Para os Mogwai o termo pós-rock (ou “cosmic post-rock””, como os descreve o All Music Guide) continua a fazer sentido, como o demonstra o seu último álbum, editado no ano passado, “Happy Songs for Happy People”. As linhas metronómicas de baixo e bateria que regra geral definem esta corrente estão presentes, a par de quadros abstractos servindo de cenário a experiências de música electrónica/ambiental como “Moses? I amn’t”, tão árida e profunda como os desertos nocturnos dos Stars of the Lid, e “Stop coming to my house”, que não esconde as mesmas pretensões épicas dos gybe!. “Kids will be the skeletons” balança em sintetizadores longínquos e sonhadores directamente inspirados na música de Brian Eno de “Another Green World” ou, mais tardiamente, nos Labradford. O tema evolui em crescendo (leia-se, aumentando de volume e a quantidade de instrumentos ou “takes”), estratégia que quase sempre resulta satisfatória, ainda que, por norma, a um nível meramente superficial. “Boring machines disturbs sleep” acumula “feedback” residual na linha dos Main mas nada no álbum consegue ser notável, ainda que a combinação de piano obsessivo e imagens cristalinas de sintetizadores, em “I know you are but what am I?”, consigam construir algo mais forte e consistente naquela que é, de longe, a melhor faixa do disco – ou, pelo menos, a que condensa e mantém um estado de espírito mais duradoiro.
Mas as canções de “Happy Songs for Happy People” não são tão felizes como isso (o pós-rock raramente o foi) e os Mogwai 8que dia 5 e 6 se apresentam em Lisboa e Gaia) como tantas bandas do género que ficaram pelo caminho ou se mudaram para diferentes latitudes, pecam pelo habitual: a música parece, amiúde, incompleta, sugerindo como uma base ou os rudimentos de algo com mais corpo que ficou por gravar. Como se alguém se tivesse esquecido de a completar. Ficam esqueletos e formas geométricas com algum interesse, mas o mundo de sons fantásticos que mesmo algum pós-rock produziu está para além das possibilidades da banda de Glasgow. Ao vivo é de esperar um reforço de energia, mas “cósmico” é, definitivamente, um termo que não assenta bem aos Mogwai.
Mogwai
Lisboa | Paradise Garage
R. João de Oliveira Miguéis, 38. 5ª, 5, às 21h30.
(portas abrem às 21h) Tel. 213243400. Bilhetes: 19€
1ª parte: Malcom Middleton (Arab Strap)
Gaia | Hard Club
6ª, 6, às 22h, €19
1ª parte: Malcom Middleton (Arab Strap).
01.10.2004
Néon
Ana da Silva
Menina Que Estás À Janela
Tudo partiu de um sonho e do desejo de fazer algo sozinha depois do fim das Raincoats. Ana da Silva sonhou que andava à deriva no mar, procurando tocar a luz de um farol. Chamou ao seu disco de estreia “Lighthouse”, que sairá em Novembro pela editora das Chicks On Speed.
Um farol brilha na escuridão. Em volta o mar agitado por ondas alterosas envolve-lhe o corpo, aproximando-a e afastando-a, num incessante movimento de fluxo e refluxo, da luz que brilha no cimo da torre de pedra. Ana da Silva, madeirense a viver em Londres e antigo elemento do grupo “indie” The Raincoats, teve este sonho e aproveitou-o para título e mote central do seu álbum de estreia a solo, “The Lighthouse”, a editar em Novembro na editora das Chicks on Speed.
“The Lighthouse” é a torre de orientação. Ana da Silva, ora com os olhos postos no mar ora fixos nos recantos do seu quarto interior, parece uma criança perdida, a correr à chuva atrás de um impossível brinquedo. A música, escrita, arranjada e executada pela própria, é assumidamente simples e introspectiva. O autocolante da capa chama-lhe “electric folk” mas é falso. O universo de faz de conta, a presença dos elementos naturais e uma forte dimensão imagética recordam ocasionalmente os mundos escondidos de Lisa Germano. Mas Ana da Silva não pretende mais do que retratar (ela pinta e faz fotografia como passatempo) estados de espírito provocados por coisas tão humanas como a amizade, o medo e a tentativa de encontrar um sentido para a existência.
O disco foi sendo feito aos poucos. As palavras foram-se juntando, depois vieram os sons, num beijo estreito. Extinto o grupo que tão rasgados elogios recebeu de Kurt Cobain, dos Nirvana (uma digressão conjunta chegou a estar marcada só que entretanto o poeta do “grunge” morreu), Ana da Silva não ficou parada: “Resolvi que havia de fazer qualquer coisa sozinha e comecei lentamente a pensar em como fazer, a escolher umas letras, a mexer um bocadinho na guitarra, até que encontrei uma aparelhagem electrónica que me permitiu fazer tudo eu própria, um pequeno sequenciador com teclado acoplado, uma maquineta Yamaha.” As músicas foram surgindo para acompanhar as letras. “Fui andando, trabalhando sempre, tive que aprender tudo o que tinha a ver com tecnologia MIDI, arranjei um gravador… Antes não percebia nada, fui aprendendo por mim própria…”
Por fim, chegou a um resultado definitivo, pegou na gravação e mostrou-a a Paul Smith, patrão da editora Blast First que já tinha editado um disco das Raincoats. “Para lhe pedir a opinião e conselhos, é uma pessoa muito conhecedora que gosta de coisas diferentes.” Ele gostou e mostrou-a por sua vez às Chicks on Speed, quando estas foram a Londres dar um concerto. A Chicks também gostaram de “The Lighthouse” e ficou decidido que o álbum sairia no selo delas. Pelo meio, um dos temas, “Modinha”, conta com a participação de Stuart Moxham, ex-Young Marble Giants. Um tema de António Carlos Jobim e o único cantado em português. “Esta canção foi feita antes do meu disco e faz parte do projecto de uma editora francesa com versões de músicas do Jobim. O Stuart telefonou-me a perguntar se eu queria cantar uma música do Jobim, eu disse que sim e escolhi esta, que não conhecia.”
Depois há a luz e as sombras que atravessam janelas, várias janelas. A janela de um hospital, diante da qual Ana da Silva passou um dia inteiro, numa visita à mãe internada, agarrada ao seu módulo electrónico – “é uma coisa pequena, com uma ficha para ligar à electricidade e levei uns auscultadores”, que deu origem ao instrumental “Hospital Window”. Ou as janelas sobre as asas do avião em que viajava para a Madeira e onde compôs “Two Windows over the wings”.
“As janelas separam o aqui do resto”, diz. O “aqui” é “The Lighthouse”, o lado de dentro, dos sonhos e das histórias, o “resto” pode ser a passagem do tempo e a observação das coisas. Ou as músicas que ao longo dos últimos anos foi ouvindo, “blues”, Chemical Brothers, Jim White, Miss Kittin. O farol, “uma janela de luzes”, o tal sonho. “Eu estava na água e queria chegar ao farol mas ficava ali, para a frente e para trás, sem o alcançar.” A capa, uma foto tirada por Ana numa praia em Sunderland, ao pé de Newcastle, mostra uma onda. “Estava no cais, quando vinha uma onda havia outra que a empurrava para trás, nunca chegavam a bater, senão tinha morrido” (risos) – “gosto do mar”. E gosta que a sua música crie imagens nas pessoas que a ouvem. “sou uma pessoa bastante visual, sou capaz de estar a ver um filme e estar interessada mais no que estou a ver do que na história. Gosto de olhar para as coisas, de tirar fotografias, de pintar.”
“The Lighthouse” é um disco melancólico mas Ana da Silva recusou a autobiografia explícita. “Senti-me um pouco como uma criança perdida”. “Calhou”, explica, “escrever nos momentos de maior melancolia, quando se está sozinho com os próprios pensamento”. Mas esclarece de seguida: “Mas não sou depressiva! O que eu sempre quis fazer com as minhas músicas é que, apesar de terem melancolia e mostrarem a solidão, apresentam sempre uma nota positiva. Muitas das canções acabam no fim por mostrar uma certa esperança.”
Escrever Cuidadosamente Palavras
Cada canção de “The Lighthouse” traz consigo um pequeno filme, um fragmento de viagem ou de memórias. “Friend” fala da “amizade e da separação, geográfica, ou quando uma das pessoas morre”. “Running in the rain” é um bocado mais complicada, escrita na terceira pessoa. “Às vezes escrevo na primeira pessoa mas nestes casos prefiro que não se saiba, não sou eu que estou a pensar isso, são canções não é uma autobiografia. Esta tem mais pedacinhos, é sobre uma mulher que continua a correr, apesar da chuva, À procura de alguma coisa…” E Ana da Silva, anda à procura de quê? “não sei, ando sempre a tentar descobrir coisas novas.” E como a inspiração vem quando menos se espera, Ana nunca se separa de uma caneta mesmo que esta, na maior parte das vezes, sirva para concretizar gestos tão comezinhos como o “preenchimento de um cheque” ou “apontar um número de telefone”. Em casa escreve e apaga e escreve outra vez cuidadosamente cada palavra, com um lápis e uma borracha.
O fascínio da imagem torna-se ainda mais evidente em “In awe of a painting”. “Vi um filme sobre o pintor Jean-Michel Basquiat, de quem gosto imenso, passa-se em Nova Iorque e senti-me como se estivesse dentro de um filem. Há uma cena que me marcou, onde alguém sente as lágrimas virem aos olhos apenas pela visão de um quadro. Essa capacidade de se ser tocado por uma pintura achei extremamente interessante. ‘In awe’ significa esse estado de espírito entre o espanto e o êxtase.”
“Disco ball” é o aproveitamento de um equívoco. “Há um disco da Madonna em que ela canta ‘I feel I just been born’. Mas a primeira vez em que ouvi essa canção percebi ‘I feel like a disco ball’, percebi mal. Gostei imenso deste novo verso e como ela não o tinha escrito achei que o podia utilizar. O problema estava em escrever o quê sobre alguém que se sente como uma bola de discoteca. A resposta é que ela reflecte o que está em volta. Há coisas que nos fazem brilhar e coisas que nos quebram.” A terminar “Climbing wall” fala do amadurecimento, do que sentimos à medida que a vida vai passando. “Amadurecemos, mas há sempre em nós uma parte, a tal criança perdida. Quando somos novos achamos que as pessoas são o aspecto que têm. Se têm cabelos brancos são velhos, se não têm são novos, as pessoas de meia-idade são outra coisa. Não é assim. Há pouca coisa que muda dentro de nós, aprendemos algumas coisas, ficamos mais ou menos tolerantes. Eu fiquei mais tolerante, entendo que as pessoas são todas diferentes. Somos aquilo que somos por dentro e é difícil fugir a isso. Temos que procurar limar as nossas arestas mais agudas.”
33 anos de carreira, 20 álbuns de originais ao longo dos quais a cantora e compositora canadiana tem escrito e reescrito a sua própria história. Um universo pessoal, tão musical como pictórico, sem paralelo na enciclopédia dos grandes singers-songwriters norte-americanos. Desta longa viagem confessional retirámos cinco momentos que são outros tantos álbuns de retratos. Uma escolha assumidamente subjectiva, não consensual, que exclui a fase mais recente da cantora, presente em álbuns como “Turbulent Indigo” ou “Taming the Tiger”, sem dúvida excepcionais. Apenas porque a intenção foi, acima de tudo, chamar a atenção para o barro e para as estrelas de um passado sem o qual nunca se teria iluminado o firmamento de clássicos que Joni Mitchell, no seu mais recente capítulo de uma história de amor interminável, entroniza em “Both Sides Now”.
“Blue” (1971)
“Sentia-me isolada, como uma ave presa na gaiola. Já não conseguia relacionar-me com as pessoas. Uma certa dose de sucesso pode acabar com uma pessoa, de várias maneiras”. Esta dose de sucesso tinha sido granjeada ao longo dos três álbuns precedentes e “Blue” é a resposta aos que queriam ver nela apenas a “hippie” que assinou o hino “Woodstock”. Com “Blue”, Joni Mitchell demarca-se do seu passado recente, abandonando os concertos ao vivo para se auto-analisar num retiro interior do qual resultou este álbum, onde é possível descortinar os claros-escuros de um poço emocional e criativo sem fundo. É ainda a autora que, a propósito deste seu trabalho, afirmou: “Neste período da minha vida não tinha quaisquer defesas, por isso dificilmente se encontrará nas letras ou na voz o mínimo sinal que não corresponda a uma sinceridade absoluta”.
“For The Roses” (1972
Apesar da ausência voluntária dospalcos, “For the Roses” entra, num ápice, para as listas de vendas dos EUA, feito para o qual muito contribuiu o impacto do single “You turn me on, I’m a rádio”, o primeiro “hit” da cantora que chegou a ter alguma divulgação em Portugal. Embora muitos prefiram o tom mais extrovertido do álbum seguinte, “Court & Spark”, é em “For the Roses” que a relação entre a voz e o piano de Joni Mitchell – nalguns casos e pela primeira vez, pontuados por uma orquestra – se tornam cúmplices de mil e uma solidões repartidas. Um crítico do “New York Times” apontava então para ela como uma “cantora e compositora de génio que fazia com que não nos sentíssemos sozinhos”, enquanto ela própria, na canção “Woman of heart and mind”, canta: “Pensas que sou como a tua mãe, ou outra das tuas amantes, ou a tua irmã, ou a rainha dos teus sonhos, ou apenas outra rapariga tonta, quando o amor faz de mim o que quer.”
“The Hissing of Summer Lawns” (1975)
Há quem não morra de amores por este álbum, embora tivesse sido, uma vez mais, um sucesso de vendas. Ao contrário de todas as obras anteriores, auto-confessionais, “The Hissing of Summer Lawns” aponta o bisturi para o exterior, fazendo a dissecação de alguns dos vícios da sociedade americana. É, em simultâneo, em termos musicais, o álbum mais experimental da compositora, carregado de uma electrónica densa que atinge o esplendor em “The jungle line”. Manhattan transformada numa selva tropical, cimento e lianas, atravessada por jibóias e batuques rituais. E o jazz começava a despontar.
“Hejira” (1976)
O oposto do anterior. Se “Hissing tjhe Summer Lawns” era calor e humidade, “Hejira” é branco e frio, com o desenho rigoroso de uma patinadora no gelo. Conta Joni Mitchell que a maioria das canções foi composta em viagens de automóvel. O título significa “uma viagem empreendida com a finalidade de escapar a um ambiente hostil ou indesejável”. Por vezes algo hermético, de um apuro formal levado à perfeição, “Hejira” é um exercício de jazz ambiental, cuja arquitectura depende em grande parte do baixo de Jaco Pastorius, da bateria de John Guerin e do vibrafone de Victor Feldman. Neil Young, um velho amigo, toca harmónica como convidado. “Coyote” e “Amelia” são as canções que fogem um pouco a esta paisagem imaginada por uma esteta.
“Mingus” (1979)
Depois da participação, em 1978, no filme de Scorcese, “A Última Valsa”, Charles Mingus, um dos maiores contrabaixistas e compositores da história do jazz, já na fase terminal da sua doença, contactou-a, manifestando-lhe o desejo de trabalharem juntos numa adaptação musical de “Four Quartets”, de T. S. Eliot. Ele escreveria a música, ela editaria os textos. Joni Mitchell declinou a oferta, com a justificação de que seria mais fácil fazer uma síntese da Bíblia. Mingus, insistiu, compondo seis composições para a voz da cantora. Acabaram por ser utilizadas apenas quatro, incluindo o “standard” “Goodbye pork pie hat”. Completam o alinhamento de “Mingus” dois originais da cantora e cinco designados rap, que não são mais do que curtíssimos excertos de monólogos de Mingus, um “Parabéns a você” e conversas e sons de circunstância captados durante o funeral do músico. Mingus morreu a 5 de Janeiro de 1979, mas “Mingus”, o álbum, ficou como uma tocante homenagem a esse músico visionário. Contribuíram para a gravação, além de Guerin e Pastorius, Wayne Shorter, Herbie Hancock, Peter Erskine e Don Alias.