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João Braga – “João Braga Cantou Ao Vivo Fados Do Seu Novo Disco – Em Nome De Um Fado Universal”

cultura >> sábado >> 10.09.1994


João Braga Cantou Ao Vivo Fados Do Seu Novo Disco
Em Nome De Um Fado Universal


Com a bandeira nacional monárquica por fundo, João Braga apresentou no palácio dos condes de Óbidos o seu novo álbum “Em Nome do Fado”. Ainda e sempre numa via aristocrática e universalista, desta feita com a presença, no disco e ao vivo, de Rita Guerra e alguns representantes da nova geração de fadistas. Ainda sobrou tempo para bater no bobo da corte, Sousa Cintra.



João Braga apresenta-se pelo menos com duas qualidades: a de monárquico e a de sportinguista. A voz que tem é que já não é a mesma de outros tempos, facto que, tendo em conta os 28 anos que já leva de carreira, se compreende e tem que aceitar. O bom gosto na escolha do reportório e dos convidados para este seu novo disco – “Em Nome do Fado”, com o selo Strauss – compensam no entanto tal fraqueza.
As costelas monárquica e sportinguista, essas, continuam tão fortes como nunca. Assim se compreende, de resto, o local e a simbologia utilizados para a apresentação do disco: o palácio dos condes de Óbidos, no fim da tarde de quinta-feira, com as cores da coroa portuguesa bem em evidência na bandeira azul e branca com o escudo e a coroa, estendida a servir de pano de fundo à actuação do fadista. Logo no princípio, antes de dar início à mini-actuação que serviu para apresentar “Em Nome do Fado”, João Braga chegou mesmo a cantar os “Parabéns” a um aniversariante presente, Francisco van Uden, em quem o fadista gostaria de ver um “herdeiro” ao trono de Portugal.
Antes dos fados e depois dos canapés, João Braga falou, falou bastante. Do fado e da sua recusa em deixá-lo cair nas vielas da má vida. Dos guitarristas que no disco e na ocasião o acompanharam, José Luís Nobre da Costa, Pedro da Veiga, Jaime Santos Jr. E Joel Pina. Das palavras e dos poetas que gosta de cantar. Lamentou a opinião de certos críticos, “alguns de nomeada”, e insurgiu-se contra quem recentemente descreveu o fado como “flamenco impotente”. Até porque o flamenco, disse, enquanto designação genérica e ao contrário do que o senso comum acredita, “não se dança”, enquanto o fado, “sim”, além “de falar ao coração”, também “faz pular o pé”.
João Braga aludiu ainda ao “golpe de Estado que deu nome à ponte” e explicou a razão de ser do título do novo álbum, “trocadilho” do filme “Em Nome do Pai”. Por fim, cantou. Cinco temas retirados de “Em Nome do Fado”: “Ali, então”, com letra de Sophia de Mello Breyner, “Na Rua do Silêncio”, imortalizado por Alfredo Marceneiro, “Fado de Lisboa”, com texto de Manuel Alegre, “Samba em Prelúdio”, poema de Vinicius de Moraes e música de Baden Powell, e a participação de uma Rita Guerra com voz de fazer vento e calças de boca de sino ao estilo carrilhão de Mafra, e, a finalizar, uma desgarrada, “Sul versus Norte (com alguns versos pelo Centro)” que, à semelhança do disco, contou com as vozes de quatro dos mais jovens e promissores fadistas nacionais: Sancha Costa Ramos, Maria Ana Bobone, Miguel Capucho e Rodrigo Costa Félix. Os três últimos prestes a lançar o seu próprio projecto discográfico, “Alma Nova do Fado”.
Uma alma que se acendeu sobretudo em Rodrigo Costa Félix e nessa grande cantadora de fado que é já Sancha Costa Ramos. A Miguel Capucho, mais nervoso, coube a responsabilidade de cantar, na passagem pelo Centro, a parte de fado de Coimbra que no disco é assegurada por António Bernardino. O nervosismo acabou por passar para a cantora do lado, Maria Ana Bobone, que teve um bom começo mas concluiu hesitante.
No final, o autor de “Em Nome do Fado” não se coibiu de ler uma carta que a propósito lhe foi endereçada por António Bernardino onde este tece alguns comentários menos elogiosos à figura do presidente do Sporting, Sousa Cintra, o tal que João Braga considera “estruturalmente desonesto”. Com ou sem justa causa.

Amália Rodrigues – “Amália Rodrigues Celebra Aniversário Televisivo – Prendas Em Directo”

cultura >> sábado >> 02.07.1994


Amália Rodrigues Celebra Aniversário Televisivo
Prendas Em Directo



Parabéns , Amália! Com o patrocínio da Quatro. Amália fez ontem 74 anos de idade. A televisão da Igreja resolveu celebrar, organizando uma festa, mais uma, de homenagem, no Largo do Município. A diva apareceu na varanda do edifício camarário, aguentou estoicamente o estendal de banalidades, ensaiou uns passos de dança e tentou mesmo puxar pela voz, dando corda a uma tuna estudantil.

Tudo começou por volta das 22h, com o desfile dos fadistas, juniores e seniores, vencedores do Grande Prémio do Fado de 1993 e 1994. Ficaram na memória a voz maravilhosa de Alda Isabel, com 13 anos e uma voz como não há muitas, e na retina o alucinante microvestido negro, acompanhado igualmente por uma bela voz, de outra concorrente sénior, que nos lembramos de ter visto na televisão, mas de quem o vento levou o nome.
A partir das 23 h, a TVI passou a transmitir o acontecimento em directo, com a apresentação de Maria de Lima e Tó Zé Martinho. Aliás, estava tudo montado para o espectáculo de televisão, com as cerca de mil pessoas que se aguentaram estoicamente de pé e ao frio no local a serem desviadas para os lados e para trás do palco.
Foi tudo um bocado triste de se ver. Aos fadistas seguiu-se a Tuna Estudantina Universitária de Lisboa, com os seus temas popularuchos aos quais Amália, nessa altura já de pé na varanda da Câmara, procurou responder, lançando umas notas soltas ao vento e bailaricando com aquela desafectação que se lhe conhece.
A “gaffe” da noite veio com um indivíduo já um tanto ou quanto bebido que, ouvindo à sua maneira os primeiros acordes de acordeão, num dos temas da tuna, logo exclamou em júbilo: “Olha, é aquela do bacalhau!”
Noutro ponto da praça, um casal de baixa estatura chamava as atenções pela maneira como resolveu o problema da falta de estatura, graças a um engenhoso dispositivo de espelhos, construído segundo os princípios ópticos do periscópio, que permitia ver tudo o que se passava por cima das cabeças.
Os inevitáveis parabéns, entoados de forma espontânea pela pequena multidão, apanharam desprevenida a Quatro, logo por azar, durante um dos vários intervalos publicitários da noite. Mais tarde, “televisão oblige”, lá se forjaram uns novos parabéns, tecnicamente mais perfeitos, registados para a posteridade, com bolo de velas e tudo onde era bem visível o símbolo da Quatro.
Houve ainda uma serenata de fados por antigos estudantes de Coimbra e muitos agradecimentos recíprocos. O desfile da marcha popular da Madragoa, vencedora deste ano, aconteceu a horas impróprias, perante uma assistência diminuta que nessa altura, cumpridas as obrigações da efeméride, rumara já na maior parte para vale dos lençóis, que o dia seguinte era de trabalho.
Num golpe tecnicamente prodigioso, a TVI superava o paradoxo do espaço-tempo e transmitia, com a indicação “em directo” ao canto do ecrã, uma retrospectiva das marchas, com Beatriz Costa e Vasco Santana a entrarem ao vivo e em directo na casa dos telespectadores.
E Amália? Amália merece tudo, por todas as razões. Há, aliás, duas Amálias. A Amália, pessoa simples que não veste o verniz do estrelato, que baila e chora por tudo e por nada. Uma Amália que não é símbolo nem imagem de nada senão dela própria, e a Amália que vive em nós, ideal e mitificada. E, no meio, a sua voz, oferenda dos deuses. Não interessa saber qual das duas é a mais verdadeira. Há uma pureza intrínseca em cada uma delas. A pureza onde se revê todo um povo e o faz venerá-la para além do fado, do negro fado de se ter nascido português.
Está certo, e ela não se importa, que lhe chamem símbolo vivo de Portugal. Há nela uma certa pieguice, um sentido trágico da vida e uma falta de noção de grandeza, que é em si já uma forma de grandeza, que definem bem a nossa original maneira de ser. Mas, mais importante que os nossos sonhos e a nossa paralisia disfarçada com as bandeiras de um qualquer império que há-de vir, se vier, é que Amália teve e tem a coragem de ser apenas ela própria. E de se ter abandonado até ao fim e enquanto pode a um destino e a uma vocação maiores que ela e que nós. Amália foi, é e será somente Amália. Sem fingimentos, sem maneiras falsas nem intermediários.
Por isso é bom que Amália chore sem razão, só porque sim, como uma criança que não perdeu a capacidade de se emocionar consigo própria. A água cura. A água das lágrimas sem propósito de Amália cura-nos. Parabéns, Amália!

Teresa Tarouca – “Teresa Tarouca Comemora 33 Anos De Carreira, No Tivoli – Morte E Ressurreição Do Fado”

cultura >> quinta-feira >> 26.05.1994


Teresa Tarouca Comemora 33 Anos De Carreira, No Tivoli
Morte E Ressurreição Do Fado


TERESA TAROUCA celebra neste ano 33 anos de carreira. Este aniversário será comemorado com um espectáculo intitulado “33 Anos a Cantar Portugal”, que se realizará hoje no cinema Tivoli em Lisboa, com produção das Edições Ledo.
Acompanhada à guitarra por João Torre do Vale e Pedro Veiga, e à viola por D. Segismundo de Bragança e Jaime Santos, Teresa Tarouca contará ainda com a presença de dois convidados – Gonçalo da Câmara Pereira e o actor Tó Zé Martinho, que vão cantar dois ou três fados cada. Ao todo, a fadista interpretará 26 fados, entre os quais alguns inéditos, como uma versão de “Lágrima”, imortalizada por Amália, ou “À minha mãe”. Parte dos lucros deste espectáculo – que poderá ser repetido em Paris e noutras cidades portuguesas – reverte a favor do Instituto Português de Oncologia.
Não vai ser um espectáculo qualquer. Porque Teresa Tarouca tem pergaminhos na canção nacional, porque pertence a uma família ilustre de cantadores – é prima de Vicente da Câmara e foi D. Teresa de Noronha quem a iniciou nas lides fadistas – e, acima de tudo, porque canta o fado com a emoção que ele exige.
Vale a pena citar uma das suas declarações à revista “Olá! Semanário”, publicada em 24 de Julho do ano passado: “Estive a cantar em França, para um auditório de jovens universitários. Ao fim de umas horas senti as pernas dormentes, coisa que nunca me tinha acontecido. E das duas uma: ou tirava os sapatos ou caía. Tirei os sapatos e pedi-lhes desculpa por ter de cantar descalça, explicando o que estava a acontecer. Foi impressionante! Todos se levantaram e aplaudiram.”
Por aqui se vê a raça da artista que, curiosamente, canta um fado intitulado “Não sou fadista de raça”.
Além disso Teresa Tarouca é uma pessoa bastante religiosa. Diz que Deus a ajudou na sua carreira e faz mesmo notar que o número 33, correspondente ao seu aniversário como fadista, é igual ao da idade de Jesus Cristo quando morreu e, três dias depois, ressuscitou. Até porque, como avisadamente nos é explicado no folheto de promoção do espectáculo, “o acto de criação artística é simultaneamente um acto de morte e de ressurreição”.
Entra-se depois no território da filosofia (de inspiração cristã) e aqui as elipses são obscuras e de mais difícil decifração, como que a querer dar um sentido ao título de um dos fados mais célebres de Teresa Tarouca, “Saudade, silêncio e sombra”. “A Arte deve procurar estas correspondências em símbolos que transcendem a própria natureza humana.”
Teresa Tarouca, à sua maneira, com o sentimento e a voz que Deus lhe deu, foi isto que fez e continua a fazer ao longo de 33 anos de carreira. É verdade que o fado não é símbolo de nada e que não há nada menos simbólico do que a música, seja ela qual for. Quando muito, os portugueses é que são símbolo do fado.
Quem, no entanto, tiver dúvidas o melhor que tem a fazer é ouvir os discos de Teresa Tarouca – de preferência os de fado, uma vez que a artista também tem uma queda pelo folclore. “Portugal Triste” ou o recente “Teresa Tarouca canta Pedro Homem de Mello”. E dar hoje à noite no Tivoli toda a atenção a composições como “Não sou fadista de raça”, “O meu bergantim”, “Zé sapateiro”, “Povo que lavas no rio”, “Canção verde”, “Deixaste a vida de outrora” e o maior êxito da fadista, “Saudade, silêncio e sombra”.