cultura >> sexta-feira >> 08.07.1994
V Encontros Musicais Da Tradição Europeia
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DE DESILUSÃO em desilusão até ao triunfo final. Tem sido assim em Algés até agora nos Encontros Musicais da Tradição Europeia. Ou desencontros. Espera-se a salvação no próximo sábado, com Omou Sangare e os Taraf de Haidouks. Na quarta-feira, perante um público numeroso que encheu o jardim do Palácio dos Anjos, os Fia na Roca, da Galiza, confirmaram a crise que se instalou naquelas paragens.
Vinham aureolados como a “next big thing” (não fica bem em galego) e melhor novo grupo desde os Milladoiro. Pelo que mostraram em Algés não diferem afinal de projectos como Matto Congro ou Brath. A música tradicional da Galiza sofre hoje de duas maleitas que parecem difíceis de debelar: a irlandização e a electricidade.
Os músicos dos Fia na Roca são bons – Xabier Bueno, então, é excelente na gaita-de-foles – mas o projecto que têm para oferecer está datado: uma fusão de rock, jazz com os malditos teclados e polvilhada de solos previsíveis (muitos, demasiados, no saxofone) e alguma confusão. Uma massa sonora na qual a genuína tradição da Galiza fica, é claro, a perder. O som, diga-se, também não ajudou. Os Fia na Roca ainda têm muito que porfiar. Na roca ou no que eles quiserem.
Os Radio Tarifa eram aguardados com enorme expectativa. Com razão, dada a excelência do seu álbum “Rumba Aregelina”. Nove músicos em palco, um bailarino que martelou quando pôde o estrado, deixaram mesmo assim a impressão de faltar qualquer coisa. Faltaram instrumentos (no disco rondam a meia centena), faltou “verve” aos músicos, faltou sobretudo a magia que envolve “Rumba Argelina”. Sobraram rajadas de vento que levaram a música para todo o lado menos para os ouvidos da assistência, um técnico de som às aranhas para equalizar os instrumentos e um frio que se fez sentir com alguma intensidade.
Em Algés a prestação dos Radio Tarifa saldou-se por um ambiente que nunca chegou a ser de festa e pela disciplina de um grupo de saltimbancos. As percussões ficaram-se por jogos sem surpresa com as flautas. Alaúdes árabes fizeram suspirar por Rabih Abou-Khalil. O vocalista espremeu e tornou a espremer a voz, necessitando urgentemente de engolir uma pastilha de Halls-Mentholypyhus. O baixista, em transe, deverá ter batido o recorde mundial de tocar mais tempo o baixo numa nota só. Joaquim Ruiz, o bailarino, trouxe alguma vida à música. Mas, no final, o sentimento geral era de que, por enquanto, os Radio Tarifa – uma mescla mediterrânica de espanhóis, um sudanês, um americano, um francês e um argentino – são um grupo de estúdio.
Os Encontros prosseguem hoje em Guimarães, com Oumou Sangare e Radio Tarifa, e em Coimbra, com Taraf de Haidouks. Amanhã, os Fia na Roca e Radio Tarifa actuam em Évora e Oumou Sangare e Taraf de Haidouks em Algés. No dia 10 será a vez de Oumou Sangare e dos Romanças actuarem em Évora. A 11, Oumou Sangare vai estar em Coimbra, enquanto os Fia na Roca e Taraf de Haidouks vão a Guimarães. Os Encontros terminam no dia 12 em Coimbra, com os Fia na Roca.








