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Mikron 64 – “Sys 49152” + Sator Rotas – “Sator Rotas”

25 de Fevereiro 2000
POP ROCK


Mikron 64
Sys 49152 (7/10)
Storage Secret Sounds, distri. Matéria Prima

Sator Rotas
Sator Rotas (8/10)
a-musik, distri. Matéria Prima



“Sys 49152” dura 22 minutos, tempo suficiente para nos deliciarmos com seis temas de pop electrónica programada por bonecos num velho microcomputador Commodore 64. O tema inicial, vocalizado, como os restantes, com Vocoder, mete os Air num chinelo, lembrando ainda que nesta matéria a papinha já tinha toda sido feita pelos belgas Telex (por sua vez uma variante bonacheirona dos Kraftwerk…) nos álbuns “Looking for Saint-Tropez” e “Neurovision”. Mas os alemães Mikron 64 refazem o género com uma dose renovada de prazer, trazendo para o ano 2000 o lado lúdico-sintético que nos Trans AM adquire tonalidades escuras. Depois de Oleg Kostrow e dos Nova Huta, este terceiro volume da Secret Storage Sounds confirma a editora como uma caixa de surpresas da qual estão a sair os mais divertidos artefactos de “música electrónica para brincar”. No pólo oposto estão os Sator Rotas, isto é, Markus Schmickler dos Microstoria, encapotado numa simbologia alquímica, levando a simetria ao ponto de o disco demorar exactamente 44.44. “Sator Rotas” é uma lagoa de águas turvas onde, por baixo da superfície líquida, estão depositados estranhos e incompreensíveis objectos sonoros, como nas águas inquinadas que Andrei Tarkovski filmou em “Stalker”. “Sator Rotas” lembra ainda as “fugas de gás” dos PGR, em emanações sulfúricas asfixiantes ou em buracos negros que desembocam em escuridões tenebrosas onde, apesar de tudo, há mais vida e organismos que se mexem do que nos escritórios doentes dos Oval e Microstoria. Em todo o caso convirá tomar o remédio antes.



Funkstörung – “Appetite for Destruction” + Solvent – “Solvently One Listens” + Tele:Funken – “A Collection Of Ice Cream Vans Vol. 2” + Tone Rec – “Demo Pack Démoli”

21 de Abril 2000
POP ROCK – DISCOS


Destruição, gelados e diversão

Funkstörung
Appetite for Destruction (8/10)
Studio !K7, distri. MVM
Solvent
Solvently one Listens (7/10)
Suction, distri. Matéria Prima
Tele:Funken
A Collection of Ice Cream Vans Vol. 2 (8/10)
Domino, distri. Ananana
Tone Rec
Demo Pack Démoli (8/10)
Quatermass, distri. Ananana




Sexo, violência, confusão e disciplina, a electrónica agita-se num paroxismo sanguinolento na música dos Funkstörung, uma dupla constituída por Michael Fakesch e Chris de Luca. Funk industrial, consistente, num conglomerado que em “Try dried frogs” e “A8 KM 34” arrasa por completo a arquitectura hip hop e em “Sounds like a breakrecord” e “Grammhy winers” (ambos com a participação de Triple H) assume um lado activista através de um rap e scratch demolidores. Lembramo-nos de Mark Stewart e da sua “Mafia”. “Think”, “1/10” (swing de metal percussivo) e “Red shirt, white shoes” (música industrial em levitação, coisa rara) contam com vocalizações aéreas de Greenwood e Carin sobre massas incandescentes. “A bottle, a box and a mic” larga a mesma energia dos Einstürzende Neubauten combinados com os Public Enemy num “drum’n’bass” pegajoso e residual que se cola à pele, antes de os 16 minutos finais de “Mind the gap” abrirem uma cratera de poeira radioactiva em suspensão no trip hop dos Portishead. Uma torneira de escape para tanta tensão.
O som dos Tele:Funken é mais analítico, proporcionando outro tipo de estímulos. Electrónica swingante na linha dos Shabotinski, FX randomiz, Isan e Holosud que do krautrock extraiu a filosofia e do uso lúdico das novas tecnologias fez uma síntese para usar no imenso parque de diversões em que se transformou a música electrónica neste final de milénio. “Theme from Tele:Funken” abre em carrossel num convite a Gary Numan para se divertir com as suas “replicas” numa montanha-russa.
Os Solvent é que não escondem o seu fervor pelo passado, citando como influências os Human League, Depeche Mode, Soft Cell, Fad Gadget, Yazoo e os Skinny Puppy, além de Lowfish e Aphex Twin. Pop electrónica, polida e ritmada, para fazer dançar robôs. Arrumar, depois de gasta, ao lado dos Mikron 64 e Nova Huta.
Em fase de reconhecimento nos meios da electrónica europeia, os radicais franceses Tone Rec surgem pela primeira vez menos radicais num álbum de remisturas, metade a cargo deles próprios, metade assinada por Fennesz, pelos primos Dat Politics e pelos To Rococo Rot. Da operação saíram experiências mais dançáveis que o habitual no mundo angular dos Tone Rec, mais anarquizantes no caso de Fennesz, dos Dat Politics e nuns surpreendentemente virulentos To Rococo Rot do que na própria banda francesa que em “Trend” rubrica a faixa mais irresistível de toda a sua carreira – uma coisa viciante e oleada, alimentada a mel e gasolina, que é uma resposta absolutamente imparável à “auto-estrada” aberta pelos Kraftwerk. E quem quiser brincar ao giroflé e ao mesmo tempo dançar tecno à maneira dos Tone Rec só tem que ouvir “Giroflex”, saltar como um doido e ser conduzido em seguida ao manicómio.



Messer Für Frau Müller – “Allo, Superman!”

2 de Junho 2000
POP ROCK – DISCOS


Messer Für Frau Müller
Allo, Superman! (8/10)
What’s so Funny about, distri. Ananana



Para além das cenas de Canterbury, Chicago, Detroit, Viena, Berlim, Setúbal ou Düsseldorf, registe-se a existência da menos badalada mas não menos agitada cena de São Petersburgo que, desde os anos 70 e com sede privilegiada no Tam Tam Club, assistiu e promoveu a eclosão dos movimentos “hippie”, punk, new wave, gótico, etc, na Rússia. Brian Eno circulou por lá durante algum tempo (chegando a produzir o grupo Zeni Geva). Pioneiros do tecno soviético como os Novi Kompositori, DJ K-Fear, Good Dead Davidoff, Alexandroid (“house”), Deadushki (apelidados os Chemical Brothers russos), Mo Fun (“jungle-jazz”) ou Christmas bubbles passaram pelo Tam Tam Club que, entretanto, encerrou as portas por ordem judicial (a droga vendia-se lá livremente…). Oleg Kostrow (ou Kostrov), de quem já se conhecia o magnífico “Great Flashing Tracks from Iowna” é um veterano da cena de S. Petersburgo (hoje povoada por gente com os Jah Division…) e, juntamente com Oleg Gitarkin, um dos elementos dos Messer Für Frau Müller. O que encontramos em “Allo, Superman!” é um delírio ainda mais requintado que o de “Flashing Tracks”, um caldeirão borbulhante de colagens e eletrónica “funny”, “easy listening”, música de variedades russa, “lounge jazz”, “drum ‘n’ bass”, spots publicitários, rumbas, pop de garagem dos anos 60, samples de música clássica e tudo o mais que vem à rede, num redemoinho incessant que chama por Felix Kubin e Holger Hiller mas, sobretudo, se revela como um parente próximo e plastificado de “The Sylvie and Babs Hi-Fi Companion” dos Nurse With Wound.