Arquivo da Categoria: Progressivo

Yes – “Union”

Pop Rock

8 MAIO 1991

YES
Union

LP/MC e CD, Arista, distri. BMG

yes

A história conta-se em poucas palavras. O espírito dos Yes fora apartado da lendária designação. Motivos: a saída de Chris Squire, dono da patente, digamos assim, de um simples, mas precioso, “Sim”, que, por capricho ou má disposição, impediu os outros de usarem. É um bocado a história de Vítor Rua versus GNR. Assim, Jon Anderson, Bill Bruford, Rick Wakeman e Steve Howe continuaram, mas só com os nomes próprios. Entretanto, sob a influência das vibrações pacifistas da “nova idade” e por um misterioso encadeamento de coincidências, deu-se a união das duas facções, daí o título do disco. Para não ferir susceptibilidades, ninguém ficou de fora. Aos quatro nomes já citados juntaram-se os de Squire, Tony Kaye (da formação original dos Yes), Trevor Rabin e Alan White, o que na prática significa que o grupo passou a ter dois teclistas (Wakeman e Kaye), dois percussionistas (Bruford e White) e dois guitarristas (Howe e Rabin). De notar que, para uma daquelas especialidades foram ainda convocados mais cinco ou seis músicos de estúdio… Quanto à música, nada mudou desde os tempos de “Close to the Edge” e “Tales from Topographic Oceans” – as mesmas vocalizações andróginas de Jon Anderson, o misticismo dos temas (agora enfeitados com uns toques de “modernidade”), servidos a preceito e como montra para cada músico exibir as suas habilidades. Até a capa é assinada por Roger Dean. Disco inofensivo, mesmo a calhar para todos aqueles que não repararam na passagem dos últimos vinte anos. **

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Michael Oldfield – “Heaven’s Open”

Pop Rock

10 ABRIL 1991
LP’S

Michael Oldfield
Heaven’s Open

LP, MC e CD, Virgin, distri. Edisom

mo

Mike Oldfield andou a ler “Dr. Jeckyll and Mr. Hyde”. Nunca o deveria ter feito. Desde muito novo dado a problemas psicológicos à beira da patologia clínica, vê-se agora confrontado com uma terrível e dolorosa divisão na personalidade – uma confusão que lhe mói a cabeça e lhe corrói a alma ao ponto de o fazer mudar de nome e passar a tocar somente guitarra e teclados, em vez das habituais dezenas de instrumentos.
Assim, no primeiro lado, encontramo-nos frente a frente com o temível Mr. Michael, a nova personalidade psicótica, já anteriormente assumida em “Crises” ou “Discovery” e que aqui irrompe triunfalmente, apostada em destruir toda a obra anterior do músico, a golpes de um execrável comercialismo pop, fruto inconfundível de uma mente perturbada.
Do outro lado, a calma reencontrada, o esplendor instrumental caro a Dr. Mike de antanho, nos quase vinte minutos de “Music from the balcony”, abrilhantados pelo saxofone de Courtney Pine. Mesmo a capa mostra o estado transtornado do ex-menino de ouro da Virgin, com o recurso tornado piroso das imagens fractais. Um caso clínico a seguir atentamente. Em relação às estrelas, feita a média dos dois lados, dá…) **



Eric Woolfson / Alan Parsons – “Freudiana”

Pop Rock

20 FEVEREIRO 1991

ERIC WOOLFSON/ALAN PARSONS
Freudiana

LP duplo e CD, Emi – Valentim de Carvalho

freud

Sexo! Bem mais apelativo que “sexualidade”. Diz-me com que(m) sonhas dir-te-ei quem és. Grandes traumas. Complexos maiores que o das Amoreiras. Libidos desenfreadas. Oh mãe! Oh pai! Desejos inconfessáveis sublimados e deitados no divã. Atraída a atenção do leitor, podemos agora assegurar, cheios de júbilo: até que enfim, um disco sério, obra científica, didáctica, de grande fôlego e insuperável intensidade psicológica.
Sigmund Freud, nome importante, sem dúvida (embora nenhum dos seus discos tem há atingido os tops, os livros sim), mas não tanto como Eric Woolfson e Alan Parsons, juntos e felizes no massacre sistemático perpetrado sobre a figura do mestre.
Calho a vez ao velho Segismundo, mas ninguém, vivo ou morto, está livre de se tornar a próxima vítima. Em “Freudiana” (termo que designa a colecção de artefactos recolhidos por Freud ao longo dos anos ou, mais genericamente, a globalidade dos seus trabalhos e personalidade), cada faixa refere-se a um aspecto particular da vida e obra do autor dos “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade” e “A Interpretação dos Sonhos”: o princípio do prazer (que infelizmente neste disco não funciona), alguns casos patológicos arquetípicos (“Little Hans”, Dora, o homem-rato, o homem-lobo, o juiz, etc.), o amigo hipnotizador, as terríveis lutas entre o herói superego e o vilão Id, são alguns dos pretextos para o desfilar contínuo dos lugares-comuns mais insuportáveis do tristemente célebre rock sinfónico.
Imagine-se uma versão caquética e envernizada de “The Wall” (a qual dos discos pertencem os imortais versos: “And now you’re alone my friend/and you must face the world outside”?) para se ter uma ideia aproximada do objecto em questão. Os vocalistas foram escolhidos a dedo de entre a fina-flor da mediocridade (Leo Sayer, Kiki Dee, John Miles…), os instrumentistas (Laurie Cottle – baixo, Stuart Elliot – bateria e percussão, Ian Bairnson – guitarras, o nosso amigo Eric – teclados, Richard Cottle – sintetizadores e saxofones e o nosso outro velho amigo Alana – teclados adicionais) cumprem o que lhes foi exigido por contrato com o entusiasmo e empenhamento de um empregado de escritório a fazer horas extraordinárias num sábado à noite.
Incluem-se mesmo três temas instrumentais, “The Nirvana Principle”, “Beyond the Pleasure Principle” e “Freudiana” que infelizmente não se parecem nada com os famosos quatro minutos e picos de silêncio de John Cage.
Mas do mal o menos: só a música e as letras é que não prestam. De resto, pelo cuidado posto na apresentação, vê-se que se trata de um produto de luxo. Oh mãe! *

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