a fazer, o Caetano, o Chico, mas que não existe muito na música americana ou na francesa. Há uma espécie de pudor em relação a isso”. Uma canção, ainda, que o músico considera de “difícil versificação, porque tem três rimas seguidas diferentes que têm que rimar com outras três”. “Lá isso é”, retomada recentemente pelos Sitiados, é apontada como uma das canções que Sérgio Godinho deixou de cantar. “Há coisas na letra que perderam actualidade, mas isso parece não os incomodar muito. Coisas de pormenor, como uma quadra que diz ‘Há partidos de direita que põem sempre a bola ao centro, mas quem melhor os fintar é que vai marcar o tento’. Eles nem tinham percebido que a bola ao centro era a do CDS”.
Outra canção que Sérgio Godinho nunca cantou ao vivo é “2º andar direito”, a conversa nocturna entre dois amantes que se tornou num dos temas mais apreciados pelos admiradores deste compositor-intérprete. “É uma canção de frases, de diálogo, que curiosamente foi objecto de um exercício da Escola de Cinema, quando o Ricardo Pais era lá professor. Ele propôs aos alunos fazer uma planificação, um ‘script’ a partir dela. Há uma sugestão de diálogo permanente, de situações imagéticas. Houve mesmo um filme de dez minutos feito com esses ‘scripts’ para a televisão, pelo Ricardo Nogueira, que nunca mais vi”.
É a vertente cinematográfica da obra de Sérgio Godinho aqui já a fazer-se sentir e que o autor mais tarde viria a desenvolver através da sua linguagem própria. Como um realizador que planifica a vida em ‘sketches’, Sérgio Godinho observa do exterior, através da lente ou, neste caso, do vizinho que vive no apartamento ao lado do dos amantes. “Aliás, nesse tal filme de dez minutos, eu fazia precisamente de vizinho. Há um volte-face nessa canção. Está a ser contada por um narrador que depois se descobre ser um terceiro personagem. A partir daí, o narrador passa a ser eu, eu compositor, eu autor da canção. A introdução de um elemento inesperado, uma nova personagem, rouba o protagonismo ao casal. Existe um lado ficcional que pode ser cinematográfico”. Um “exercício de ficção”, ao contrário de “O primeiro dia”, que tem “algo de autobiográfico”.

Como é

O que distingue um disco bom de um disco mágico é esse pequeno nada capaz de desencadear emoções, de accionar maquinismos escondidos da imaginação, de estabelecer, enfim, cumplicidades várias com o auditor. “Pano-Cru” é um disco mágico. Equilibrando, sem custo aparente, o registo popular (“O galo é o dono dos ovos”, Venho aqui falar”, “Lá isso é”) com o intimismo (”O primeiro dia”, “2º andar direito”), a sátira de costumes (“A vida é feita de pequenos nadas”, “O homem-fantasma”) e a crónica de amores ou de personagens (“Feiticeira”, Balada da Rita”), sente-se nele o domínio da arte da narração, o casamento perfeito entre a intenção, o som e a palavra. Gerado num período conturbado da nossa História, três anos passados sobre o golpe de Abril, a densidade e a tensão presentes em cada canção ocultam-se por detrás da fluência e facilidade com que se desenrola esta espécie de “thriller” psicológico do português ainda tonto da revolução. Se o microcosmos de “2º andar, direito” – reflectindo as preocupações e dúvidas existenciais de quem acordara estremunhado da opressão dos corpos e dos sentimentos e redescobrira a liberdade e o prazer da fala – desencadeia de imediato um “feedback” emocional em todos os que acompanharam de perto esses tempos de mudança, “O primeiro dia”, uma das melhores canções de sempre da música popular portuguesa, é o tema intemporal por excelência, relógio implacável da nossa própria existência. “Pano-Cru” é ainda a confirmação de Sérgio Godinho como organizador não só de palavras, como de imagens. Aqui realizador de um filme em corrida eterna contra o tempo. Um filme, como se pode escutar no genérico final, ainda e sempre “por acabar”.



Sérgio Godinho – “Os Sobreviventes” – Série: “Os Melhores De Sempre – Música Portuguesa”

Pop Rock

10 de Maio de 1995
Os melhores de sempre – música portuguesa

Sérgio Godinho
Os Sobreviventes


sg

Como foi

Nove anos no estrangeiro, três dos quais passados em Paris, de finais de 1967 até 71, o contacto com outras músicas e culturas, serviram de bagagem para a relação com a língua portuguesa que se haveria de seguir e fazer de Sérgio Godinho um dos compositores-intérpretes portugueses mais importantes deste século. “Quando aterrei em Paris”, conta o autor, “já cantava, mas em francês; uma das minhas preocupações era encontrar uma voz própria: soava-me tudo ou a Zeca Afonso ou a poetas que eu admirava. Nessa altura, a presença musical do Zeca bloqueava-me.”
O encontro, na capital francesa, com José Mário Branco, com quem inicia uma colaboração musical assídua, vem a revelar-se decisiva no desencadeamento de nova fase da sua carreira. Entretanto, a par da sua participação na versão parisiense de “Hair”, dá-se aquilo a que Sérgio Godinho chama uma quase revelação, “uma espécie de desbloqueamento em relação ao português”. “Para aí metade” das canções de “Os Sobreviventes” foi composta nesta altura, num “curto período de tempo”. Os estímulos desta mudança são vários. “Curiosamente, a própria cidade de Paris, o ‘Hair’, uma multiplicidade de vivências, aproximaram-me da minha língua em vez de me afastarem. Talvez fosse uma necessidade de voltar às minhas raízes e ao som que as palavras tinham na minha infância.”
A par de Paris, também o interesse pelo que se estava a passar em Portugal, com o agudizar da guerra colonial e a decadência do regime” faz o músico desejar o reencontro com a realidade portuguesa. “O facto de não poder vir a Portugal, de ser refractário, de estar com gente com uma consciência política que eu tinha também, foi igualmente importante.” Embora o cantor já nessa altura tenha outro tipo de preocupações, além das políticas: “A minha motivação primeira para ir para fora foi sempre muito vivencial. A necessidade de conhecer outras culturas, de correr mundo, de vagabundear, no sentido filosófico do termo.” Mais forte que tudo é, porém, “a vontade de escrever em português”.
Já com “uma mão cheia de canções”, falta apenas a gravação. “José Mário Branco tinha já contactado a Sasseti, a quem eu já enviara fitas. Fiz uma maqueta também para a Arnaldo Trindade mas foi a Sasseti que me deu uma resposta mais entusiástica e as melhores condições.” À semelhança de José Mário Branco e de José Afonso, Sérgio Godinho vai gravar no famoso estúdio do Château d’ Hérouville. “Fomos praticamente inaugurar aquilo, com condições privilegiadas.” O som pretendido “tinha uma componente de banda, com uma abordagem ‘pop’”, algo que logo nessa altura afasta Sérgio Godinho da vaga dos chamados baladeiros. Não só nunca fui um baladeiro”, diz “como, de certo modo, era até crítico em relação ao que de negativo tinha esse termo.” Sérgio recorda, a propósito, que o anátema lançado nessa altura sobre aquele termo foi dirigido em brande parte “contra o Zeca e o Adriano, de uma maneira muito injusta”.
Com José Mário Branco a funcionar em estúdio um pouco como o “supervisor”, a música toma forma a partir de um colectivo. “Basicamente, aquilo que eu tinha na cabeça era uma estrutura de guitarra, baixo eléctrico e bateria – um som ‘rock’ como o do tema ‘Maré alta’ – aqui e ali com a pontuação de outros instrumentos, algo que ensaiei mais tarde noutros discos”. Sérgio Godinho vê hoje “Os Sobreviventes” como um disco “exuberante e denso”, onde quis “meter muita coisa”, se bem que não o satisfaça muito “vocalmente”: “Tive medo de soltar a voz. É um disco onde canto à defesa. Certinho mas sem o tipo de liberdade interpretativa que tive noutros discos e que, inclusivamente, já era de certo modo capaz na altura. Também senti problemas de garganta, laringite. Não sei se de origem psicossomática ou não…” O cantor cita, sobre este aspecto, o tema “O charlatão”, composto por José Mário Branco, que poderia ter “mais energia”.
O outro dos dois temas escritos pelo autor de “Margem de Certa Maneira”, “Cantiga da velha mãe e dos seus dois filhos*”, tem uma história curiosa: “A letra foi feita para a música do ‘Maio Maduro Maio’, de José Afonso. O Zeca tinha uma vez chegado a Paris e disse-me que não era capaz de escrever uma letra para ela. Eu ofereci-me para o fazer. Ele, entretanto, foi para Portugal e eu fiz mesmo a letra. Fiquei eu com uma letra pendurada. Foi então a vez do José Mário Branco se oferecer para fazer uma música. Aconteceu uma espécie de pingue-pongue.”
Outra canção, “Paula”, teve uma primeira letra em francês antes da versão final em português. “Romance de um dia na estrada” foi escolhido para um EP, “raríssimo de encontrar”, que surgiu antes de o LP sair. “Podia ser, de certo modo, um título alternativo para o álbum. Era um tema que reflectia o lado vivencial que eu, nessa altura, prezava muito e que continuou como imagem de marca. É uma canção de percurso, uma canção de revelações.” O outro lado, “mais político”, está presente numa canção como “Senhor marquês”: “Cantei-a pela primeira vez para o Zeca, quando ele estava em Paris. Ficou muito entusiasmado. ‘Isto é que é a linguagem que eu devia estar a fazer!”, exclamou ele. Eu contrapunha: “Tu és maluco! Eu é que queria fazer a linguagem que tu estás a fazer!”
“Os Sobreviventes” teria, depois, outras histórias para contar, mas essa pertencem já a uma história mais triste que estava prestes a acabar. O disco recebeu o prémio “melhor autor de letra” pela Casa da Imprensa (ao lado de obras de José Afonso e José Mário Branco) mas foi retirado das lojas pela censura, para, pouco tempo depois, regressar aos escaparates. Algo que reflectia a desorientação de um regime que agonizava. O álbum, esse, sobreviveu para a posteridade.

* Em vez de “filhos”, no original lia-se “discos”.

Como é

Afinal, é mesmo verdade que as cegonhas trazem os bebés de França. Em Paris, há 24 anos, nascia uma das relações mais fortes e duradouras da música com a língua portuguesa. Sérgio Godinho trazia na mochila a música francesa, brasileira e inglesa, e quilómetros de viagem nas pernas e na alma. As primeiras histórias contam-se, por vezes, com alguma timidez e a ajuda de amigos. José Mário Branco, já nessa altura bordão e fonte de ensinamentos, não só assinou dois temas como inspirou o ambiente geral de uma composição como “A-E-I-O-U”. Os Beatles, com algumas notas de “Michelle”, insinuam-se por sua vez em “descansa a cabeça (estalajadeira)”.
Se é verdade que a riqueza metafórica que caracteriza toda a obra posterior do autor se encontra aqui ainda na sua fase embrionária, não é menos verdade que “Os Sobreviventes” é hoje um álbum que envelheceu bem, não surgindo de modo algum datado. Temas como “Paula” ou “Farto de voar”, em toda a sua pureza, soam hoje rodeados de um estranho fascínio, enquanto, em canções como “Que bom que é” e “Senhor marquês”, estão já presentes todas as características que marcariam a obra de Sérgio Godinho: a não linearidade do desenvolvimento temático, a sobreposição de registos vocais, a alternância de tonalidades, a importância da fonética, do que se esconde e revela no simples som que as palavras têm – o prazer, em suma, de dançar com as palavras e os seus significados.
“Romance de um dia na estrada” perspectiva uma das vertentes de sempre do universo poético-musical do autor: a introspecção, o conceito de percurso, nunca numa perspectiva abstractizante, antes romanceada em forma de situações arrancadas a um quotidiano ficcional ou não. E se a época era de luta, entre “Que força é essa” e “Maré alta”, os dois temas onde é mais acentuado o cariz intervencionista, era já no fluxo de emoções e das pequenas e grandes descobertas interiores que o caminho de Sérgio Godinho se desenhava. Um “primeiro dia”, sempre.



Sérgio Godinho – Entrevista (A Tinta Permanente É A Mais Volátil)

Pop Rock

5 de Maio de 1993

“Tinta Permanente” é o 15º álbum da discografia de Sérgio Godinho, quatro anos depois do lançamento de “Aos Amores”, último álbum de originais, e dois depois do duplo com novas versões de temas antigos, “Escritor de Canções”. Sem apresentar muitas novidades em termos formais em relação à sua obra anterior, “Tinta Permanente” te, entre outras, a virtude de mostrar que Sérgio Godinho permanece atento e vigilante às histórias do quotidiano e às histórias que se vão desenrolando no interior de si próprio.
Gravado entre Dezembro do ano passado e Março deste ano, “Tinta Permanente” tem produção do autor e de Paulo Pulido Valente. Os arranjos e direcção musical levam a assinatura de João Esteves da Silva, que já havia colaborado com Sérgio Godinho no álbum de 1983, “Coincidências”.
Entre os músicos convidados, contam-se José Salgueiro, Paleka, Tomás Pimentel, Pedro Wallenstein e João Paulo Esteves da Silva e um quarteto vocal feminino composto por Teresa Salgueiro, Filipa Pais, Dora Fidalgo e Sandra Fidalgo. O alinhamento de temas é o seguinte: “O Elixir da eterna juventude”, “O primeiro gomo da tangerina”, “A face visível da Lua”, “Enfim SOS” (do filme de Sérgio Godinho “SOS Stress”), “Melhor que o amor”, “O fim de tudo”, “Pequenos delírios domésticos” (com música de Jorge Constante Pereira), “Os hinos” e “Fotos do fogo”.
Inicialmente programado para sair a 11 de Maio, problemas técnicos obrigaram a um adiamento, prevendo-se que “Tinta Permanente” seja editado ainda antes do final do mês.

“A TINTA PERMANENTE É A MAIS VOLÁTIL”

sg

As suas palavras dizem tudo. Ou quase. Sérgio Godinho, “escritor de canções”, regressa com novas histórias. Casos de amor, golpes de dor, partidas que a memória prega. Até de “dar porrada”, quando é preciso. Escritas, todas, a tinta permanente.

“Tinta Permanente”, primeiro disco de originais depois de “Aos Amores”, de 1989, renova o encontro de Sérgio Godinho com as palavras, a música das palavras, e as palavras com que desde 1971 vem escrevendo a vida em forma de canções. Entre o sonho e o esquecimento, continua a ser o primeiro dia.
PÚBLICO – Desde 1989 que não gravava um álbum de originais. A que se deve esta espera tão longa?
SÉRGIO GODINHO – Nunca funcionei com prazos nem contratos para gravar de tanto em tanto tempo. Depois, tenho interesses noutras áreas. O que aconteceu foi que, após ter gravado o “Aos Amores”, senti um certo cansaço, que era um bocado o fim da linha de uma determinada fórmula. Resolvi repensar tudo e fazer o espectáculo Escritor de Canções, em que reformulei a noção de acompanhamento e fiz uma revisitação de antigas canções sob roupagens diferentes.
P. – Essa pausa prende-se com os projectos que desenvolveu em cinema?
R. – É evidente. Fiz na altura o Luz na Sombra, uma série de programas sobre seis figuras e funções menos conhecidas do mundo da música, com toda a anarquia inerente a trabalhar numa produção da RTP. Foi muito absorvente. Depois houve também um projecto de três filmes de ficção, de título genérico “Ultimactos”, que acabei por filmar só em Janeiro do ano passado. Ficaram prontos em Setembro e programados para a grelha da RTP de Novembro, cuja reformulação, devido a esta estúpida guerra de audiências que existe, acabou por privilegiar, como produção portuguesa, apenas telenovelas e “sitcoms”. Os meus filmes ficaram em “stand by”…
P. – O título do novo álbum, “Tinta Permanente”, como o anterior, remete de imediato para a noção de escrita. Desta vez com a sugestão de um clássico…
R. – Em metade dos meus álbuns tive dificuldade em encontrar um título. O que é um bocado absurdo, tendo em conta que mexo imenso com as palavras… Há discos em que encontrei o título em primeiro lugar, como “Coincidências”, “Salão de Festas” ou “Aos Amores”. Mas houve outros em que, já depois do disco estar feito, foi como que ter de encontrar o nome para um filho vendo primeiro a cara dele. “Tinta Permanente” tem um bocado essa noção, daquilo que fica, que vai permanecendo, mas também do que foge: a tinta permanente é a tinta mais volátil. Há portanto uma ilusão. E uma ironia. Essa permanência traz consigo uma contradição. Dupla ironia.

“Luta permanente”

P. – Depois de “Escritor de Canções”, que de certa forma pode ser entendido como o fecho de um ciclo, “Tinta Permanente” não avança grandes novidades em relação à sua obra anterior. Será que esse estatuto de “escritor de canções” impede qualquer tipo de ruptura?
R. – Nunca fui, até por formação, uma pessoa de rupturas totais. Há caminhos próprios e o retomar de certos elementos. A minha proposta continua a ser mexer com o meu imaginário poético e tocar no imaginário das pessoas.
P. – Mas não receia a institucionalização do seu som? A nível dos arranjos ou de fórmulas melódicas, por exemplo? De uma certa maneira de vestir as canções que parece ter cristalizado?
R. – Só vendo canção a canção. A nível musical acho que há uma espécie de apuro, uma dinâmica da melodia…
P. – Sempre atrás da musicalidade das palavras?
R. – Não, à partida. Começo de uma base musical. O grande equívoco é que, como as minhas palavras são bastante fortes, presume-se que elas surgem antes da música. Na verdade, é a música que vai determinar o que serão as palavras. Quando falo em “luta permanente”, no texto de introdução, refiro-me à luta que existe no acto de compor. É estranhíssimo. Tenho dias em que não consigo fazer nada, um desgosto pela criação… até que de repente há uma fulgurância que me coloca outra vez na senda. Uma luta feita de jogos interactivos entre a melodia e o ritmo. Depois as palavras começam a aparecer, apesar disso e com isso.
Neste disco retomei três ou quatro coisas que procurei desenvolver, como a presença de coros femininos, que é quase uma constante do disco e que dá, de certo modo, um contraponto à minha maneira de cantar, mais enfática. Por outro lado, a presença de percussão. Só há três canções com bateria. Por outro, ainda, o retomar da guitarra acústica, que eu quase tinha abandonado e é o instrumento no qual componho. Abandoná-la seria quase uma traição a qualquer coisa que me é intrínseca.
P. – Em “Tinta Permanente” assoma com muita força uma dimensão que tem marcado toda a sai obra, a do tempo e das histórias que lhe servem de medida. O disco inicia-se com um “Elixir da eterna juventude”…
R. – É uma canção profundamente irónica, mas ao mesmo tempo séria. Em quadras que jocosamente vão descrevendo essa passagem do tempo e, em simultâneo, uma falsa declaração de envelhecimento. Por isso acabo com esse semi-“rap”: “Estou velho, dói-me o joelho, a parte interna de uma perna”…
P. – Como encara o seu próprio envelhecimento?
R. – A minha visão é muito estranha. Por um lado, sou muito pouco geracional, não me situo nem sobrevalorizo determinada época “versus” outra. Até em termos pessoais, tenho um bocado de dificuldade em definir a minha idade. Sinto-me muito puto. Com uma receptividade natural ao que está a acontecer.
P. – A experiência não conta?
R. – A experiência acumulada, seja em termos de criação ou das desilusões da vida, vai-me dando um certo calo. O que me permite neste momento falar do envelhecimento, da morte…
P. – O tema da morte surge várias vezes neste disco…
R. – Falo, de facto, várias vezes da morte, mas – é curioso – não num sentido depreciativo.
P. – Como fim e recomeço, talvez?
R. – O renovar das forças é essencial. Quando acabo um disco, por exemplo, fico sem vontade sequer de ouvir ou de compor. É um trabalho que esgota as energias criativas. Então sinto uma necessidade meio vampírica de me alimentar de outro tipo de criação. Mas voltando ao tema da morte, penso que este disco é até bastante luminoso. Embora tenha arriscado terminá-lo num tom sombrio, com “As fotos do fogo”.
P. – Um tema como “O primeiro gomo da tangerina” é quase “O primeiro dia” sem “o resto da tua vida”…
R. – Isso é engraçado. Essa canção foi composta ao ver a minha filha mais pequena comer a primeira tangerina.

Entre dois fogos

P. – Em “As fotos do fogo” recua ao período da guerra colonial. O que o levou a regressar a esse passado doloroso da história portuguesa?
R. – Faz-me um bocado impressão a falta de memória activa deste país. A incapacidade de construir a partir de uma experiência que foi fortíssima para o imaginário português – a guerra. Essa experiência está presente nas tatuagens que se vêem no Verão, nos braços por baixo de camisas de manga curta. No outro dia vi um tipo com uma tatuagem de um corpo de mulher que dizia, suponhamos, “Lena, amo-te”, riscado e corrigido para “Carla, amo-te” e de novo riscado e substituído por um terceiro nome.
Concretamente houve duas coisas que me levaram a escrever essa canção: uma reportagem do “Expresso” sobre o massacre de Wiryiamu [Moçambique, 1972] e, quase paralelamente, a história de militares que violaram mulheres sob ordens, na Bósnia. Quis ficcionar sobre o que leva as pessoas aparentemente sãs a, debaixo de certas circunstâncias, fazerem coisas que são contra todos os seus princípios e natureza. E depois, por outro lado, por que é que as pessoas se vão esquecendo disso. Não é só por bloqueio, porque o quotidiano tende a normalizar essas coisas, a diminuir a sua importância. O tipo da canção começa a ver as fotos da guerra, junto ao fogo da lareira, e vai vendo progressivamente menos. Até que acaba por fechar o álbum.
P. – Curioso como volta a assumir, em “Tinta Permanente”, um lado mais “intervencionista” para a sua música…
R. – Nunca fui grande fã desse rótulo de “música de intervenção”…
P. – Referia-me ao pôr o dedo em alguns tiques e taras da sociedade portuguesa.
R. – Essa palavra, “intervenção”, creio que se esgotou. Acabou por dizer menos do que aquilo que queremos dizer.
P. – Sente-se então na posição do artista afastado do mundo, que cria num limbo?
R. – Como criador e como artista, falo de coisas de que gosto e de outras de que não gosto. Com contundência e com poesia. A contundência, assim como o humor são segundas naturezas. Como tocar naquele ponto nervoso que provoca uma reacção em todo o corpo. É isto que eu quero fazer. Trabalhando de dentro para fora e não de fora para dentro.
P. – Em “Os hinos” é bastante contundente.
R. – Em “Os hinos” eu tinha que dar porrada…
P. – “Quantos sentidos tem a palavra que o hino tomou por escrava”, não é?
R. – Essa e outra frase essencial do mesmo tema: “Em cama onde não durmas não te deites”. “Tinta Permanente” é um disco irónico. Com uma utilização muito sarcástica da ideia.

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