Arquivo mensal: Março 2021

Maire Ní Chathasaigh & Chris Newman – “Out Of Court”

pop rock >> quarta-feira, 17.02.1993

WORLD


Maire Ní Chathasaigh & Chris Newman
Out Of Court
CD Old Bridge Music, distri. VGM



Maire Ní Chathasaigh, harpista. Já a conhecíamos de um bom álbum gravado na Temple, “The New Strung Harp”. Quanto ao senhor Newman, guitarrista, bandolinista, baixista, prazer em conhecer. Os dois juntos resolveram brincar e fazer experiências, sem lhe perder o respeito, com a música tradicional. Saíram-se bem da bricadeira. Sem ser excepcional, “Out of Court” ouve-se com agrado, sobretudo por quem não lhe exigir mergulhos de profundidade nem grandes rasgos emocionais. Socorre-se, para tal, das prestações de convidados acima de qualquer suspeita: Nollaigh Casey, violino, Liam O’Flynn (ex-Planxty), “uillean pipes”, Danny Thompson, contrabaixo, e Simon Mayor, actual menino bonito do bandolim.
Dividindo-se entre as composições próprias e os temas tradicionais, Maire Ní Chathasaigh (ah! Não há como as nossas Anas, Saras e Ritas…) e Chris Newman correm do jazz swingado até às chuvas de cristal de Turlough O’Carolan, o mítico harpista cego. Há solos de toda a gente, “overdubs” de Newman, armado em homem das sete cordas, que são do melhor que o disco tem para oferecer, “jigs” um bocadinho mais a sério e um “air” de ressonâncias épicas. Só é pena Maire cantar num ou noutro tema, o que manifestamente não parece ser o seu forte.
“Out of Court” pretende ainda contribuir para a revitalização e divulgação da harpa irlandesa, mostrando a sua versatilidade e adaptabilidade ao mundo moderno. Um divertimento bem sucedido que deixa a anos-luz de distância as recentes celto-saloices de Alan “Avalon” Stivell. (7)

Maighread Ní Dhomhnaill – “Gan Dhá Phingin Spré No Dowry”

pop rock >> quarta-feira, 17.02.1993

WORLD


Maighread Ní Dhomhnaill
Gan Dhá Phingin Spré No Dowry
Gael-Linn, distri. VGM



Os Dhomhnaill são uma espécie de versão irlandesa dos portugueses Melo e Castro. Quer dizer, família de artistas. Os Dhomhnaill levam vantagem e Maighread não se chama Eugénia. Nem a sua irmã Triona, aliás, cantora e cravista de reconhecidos méritos conquistados nos Bothy Band, Relativity e Touchstone, e um pouco desbaratados nos “newagers” Nightnoise. Falta o irmão Michéal, também ele tornado ilustre nos Bothy Band e guitarrista de primeira apanha. Agora, chegou a vez de Maighreadlha tentar a sua sorte, com a ajuda da restante prole, incluindo o pai Aodh, colecionador de canções, e a tia Neili, fonte de inspiração. Antes desta aventura mais ou menos a solo, Maighread passou pelos Skara Brae, banda obscura com um álbum gravado, formada pelos três irmãos e Daithi Sproule.
“Gan Dhá Phingin” (“ganda pinguim”, numa tradução não muito literal) recupera a tradição vocal do Donegal. Descontando a prova real do canto solitário, onde a voz de Maighread, de timbre semelhante ao de Triona, não se revela particularmente brilhante, as atenções voltam-se para a parte instrumental, que, por sua vez, se aproxima bastante dos Bothy Band quando tocavam mais devagar. Predominam as sonoridades do cravo e das cordas sintetizadas de Triona, pontuados pelas ressonâncias metálicas da guitarra de Michéal e ocasionais incursões das “uillean pipes” de Lyam O’ Flynn, do “bouzouki” e “bodhran” de Donnal Lunny e do violino de Skip Parenti.
Há faixas excelentes, como “Amhrán pheadar breathnach” (nunca me cansarei de louvar a musicalidade e concisão desta língua…), “A mháithrin dhíleas” e “The green wood lady”, mas outras que, de tão lentas, desoladas e parecidas entre si, acabam por se desvalorizar. Sobretudo porque a voz não as consegue tornar suficientemente personalizadas. Mas a sonoridade cheia e o bom gosto da produção a cargo de Donal Lunny, mais os momentos altos da interpretação, chegam para fazer esquecer os deslizes. Das quatro “Ní” (ligação do nome próprio ao apelido) passadas hoje em revista, Maighread é a que tem mais caminho para andar. (7)

Magna Carta – “Heartlands”

pop rock >> quarta-feira, 17.02.1993


Magna Carta
Heartlands
CD Sound Products, distri. Sony Music



Já não há vergonha. A banda que nos anos 70 mais se esforçou por parecer Simon & Garfunkel (Chris Simpson era até uma réplica razoável, em termos físicos, de Art Garfunkel) regressou ao local do crime, isto é, aos discos. A bem dizer, eles nunca deixaram de andar por aí, à espreita de uma nesga, para atacar. A culpa foi dos holandeses. Deram-lhes tempo de rádio e TV e actuações ao vivo. A recepção não terá sido má. Ei-los então de volta para nos embalar com as velhas baladas do tipo “Are you going to Scarboroug fair”, sob o pretexto, dizem, de a música acústica estar de novo na moda. Agora os Magna Carta são Chris Simpson e a mulher, Linda, mais uns quantos ajudantes. Deveriam passar a chamar-se “The Simpsons”. Custa ouvir o estado de degradação de uma banda que, na altura devida, gravou álbuns como “Songs from Wasties Orchard” e, principalmentye, o belíssimo “Seasons”. Ficaram os tiques vocais, a ver se pegam, a senhora Simpson numa imitação grotesca de “Tom’s dinner”, de Suzanne Veja, e uma canção sobre o circo que, tal como é da praxe, inclui chilreios de criança. Tudo muito familiar e a puxar ao sentimento. Bolas! (2)