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Paulo Bragança – “Paulo Bragança Subverte as Convenções Em ‘Amai’ – ‘O Fado Deve Ser Batidos, Rasgado, Esquartejado'” (entrevista) + Paulo Bragança – “Amai” (crítica de discos)

pop rock >> quarta-feira >> 12.10.1994

Paulo Bragança Subverte as Convenções Em “Amai”
“O Fado Deve Ser Batidos, Rasgado, Esquartejado”



Fado é Portugal. Fado é para Paulo Bragança isto, mas também um pretexto para afirmar o gosto por muitas outras músicas. Portuguesas, mas com os olhos postos além. Em “Amai”, segundo álbum deste fadista “sui generis” que tem o condão de provocar as mentalidades mais conservadoras, as palavras e os sons são colocados ao serviço de uma portucalidade que o cantor afirma pelo lado mais trágico. Tão trágico que por vezes roça o “kitsch”. É também a conquista progressiva de uma liberdade de meios de expressão paralelos a um ideal estético e vivencial. Uma ideia que neste disco passa pelo fado, o folclore ibérico e uma modernidade transvertida em vermelhos de paixão fatal. Exagero? “O exagero é a devoção daqueles que amam por perdição”, diz Paulo Bragança.

PÚBLICO – “Amai”, em comparação com o anterior “Notas sobre a Alma”, aponta para múltiplas direcções. Há algum elemento aglutinador?
Paulo Bragança – Mais que o fado, o ponto de partida deste disco é a voz. E uma atitude fadista. Uma atitude que procuro misturar com outras formas musicais. No fundo, tentar transmitir o estado de espírito fadista liberto da guitarra, da viola e do baixo.
P. – Considera-se um verdadeiro fadista?
R. – Considero. Um fadista, quando nasce no século XIX é um anarca, quase um fora-da-lei. Dentro desse espírito, sou. Embora não possa ser radical a esse ponto. Sou fadista mais como porta-voz. Ser fadista é, sem cair no nacionalismo exacerbado, ter um sentimento, uma consciência colectiva. Procuro ser porta-voz dessa alma. A alma de uma nação da qual canto em “Fado herói”: “nação vaga, branca e brava, espectro azul, a fé não voa, astro sorte aziaga, olha o grito, sobe à proa”. Tudo isto para dizer que o português está com os olhos não sei onde… Não sei se para a Europa se para o mar… Ou se para o infinito que também nos contempla de alguma forma…
P. – Em “Interlúdio” diz que “português sou eu, o mar e uma grande rocha”…
R. – Não é a minha voz. É a tal voz colectiva. Portugal a falar. É o português todo, o mar que nos dimensiona no mundo inteiro, e uma “grande rocha” porque quando olho no mapa vejo neste cantinho da Península Ibérica sempre a ponta de Sagres. Vejo Portugal a partir do cabo de Sagres. De resto, essa frase não é minha mas de um amigo meu, o Paulo Pinho.
P. – Como reage às críticas de alguns sectores fadistas mais tradicionalistas?
R. – Aceito as críticas todas desde que sejam sólidas. Mas tenho um relacionamento bom com a escola tradicional. Sempre que entro numa sala de fado eles imediatamente pedem-me para cantar. Tratam-me bem e não acho que haja nisso algum cinismo. Agora, há pessoas que podem ter uma discussão mais ou menos acesa, mas isso é normal, porque de alguma forma eu provoco um bocadinho. Eu quero estimulá-los.

“A Ordem É Amar!”
P. – “Vox Populis” é um apanhado de temas tradicionais. Como chegou a esta música?
R. – Tomei contacto com as raízes étnicas, não me considero um desenraizado. Esse tema é cantado num português arcaico, não se trata de dialecto nenhum, mas um raiano, forma de falar própria da zona fronteiriça. Ritmicamente faz lembrar a monofonia dos cantos de Trás-os-Montes. E tentei jogar com a ambiência, com os guizinhos das cabras do pastor e as velhotas a cantar em casa. Debrucei-me sobre alguma música transmontana e a parte ibérica que nos diz respeito. O tema poderá ser uma viagem com começo em Trás-os-Montes – uma zona de fluxo migratório bastante forte, nomeadamente para Espanha – de gente que parte para a Andaluzia.
P. – Afinal, é um revolucionário ou um tradicionalista?
R. – Sou a favor da tradição verdadeira, não da que existe hoje em Portugal. O importante é voltar às nossas raízes e descobrir o verdadeiro posicionamento de Portugal no mundo, o estado da nação. Sou revolucionário na medida em que busco a tradição na sua fonte e a procuro redimensionar.
P. – Que razão o levou a incluir os três excertos instrumentais, funcionando quase como separadores?
R. – São muito clássicos. Foram escritos por Rui Vaz, um novo compositor. Quanto à sua função, prende-se com a intenção de este disco ter um princípio, um meio – uma pausa para se poder reflectir – e um fim. Com cabeça, tronco e membros definidos, embora não seja um “concept album”.
P. – “O espírito da carne” é descaradamente comercial, com piscadelas de olho a um certo som na moda, uma mistura dos Madredeus e dos Enigma, com um toque de vozes búlgaras. Uma coisa “modernaça” que contradiz um pouco o resto do álbum…
R. – Vai ser o “single”. É o tema que se calhar pode espantar mais. É uma salsada que poderá ser como que uma síntese dos outros temas todos.
P. – A versão de “Sorrow’s child”, de Nick Cave, parece-me bastante pouco conseguida. Não estará deslocada num álbum que, como diz, pretende reflectir uma certa portucalidade?
R. – Foi um compromisso que assumi para comigo próprio e para com algumas pessoas. Costumávamos ouvir o Nick Cave… Não acho que esteja deslocada. A letra tem uma relação, “O filho da tristeza, da amargura”. Poderá ser um epílogo que se relaciona bem com o tema seguinte, “Cansaço”, um fado “a capella”.
P. – É uma pessoa amargurada?
R. – Não sou pessimista. Nem triste. Gosto de acção.
P. – Mas o álbum é triste.
R. – É triste. Um reflexo do estado de espírito do que me rodeia. Do mundo à minha volta. É um estado real daquilo que se passa., que não está realmente para grandes festas. Não se pensa nas coisas como se deve pensar. Este disco vai ser um alerta. Por isso a ordem é: amar!
P. – Portanto a salvação está no amor. Não receia que dito desta maneira corre o risco de cair no lugar-comum?
R. – Amar na globalidade. Numa perspectiva universal. Em “Pecado I” falo de uma mulher, Claudine, francesa, mecenas da arte, que conheci em Paris. É uma mulher que luta por uma forma de amar universal. Neste tema digo “com certeza que é pecado, dizem eles, eu amar desta maneira singular”. Sem especificar mais nada. Eu amo as coisas no seu todo. Acho que uma cebola é importante, por exemplo. O meu CD, a cassete-master, dormia sempre com ela. É uma forma de amar estranha…

“Morro E Nasço Todos Os Dias”

P. – Em “Baloiço”, toda a construção rítmica e melódica e uma frase em particular, “estou farto, o que eu preciso não sei, eu sei lá, é do que há-de vir ao Deus dará”, lembra de imediato António Variações. Uma identificação consciente?
R. – A música é do Carlos Maria Trindade e a letra minha. Letra cuja relação com António Variações é de certa forma consciente. Escutei e acompanhei a sua obra. O Carlos Maria Trindade também produziu um disco do Variações. Penso que a cumplicidade será mais dele.
P. – “Pecado II” e “Cansaço” são os dois únicos temas que não se afastam em demasia do fado tradicional. Teve receio de uma ruptura definitiva?
R. – Gosto muito de cantar os fados antigos. À minha maneira. No caso de “Pecado II”, tem um certo espírito coimbrão, no arrastar das guitarras, nas pausas, na utilização do baixo. De certa forma é um fado de Coimbra estilizado. “Cansaço” é um fado tradicional cantado, entre outros, pela Amália. O fado deve ter rasgos, deve ser batido, saltado, rasgado, esquartejado. E ter uma ambiência polivalente.
P. – Cansaço de quê?
R. – As palavras de Luís Macedo, que eu gostaria de ter escrito, dizem: “daí que tudo quanto faço não é feito só por mim”. A pessoa está cansada se calhar porque tudo não é feito só por ela. Não sei.
P. – A generalidade dos arranjos não é inocente. “Amai” aposta no mercado internacional?
R. – Totalmente. Apresentei esta música em Paris, num “café théâtre” “underground” por onde já passou por exemplo a Nina Hagen, e a aceitação foi boa. Com este disco quis mostrar que podia conjugar o fado em diversas perspectiva. Mas não foi nenhum laboratório químico de experiências. No terceiro pode ser que vá a “Amai” e selecione alguns caminhos. Com menos diversidade e uma postura mais linear.
P. – Quer dizer, com menos exagero? Não vai prosseguir o enunciado feito no “Epílogo”: “o exagero é a devoção daqueles que amam por perdição”?
R. – Tinha algumas frases que podiam encerrar o disco, passíveis de várias interpretações. Quando escrevi isso não tive a pretensão de ser poeta, de transmitir algo de novo. A intenção é pôr as pessoas a pensar. A perdição é o destino. Já estou a aceitar de antemão que devo amar. Nasce-se para isso. Quanto ao disco é de facto exagerado. Não um exagero barroco mas da alma. Morro e nasço todos os dias e acordo sempre com esse espírito. Uma vez escrevi “ai se enquanto ao menos eu pudesse de mim sair”. Gosto de sair de mim. Não podemos ser livres de nós. Não quero estar preso a nada.
P. – Não pensou em cantar as palavras de poetas portugueses conhecidos?
R. – Escrevo desde sempre. Em “Pecado II” escrevi “o pecado reina em mim, fugaz me trespassa a alma, não tenham pena de mim, nela só reina a calma”, tinha 17 anos. Não foi posto no primeiro álbum porque acharam que eu não podia escrever coisas assim com aquela idade. Gosto de escrever para mim mesmo. Sou um homem de acção. Gostava de poder realizar um filme. Preciso é de estar a fazer coisas e escrever é uma delas. Mas o que eu gostaria mesmo de fazer, se pudesse, era ter um grande estúdio em casa e ficar lá sempre a escrever.


AMAR EM FRENTE AO ESPELHO

PAULO BRAGANÇA
Amai
Ed. Polygram


Inútil falar de fado, pelo menos se não deitarmos para trás das costas as ideias feitas, a propósito do segundo álbum do cantor descalço. “Amai” é um conjunto de experiências cujo eixo passa pela voz de Paulo Bragança e em redor da qual se aglutinam ideias e sons, alguns deles originais, outros a roçarem o lugar-comum.
Goste-se ou não da sua atitude “provocatória”, o que não se pode negar é a apetência do cantor pelo risco, pelo teste constante das suas possibilidades, tacteando os limites da voz e o significado que tem, ou não tem, estender uma atitude, por ele ainda definida como “de fadista”, a áreas aparentemente incompatíveis com o fado. Há em “Amai” pretensões que poderão ser tomadas por pretensiosismo.
É um álbum barroco, florido, que vive dos sentidos que se lhe quiser emprestar. Clássico a rondar o “kitsch”, como nos três excertos instrumentais “Prelúdio”, “Interlúdio” e “Epílogo”, ou investigando a capacidade de resistência da música tradicional, como em “Vox Populis” – tema digno de um Marc Almond, que vai da inocência do pastor À sanguinolência do matador -, “Amai”, a cada momento, se por um lado desafia o convencionalismo, por outro não consegue evitar recorrer a certas fórmulas de produção que não escondem o desejo de um som politicamente correcto e exportável.
Temas como “O espírito da carne” ou as duas variantes de “Fado herói” vão por onde é mais fácil, por caminhos abertos por outros, de Rodrigo Leão aos Madredeus, isto para fazermos de conta que ninguém andou a ouvir Michael Nyman. Tomemos por brincadeira a versão de “Sorrow’s Child” de Nick Cave, cantada em inglês. Ou como mais uma provocação, neste caso não muito bem sucedida. Tais pecados são porém compensados pelo modo como Paulo Bragança dá um rosto novo a canções como “Adeus”, dos Heróis do Mar, ou ilumina o espaço deixado vago por António Variações em “O baloiço”.
“O farol”, outro dos momentos altos de “Amai”, confirma a importância de Carlos Maria Trindade como produtor e compositor, enquanto em “Pecado I” é o próprio Paulo Bragança a revelar as suas capacidades de composição. É preciso esperar até “Pecado II” e pela interpretação “a capella” de “Cansaço” – escurecido pela sombra de Amália – para o fado se libertar do luxo de roupagens que por vezes lhe ficam demasiado pesadas e transformam a riqueza em ostentação.
Talvez seja esta, de resto, a perdição maior de “Amai”: um gosto pelo excesso que se torna numa faca de dois gumes. Evidentemente, Paulo Bragança, na assunção desse exagero, tem consciência do perigo que corre. Nem todos conseguirão engolir a espampanância nem levar a sério a portugalidade afirmada de forma ambígua, por vezes perversa, ao longo desta conjugação muito pessoal do verbo amar. A Paulo Bragança falta derrotar o mais temível Adamastor – o narcisismo – para conquistar o mar. (7)

João Braga – “João Braga Cantou Ao Vivo Fados Do Seu Novo Disco – Em Nome De Um Fado Universal”

cultura >> sábado >> 10.09.1994


João Braga Cantou Ao Vivo Fados Do Seu Novo Disco
Em Nome De Um Fado Universal


Com a bandeira nacional monárquica por fundo, João Braga apresentou no palácio dos condes de Óbidos o seu novo álbum “Em Nome do Fado”. Ainda e sempre numa via aristocrática e universalista, desta feita com a presença, no disco e ao vivo, de Rita Guerra e alguns representantes da nova geração de fadistas. Ainda sobrou tempo para bater no bobo da corte, Sousa Cintra.



João Braga apresenta-se pelo menos com duas qualidades: a de monárquico e a de sportinguista. A voz que tem é que já não é a mesma de outros tempos, facto que, tendo em conta os 28 anos que já leva de carreira, se compreende e tem que aceitar. O bom gosto na escolha do reportório e dos convidados para este seu novo disco – “Em Nome do Fado”, com o selo Strauss – compensam no entanto tal fraqueza.
As costelas monárquica e sportinguista, essas, continuam tão fortes como nunca. Assim se compreende, de resto, o local e a simbologia utilizados para a apresentação do disco: o palácio dos condes de Óbidos, no fim da tarde de quinta-feira, com as cores da coroa portuguesa bem em evidência na bandeira azul e branca com o escudo e a coroa, estendida a servir de pano de fundo à actuação do fadista. Logo no princípio, antes de dar início à mini-actuação que serviu para apresentar “Em Nome do Fado”, João Braga chegou mesmo a cantar os “Parabéns” a um aniversariante presente, Francisco van Uden, em quem o fadista gostaria de ver um “herdeiro” ao trono de Portugal.
Antes dos fados e depois dos canapés, João Braga falou, falou bastante. Do fado e da sua recusa em deixá-lo cair nas vielas da má vida. Dos guitarristas que no disco e na ocasião o acompanharam, José Luís Nobre da Costa, Pedro da Veiga, Jaime Santos Jr. E Joel Pina. Das palavras e dos poetas que gosta de cantar. Lamentou a opinião de certos críticos, “alguns de nomeada”, e insurgiu-se contra quem recentemente descreveu o fado como “flamenco impotente”. Até porque o flamenco, disse, enquanto designação genérica e ao contrário do que o senso comum acredita, “não se dança”, enquanto o fado, “sim”, além “de falar ao coração”, também “faz pular o pé”.
João Braga aludiu ainda ao “golpe de Estado que deu nome à ponte” e explicou a razão de ser do título do novo álbum, “trocadilho” do filme “Em Nome do Pai”. Por fim, cantou. Cinco temas retirados de “Em Nome do Fado”: “Ali, então”, com letra de Sophia de Mello Breyner, “Na Rua do Silêncio”, imortalizado por Alfredo Marceneiro, “Fado de Lisboa”, com texto de Manuel Alegre, “Samba em Prelúdio”, poema de Vinicius de Moraes e música de Baden Powell, e a participação de uma Rita Guerra com voz de fazer vento e calças de boca de sino ao estilo carrilhão de Mafra, e, a finalizar, uma desgarrada, “Sul versus Norte (com alguns versos pelo Centro)” que, à semelhança do disco, contou com as vozes de quatro dos mais jovens e promissores fadistas nacionais: Sancha Costa Ramos, Maria Ana Bobone, Miguel Capucho e Rodrigo Costa Félix. Os três últimos prestes a lançar o seu próprio projecto discográfico, “Alma Nova do Fado”.
Uma alma que se acendeu sobretudo em Rodrigo Costa Félix e nessa grande cantadora de fado que é já Sancha Costa Ramos. A Miguel Capucho, mais nervoso, coube a responsabilidade de cantar, na passagem pelo Centro, a parte de fado de Coimbra que no disco é assegurada por António Bernardino. O nervosismo acabou por passar para a cantora do lado, Maria Ana Bobone, que teve um bom começo mas concluiu hesitante.
No final, o autor de “Em Nome do Fado” não se coibiu de ler uma carta que a propósito lhe foi endereçada por António Bernardino onde este tece alguns comentários menos elogiosos à figura do presidente do Sporting, Sousa Cintra, o tal que João Braga considera “estruturalmente desonesto”. Com ou sem justa causa.

Amália Rodrigues – “Amália Rodrigues Celebra Aniversário Televisivo – Prendas Em Directo”

cultura >> sábado >> 02.07.1994


Amália Rodrigues Celebra Aniversário Televisivo
Prendas Em Directo



Parabéns , Amália! Com o patrocínio da Quatro. Amália fez ontem 74 anos de idade. A televisão da Igreja resolveu celebrar, organizando uma festa, mais uma, de homenagem, no Largo do Município. A diva apareceu na varanda do edifício camarário, aguentou estoicamente o estendal de banalidades, ensaiou uns passos de dança e tentou mesmo puxar pela voz, dando corda a uma tuna estudantil.

Tudo começou por volta das 22h, com o desfile dos fadistas, juniores e seniores, vencedores do Grande Prémio do Fado de 1993 e 1994. Ficaram na memória a voz maravilhosa de Alda Isabel, com 13 anos e uma voz como não há muitas, e na retina o alucinante microvestido negro, acompanhado igualmente por uma bela voz, de outra concorrente sénior, que nos lembramos de ter visto na televisão, mas de quem o vento levou o nome.
A partir das 23 h, a TVI passou a transmitir o acontecimento em directo, com a apresentação de Maria de Lima e Tó Zé Martinho. Aliás, estava tudo montado para o espectáculo de televisão, com as cerca de mil pessoas que se aguentaram estoicamente de pé e ao frio no local a serem desviadas para os lados e para trás do palco.
Foi tudo um bocado triste de se ver. Aos fadistas seguiu-se a Tuna Estudantina Universitária de Lisboa, com os seus temas popularuchos aos quais Amália, nessa altura já de pé na varanda da Câmara, procurou responder, lançando umas notas soltas ao vento e bailaricando com aquela desafectação que se lhe conhece.
A “gaffe” da noite veio com um indivíduo já um tanto ou quanto bebido que, ouvindo à sua maneira os primeiros acordes de acordeão, num dos temas da tuna, logo exclamou em júbilo: “Olha, é aquela do bacalhau!”
Noutro ponto da praça, um casal de baixa estatura chamava as atenções pela maneira como resolveu o problema da falta de estatura, graças a um engenhoso dispositivo de espelhos, construído segundo os princípios ópticos do periscópio, que permitia ver tudo o que se passava por cima das cabeças.
Os inevitáveis parabéns, entoados de forma espontânea pela pequena multidão, apanharam desprevenida a Quatro, logo por azar, durante um dos vários intervalos publicitários da noite. Mais tarde, “televisão oblige”, lá se forjaram uns novos parabéns, tecnicamente mais perfeitos, registados para a posteridade, com bolo de velas e tudo onde era bem visível o símbolo da Quatro.
Houve ainda uma serenata de fados por antigos estudantes de Coimbra e muitos agradecimentos recíprocos. O desfile da marcha popular da Madragoa, vencedora deste ano, aconteceu a horas impróprias, perante uma assistência diminuta que nessa altura, cumpridas as obrigações da efeméride, rumara já na maior parte para vale dos lençóis, que o dia seguinte era de trabalho.
Num golpe tecnicamente prodigioso, a TVI superava o paradoxo do espaço-tempo e transmitia, com a indicação “em directo” ao canto do ecrã, uma retrospectiva das marchas, com Beatriz Costa e Vasco Santana a entrarem ao vivo e em directo na casa dos telespectadores.
E Amália? Amália merece tudo, por todas as razões. Há, aliás, duas Amálias. A Amália, pessoa simples que não veste o verniz do estrelato, que baila e chora por tudo e por nada. Uma Amália que não é símbolo nem imagem de nada senão dela própria, e a Amália que vive em nós, ideal e mitificada. E, no meio, a sua voz, oferenda dos deuses. Não interessa saber qual das duas é a mais verdadeira. Há uma pureza intrínseca em cada uma delas. A pureza onde se revê todo um povo e o faz venerá-la para além do fado, do negro fado de se ter nascido português.
Está certo, e ela não se importa, que lhe chamem símbolo vivo de Portugal. Há nela uma certa pieguice, um sentido trágico da vida e uma falta de noção de grandeza, que é em si já uma forma de grandeza, que definem bem a nossa original maneira de ser. Mas, mais importante que os nossos sonhos e a nossa paralisia disfarçada com as bandeiras de um qualquer império que há-de vir, se vier, é que Amália teve e tem a coragem de ser apenas ela própria. E de se ter abandonado até ao fim e enquanto pode a um destino e a uma vocação maiores que ela e que nós. Amália foi, é e será somente Amália. Sem fingimentos, sem maneiras falsas nem intermediários.
Por isso é bom que Amália chore sem razão, só porque sim, como uma criança que não perdeu a capacidade de se emocionar consigo própria. A água cura. A água das lágrimas sem propósito de Amália cura-nos. Parabéns, Amália!