Arquivo da Categoria: Dança

Natasha Atlas – Halim

13.06.1997
Natasha Atlas
Halim (7)
Beggars Banquet, distri. MVM

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Estávamos receosos à partida. Sim, sim, de quem alinhou no passado com Jah Wobble, esse mamute do baixo, são sempre de esperar os efeitos nefastos da sua influência. Sejamos directos: a ameaça de um nome, nós pusemos-lhe um, a temível, a horrenda, a tenebrosa “etno seca”. Foi, pois, com as mãos trementes que pusemos a rodela a girar.
Espanto! De “seca” nem um traço. “Halim” dá, pelo contrário, uma irresistível vontade de dançar, levando de vencida todas as resistências. Assumindo por inteiro as suas raízes árabes, Natasha investiu na sensualidade da sua voz, rodeando-se de programadores imaginativos para tirar o máximo partido desta insinuante aproximação “etno tecno” à música “rai”. A cadência vai abrandando imperceptivelmente à medida que as faixas se sucedem, emergindo então a faceta mais melancólica da música árabe, na qual Natasha Atlas se mostra ainda mais cativante, até ao momento culminante em que o futuro toca nas raízes, quando a cantora se faz acompanhar pela Orquestra de Essama Rashad, no tema composto por este, “Ya albi ehda”.

Estelle Montenegro – Lakeside

03.11.2000
Estelle Montenegro
Lakeside (7/10)
Elektrolux, distri. Symbiose

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A música de Estelle Montenegro, essencialmente um projecto monitorizado por Kenneth Graham, é fria, gelada, tão gelada como a imagem do lago à luz do crepúsculo fotografado na capa. Tem que se entrar com cautela e de forma gradual nesta grande superfície de sonoridades electrónicas, nas quais o elemento humano parece estar ausente. Caso contrário, corre-se o risco de se cair em estado de hipotermia. “Lakeside” não se distingue sobremaneira de uma quantidade de outros projectos emanados da editora Elektrolux. É electro puro e duro na sua vertente mais mecanicista e destituída de calor humano. Mas, apesar da rigidez formal, ou talvez por causa dela, “Lakeside” acaba por exercer um estranho fascínio. Como um maquinismo posto em funcionamento para durar uma eternidade, no qual, aos poucos, se vão percebendo “nuances” e subtis movimentos secundários. Até ao quinto tema, ligeiros choques de “house” suavizam a inflexibilidade maquinal da música, mesmo assim aligeirada pelo chillout galáctico de “Planetary Flavor”. A partir daí, porém, a música espalha-se até às margens como as ondas circulares de água atingida pela queda de um corpo estranho. Surge um piano digital timidamente jazzy e percebe-se o desejo de evasão. É quando “Lakeside”deixa de ser apenas uma máquina para se mostrar disponível para fazer dançar outras áreas do cérebro. Porque é de um disco de música de dança, embora a baixas temperaturas, que se trata. Um disco que, no fim de contas, até se mostra capaz de provocar a intriga e “suspense” em temas como “Still breathing” e “Inner Demons”.

Orbit Experience – Space Beat (conj.)

13.10.2000

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Orbit Experience
Space Beat (7/10)
Netzer
Pressing (6/10)
Pauls Musique, distri. Symbiose
Orbit Experience e Netzer são dois novos projectos oriundos da Alemanha que têm a uni-los a presença em ambos de Markus Kössler (baixo) e Markus Birkle (guitarra e ruídos). Divergem, no entanto, na orientação musical. Em “Space Beat” confluem coordenadas como o pós-rock (como ficou tipificado na sua fase já degenerativa), o drum ‘n’ bass e o jazz, modelados por uma estética geral conotada com a música de dança, com o trompete e o piano Fender Rhodes de Sebastian Studnitzky a encaixarem no Groove electrónico e na bateria de Flo Dauner. No longo tema de abertura, “Ddr”, não estão longe do espírito das bandas de jazz rock mainstream, com solos de guitarra de fazer água naa boca aos aficcionados do género. Mais compensdadora é a faceta demonstrada em “Orbit in Moscow” e “Freedom jazz dance”, algures entre o jazz pedestre dos St. Germain, sem “house”, e o jazz programático de Jessica Lauren. Nos Netzer é formulado um convite: “Descontraiam-se e apreciem esta viagem ao espaço sideral minimalista.” “Pressing” é, de facto, minimalista – um jazz contemplativo feito de ecos e refracções dos teclados (com o piano eléctrico de novo em destaque) sobre bases rítmicas mais complexas e subtis que as dos Orbit Experience. Jazz, paredes meias com a electrónica e, uma vez mais, com a lição de Canterbury bem estudada. “Kanzler”, “Mini loop” ou “Mailin” farão as delícias dos admiradores dos saudosos Gilgamesh e do seu já falecido pianista Ala Gowen. Ao contrário de “Space Beat”, “Pressing”, uma “gravação ao vivo com atmosfera electrónica adicional”, dá pouco jeito para dançar. O sample vocal de “Mini Loop” explica tudo bem explicadinho, inclusive a presença de “Maiden voyage” de Herbie Hancock.