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Ashra – “Inventions For Electric Guitar” + “Le Berceau de Cristal” + “Dream And Desire”

pop rock >> quarta-feira >> 12.10.1994
REEDIÇÕES


A Guitarra Cósmica

ASHRA
Inventions For Electric Guitar (8)
Le Berceau de Cristal (7)
Dream And Desire (5)
Tempel, import. Planeta Rock



Desde o álbum “Starring Rosi” que os Ash Ra Tempel, ou Ashra, na sua designação abreviada, passaram a ser uma banda de um homem só, Manuel Göttsching. Os Ash Ra Tempel, cuja totalidade da obra se encontra disponível no nosso país, em compacto, eram uma das extensões germânicas do psicadelismo ácido da Costa Oeste norte-americana, tendo inclusive gravado um álbum dedicado ao ideólogo do movimento, “Timothy Leary”.
Coincidindo com a penetração no mercado inglês do “Kosmisch rock” alemão, pela mão da Virgin, nomes como Klaus Schulze, Tangerine Dream e o próprio Manuel Göttsching (com o excelente “New Age of Earth”, ao mesmo nível dos clássicos “Timewind”, de Schulze, e “Phaedra” e “Rubycon”, dos T. Dream) inflectiram declaradamente na estética planante, conceito que nessa altura o mercado inglês procurava implantar. A guitarra de Manuel Göttsching libertou-se da acidez, rodeando-se de pedais e sintetizadores. O minimalismo entrou de rompante, fundindo-se com a vertente cósmica-planante. “Inventions for Electric Guitar” é uma demonstração prodigiosa das capacidades da guitarra como central produtora de sons electrónicos. Todos os ritmos sequenciados e timbres electrónicos são aqui produzidos por uma Gibson Les Paul. Música de progressões lentas, hipnótica, de metamorfoses subtis, que seria levada às últimas consequências no álbum “E2 – E4”, um exercício de puro minimalismo.
“Dream and Desire” posiciona-se na mesma linha de “New Age of Earth”, com a diferença que é chato. Uma faixa de 30 minutos, outra de 22, limitam-se a reproduzir até à náusea esquemas melódicos praticamente iguais a outros já utilizados em “New Age…”, o que acaba por tornar a música “planante” (Göttsching pode ser considerado, nesta fase, um equivalente “ligeiro”, aéreo, de Klaus Schulze) em algo mole e sonolento. A capa (uma piada?) é das mais pirosas que alguma vez embrulharam um disco.
Ainda no mesmo estilo cósmico/minimal/planante, “Le Berceau de Cristal” é de algum modo um disco “raro” e a banda sonora do filme (projectado há anos numa sessão para “eleitos” no cinema Nimas…) com o mesmo nome realizado por Philippe Garrel, cineasta experimental francês cuja actriz-fetiche era Nico e que costumava dizer que fazia filmes para não se suicidar. A música é triste, sombria, romântica e introspectiva, como o filme. Três exemplos a consultar de uma guitarra que se aventurou pelo cosmos.