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Camouflage – “Meanwhile”

Pop-Rock / Quarta-Feira, 19.06.1991


CAMOUFLAGE
Meanwhile
LP / CD, Metronome, distri. Polygram



Na linha dos grupos continentais lançados periodicamente no “circo” à cata de dividendos, os alemães Camouflage surpreendem no bom e no mau sentido. O trio constituído por Marcus Meyn, Oliver Kreyssig e Heiko Maile, chegado ao terceiro álbum (após “Voices & Images” e “Methods of Silence”, ambos bem sucedidos em termos de vendas na Europa e nos Estados Unidos), não consegue libertar-se de uma série de óbvias influências, ao ponto de por vezes se tornar difícil distingui-los dos originais. Mas, e aqui radica o lado positivo da questão, embora destituídos de identidade própria, os Camouflage conseguem surpreender pelo apurado sentido melódico e pela criação, ao longo dos 12 temas que compõem o disco, de ambientes “techno pop” suficientemente sugestivos para uma fruição descomplexada por parte do auditor. Assim, “Mellotron”, “Mother” ou “Handsome” poderiam fazer parte de qualquer disco dos Depeche Mode, sem que se notasse a diferença. “These eyes”, “Waiting”, “Bitter sweet” e “Spellbound” passam facilmente por temas dos Japan, a tal modo a voz se parece com a de David Sylvian. “Heaven (I want you)” não destoaria ao lado de outras canções dos Orchestral Manoeuvres in the Dark. Agora que o Verão se aproxima, não são de desperdiçar futilidades tão agradáveis como esta. ***

Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #120 – “The ultimate trip (FM)”

#120 – “The ultimate trip (FM)”

Fernando Magalhães
24.06.2002 020243
…Com CONRAD SCHNITZLER e o álbum “Constellations” (Ed. Badland,1987).

Dois únicos temas: “First constellation” (30’10) e “Second constellation” (38’50).

Duas viagens pelo cosmos que exploram as profundezas eletrónicas mais escuras de “Phaedra” e “Rubycon”, dos TANGERINE DREAM, aos quais CS aliás já pertenceu, na primeira formação.

Parte-se numa nave em direção ao desconhecido, com várias etapas que permitem a contemplação auditiva de diversos momentos sónicósmicos. Paisagens geladas cortadas por auroras boreais a la STEVE ROACH/BIOSPHERE, borbulhar de mares de mercúrio, vozes “alien” aprisionadas em estranhas emissões de rádio galácticas, as surpresas surgem a cada momento, levando o cérebro para pontos cada vez mais afastados. Tão longe como…

“Though I’m past one hundred thousand miles/I’m feeling very well/And I think my spaceship knows which way to go…

Can your hear me, Major Tom?

Can you…?

Here am I floating round my tin can/Far above the moon/Plant Earth is blue/And there’s nothing I could do”.

David Bowie, in “Space oddity”

…E, mais além, o infinito…

in “2001 – A Space Oddity”-

FM

Kraftwerk – “O Admirável Mundo Novo” (artigo de fundo | dossier | blitz)

BLITZ 3 ABRIL 1990


KRAFTWERK

O ADMIRÁVEL MUNDO NOVO


«I Sing the Body Electric»
Ray Bradbury

Bip Bip Bip. Boing Boom Tschak. A beleza da música dos alemães Kraftwerk é a beleza da eletricidade em estado puro. A harmonia da informação circulando livremente através dos chips de circuitos integrados. O classicismo digitalizado. A herança elegante de uma Europa crepuscular rendida à imagem requintada da despersonalização e da indiferença. Ralf Hutter, Florian Schneider, Wolfgang Flur e Klaus Roeder são as quatro máscaras humanas para um rosto que deixou de o ser. Manequins de gesto suspenso sobre a imobilidade gelada do Tempo aprisionado. Save. Enter. Return.

É costume considerar os Kraftwerk como os precursores de quase todas as principais inovações relativas às técnicas de estúdio. O «Disco Sound» ou o «Rap» proclamam-se devedores das manipulações sonoras levadas a cabo pelos quatro homens de Dusseldorf. Estes não confirmam nem desmentem, limitando-se a gravar discos, sem fazer grandes ondas e alargando com cada um deles as fronteiras do que se convencionou na generalidade designar por «música eletrónica».



Hutter e Schneider, os fundadores da banda, encontraram-se em 1970 no Conservatório de Música de Dusseldorf, uma das cidades mais industrializadas da Alemanha, e formaram os Organisation. Sob esta designação foi editado o álbum «Tone Float», gravado e produzido por Conny Plank numa refinaria de petróleo da cidade. No mesmo ano nascem os Kraftwerk que gravam no ano seguinte o álbum estreia «High Rail», com o selo Philips. No ano seguinte a Vertigo reúne estes dois discos num duplo intitulado simplesmente «Kraftwerk», infelizmente há já alguns anos fora do mercado. Na sua fase inicial a música do grupo conciliava as explosões de metal, o minimalismo e a música concreta com um lirismo exacerbado tão caro ao Romantismo alemão. Grupos como os Einstuerzende Neubauten, Test Dept, ou os primeiros SPK decerto que ouviram e aprenderam muito com este disco seminal.
O álbum seguinte, «Ralf and Florian», de 83, prossegue a mesma via, com temas fabulosos como «Eletrisches Roulette», à beira da esquizofrenia, a dança metálica de «Tanzmusik» e os catorze minutos planantes, cristalinos e tropicais de «Ananas Symphonie».
Em 74 os Kraftwerk passam a quarteto, com a inclusão de Klaus Roeder e Wolfgang Flur, respetivamente no violino e guitarra e nas percussões eletrónicas. É com esta formação que gravam, no mesmo ano, a obra-prima «Autobahn», um dos melhores discos de sempre de música eletrónica. O primeiro lado é ocupado na totalidade pela faixa do mesmo nome, uma «trip» psicadélica-automobilística, só ao alcance das auto-estradas e das cabeças teutónicas. Sem despistes e com as mudanças engatadas sempre na altura exata. Nunca os sintetizadores, «Vocoders» e «sequencers» tinham andado a tanta velocidade. O Futuro tinha começado. Do outro lado do disco o fogo-de-artifício sonoro em duas deslumbrantes versões de «Kometenmelodie». Surpreendentemente as rádios americanas e inglesa tocam uma versão mais curta de «Autobahn». O single e o álbum alcançam todos os Tops abrindo caminho para a vaga do «Eurodisco», com Giorgio Moroder à frente. «I Feel Love» é a voz de Donna Summer sobre um plágio grotestco dos ritmos robóticos dos alemães. Curiosamente este tema tem sido «samplado» pelas novas bandas até à exaustão. O Tempo é cada vez mais uma ilusão.
Em outubro de 75 Karl Bartos (percussão eletrónica) substitui Roeder, ficando assim constituída a formação que até à data se mantém inalterável. No mesmo mês, os Kraftwerk abandonam a Philips/Vertigo e formam a sua própria editora a Kling Klang, distribuída pela EMI. Ainda em 75 é publicado o LP «Radio Aktivitaet», versão original alemã de «Radio Activity» que sai em Inglaterra no ano seguinte. «Radio Activity» é o álbum mais fraco da banda, versão turístico-infantil da estética futurista. A simplicidade de meios, propositada ou não, e letras pueris à beira do imbecil tornam a audição do disco apenas divertida. Destaque mesmo assim para o título-tema «Radio Activity» e «Airwaves», dançáveis e irremediavelmente coláveis aos ouvidos.
1977 é o ano de «Trans Europe Express», dos manequins-réplicas em palco e do retorno à boa forma. «Trans Europe Express», «Metal on Metal» ou «Franz Schubert», metálicos, gelados e repetitivos são paradigmáticos e proféticos da «Cold Wave» que se avizinhava. Mais uma vez os Kraftwerk ditavam as leis, escrupulosamente seguidas pelas gerações futuras.
«The Man Machine» aparece no ano seguinte levando às últimas consequências todas as anteriores premissas estéticas e ideológicas do grupo. O fator humano cede definitivamente ao fator máquina. O álbum abre com «The Robots» e fecha com «The Man Machine». «Spacelab», «Metropolis», e «Neon Lights» são imagens de um filme fantasmático sobre cidades percorridas por sonâmbulos, ecos de «slogans» cibernéticos e neons deslumbrantes. O filme para. A realidade é elétrica. A luz torna-se branca. E fria.
«Computer World», de 81, é mais humano ou talvez não consoante a perspetiva. Em «Pocket Calculator» os Kraftwerk utilizam o som de uma calculadora eletrónica de bolso. «Numbers» é a Torre de Babel do Novo Mundo reduzido a ações de compra e venda, números e mais números soletrados em diversas línguas sobre um ritmo implacável de máquinas em sintonia. A realidade é matemática, rigorosa, previsível e programável. «Computer Love», bits em forma de coração, «I-L-O-V-E-Y-O-U» repete a voz sintetizada enquanto a mensagem vai piscando no monitor. «Home Computer», «It’s More Fun to Compute» e as máquinas continuam a dançar.
«Tour de France», como o nome indica, é dedicado à célebre prova velocipédica e aparece no filme «Breakdance» (!).
Finalmente, em 86, a EMI edita «Electric Cafe». Os Kraftwerk atingem com este disco o ponto de plenitude em que a superficialidade e o desprendimento se confundem com o sublime. O humor surge radioso no fim e do alto da tragédia há sempre um sorriso irónico e distante. «Techno Pop» é o estado atual da música Pop massificada, reduzida a sons empacotados e prontos a vender em supermercados. «The Telephone Call», a conversa telefónica unilateral com uma gravação que insiste em dizer que aquele número foi definitivamente desligado. «Sex Object», de novo os bonecos-fétiche de carne e osso. Palavras vazias, repetidas, destroçadas. Séc. XX ou XXI, já nada faz sentido ou tudo faz simultaneamente todos os sentidos. Todas as coisas, todos os sons, Eletricidade, «Electric Cafe», sintético, sonoro, nuclear, infinito, finito, circular, sintético, sonoro, «Musique Non Stop» – «Techno Pop».