Eleftheria Arvanitaki
The Bodies and the Knives (7)
Polydor, distri. Sons da Terra
Irlanda, Escócia, Galiza, Bretanha. Verde e humidade. Granito e folhas de carvalho. Que mais pode querer uma alma céltica senão banhar-se pela eternidade fora nesta luz velada? Sol! Quer sol. Imagens do Mediterrâneo. O verde dá lugar ao ouro e azul. Limpidez absoluta do céu e do mar separados por uma linha de calcário. Vem da Grécia a voz de uma mulher que nos últimos anos tem conquistado progressivamente terreno no continente da world music. Chama-se Eleftheria Arvanitaki, a Folk Roots concedeu-lhe oportunamente largo espaço nas suas páginas e é bela como imaginamos que são todas as mulheres gregas. E tem uma voz que é uma dádiva do Olimpo. Há uma sensualidade característica no canto feminino grego (ou bizantino, se quisermos alargar o seu campo de acção), um equilíbrio de virtude e de pecado matizado pelo sol de um meio-dia sem fim. Quando Eleftheria canta é como se dançasse nua. “The Bodies and the Knives” foi gravado há já cinco anos, um entre possíveis cartões de visita retirados de uma discografia que já rondará a meia dúzia de álbuns. O ponto de partida foi, neste caso, a música da Arménia, através das composições originais de Ara Dinkjian, um arménio residente em Nova Iorque, encarregando-se Dimitris Papadimitriou dos arranjos. Não é um disco fora-de-série, daqueles que levam à loucura. Tem para oferecer uma produção sem arestas, com o sabor suave que o mercado costuma pedir à world music. A voz vale a audição. Escutando-a em temas como “Shadows and colours”, “Like rain” (uma valsa de sal, areia e mel) ou “The ropes” sentimos que há músicas que são para ser ouvidas com a pele.
Vários
Naciones Celtas (7)
2xCD, Fonofolk
Nações Celtas II – O Caminho das Estrelas (8)
3xCD Fonofolk, distri. Distrimusic
Para quem nega a existência de uma música tradicional céltica, o lançamento destes cinco compactos lançados pela editora galega Fonofolk são um pesadelo. A um primeiro volume duplo editado em castelhano (está mal! Impunha-se o galego) juntou-se um segundo volume de três compactos com edição em português, subintitulada “O Caminho das Estrelas”. Tudo embrulhado em cruzes célticas e, no caso do pacote nacional, em reproduções das bandeiras das regiões visitadas pelos celtas, incluindo uma detalhada recensão ibérica. Apesar de todo este folclore é justo reconhecer a preocupação em evitar as habituais xaropadas “new age”, apresentando-se estes dois manifestos das “nações celtas” com um par de alinhamentos impressionantes. Tannas, Deanta, Altan, The Poozies, Shooglenifty, Berroguetto, Milladoiro, Felpeyu, Na Lua, Boides, Chouteira, Llan de Cubel e Luar na Lubre são alguns dos nomes presentes em “Naciones Celtas”, enquanto o volume triplo português se divide pelos capítulos “Celtas”, “Nações Celtas” e “Celtibéria”. Uma iniciação na música de Dan Ar Braz, Gwendal, Carlos Nuñez, Xosé Manuel Budiño, Luétiga, Las Musgaña, Aly Bain, Kepa Junkera, Old Blind Dogs, Lyam O’ Flynn, Ar Log, Dervish, Maighread Ní Dhomhnaill e Vai de Roda, entre muitos outros. Os temas foram recolhidos das respectivas discografias oficiais o que, se por um lado, poderá desencorajar os veteranos, constitui, por outro, um diversificado e apelativo cartão de visita para os que só agora começam a descobrir um dos principais ramos da folk europeia.
Tenho de Loreena McKennitt a melhor das impressões. Há anos tive oportunidade de a entrevistar. Como mulher, irradia uma luz difícil de encontrar nos tempos de escuridão que estão a tomar conta do mundo. Esta loura com ar de princesa medieval que há anos actuou em Portugal está verdadeiramente apaixonada pela música que faz, uma música que procura trazer para o presente uma magia e um mistério que se perderam algures numa das engrenagens da razão. Estrategicamente apoiada numa editora própria, a Quinlan Road, a cantora canadiana começou por gravar uma série de álbuns como “Elemental” ou “Drive the Cold Winter away” onde a faceta céltica e a new age se combinavam em doses razoavelmente equilibradas e trabalhadas de modo a não se confundirem com simples murais decorativos. Com “The Visit” abriram-se-lhe as portas de um mercado mais alargado. Coincidindo com o aprofundamento de um trabalho de estudo e de aproximação entre músicas e épocas como a Idade Média, a música indiana e as sonoridades árabes, sempre com a tapeçaria e a harpa céltica como pano de fundo, “The Visit” mostrou, por outro lado, os limites da visão musical de Loreena McKennitt. Nesta canadiana dificilmente o bonito se tornará, algum dia, Belo.
O seu novo álbum, “Live in Paris and Toronto”, um duplo gravado ao vivo, confirma tudo o que se disse até aqui. Loreena possui uma voz extremamente doce e melodiosa, toca harpa com mãos de fada mas falta à sua música profundidade e um lado escuro que lhe permitisse tirar partido do contraste. Assim, é tudo luminoso, mas de uma luminosidade que de tão suave acaba por se perder numa névoa de manchas sonoras que distraem sem desafiar. Há canções que são um afago, percussões étnicas qb, melodias “célticas”, medievais ou orientalizantes recortadas de folhetos turísticos e, acima de tudo, uma sensação geral de um jardim sem recantos escondidos por descobrir. Fica a imagem do postal da promoção, com Loreena na típica pose de princesa, tocando solitária a sua harpa na nave de uma catedral banhada pela luz azul de um vitral. Um postal, pois… (2XCD, Quinlan Road, distri. Megamúsica, 6).
Pior, muito pior, para não dizer senil, está Alan Stivell. O ex-mago da Bretanha há muito que se perdeu nos meandros de uma “world music” rendida ao império dos dólares mas à época em que foram gravados os três álbuns agora reempacotados e remasterizados em conjunto numa caixa – que, diga-se de passagem, não oferece qualquer dado novo relativo às anteriores edições para além da remasterização – a sua fama e criatividade encontravam-se no auge. “Renaissance de la Harpe Celtique” (1972), “Olympia Concert” (1972) e “Symphonie Celtique – Tir na Nog” (1979) representam três momentos marcantes na carreira do harpista bretão. O primeiro constitui o manifesto orgulhoso de uma cultura e de um instrumento, a harpa céltica, reapossados da sua dignidade e dotados de uma voz que do passado cantava para o futuro. Num lance de magia, a herança céltica subia em maré viva pela folk francesa, abrindo caminho a novos projectos que fariam do hexágono um dos mais sólidos bastiões da folk na Europa. “Olympia Concert” (no original “Alan Stivell à l’ Olympia”) mostrava ao mundo, de forma exuberante, uma música onde o legado tradicional se impunha e exclamava através de uma linguagem eléctrica colhida do rock. Nesse espectáculo (transmitido há muitos, muitos anos pela televisão portuguesa, naquele que foi o meu primeiro e deslumbrado contacto com Stivell) a França espantou-se com a pujança, a originalidade e a ousadia de um jovem músico que viria a tornar-se num dos principais embaixadores da música francesa, mesmo reclamando a diferença das raízes bretãs. Ao lado de Stivell estiveram nesse espectáculo mítico alguns dos músicos que dariam origem a novos e importantes desenvolvimentos da folk francesa. Como Gabriel Yacoub, que viria a fundar os Malicorne, Rene Werneer (L´Habit des Plumes) e Dan Ar Braz hoje, multimilionário com a sua Héritage des Celtes.
Culminando um trajecto de fusão da folk bretã com o rock, “Symphonie Celtique – Tir na Nog” alarga este conceito até dimensões planetárias. Alan Stivell atingia o zénite da sua arte, compondo uma sinfonia que reunia num objecto totalitário todas as culturas, sons e línguas conotadas, ou não, com o celtismo. Dezenas de músicos oriundos de diversas nacionalidades – da África à Índia, passando pelas nações celtas – juntaram-se numa gigantesca Babel, cruzamento de dialectos e instrumentos sem igual. “Symphonie Celtique” materializou de forma desmesurada a panvisão de Alan Stivell ao mesmo tempo que pareceu esvaziar em definitivo a sua inspiração. Alan Stivell, como Blake, teve a visão do paraíso mas faltou-lhe o fôlego para se aguentar lá. (Dreyfus, distri. Megamúsica, média 9).
Quem também fez escola mas tem conseguido manter-se a dar lições, são os finlandeses JPP, a mais formidável horda de violinistas oriundos da Escandinávia. Comandados por mestre Arto Jarvela o núcleo de quatro violinos do grupo faz, como se costuma dizer, miséria, ainda segundo os mandamentos de uma segunda batuta empunhada pelo discreto Timo Alakotila, garantindo terra firma com o seu órgão de foles. À semelhança de “Pirun Poolska” (na foto) ou “Kaustinen Rhapsody” o novo “String Tease” induz ao pecado da luxúria, um verdadeiro Champagne Clube do violino. Em variações em torno da tradição e do jazz os quatro violinos despem-se de preconceitos, desnudam os seus segredos e roçam nos ouvidos em danças a quatro vozes de corpo intricado mas com a leveza de borboletas. O grupo sueco Väsen participa como convidado em dois temas sem fazer pesar os pratos da balança para o lado da selvajaria. Para desintoxicar de Hedningarnas e Garmarnas nada melhor do que ouvir JPP. (Rockadillo, distri. MC – Mundo da Canção, 8).