Arquivo mensal: Outubro 2021

Trio Erik Marchand – “Na Tri Breur” + Trio Cornemuse – “Trio Cornemuse” + Trio Violin – “La Concordance Des Temps”

pop rock >> quarta-feira, 29.09.1993
WORLD


TRIOS

TRIO ERIK MARCHAND
Na Tri Breur (7)
TRIO CORNEMUSE
Trio Cornemuse (7)
TRIO VIOLIN
La Concordance Des Temps (7)



Triângulos. Dois é diálogo e movimento, tese e antítese. Três é também o vértice da síntese. Erik Marchand, que recentemente colocou de novo em circulação os Gwerz, assina uma fusão interessantíssima da música da Bretanha com a raga indiana. No tema de abertura as características vocalizações bretãs alternam com o estilo vocal improvisatório indiano. A base rítmica, construída pelo “oud” árabe e pelas tablas, segue os cânones da raga. Deliciosa a facilidade com que a bombarda navega nas águas doo Oriente. Yann-Fanch Kemener (Barzaz), outro especialista do canto bretão, participa como convidado.
Menos universalistas que o trio de Erik Marchand, os trios Cornemuse e Violon apresentam, ao invés, propostas que exploram os reportórios e territórios respectivos da “cornemuse” (variante mais vulgarizada da gaita-de-foles francesa) e do violino.
Os primeiros recuperam as marchas e canções, em versão instrumental, das regiões de Berry e Bourbonnais, através de múltiplas combinações, afinações e timbres da “cornemuse”, destacando-se a utilização exaustiva dos “bordões” (numa gaita-de-foles: um ou mais tubos de palheta dupla produtores de som grave e contínuo, que suportam as melodias digitadas no ponteiro, em francês “anche”, palheta) na criação de texturas de grande densidade e riqueza harmónica. Um par de vocalizações por Solanhe Paris, um piano e um clarinete ocasionais trazem o som à superfície, para de novo as “cornemuses” mergulharem nessas notas antiquíssimas que só os verdadeiros “sonneurs” conseguem fazer vibrar. Quanto ao Trio Violon, faz um pouco a mesma coisa com o violino e a música de Auvergne e do Limousin. Ponto de partida: a recusa e fuga das pragas do “jaze” e do “yé-yé”, como eles dizem a brincar, e da tirania das melodias tonais que poluem o genuíno folclore local. Contra a facilidade e a colonização, o Trio Violon pretende revelar a existência de um jardim secreto, Eden das origens, feito de ritmos endiabrados e melodias que convocam a concordância dos tempos, regidos pelo horário do sagrado. A alguns soará violento o embate com a beleza rude e convulsiva dos “bourrées”, polcas e marchas dos campos e rituais antigos. Mas outros não desdenharão sentar-se à mesa no banquete dos violinos. Anfitriões de uma festa que toca na mais íntima das cordas.

Tavagna – “A Capella” + Donnisulana -“Per Agata” + Baron Samedi Percussions & Chants D’Ukraine – “Diakouyou”

pop rock >> quarta-feira, 29.09.1993
WORLD

Pedra, seta, fogo. Um gesto e um gosto. A Silex é uma editora francesa de música tradicional, linha dura, que em paralelo, edita a série “Musique française d’ aujourd’hui”. A partir de agora disponível em Portugal, com distribuição da Etnia. Música sem concessões que busca os tesouros incrustados nas camadas mais profundas da herança étnica mas igualmente capaz de se aventurar pelos caminhos da modernidade. Fogos maiores, acenderam-nos Riccardo Tesi e Patrick Vaillant (“Véranda”) e La Chavannée (“Cotillon”), aqui venerados há duas semanas atrás. Segue-se parte do muito que fica por escolher.


POLIFONIAS



TAVAGNA / A Capella (6)
DONNISULANA / Per Agata (7)
BARON SAMEDI PERCUSSIONS & CHANTS D’UKRAINE / Diakouyou (8)


Vozes em concordância. “A capella”, a sós e em privado, as da Córsega. Por homens e mulheres, em separado, que a tradição não permite (ainda) o acasalamento das vozes de sexo diferente. Os Tavagna representam o lado escuro, trágico, da alma corsa, presente no estilo tradicional “paghjella” (ver entrevista com Francis Marcantei no suplemento “POP ROCK” da semana passada). Vozes masculinas transportando pelos séculos a tristeza (mesmo quando estão alegres) e a solenidade, irmãs das do “cante” alentejano. Vozes que, como as do “cante”, podem aborrecer um pouco se ouvidas durante um período de tempo mais prolongado.
As vozes das Donnisulana (aglutinação de “mulher” com “ilha”) suportam um tempo de audição continuada maior. Pioneiras da apropriação do canto corso, por tradição um feudo masculino (ver entrevista citada), elas ousaram, por oposição à cópia, colorir a polifonia corsa com a sensibilidade e as inflexões próprias do seu sexo. Pela voz de Agata, arquétipo da mulher que se ergue de uma dominação arcaica e canta um novo mundo, maior, mais completo. E labiríntico. Acima da guerra dos sexos, consumou-se a reunião das percussões dos Baron Samedi com as vozes femininas da Ucrânia. Encontraram-se todos há dois anos, numa digressão entre Kiev e Odessa, e desse encontro nasceu o projecto “Diakouyiu”. Vozes que, como as búlgaras, são de mistério ao lado de percussões repetitivas, minimais, por vezes explosivas. Encontro original que é um cruzamento de estímulos, de vozes afinadas, quando “a capella”, com Deus, ou mais presas ao corpo, quando afinadas pelo batimento das peles e dos metais. Fascinante.

Vários – “Festival ‘Sete Sóis, Sete Luas’ Terminou Ontem No Alentejo”

cultura >> segunda-feira, 27.09.1993


Festival “Sete Sóis, Sete Luas” Terminou Ontem No Alentejo
Música Intercidades


Os grandes concertos acontecem quando e onde menos se espera. Aconteceu um, em Montemor-o-Novo. Pelo trio de Riccardo Tesi, acordeonista da Toscânia cujo “organetto” fez num ápice desaparecer todas as fronteiras. Num dos concertos integrados no festival “Sete Sóis, Sete Luas” que ontem terminou em Évora e Estremoz.



Estariam reunidas cerca de quatrocentas, quinhentas pessoas, não mais, no pequeno ajuntamento que se formou no largo dos Paços do Concelho, em Montemor-o-Novo, para escutar a música duns italianos de que quase ninguém teria ouvido falar. É uma realidade: Riccardo Tesi, um “virtuose” do “organetto”, como chamam em Itália ao acordeão, está pouco divulgado no nosso país. Dois dos seus discos passaram entretanto a ter distribuição em Portugal – “Il Ballo della Lepre” e “Véranda”, este na companhia do badolinista francês Patrick Vaillant (ambos já com crítica publicada no suplemento “Poprock” deste jornal), o que fez aumentar a expectativa em relação aos espectáculos ao vivo.
Tesi não deixou os créditos por mãos alheias. Ele, com Ettore Bonafé, no vibrafone e percussões, e Mauroizio Geri, guitarra e voz, assinaram um desempenho notável que mostrou por que razão a música de raiz tradicional é hoje uma corrente viva entre os sons do mundo. Partindo de uma base tradicional onde avultam os “saltarelos” e as “tarantelas” (em Montemor juntaram-se-lhes um “perigordino”, uma polca e uma mazurka) da Itália do centro, Tesi e seus dois companheiros paratiram à descoberta de outros registos, por alamedas que amiúde desaguaram no “jazz”, na fluência e nas desmultiplicações rítmicas. Tesi é fabuloso, mãos rápidas como o vento sem que essa agilidade implique o sacrifício da precisão. Bonafé mostrou, no vibrafone, ser um portento de “swing” e exímio marcador de tempos. Inesquecível a curta improvisação que rubricou a meio de “Saltarello per Eugenio”, em pura levitação sobre o compasso, evidenciando uma assimilação perfeita do legado deixado por uma linhagem nobre que vai de Lionel Hampton a Gary Burton. A Maurizio Nero, vocalista competente, coube tecer as malhas do contraponto, tarefa que desempenhou com correcção e uma fluidez de fraseado que recordaram o estilo de Django Reinjardt.
Mas mais do que as prestações individuais, a música valeu como um todo. Uma música vibrante e actual que ilustrou e concretizou de modo exemplar um dos objectivos traçados pelo festival “Sete Sóis, Sete Luas”, organização conjunta do grupo teatral Immagini, de Pontedera, e a Câmara Municipal de Montemor-o-Novo: fortalecer o intercâmbio cultural entre duas regiões que acreditam ter algo em comum e para dizer uma à outra, ao ponto de estar já em marcha o processo de geminação entre ambas.
“Sete Sóis, Sete Luas” é um projecto em fase de consolidação que teve o ponto de partida o ano passado, através de uma “semana alentejana” que decorreu em vários municípios italianos, com actuações do Rancho Etnográfico de Montemor-o-Novo, bem como mostras de gastronomia e a realização de exposições e, já este ano, prosseguiu com espectáculos de Carlos Paredes em várias localidades da Toscânia.
Projecto com pernas para andar que, segundo Marco Abbondanza, um dos organizadores italianos da iniciativa “nasceu na âmbito cultural mas pretende também actuar nas áreas social e económica”. Confluência dos astros no céu do Alentejo, terra com “uma identidade cultural forte” – como Marco Abbondanza reconhece – “algo que em Itália já se vai perdendo”.