pop rock >> quarta-feira >> 31.05.1995
world
Argonautas Do “Bello Vino”
LA CANTARANA
Le Joli Moulin – Canti e Danze Tradizionali Del Pinerolese (8)
Associazone Culturale La Cantarana
LA RIONDA
Capitan De Gran Valore – Musica Tradizionali Della Liguria (7)
Robi Droli
RITMIA
Forse Il Mare (8)
New Tone
Todos distri. MC – Mundo da Canção

Constituindo até há bem pouco um mercado pouco explorado, a música tradicional proveniente de Itália ganhou nos últimos anos um espaço e um impulso maiores nas atenções e nos gostos do consumidor nacional, muito por força dos discos e dos concertos realizados no nosso país pelos La Ciapa Rusa e Barabàn, dois grupos representantes da vertente céltica do Norte de Itália, aos quais poderemos ainda juntar o acordeonista toscano Riccardo Tesi. Aberto esse espaço, o interesse suscitado justifica uma investigação mais ampla e profunda de outros nomes oriundos de Itália. Os La Cantarana não andam longe nem dos Ciapa Rusa nem dos Barabàn, já que a sua região de origem é a mesma, o Piemonte, com incidência nas músicas da planície do Pinerolese e dos vales de Chisone e Germanasca.
Arredados do espírito de transgressão e inovação que denotam aqueles dois grupos, a contrapartida manifesta-se numa maior proximidade das raízes por parte dos La Cantarana que deste modo evidenciam um contacto mais estreito com o espírito das comunidades rurais e dos seus rituais colectivos, em especial os do “bello vino”, como em “Chanson du buveur” e “Buvons buvons”. Uma das particularidades curiosas reside na utilização do francês, língua que em certas zonas do Piemonte se mestiçou e misturou ao piemontês e ao chamado “patouá”. Polifonias corais como “Le joli moulin”, “Dessur la fleur da Lys”, “El Pui e la puglia” e “Buvons buvons” (a propósito de vinho, alguém sabe da existência em compacto do fabuloso disco “Le Galant Noyé”, dos Le Bourdon, gravado na Le Chant du Monde. Que maravilha, e que sabor, um tema como “La jolie vigne”…) têm a complexidade e o polimento de uns Malicorne, enquanto “La fènno louerdo” se inscreve num universo que intercepta o dos Ciapa Rusa. Com a sanfona (“ghironda”) a ditar as leis, a saliência vai para um tema que “enche” todo o disco, “La femme d’un tambour”, com uma tocante vocalização de Ornella Galetto, uma senhora que por vezes recorda a saudosa Donatta Pinti, dos Ciapa Rusa, o mesmo acontecendo em “Dans la ville de Gênes”, outro tema a pedir repetidas audições. Um “must” para os italianófilos.
Os La Rionda, de Génova, trazem sons mais picantes e salgados. “Brani” e velhas canções e ritmos de baile (polcas, jogas, valsas) são recuperados e adaptados, determinando uma componente de dança bastante mais marcada do que nos La Cantarana. Outra grande voz feminina: Laura Parodi. A sua gloriosa interpretação em “Maria Giovana” (que por sinal tem pelo meio uma “Aria di vino”…) ultrapassa qualquer tipo de adjectivações. Uma voz de contralto que chegou a causar um certo “escândalo” numa ocasião em que ousou substituir o típico “falsetto” masculino num grupo de “trallallero”, tradição vocal fortemente implantada na região de Génova, em risco de se perder.
Finalmente, se os La Cantarana penetram mais fundo na terra, através das escavações da sanfona e do “organetto” (acordeão), os La Rionda filiam-se sobretudo nas escolas violinística e do clarinete – disseminadas em várias zonas de Itália – mais extrovertidas e de cunho imediatista.
Do passado revisitado com alguma reverência pelos La Cantarana e La Rionda, o salto é enorme para os Ritmia, num álbum que em 1986 agitou a cena da música tradicional italiana. Escrito pelos quatro elementos do grupo, Alberto Balia, Enrico Frongia, Daniele Craighead e … Riccardo Tesi, na sua fase anterior às colaborações com Patrick Vaillant (a dupla tem um disco novo “Colline”), “Forse il Mare” é composto por quatro temas, três dos quais bastante longos, onde as influências tradicionais são filtradas por uma linguagem que ora se aproxima do jazz ora dispara em estruturas minimalistas/hipnóticas de conotação arabizante. Uma espécie de “free folk” que apenas se rege pelas regras pessoais dos seus executantes. Instrumentos como a gaita-de-foles, o “organetto”, a guitarra, o saxofone, o clarinete, a flauta de bisel, o pífaro de cana, o sintetizador e percussões várias juntam-se a vozes que poucoligam ao convencionalismo numa aventura onde a liberdade de processos se conjuga com uma criatividade constante. É como andar na montanha russa.