Arquivo da Categoria: Humor

Herman José – “Na Telefonia (Sem Fios)”

Pop-Rock Quarta-Feira, 18.12.1991


O RISO ESSENCIAL

HERMAN JOSÉ
Na Telefonia (Sem Fios)
LP, Emi – Valentim de Carvalho



Considerar Herman José um génio não é piada. O humor é coisa séria e Herman não brinca em serviço. No seu caso, ter graça é uma forma de vida, uma maneira de ser e de observar a realidade pelo lado em que esta quebra e se revela ridícula. A piada de Herman José não está (só) na anedota, na explosão final, mas no processo intermédio, na construção de um ambiente ou de uma situação, na exploração delirante de um tique, de uma inflexão vocal, de uma parcela de vida arrancada ao quotidiano. Humor latyeral, de pormenores, com sabor a iguaria.
Ao contrário da chalaça burocrática, piadista e populista dos Parodiantes de Lisboa, instituição do humor radiofónico nacional, Herman José inventa e improvisa sem cessar a partir de situações particulares, espremendo de cada uma a essência do cómico. As suas estratégias de desconstrução conceptual e linguística são em parte devedoras dos Monty Python, sacerdotes-mor do humor mais inteligente do mundo actual, não por acaso, a maioria dos portugueses permanece indiferente, chamando-lhe “estúpido” ou “sem pés nem cabeça”, sem perceber que o humor é isso mesmo – uma anatomia do absurdo. Os incondicionais, esses veneram John Cleese e co. Como figuras de culto. Nessa medida as subtilezas da comicidade de Herman apenas podem ser apreciadas até ao tutano por uma minoria.rista bem sabe as linhas com que se cose o riso dos portugueses, conferindo em paralelo ao seu trabalho, na televisão ou na rádio, uma veia mais popular e picaresca, quando no disco incarna as figuras de Ivette Marise (“Os tamanhos” e “A fertilidade”) ou do Estebes (“Entrevista a Rosa Mota”, “A vida de um desportista”). Mas os momentos de antologia desta selecção de “sketches” retirados das sessões diárias na TSF acabam por ser aqueles em que o humor fia mais fino: “Guerra do Golfo”, “Lição de Inglês”, “Pedro Almodovar ao telefone” (que ao lado de “Frank Sinatra ao telefone” recuperam os monólogos de Raul Solnado nos anos 60) e sobretudo nos magistrais “Entrevista a John Majors”, “Donald e o ventríloquo” e “Espanha homenageia Amália”, portentos de capacidade histriónica, caricatura e espírito de observação. Com Herman José, com ou sem fios, “é só rir, é só rir”. (8)

Pós-GNR – “Mimi Tão Pequena E Tão Suja”

Pop-Rock Quarta-Feira, 16.10.1991


MARGEM DE CERTA MANEIRA

PÓS-GNR
Mimi Tão Pequena e Tão Suja
LP / MC / CD Polygram



Não é difícil, a um músico minimamente inteligente e informado, ultrapassar a vulgaridade vigente no meio rockeiro nacional. Difícil é fazê-lo de forma original, isto é, partindo de códigos conhecidos, chegar a qualquer coisa diferente e realmente nova – tarefa que hoje em dia poderá parecer a qualquer compositor pouco menos que impossível. O mundo da música transformou-se numa torre de Babel, onde todas as linguagens, e as suas infinitas interpermutações, se multiplicaram até ao ponto limite do total esvaziamento de sentido, auferindo, à falta de melhor, de uma legitimidade permitida pela “dignidade” da atitude sintetista, chamemos-lhe assim.
“Mimi Tão Pequena e Tão Suja” (bom título para uma fita neo-realista saloia) procura a diferença, a separação de águas entre o denominando “art rock” e o “rock comercial” pretensamente conservador.
Neste sentido, não espanata a opção de Vítor Rua, livre do experimentalismo formal dos Telectu, no sentido de procura de novas vias para o rock português, através de um trabalho de recuperação arqueológica e, paradoxo não se sabe se assumido, pelo recurso a referentes estéticos totalmente alheios à cultura que seria suposto relançar. Como se a saída passasse só por uma abolição despreocupada de tronteiras e pela instauração de uma terra de ninguém onde tudo cabe desde que articulado com um mínimo de coerência e o apoio suplementar da muleta conceptualizadora. “Mimi” recua aos anos 70, masic oncretamente à vertente menos sinfónica do progressivismo e ao bruitismo controlado dos King Crimson à época de “Red”. Grande parte do álbum avança por esse som saturado, no qual assumem papel preponderante os diversos encunciados da guitarra eléctrica e as deambulações de um baixo poderoso e bem articulado, instrumentos que o próprio Rua manuseia com o talento que se lhe reconhece. “Scales & solos” junta ao tom geral de opressão a violência extra, aprendida na vertigem “hardcore”. Por entre o massacre (aumentado pelo som resultante de uma prensagem péssima que acentua ainda mais a sensação de “massa” sonora, talvez a querer dar razão ao “sujo” do título…), irrompem pequenos pormenores, mais ou menos exóticos, como os que são criados pelo xilofone de David Maranha (dos Osso Exótico) em “Hardcore II”, por um solo de piano (excelente Miguel Megre) de súbito rendido à serenidade, em “Independança II”, ou pelo humor e fraseado guitarrístico muito Eugene Chadbourne de “Strange perception”. Passando ao lado do par de temas que abre o segundo lado, num registo mais próximo da pop, acaba por ser a longa sequência instrumental que encerra o disco a suscitar a maiorcela de interesse: “The next álbum” (será de facto o próximo álbum todo assim?), incursão demolidora nos meandros do ruído, que as linhas melódicas do baixo, do piano e a inspirada e fragmentada prestação de Rui Azul, no saxofone, impedem de mergulhar no caos. Uma referência final aos textos, escritos e cantados em inglês com a fluência do estudante aplicado que procura alinhar uma sequência de frases sem errar. Mesmo assim, há erros (ou gralhas?): “Trough” em vez de “through”, “Tokio” em vez de “Tokyo”, “Demon” pronunciado em vez de “dimon”. Pormenores que não comprometem, mas aos quais não ficaria mal prestar de futuro mais atenção. Vítor Rua e a sua “Mimi” não salvam o rock português, mas situam-se orgulhosamente à margem dele, com a convicção dos que procuram arriscar. (7)

Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #158 – “Música para rir e chorar por mais”

#158 – “Música para rir e chorar por mais”
07.12.2000

Qualquer destes discos pode provocar o riso – por motivos diferentes.

ALBERT MARCOUR: Sports et Percussions (1994)
THE BEAU HUNKS: Play the Original Laurel & Hardy Music (vols. 1 & 2) (1992, 1993)
BONZO DOG DOO DAH BAND: Gorilla (1967)
DAEVID ALLEN: Banana Moon (1971)
DAVID BYRNE: Rei Momo (1989)
DÉBILE MENTHOL: Émile au Jardin Patrologique (1981)
DEVO: Q: Are we not Men? We are Devo! (1978)
DIDIER MALHERBE: Zeff (1992)
FRANK ZAPPA/MOTHERS OF INVENTION: We’re only in it for the Money (1967)
FRED FRITH & FERDINAND RICHARD: Dropera (1991)
FRENCH, FRITH, KAISER & THOMPSON: Live, Love, Larf and Loaf (1988)
FUSCHIMUSCHI MATH-ICE: Short Stories (1997)
GONG: Camembert Electrique (1971)
HOLGER CZUKAY: Rome Remains Rome (1987)
KEVIN AYERS: Yes we Have no Mañanas, so get you Mañanas Today (1976)
LIONELL HOROWITZ AND HIS COMBO: Au Bain Marie (1998)
L. VOAG: The Way Out (1979)
MIKRON 64: Sys 49152 (1999)
MR. BUNGLE: California (1999 – Conhecem Mr. Bungle?)
MUTANTES: A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado (1970)
NEGATIVLAND: Escape from Noise (1987)
NEW YORK GONG: About Time (1979)
NICK MASON: Fictitious Sports (1981)
NOVA HUTA: At Bambij Robot’s Nonstop Datscha (1999)
PAOLO CONTE: Paris Milonga (1981)
PASCAL COMELADE: El Cabaret Galactico (1995)
PENGUIN CAFE ORCHESTRA: Penguin Cafe Orchestra (1981)
RAYMOND SCOTT: Reckless Nights and Turkish Twilights
RENALDO AND THE LOAF: The Elbow is Taboo (1987)
THE RESIDENTS: Third Reich ‘n’ Roll (1976)
RON GEESIN: A Raise of Eyebrows (1967)
RON GEESIN & ROGER WATERS: Music from the Body (1970)
SNAKEFINGER: Chewing Hides the Souds (1979)
SPARKS: Propaganda (1974)
STEVE BERESFORD: L’Extraordinaire Jardin de Charles Trenet (1988)
TEA & SYMPHONY: An Asylum for the Musically Insane (1969)
URBAN TURBAN: Urban Turban (1994)
Vários: Bandes Originales du Journal de Spirou (1989)
XPER.XR: Look Left (1996)
YELLO: You Gotta Say Yes to Another Excess (1983)