Os velhos activistas não desistem. Mas o que era lenda foi trocado pelo esforço em manter viva a subversão que, há mais de 30 anos, fez de “Faust”, “So Far” e “The Faust Tapes” a trindade maldita e, depois de Zappa, a segunda principal revolução do rock moderno. “Patchwork” repete a fórmula que deu origem à obra-prima “The Faust Tapes”. Mas se essa imensa colagem tem a consistência de um gigantesco organismo com vida, o novo álbum limita-se a recolar excertos da discografia prévia dos anos 70, 80 e 90, remisturando-os de maneira diferente. Para os incondicionais pode ser um jogo delicioso redescobrir segundos de ruídos familiares ou pedaços de canções como “It’s a rainy day, sunshine girl”, ocultos sob um denso manto de cacofonia. Trata-se, afinal, de pôr em prática o que o produtor Uwe Nettlebeck já preconizava em 1973: “Sempre gostámos da ideia de editar discos que pareçam inacabados; em que a música soe como um ‘bootleg’, como se tivesse sido gravada por alguém que ao passar por um grupo qualquer a ensaiar gravasse e montasse tudo de forma selvagem.”
Vários
Klangmaschine
Mille Plateaux, distri. Ananana
7/10
Vários
A New Guide to Sound Sculpture and Invented Instruments
FMR, distri. Sonoridades
8/10
Está por comprovar a veracidade científica do registo de vozes de mortos captadas em fita magnética pelo Dr. Konstantin Raudive (1909-1974, na foto), natural da Letónia, editadas em 1971 em forma de livro e disco (“Breaktrough: An Amazing Experiment in Electronic Communication with the Dead”). William Burrougs serviu-se deste material, no qual encontrou paralelismos com as suas técnicas de “cut-up”, o mesmo fazendo os Smiths com a inclusão de um excerto destas vozes no final de “Rubber ring”: “You do not want to believe: You are sleeping”.
“Voices of the Dead” vai mais fundo, numa espécie de seesão de espiritismo ou de ficheiros secretos manipulados por Scanner, Lee Ranaldo, David Toop, DJ Spooky, Random Inc. e Ensemble, que transformaram sonicamente as fitas originais compiladas e catalogadas, consoante a sua maior ou menor perceptibilidade auditiva, em “A”, “B” e “C”. Nos interins é possível escutar as vozes à deriva dos defuntos, a par de explicações técnicas. O resultado também tem a ver com o mundo das sombras, em registos que vão da electrónica infernal a frequências soltas e puro ruído residual. As excepções são DJ Spooky, que ensaia um groove saído da tumba, em “Cadavre magnétique”, e Brett Dean, em viola de arco solo. Nos 11 minutos finais preenchidos por algumas das experiências, comentadas pelo Dr. Raudive, pode-se ouvir os mortos a pronunciar frases como “Yet, at night God’s air is free” e “Good evening, I’d like to drink your wine with you”. Música “soul” levada a este extremo é de morte. Além das questões éticas que levanta em matéria de direitos de autor.
“Klangmaschine”, ou “máquina de som”, é mais “vivo”, ainda que o tema seja ainda a morte. Parte de uma análise musical e sociológica de Marcus S. Kleiner e Marvin Chlada para chegar à tese de que a pop, na melhor das hipóteses, é um “zombie”. As teorias de McLuhan confundem-se com magia, teorias sobre som e comunicação, citações de Rosa Luxemburgo, Valerie Solana e “2001” de Kubrick, e a música industrial (pau para toda a obra ao negro), ambient, dub, tecno, deep house, em “metamachines”, “liebemachines”, “reproduktionmaschines” e toda a espécie de temas-“maschines” postos a funcionar por Terre Thaemlitz, Tim Hecker, Taylor Dupree, Snd e Frank Brestschneider. Cordell Clier lembra na sua “Schreibmaschine” até que ponto os Kraftwerk foram os primeiros andróides electrónicos e John Harding leva-nos através de uma “world music” digital, enquanto Alva Noto se resguarda na “house” abismal dos Pan Sonic.
Em “Sound Sculptures” o som organiza-se como matéria lúdica, em mais uma série de experiências, prolongando procedimentos ideológicos da música concreta e acusmática. A noção de “autor” esbate-se em detrimento de um sincretismo sonoro universal em que a música nasce menos da escrita matemática do que da manipulação directa, do toque e da textura. Entre as presenças de Hugh Davies e Max Eastley, uma cintilante “Piezo’s tower” interpretada em esculturas/gongo de metal, “6 stations” electroacústicas e tribais de Derek Shiel e uma “Suite” de François & Bernard Baschet que decalca Moondog, chama-se a atenção para o tema final, “Dark Brother”, “statement” em bruto com a assinatura de Harry Partch, nome lendário das “novas músicas” não eruditas – intuitivas, “imperfeitas” e possuídas por uma raiva interior.
Um dos principais problemas das bandas que vão buscar inspiração às décadas de 70 e 80 é terem a alma pequena. Assimilam por vezes apressadamente determinadas fórmulas ignorando a matéria de fundo. Os japoneses (que nutrem especial simpatia pelo rock progressivo) Ruins fizeram a sua selecção com método e rapidez. Combinam “hardcore”, uma atitude simultaneamente visceral, intelectualizada e “punk” para fabricar algo que bebe em Frank Zappa e nos Magma (juntos em “Mennevuogh”), nos King Crimson e na psicose “nonsense” dos Renaldo and the Loaf, embora sejam igualmente apregoadas a lições dos Henry Cow, Area e This Heat. São guitarras abrasivas de cepa crimsoniana, explosões de “noise”, vocalizações entre o épico e o operático furibundo, batidas marciais, síncopes e acelerações brutais sucessivas que respeitam a mesma ordem de prioridades que fez o grupo passar anteriormente pela editora Tzadik, de John Zorn. “Tzomborgha” não é tanto um caso de revisitação desmiolada do passado como a filtragem do espectro de frequências de algum do rock progressivo mais radical. Ou do que restou das suas ruínas.