Arquivo de etiquetas: Coliseu dos Recreios

Sérgio Godinho – “Canções Para Todos – Sérgio Godinho, Dia 25, Coliseu dos Recreios, Lisboa”

pop rock >> quarta-feira >> 23.11.1994


Canções Para Todos
Sérgio Godinho, Dia 25, Coliseu dos Recreios, Lisboa



Sérgio Godinho tem o regresso ao Coliseu dos Recreios em Lisboa – onde actuou com êxito por diversas vezes nos anos 80 – marcado para depois de amanhã, num espectáculo integrado na série Coliseu’s, uma iniciativa de Lisboa-94, Capital Europeia da Cultura.
O autor do recente e aclamado “Tinta Permanente”, considerado álbum português do ano por este suplemento, convidou para o acompanhar em palco, nesta ocasião, uma série de convidados. Assim, Filipa Pais, Sitiados e Jorge Palma vão juntar forças na recriação de canções do artista anfitrião, bem como apresentar as suas próprias composições. A concepção geral é repartida entre Manuel Faria e o próprio Sérgio Godinho, estando os arranjos e direcção musical a cargo de João Paulo Esteves da Silva. Em perspectiva, pois, um espectáculo diferente do habitual, o que não espanta, se atendermos ao que Sérgio Godinho nos vem habituando desde há muitos anos – a expressão multifacetada de um universo pessoal que, para além das canções, se revela igualmente no cinema. Pelo Coliseu dos Recreios, para Sérgio Godinho – “uma sala com uma mística muito forte” e que lhe é “bastante familiar, tanto do lado do palco como da plateia” – vão desfilar algumas das canções mais significativas do autor. Umas conhecidas e trauteadas por todos, outras, , não menos determinantes, exigindo mais tempo ao tempo até as palavras amadurecerem na plenitude do seu significado.
Sobre a escolha dos convidados, a ideia é, segundo o autor de “Tinta Permanente”, mostrar uma “espécie de leque panorâmico de várias tendências da música portuguesa”. Filipa Pais, que já participara naquele álbum e fizera apoios vocais em anteriores espectáculos de Sérgio Godinho, é, nas palavras do músico portuense, “uma óptima cantora”, merecendo, por isso, “maior protagonismo”. Quanto aos Sitiados – que “sempre reivindicaram” a influência de Sérgio Godinho – são, para este, um grupo que “traz uma certa frescura e energia a um sector da música portuguesa que estava negligenciado, ao pegarem descomplexadamente em temas populares e fazerem deles uma coisa pessoal”. É, por outro lado, “uma troca de galhardetes”, uma vez que a banda convidara anteriormente o cantor para o espectáculo “Filhos da Madrugada”.
Jorge Palma e Sérgio Godinho, eis uma dupla de quem se espera algo de especial. Com personalidades musicais em que é possível descortinar algumas semelhanças, os dois conhecem-se “desde há muitos anos”, podendo agora finalmente pôr em prática essa espécie de polaridade complementar entre ambos. “Somos amigos, embora nem sempre praticantes… A cidade é grande…”, diz Sérgio Godinho, que reconhece a existência de “pontos de contacto nos respectivos universos”: “Somos assim uma espécie de primos.”
Acompanham Sérgio Godinho nesta sua apresentação na capital João Paulo Esteves da Silva (piano e acordeão), Jorge Reis (saxofone), José Salgueiro (bateria), Mário Franco (contrabaixo e baixo) e Miguel Fevereiro, na guitarra. Bárbara Lagido, Mila Belo e Ana Brandão fazem os apoios vocais. O “design” das luzes pertence a Paulo Graça e a cenografia a João Calvário, o mesmo de “Escritor de Canções”.

Monges Budistas / Eitetsu Hayashi – “Monges Japoneses Cantaram Em Lisboa – Toque A Despertar”

cultura >> segunda-feira >> 21.11.1994


Monges Japoneses Cantaram Em Lisboa
Toque A Despertar


ESTAVAM anunciados 250 monges “buzan” da seita budista “Shinghon” mas, bem feitas as contas, “apenas” 186 estiveram presentes sábado à noite no Coliseu dos Recreios em Lisboa, para celebrar, com o seus coros, orações e sequências de percussão, uma cerimónia que é pouco habitual ter lugar num palco. Vestidos a rigor com trajes coloridos, o coro “shomyo” (“voz irradiante”) fez da liturgia um espectáculo. Ocupando na totalidade a antiga pista do Coliseu, dispostos em vários quadrados concêntricos em redor de um gigantesco caracter japonês permanentemente iluminado, no centro, a cerimónia foi conduzida por um mestre que, sentado em posição estratégica, dirigiu as várias fases do cerimonial, entregando-se durante cerca de hora e meia a todo tipo de gestos rituais.
Cerimonial, ritual, sagrado, tudo isto aconteceu mas envolto numa aura de espectacularidade que decerto não se terá repetido ontem na apresentação dos monges na igreja de S. Roque. Houve uma apresentação do “show” (!) feita em inglês, uma introdução pré-gravada de música “new age”, coreografadas de belo efeito visual e luzes psicadélicas que, suspeitamos, pouco tiveram de religioso mas o essencial, esse esteve presente e à disposição de quem o quisesse tocar. As palavras, murmuradas, uivadas, jubilosas ou em solitário recato, não se perceberam. Nem residia aí o essencial. No espectáculo, com chancela “Lisboa 94” para turista ver, muito menos. Então esteve onde? Na música, no som, na vibração. Nas vozes dos monges, nos seus ritmos imprevisíveis, nas trovoadas e nas estrelas de cristal das trompas, dos sinos e das percussões.
O coro “Shomyo” fez uma coisa simples, tão simples que nós ocidentais por vezes somos incapazes de compreender, impregnados que estamos de um racionalismo que em tudo pretende ver a tradução ou o significado de qualquer coisa. O que os monges fazem é manter-se despertos e convidar-nos a fazer o mesmo. A simplesmente estar atentos e ouvir. Os sinos que limpam o ar, os tambores que sacodem o corpo e o espírito do torpor, as vozes que cantam (Há algo mais sagrado do que cantar?) não significam nada. A música basta-se a si própria, como encarnação humana do movimento puro. Sintonia.
Quando os tambores rituais, nove – os mesmos que já tinham soado, em diferente contexto, o ano passado nos claustros dos Jerónimos – ribombaram, impulsionados pelos solos explosivos de Eitetsu Hayashi, foi a terra que subiu ou o céu que desceu?

Dolores Keane + Kathryn Tickell – “Música Celta No Coliseu – Uma Estrela Ascende, Outra Cai”

cultura >> segunda-feira >> 09.05.1994


Música Celta No Coliseu
Uma Estrela Ascende, Outra Cai


Há vozes que envelhecem bem. A de Dolores Keane envelheceu mal. Fosse do álcool, por estar grávida ou do ambiente gelado do Coliseu o facto é que a cantora irlandesa foi uma sobra de si própria. Kathryn Tickell, pelo contrário, mostrou que o futuro da folk britânica passa por ela.



Está bem que a música folk é das mais férteis mas não exageremos. É que as cantoras desta área musical que nos últimos tempos nos têm visitado andam a exagerar. Só falta fazerem de Portugal uma maternidade. Márta Sebestyen, no recente Intercéltico, tinha acabado de dar à luz. Foi o que se (não) ouviu: a voz por um fio e os Muzsikas a salvarem, de que maneira, a honra do convento. Sábado à noite, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, em espectáculo integrado na programação de Lisboa-94, Dolores Keane apresentou-se por sua vez com uma barriga de quase nove meses. Já não bastava a Maria do Amparo!…
Fosse por este ou por outro motivo qualquer – fortes indícios apontam para o álcool como principal agente de deterioração das cordas vocais da senhora ou não fosse ela da melhor cepa irlandesa – a actuação da mítica Dolores Keane saldou-se numa enorme desilusão. Se o reportório – uma mistura de canções de autores e proveniências variadas servidas por arranjos bacocos e músicos bastante pouco inspirados – até nem surpreendeu, confirmando ao vivo as debilidades dos seus últimos álbuns a solo, já a voz, uma voz que aprendêramos a amar desde quando Dolores era a jovem vocalista dos De Danann, deu uma pálida imagem da grandeza do passado. Dolores cantou em esforço. O seu vozeirão, com aquela gravidade rouca que o whiskey concede aos seus lacaios ao fim de anos de bons serviços, não teve porém o controlo de uma June Tabor, por exemplo, mostrando-se impotente para respirar com a naturalidade que seria legítimo esperar. O som, metálico e estridente, também não ajudou, destruindo o timbre vocal da irlandesa. Aliás, sempre que Dolores se afastava do microfone, logo a voz se lhe suavizava e tornava mais humana.
Enfim, a dama grávida (esta terá sido de resto a sua derradeira apresentação ao vivo antes do parto) cantou sobretudo canções do último álbum “Solid Ground” e autores como Kieran Alpen, Mick Hanly, Linda Thompson e Paul Brady entre várias “immigrant songs”, um exercício de “mouth music” e temas de influência “country”, um dos quais da tradição dos Apalaches com referências a Doc Watson e aos Carter Family. Por duas ocasiões Dolores Keane trocou o canto por uma flauta, nuns “reels”, “jigs” e uma valsa mal amanhados mas que serviram para quebrar a monotonia.
Sobre a banda – guitarras, baixo, bateria e teclados – que acompanhou Dolores Keane a Lisboa pouco há a dizer. Vulgar como qualquer grupo de baile. Nem John Faulkner, marido da cantora e músico de renome, escapou ao cinzentão. A voz não parecia a mesma de um álbum com a qualidade de “Kind Providence”. Quanto ao que mostrou na guitarra, bouzouki e violino, só na Irlanda há hoje centenas de putos capazes de fazerem melhor. Mas pronto, melhores dias virão e o que mais desejamos é felicidades para o casal e para o futuro rebento.
Felizmente tivemos na primeira parte Kathryn Tickell. Uma jovem instrumentista digna de se ver e de se ouvir que, aos 25 anos, é já uma das maiores intérpretes de gaita-de-foles em Inglaterra. Com ela veio a sua nova banda, tudo gente novinha, merecendo destaque o guitarrista Ian Carr e a agilidade digital de Karen Tweed, a acordeonista de laçarote vermelho na cabeça com ar de Pipi das meias altas. Kathryn alternou as “Northumbrian pipes” com o violino, rubricando neste instrumento “reels” em que deixou patente mais elegância do que virtuosismo. Mas foi nas “pipes” que a jovem mostrou todas as suas capacidades. Nem tanto nas acelerações, apoiadas numa utilização inteligente das escalas descendentes e dos meios tons que no final levaram parte da assistência a ir para a frente do palco dançar, como sobretudo num espantoso lamento enriquecido por um jogo de ornamentações, todo ele síncopes e “swing”, ao nível do que escutáramos antes e ao vivo em Paul James, no concerto para iniciados que este músico deu há uns anos em Algés com Nigel Eaton, ou no gaiteiro dos Perlinpinpin Folc.
Kathryn Tickell tem tudo para se tornar uma estrela: talento e fotogenia, a par de uma sensibilidade pop e de uma energia que transformam, sem a trair, a linguagem folk em qualquer coisa de excitante para outro tipo de audiências.