Arquivo mensal: Dezembro 2022

Sally Oldfield – “Natasha”

Pop-Rock 23.01.1991


SALLY OLDFIELD
Natasha
LP, MC e Cd, Sony International


Em princípio, não está errado cantar canções como “Keep The Fire Burning”, “Clear Light” ou “In The Presence of the Spring”, cujos títulos, só por si, nos fornecem de imediato indicações claras quanto aos respectivos conteúdos. Fala-se do amor, da Natureza, das estações do ano, do dia e da noite, das estrelas e a da Lua, enfim, do lado aprazível do Universo. Se bem que, por vezes, as palavras forcem em demasia a faceta esotérica – não é sem uma certa dificuldade que se consegue entender o sentido de versos como “Oolah-Kalu-Kalu-Kalandeya” ou “Ella Kielessa Nyovya Lo”, respectivamente de “My Drumbeat Heart” e “Songo f the Mountain”. O que não se pode deixar passar em claro é a total incapacidade de Sally Oldfield em abandonar, por um segundo que seja, a lamechice e os lugares-comuns típicos de um género que facilmente descamba em pieguice, a coberto da etiqueta “new age”, cómoda para abrigar todo o tipo de mediocridades. Mike Oldfield toca no tema de abertura. Os ritmos frequentemente imitam os batuques étnicos habitualmente utilizados por ele. Infelizmente o resultado final assemelha-se mais aoas Abba que aos momentos de inspiração do autor do recente (e excelente) “Amarok”. Quem sai aos seus, por vezes degenera.
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Fernando Magalhães no “Fórum Sons” – Intervenção #137 – “Vídeoclip de tema de Kubik (FM)”

#137 – “Vídeoclip de tema de Kubik (FM)”

Fernando Magalhães
07.10.2002 160414
Ontem, por acaso, vi na SIC Radical o clip de um tema do nosso caro amigo e forense Victor Afonsik, aka, Victor Afonso, Aka Kubik :), intitulado, se não estou em erro, “Proko”, ou algo do género.

O tema é muito bom, mas a sua tradução para formato visual, chega a ser brilhante. Não poderia ser mais simples nem mais eficaz. Não vou revelar, só posso dizer que é um pequeno filme de animação que resolve da melhor maneira a constante mudança de registo da música (aquela parte final, com a entrada do sax, é realmente fantástica!, enquanto na sequência “back to basics” do ritmo, na introdução, julgo descortinar a influência, subliminar, de Soul Center, mas posso estar errado…).

De quem foi a ideia do clip?

De qualquer forma, Victor, os meus parabéns.

FM

Killing Joke – “Extremities, Dirt And Various Repressed Emotions”

Pop-Rock 23.01.1991


KILLING JOKE
Extremities, Dirt And Various Repressed Emotions
LP duplo e CD, Noise Just In, distri. Anónima



O título diz tudo – palavras feias a que corresponde um som rude, ácido, violento, psicótico, quase escabroso. Para Jaz Coleman, alma negra da “piada assassina”, trata-se, com este seu último trabalho, de perpetrar um massacre sobre os sentidos, assalto sónico às sensibilidades apaziguadas pelas máximas que asseguram que “o ruído não é música” e “o belo tem de ser agradável”. “Extremities” serve-se do ruído como arma apontada a esses corações delicados. De agradável não tem nada. Cada faixa destila doses concentradas de ódio, transportadas em ogivas Trash, prontas a abater-se sobre o inimigo mais próximo. Ainda mal refeito de um período negro da sua vida (acabara de passar por uma grave crise, a nível artístico e pessoal, devido a problemas com a editora, aliados ao caos psicológico e físico causados pela ingestão desenfreada de drogas), resolveu que não tinha de ser simpático com o mundo. Não que alguma vez o tenha sido, só que, neste novo atentado, os disparos atingem o alvo. Para agravar ainda mais a situação, resolveu interessar-se pelo ocultismo e por actividades mágicas tão negras como as do satanista Aleister Crowley (o mesmo que Fernando Pessoa conheceu), ente da sua simpatia e que decerto lhe serve de inspiração. “Extremities” é, em suma, uma vingança.
Os temas são geralmente longas invocações da desordem e das forças destrutivas. Sequências de ruído cerrado, que pequenas pontuações “sampladas” mal conseguem romper. Guitarras saturadas e mal oleadas disparam, como metralhadoras descontroladas, sobre ritmos pós-“punk”, criando paisagens desoladas e apocalípticas. Os Killing Joke, um pouco à maneira dos Birthday Party, fazem do rock campo de batalha. Conflito não resolvido, que na agressão procura a saída redentora. Violência, enfim, resolvendo-se a si mesma em busca de um impossível exorcismo.
Chame-se ao disco delírio “hardcore” à beira da desintegração final, rock “industrial” ou pop convulsivo (sim, há aqui canções ou, pelo menos, algo que se lhes assemelha), mas nunca a segurança da rotulação será suficiente para aliviar o incómodo provocado pela sua audição. Editado na altura mais inconveniente, “Extremities, Dirt and Various Repressed Emotions” materializa o mal-estar, os medos e desejos perversos de uma sociedade em desagregação. Mais uma acha lançada na fogueira. Declaração de guerra. Alerta geral.
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