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Moby Dick – “Novo Supergrupo Edita Primeiro Álbum Em Abril – No Ventre Da Baleia”

Cultura >> Sexta-Feira, 20.03.1992


Novo Supergrupo Edita Primeiro Álbum Em Abril
No Ventre Da Baleia


João Gil e Artur Costa fartaram-se dos Trovante, Alexandre Cortez tirou férias dos Rádio Macau. Juntos decidiram chamar-se Moby Dick, preocupar-se com o problema das baleias, recuperar alguma poesia portuguesa e fruir o simples acto de tocar. Num disco de palavras “fora de uso”, exorcismos e guitarras.



Depois dos Resistência e dos LX-90, é a vez dos Moby Dick recuperarem o velho conceito de “supergrupo”, explorado até à exaustão na década de 70. A ideia é trocar músicos e ideias. Explorar novas formações fora das bandas consagradas. João Gil vai mais longe: para o antigo guitarrista dos Trovante, trata-se de “uma maneira de continuar” a sua “existência em vida”. Uma espécie de reencarnação antes de tempo.
O disco sai a 2 de Abril com o selo BMG mas, segundo afirmaram os próprios elementos da banda, em conferência de imprensa, ontem em Lisboa, há já quem, sem sequer o ter ouvido, fale de “canções giras” e da voz que “é uma grande merda”.
Escutadas as canções há que reconhecer que são bastante mais que “giras”, Dispensam o acessório para se firmarem no essencial, em arranjos que procuram preservar a verdade de cada instrumento e a sua inter-relação em estúdio. Por isso, um tema comno “Lua dos Imortais”, dos mais fortes do disco que, um pouco ao estilo de Ry Cooder, evoca a desolação e as grandes solidões alentejanas, foi gravado ao primeiro “take”. Por isso, as guitarras ora cortam como lâminas, ora se elevam ao céu. Por isso, Artur Costa (saxofone e sintetizadores) fala na “descoberta” e no “prazer” de juntar uma guitarra, um baixo, um piano e um saxofone. Sem que o estúdio constitua uma traição ou um engano. De maneira a “tentar esquecer vícios passados” e a “recriar o espírito de uma primeira banda”, como refere o baixista Alexandre Cortez. O reencontro com a “força que advém da relação com o silêncio” de que fala João Gil.
Depois há os textos de Manuel da Fonseca (“O Vagabundo Do Mar”), Jorge Palma (“Estrada”) ou Sebastião da Gama (2º Sonho”), entre os originais de João Gil e João Monge (autor da letra de “Timor”, dos Trovante). E a coragem em cantar de caras, em “Olhos nos Olhos” – escolhida para o “single” a retirar do disco – coisas quase loucas como “amo-te loucamente” que rimam com “esteticamente” e “constantemente”. Coisas que se dizem e ouvem, num drama doméstico soluçado na sala e nas horas de espera de um consultório médico e da vida, entre sonhos cor-de-rosa e folhas de “Hola” com que os corações se iludem nessa espera.
Quanto à voz, também não é tão má como a pintam. Embora o próprio João Gil reconheça “ter ainda muito que aprender” neste aspecto. João Gil que, em “Carta Aberta”, exorciza o fantasma dos Trovante, numa canção que fala de si próprio e de todos os que “fazem as malas e têm de recomeçar tudo de novo”.
Moby Dick não esconde a sua vocação pop. Os “únicos limites”, que os seus elementos aceitam são os dos seus “sentimentos”. E as preocupações ecológicas que só lhes ficam bem. Com as baleias ou o “efeito de estufa que se fazia sentir no panorama musical português”. Partilhadas pelos músicos convidados: Luís Sampayo, António Chainho (guitarra portuguesa), José Salgueiro e Emanuel Ramalho (os três bateristas convidados), João Cabeleira e Paulo Monteiro (guitarra eléctrica), Manuel Paulo (teclados), Quim M’Jojo (percussões), Kalu (dos Xutos & Pontapés, coros) e Jonathan Miller (sintetizadores). Sem esquecer o coro feminino formado por Dora, Katila e Cláudia Mingas, que em “Kyrie Elésion” “brilha e sobe às alturas”.
Ao vivo, os Moby Dick estreiam-se em Setembro, “de preferência nos Açores, uma terra marítima, de mar bravo”. Como convém.

Vários – “Pés Na Terra E Cabeça No Céu” (céltica, folk)

Pop Rock >> Quarta-Feira, 18.03.1992


PÉS NA TERRA E CABEÇA NO CÉU

Nas últimas semanas tem-se assistido ao dilúvio de compactos que chegam em catadupa às lojas nacionais e põem a cabeça em água e os bolsos vazios aos “malucos da folk”, para usar o termo utilizado há anos pela mítica rubrica da Rock & Folk. Da Bretanha à Irlanda, com uma escapadela à Dinamarca e aos países do Leste, é o retorno em força da tradição.



Durante anos foi o deserto. Discos de folk em Portugal resumiam-se a esporádicas importações dos Fairport Convention ou Steeleye Span, os únicos nomes remanescentes do “folk bloom” do início dos anos 70 que conseguiam romper o bloqueio do desconhecimento e do desinteresse a que era votados pela maioria dos “media”. Mantida a chama por um contingente restrito de “resistentes”, que atravessaram incólumes os anos de decadência da “música progressiva”, a fúria niilista dos rapazes dos alfinetes na orelha e a torre de Babel que sobreveio na aldeia global em que se transformou a década de 80.
Aos poucos, um número cada vez maior de consumidores de sons, saturados da plastificação vigente e da constante avalanche de pseudo-novidades em que a pop se foi atulhando, descobriram progressivamente a perenidade de uma música capaz de sobreviver, evoluir e transformar-se, sem que o essencial se perdesse. A música folk, tradicional, roots, world, ou de raiz étnica, como lhe quiserem chamar, conseguia até a proeza de derrotar o inimigo mais perigoso que consiste em estar na moda.
Hoje, em Portugal, não param de chegar aos escaparates discos das principais editoras do género. Louve-se a persistência e o amor à causa, desde há anos evidenciados pela VGM, a portuense Mundo da Canção e, mais recentemente, a Megamúsica, sem esquecer o pioneirismo da Nébula ou, sobretudo ao nível dos concertos os minhotos da Etnia.
Segue-se uma breve resenha de novos álbuns, entre novidades e reedições, a partir de agora disponíveis no nosso país, representando algumas tendências da folk actual, com particular destaque para a música tradicional da Bretanha, uma das que com mais insistência e razão de ser faz vibrar o “animus” e “anima” nacionais.

Os Círculos Célticos Da Bretanha

Da editora Keltia, três discos fabulosos: “Kerzh Ba ‘n’ Dans” dos Skolvan; “Digor ‘n Abadenn” dos Storvan; e “Na Aotrou Liskildri” dos Strobinell. Qualquer deles de fazer corar de vergonha as mais recentes senilidades de Alan Stivell. Os três recuperam a sonoridade, a instrumentação, os rituais e as danças da Bretanha, acrescentando-lhes a energia que o “fim da História” acarreta e a riqueza de arranjos que os tornam esteios do Universal.
“Kerzh Ba ‘n dans” (“Entrem na dança”) alterna os “na dro”, “laridés” e as típicas “suites” de dança “dans fisell” e “dans Plinn” (verdadeiramente mágicas as ressonâncias da língua bretã…) com originais do grupo e uma valsa irlandesa. Os Skolvan foram formados em 1984 por três professores do Conservatório Regional de Música e Dança Tradicionais da Bretanha. De académico só o virtuosismo evidenciado no manejo da bombarda, do violino e do “biniou” (gaita-de-foles) bretões. Dois vocalistas tradicionais participam nos “cantos e retoma de canto” (“Kan Há Diskan”), que alguns conhecerão na versão feminina popularizada pelas irmãs Goadec.
Mais fiéis a uma certa pureza interpretativa, os Storvan (designação imaginária tirada de um romance de Julien Graco, “Aub Château d’ Argol”) constroem longas sequências de danças tradicionais, apoiadas no jogo flauta / bombarda / “bouzouki” / violino, com incidências nas gavotas e nas marchas e melodias da região de Vannes. Nas “Ronds de St. Vincent”, a música nasce das entranhas do tempo, a partir da gravação “in loco” de uma festa rural que, sem ruptura, dá lugar à festa instrumental no estúdio. Brilhante.
“Brilhante”, “alucinante”, “comovente”, são alguns dos adjectivos que não chegam para traduzir o prazer proporcionado pela audição da música dos Strobinell e deste seu “senhor Liskildri”. “Strobinell” significa em bretão “sortilégio”, o mesmo sortilégio que em ocasiões muito especiais, durante as “festas de noite” (“Fest-Noz”), incendeia os dançarinos que, transportados pela magia da música, rodopiam até chegar ao transe. Jil Lebart (voz, clarinete, bombarda, gaita-de-foles), Patrig Ar Balc’h (bombarda, “tin whistle”), Yann Herri Ar Gwicher (flautas transversais e de ébano) e Riwall Ar Menn (guitarra) pertencem à estirpe dos bardos do século XX. Na sua música, o sagrado recupera toda a força do seu significado, de sublime, excelso, puro, inviolável, de diálogo santificado entre a tríade dos mundos: Deus, homem e Natureza, espiralados no fogo e no movimento simbolizados, na imagética bretã celta, pelo “Na Triskell”. Com os Strobinell, dançar significa a vertigem de se perder de si próprio para se ganhar além. Bater com os pés na terra e com a cabeça no céu. Comungar com o Todo.
Sagrados são também os cânticos religiosos da Bretanha recolhidos e interpretados por Anne Auffret (voz e harpa), Jean Baron (bombarda e ocarina) e Michel Ghesquière (órgão de foles) em “Sónj – Musiques Sacrées de Bretagne” ou, se quisermos, “Kanticou E Vro Breiz”, recolhidos da colecção “Kanticou Brezonek”. Orações matinais, cânticos místicos de contemplação e de união com Cristo, de Natal, se suplicação à Virgem, de adoração ao Santo Sacramento ou de comunhão, interpretados com a elevação que o diálogo com Deus exige. Menos extrovertido, destituído da fogosidade e do telurismo dionisíaco patente nos grupos atrás referidos, “Sónj” soa menos exuberante e mais uniforme na simplicidade e contenção dos arranjos. Orações do vento e do mar, da altura das falésias da Bretanha.
Os Bleizi Ruz já levam 18 anos de carreira, mas apenas cinco discos gravados. Gravado ao vivo em Brest, “En Concert” serve para mostrar todo o ecletismo desta banda, que estará em Portugal na 3ª edição do Festival Intercéltico, a realizar no Porto em Abril próximo. Por vezes quase cedendo às tentações de “fusionismos” tardios que acabaram por ser fatais aos Gwendal e ao próprio Stivell, os Bleizi Ruz não perdem, porém, nunca de vista as fontes vivificadoras. Do “cajun” à bretã do tema inicial, passam com toda a agilidade para a febre cigana ou para as danças da Moldova. Sempre com a Bretanha no sangue, presente nas texturas e modulações das bombardas e da gaita-de-foles, manuseadas pelo mestre Bernard Quillien, eufórico, entre o apelo eléctrico da guitarra-baixo e do acordeão-Midi.
Finalmente, registe-se a edição em compacto de mais duas gemas de música tradicional francesa, embora não especificamente bretã, dedicadas à divulgação de dois instrumentos particulares: “Cornemuses”, de Jean Blanchard (inesquecível a sua presença nos últimos Encontros da Tradição Europeia, com a sua Grande Bande de Cornemuses) e Eric Montbel, que, como o nome indica, se debruça sobre a gaita-de-foles; e o álbum “Vielleux du Bourbonnais”, do grupo homónimo, em que são explorados o reportório e as diversas técnicas de interpretação da sanfona. Obras de grande utilidade para quem quiser saber pormenores sobre estes instrumentos, sem excluir, é claro, as respectivas virtudes musicais, que, por si só, valem a audição e (para os aficionados) aquisição dos discos. Todos os títulos referidos, a que se podem acrescentar outros, de Dan Ar Braz (“Musique pour les silences à venir”), Bagad Kemper (Musico n the Square”, vol. 4, e “The Besto f…”), Gwalarn (“A-Hed Na Amzer”), Na Triskell com Gilles Sevat (“L’Albatros fou”) e do ex-malicorne Gabriel Yacoub (“Bel”), são distribuídos pela Mundo da Canção.

Vários – “De Avalon À Terra Das Águias”

Pop Rock >> Quarta-Feira, 18.03.1992


DE AVALON À TERRA DAS ÁGUIAS

“Jigs” e “reels” são termos já familiares no léxico das danças irlandesas. Juntem-se-lhes, em diversas variantes, os “airs”, “hornpipes” e “strathspeys”. Ou as valsas, marchas, polcas e mazurkas, adaptadas à veia nacional. Sem esquecer as baladas vocais. Dá para ter uma ideia da riqueza e variedade da música tradicional da “Ilha de esmeralda”. Provam-no também a nova remessa de títulos acabados de chegar ao nosso mercado discográfico.



“A Jacket of Batteries” de monstra até que ponto os De Danann não têm contemplações: nada escapa ao delírio instrumental desta banda lendária que, com os Bothy Band e os Planxty, ajudou a traçar os fundamentos de toda uma nova e excitante contextualização para a música tradicional do seu país. Do tradicionalismo mais ortodoxo das suites de danças ou do clássico “Carrickfergus” não hesitam em lançar-se num “Mandela” de ressonâncias africanas, nos floreados de uma pauta de Bach ou numa deliciosa adaptação “tradicionalizada” de “Eleanor Rigby”. Frankie Gavin (rabeca, flauta, piano) e Alec Finn (bouzouki, guitarra, teclados), os dois únicos sobreviventes da formação original, encarregam-se de demonstrar todo o seu humor e virtuosismo, bem secundados pelos restantes instrumentistas, Colm Murphy (bodhran), Adele O’Dwyer (violoncelo) e Aidan Coffey (acordeão). Nas baladas em que é chamada a emprestar a sua voz, Eleanor Shanley não faz esquecer a “deusa” Dolores Keane, omnipresente em álbuns como “De Danann”, “Anthem” ou “Ballroom”. “Defeito” menor num disco de uma banda veterana que insiste em desbravar novos caminhos. Distribuídos pela Megamúsica.
Gerry O’Connor (rabeca) e Eithne Ni Uallacháin (voz, flauta, tin whistle) constituem os Lá Lugh, que estiveram recentemente em Portugal numa mini digressão pelo Norte do país. Baladas da tradição gaélica interpretadas de forma sublime pela vocalista e instrumentais onde, além das prestações de Gerry O’Connor, pontifica o acordeão de Mairtin O’Connor, formam um todo que sem fugir aos cânones tradicionais atinge, recorrendo a uma panóplia instrumental reduzida, uma razoável complexidade e um bom gosto notáveis ao nível dos arranjos. Distribuição VGM. Também disponível um CD do anterior projecto da dupla: Skylark, com “All of it”, na editora Green Linnet, distribuída pela Megamúsica.
Se o acordeão de Mairtin O’Connor é peça fundamental nos Lá Lugh que dizer do seu álbum a solo “Perpetual Motion” (Claddagh, distribuição VGM)? Literalmente assombroso. Mairtin O’Connor é um maníaco da perfeição, chegando ao ponto de mandar construir os seus próprios modelos, de maneira a tirar todo o partido de um instrumento que, no passado, Seán Ó Riada considerou ter sido “inventado por estrangeiros para uso de camponeses sem tempo, inclinação nem aplicação para outro mais meritório” e ao qual Ambrose Bierce, no seu “Dicionário do diabo” chamou “um instrumento em harmonia com os sentimentos de um assassino”. Em “Perpetual Motion” Mairtin O’Connor desfaz todos os preconceitos. Num álbum de interpretações magistrais que inclui música de todos os géneros e de várias regiões: um fandango basco, um “rag” americano, um “Carnaval veneziano”, uma polca ucraniana, “blues”, “cajun”, uma valsa francesa e jigas da Bulgária. Viagens vertiginosas num acordeão de sete foles.

Ventos Da Escócia E Gargantas Do Leste

Os Ceolbeg e Brian McNeill não são irlandeses, mas escoceses. A proximidade geográfica e uma origem comum justificam contudo a sua inclusão neste lote. “Seeds to the Wind”, dos Ceolbeg, constitui a estreia discográfica desta banda que confirma a inesgotabilidade de propostas renovadoras no seio da música de raiz celta. À semelhança de outras formações que não limitam o seu reportório à matriz natal, os Ceolbeg incluem no seu programa tradicionais franceses e da Galiza. Nas canções originais do grupo, as vocalizações de Davy Steele lembram por vezes os Horslips de suspeita memória (a excepção é “The Táin”). Instrumentalmente, “Seeds to the Wind” está repleto de surpresas e boas ideias. Não deixa de ser estimulante, por exemplo, escutar a concepção muito especial que os britânicos têm da extroversão solar dos seus irmãos galegos.
Brian McNeill é conhecido sobretudo como violinista dos Battlefield Band, que desempenham na Escócia o mesmo papel que os Chieftains na Irlanda, de embaixadores da música tradicional no mundo. “The Back o’ the North Wind” (Greentrax, distri. VGM) posterior a “Unstrung Hero” e “The Busker and the Devil’s only Daughter”, ambos disponíveis em Portugal, trata do velho tema da emigração para o continente americano. Brian McNeill refere-se a um vento que “ao longo dos séculos tem funcionado como uma força perpétua” que empurra o seu povo para o exterior. Dá nomes a essa força: “pobreza”, “perseguição”, mas também “aperfeiçoamento”, “desassossego” e um “desejo de conhecer o que se esconde por detrás da montanha, ou do lado de lá do oceano”. Nisto são parecidos connosco. A totalidade das composições inspira-se no filão tradicional, com arranjos do músico, numa prática semelhante à seguida pelos Battlefield Band. Brian McNeill toca neste disco rabeca, guitarra, bouzouki, mandocello, sanfona, concertina e baixo. Guitarra sintetizada, teclados, acordeão, trombone, gaita-de-foles, tin whistle e saxofone soprano completam a lista de instrumentos utilizados por um lote de convidados onde se destaca a presença de Dick Gaughan e o gaiteiro dos Battlefield, Dougie Pincock.
Da Hungria, os Kolinda, apadrinhados pela editora francesa Hexagone nos tempos áureos do álbum de estreia “Kolinda” e da obra-prima “1514”. Ao fim de 16 anos de existência atribulada e sucessivas alterações na formação, a banda húngara liderada por Péter Dabasi dá mostras de um certo cansaço e saturação de ideias. Se no intuito de misturar o folk magiar, na sua vertente sombria, com o jogo da música clássica, interpretada em instrumentos tradicionais húngaros a par de electrónicos, resultou, neste nos álbuns atrás mencionados, a insistência na mesma tecla acabou por se tornar em “clichés” e no academismo que em “Kolinda 6” roça a monotonia e em “Transit”, talvez por ser gravado ao vivo, consegue trazer um mínimo de entusiasmo mesmo se as vocalizações (feminina e masculina) continuam a evidenciar sintomas de anemia…
Bem mais estimulantes são os exemplares de um catálogo recém-chegado aos nossos distribuidores, no caso ainda a VGM: a P… Records, com sede na Holanda. Mais do que estimulante, “Voices from the La.. the Eagles” dos russos …va, especialistas naquele estilo vocal que consiste em fazer sair dois sons distintos de uma única garganta, à maneira de certos cânticos tibetanos. O que David Hykes que é um norte-americano e a viver em Nova-Iorque. Como o álbum é gravado ao vivo, fica-se com a certeza de que não é truque. Musicalmente é das coisas mais estranhas que é possível ouvir, Residents e baleis incluídos. São afinações de outra galáxia. Berimbaus em delírio. Violinos que soam a sanfonas. Instrumentos de sonorização ainda mais estranha que as designações. C… hipnóticas. U… sussurros. Tudo aquilo que o comunismo sempre escondeu e você sempre quis conhecer. Inolvidável.
Para acabar: “Traditional Arranged Dronningens Livsty” versão dinamarquesa dos Fairport Convention, mesmo que na Escandinávia nem tudo é gelo. Depois “M from the pirin M tains” das Bisserova Sisters, búlgaras capazes de provar que há mais do que uma maneira de falar com Deus e “Alon… dos Holandeses e turcos Orient Express numa girândola ferroviária pelos folclores da Bulgária, Turquia, País Basco, Grécia e Itália.
Se juntarmos a estes discos a reedição da quase totalidade das discografias dos Chieftains, Steeleye Span e Planxty, chega-se mesmo à conclusão que vai haver quem não tenha mãos nem ouvidos a medir.