Arquivo mensal: Janeiro 2021

Jovens Cantores de Lisboa e Ana Faria – “Feliz Natal”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 09.12.1992


Jovens Cantores de Lisboa e Ana Faria
Feliz Natal
LP / MC / CD Sony Music



Mais de cem elementos compõem actualmente os Jovens Cantores de Lisboa, com idades compreendidas entre os sete e os 25 anos, ou seja, há lá marmanjões com corpinho para trabalhar na estiva. Os Jovens Cantores são uma espécie de aula de canto coral gigante que grava discos e de onde partem extensões com maior potencial de penetração no mercado, chamadas “Onda Choc” e “Popeline”.
Ao contrário destas bandas, o coro dispensou a pop e optou pela música de Natal “a sérieo”, destinada a ser ouvida na consoada, no aconchego familiar. São clássicos como “Natal na neve”, “Maria embala o menino”, “Glória in excelsis deo”, “Aleluia”, “O menino está dormindo”, “Noite de paz” ou “É Natal” que todos os anos, por esta altura, voltam a ser cantados como símbolos de uma quadra cujo espírito tende cada vez mais a perder-se na loucura consumista. Ana Faria encarrega-se dos arranjos. Sem esquecer a preciosa colaboração do Clube Futebol Benfica que terá talvez cedido as camisolas vermelhas do Pai Natal. (6)

Vários – “The Disney Collection – Favourite Songs From Disney”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 09.12.1992

INFANTIS


VÁRIOS
The Disney Collection
– Favourite Songs From Disney
3xCD, Pickwick, distri. Megamúsica



Se há filmes em que as fantasias das crianças se confundem com os sonhos dos adultos, eles foram quase todos assinados por Walt Disnet – e, depois da sua morte, pela equipa produtora – em cerca das três dezenas de longas-metragens, das quais se destacam as obras-primas do cinema de animação que são “Pinóquio”, “Bambi”, “Dumbo”, “Peter Pan”, “A Bela Adormecida”, “A Gata Borralheira”, “Branca de Neve”, “A Espada era a Lei” e tantas outras que, ainda hoje, levam à sala escura pais e filhos irmanados no mesmo desejo de evasão. À deriva no fundo do “faz de conta” em que tudo é possível, povoado de príncipes e princesas, bruxas e dragões, bonecos falantes e piratas e fadas que habitam na “terra do nunca”. Muito do fascínio destes filmes vive da música, complemento indispensável para que a magia funcione a cem por cento. Por cá, estamos habituados às dobragens em “brasileiro”, que se por um lado facilitam aos mais novos a compreensão das palavras, por outro traem a força e o encanto das composições originais. Esta colecção de três volumes em formato compacto (podem ser comprados separadamente), que inclui excertos de canções compostas durante um período que vai de 1933 (“Os Três Porquinhos”) a 1989 (“A Pequena Sereia”) e abarca praticamente todos os principais filmes de Disney (além dos citados podem referir-se ainda “O Livro da Selva”, “Mary Poppins”, “O Clube do Rato Mickey”, “A Dama e o Vagabundo”, “Os 101 Dalamatas” e “Os Aristogatos”), sofre dessa virtude e desse defeito. Ou seja, os mais novos não deverão compreender as letras cantadas em inglês, enquanto os mais velhos vão rejubilar com a autenticidade do registo. Uns e outros vão poder associar as canções aos respectivos argumentos, através, por exemplo, da justaposição com os vídeos da série “Clássicos Disney” já disponíveis no mercado. A qualidade sonora varia obviamente entre as gravações mais recentes e as antiguidades arqueológicas. Da ficha de compositores, destaque para as parcerias R. M. Sherman / R. B. Sherman, David-Hoffman/Livingston, Morey/Churchill, responsáveis pelos melhores e mais clássicos momentos desta súmula musical. Do lote de intérpretes, na maioria esquecidos e tragados pela voragem do tempo, salientam-se os nomes de Julie Andrews e Dick Van Dyke, actores/cantores de “Mary Poppins”, e de Peggy Lee, que fez as vocalizações de “A Dama e o Vagabundo”.
“The Disney Collection” afasta-se das vulgaridades que nesta quadra se impingem à miudagem, assumindo-se como um verdadeiro exemplar de colecção. Um mundo de imagens contidas num mundo de sons. Como seria de esperar, não são contempladas as peças clássicas de “Fantasia”, um universo à parte na “Disneylândia” da nossa imaginação. (8)

Madredeus – “Lisboa”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 09.12.1992

A CANÇÃO DE LISBOA


Madredeus
Lisboa
3xLP, MC, CD, ed. Emi – VC


As razões que levam à gravação de um triplo álbum são várias, nem sempre de ordem musical. Assim acontece com esta “Lisboa” dividida por três álbuns de curtíssima duração (27m43s, 33m07s e 28m20s), registados ao vivo no mítico concerto dos Madredeus, realizado a 30 de Abril de 1991, no Coliseu dos Recreios, em Lisboa. Está certo que volvidos dois anos sobre o acontecimento, torna-se agora possível recordar e saborear a inspiração e a respiração dos quatro instrumentistas, a voz de Teresa Salgueiro e a guitarra possessa de Carlos Paredes (nos quatro temas que compõem o lado B do primeiro disco – “O ladrão”, “O pomar das laranjeiras”, “Mudar de vida” e “Canto de embalar”). Fora isso, há o barulho das palmas, arranjos diferentes dos discos e estúdio – “Os Dias da Madredeus” e “Existir” – e a reprodução possível do ambiente único que a banda criou nessa Primavera que deixou de ser distante.
Mas a questão deve colocar-se. Porquê só agora? A resposta parece ser evidente: porque os Madredeus, em período natalício de exportação da sua música para o estrangeiro, andam em digressão pelo mundo, primeiro pelos países de Benelux e, já nos próximos capítulos, por paragens mais longínquas, de olhos apontados ao Japão e a outros potenciais mercados. E, nestas viagens com fins comerciais, sabe-se a importância de ter um disco novo para apresentar como cartão de visita. Com Pedro Ayres ocupado nos Resistência e Rodrigo Leão e Gabriel Gomes às voltas com os Sétima Legião – e a consequência destas actividades paralelas é não haver tempo para compor temas novos -, restava a solução do “ao vivo”, que poderá ter até a vantagem de mostrar lá fora como os Madredeus se portam frente às plateias. Portam-se bem, já se sabe.
Para os incondicionais da banda “Lisboa”, poderá funcionar como um complemento dos discos de estúdio. Para osoutros, é uma prenda de Natal a ter em consideração. As canções são as de sempre, eternas, bailando entre as radiações apolíneas de “Cuidado”, “O ladrão”, “A vontade de mudar”, “O pastor” ou “A vaca de fogo” e os luares de “A sombra”, “O menino” ou “Fado do Mindelo”, entre outros temas que se deixam habitar pela noite e o silêncio.
Cada concerto dos Madredeus é uma espécie de celebração religiosa em louvor das divindades, dos mitos e costumes que regem Portugal e os portugueses. Por vezes, mesmo do Deus maior. Ponto de convergência e conversão da música portuguesa aos valores tradicionais. “Lisboa” não é só Lisboa. É verde que já se vai esquecendo, igrejas e montes, ilhas e estradas, pastores e gentes crianças que ainda se deixam embalar. “Lisboa” junta a marcha popular, o cântico litúrgico, a música de câmara e o fado do futuro. Os Madredeus fazem a diferença do resto do rock português. Com a vantagem de não terem nada a ver com o rock e de fazerem música genuinamente nacional, da que não existiu nunca mas se deixou estar à espera, em pousio nos campos da matéria que é potência. Por isso, faz sentido que ao acto eles tenham dito “Existir”. Em Lisboa – das canções que vão anoitecendo. (7)