Afel Bocoum
Alkibar (6)
World Circuit, distri. Megamúsica
Nas margens do Níger, na fronteira com o Sara, no “Mali profundo, onde a música vive”, segundo as suas próprias palavras, fica Niafunké, cidade-natal de Ali Farka Touré. É aqui que o mestre dos “blues” africanos tem vivido nos últimos anos, dedicando-se em exclusivo à agricultura (“Sou em primeiro lugar agricultor e só depois músico”, diz), actividade que abandona apenas para fazer um ou outro concerto no estrangeiro, o que se vai tornando, de resto, cada vez mais raro.
Sem gravar há seis anos (“Talking Timbuktu”, com Ry Cooder, saiu em 1993), autor de dois trabalhos magníficos, “The River” e “The Source”, Ali Farka Touré regressa mais próximo das raízes do que nunca (“Conheço as escalas ocidentais mas acabam todas por não me servir”) com uma série de captações em “take” único realizadas, quase sempre ao fim da tarde, “quando as cobras e os mosquitos chegavam”, num celeiro em que a electricidade teve de ser fornecida por um estúdio móvel conduzido até ao local pelo próprio músico.
Apesar da proximidade do berço e das condições artesanais da gravação, “Nianfunké” não apresenta grandes diferenças em relação ao registo habitual do músico: cadências hipnóticas de guitarra, neste caso acompanhadas de um naipe de percussões, com as quais Ali Farka Touré nos arrasta para o coração de África. Música fora do tempo, como tal, avessa a qualquer tipo de evolução ou modificação para além das próprias transformações anímicas do intérprete, “Niafunké” reflecte pela eternidade fora os ciclos do homem e da Natureza.
Afel Bocoum é um discípulo de Ali Farka Touré, igualmente nativo de Niafunké. Nota-se. “Alkibar”, o seu álbum de estreia, para além de ter sido gravado no mesmo local, ser produzido pela mesma pessoa, Nick Gold, e ter o mesmo engenheiro de som, Jerry Boys (currículo feito nos Buena Vista Social Club), utiliza os mesmos instrumentos, além da guitarra (que Afel toca como Touré…), o njarka (violino de uma corda), o njurkçe (guitarra-ritmo) e percussões (djembé e cabaça). Imbuído (também como Touré, aliás) da tradição Sonrai, Afel Bocoum limita-se, por enquanto, a seguir as pisadas do mestre. Mais do que uma cópia, ou um ditado sem erros, um caso de (irremediável?) mimetismo.
As estatísticas não mentem: Já há, pelo menos tantas mulheres como homens a tocar gaita-de-foles na Galiza. A tradição já não é o que era, diz-se, e parece que é verdade. Acautelem-se, portanto, Nuñez e Gudiños, as novas estrelas estão aí, vestem saias e prometem não descansar enquanto o seu domínio não for absoluto. Descontando o exagero, a verdade é que se assiste ao despontar, na Galiza, de uma nova geração de gaiteiras cuja técnica rivaliza com a dos seus congéneres masculinos. E se Cristina Pato terá razões para se queixar, no seu disco de estreia, de uma produção desastrosa, já Susana Seivane tem motivos de sobra para se regozijar. Aos primeiros sons de “Susana Seivane”, em “Jotabé” ou na sensual “Xota de Niñodaguia” (Kathryn Tickell que se cuide!) torna-se claro que não aprendeu a tocar gaita ontem (na realidade já o faz desde os quatro anos de idade, quando o pai e o avô a presentearam com um instrumento especialmente desenhado para ela). E que comentários tecer quando a ouvimos tocar, no sempre difícil registo lento, do modo como o faz, em “Muiñeira do muiño de Peizás”? Está lá tudo: fluência e uma prodigiosa riqueza do timbre e das ornamentações, a par de uma originalidade rigorosamente cultivada sem a qual é já hoje difícil a qualquer gaiteiro galego evidenciar-se no meio da imensa concorrência. Acompanhada por quatro elementos dos Milladoiro, a bela Susana (ver foto da capa) deslumbra nesta estreia que, mais do que auspiciosa, constitui já um clássico na moderna música de raiz tradicional galega. (Do Fol, distri. Farol, 9)
Reputado executante do acordeão diatónico, que adoptou nos finais dos anos 70, depois de abandonar a bombarda e a gaita-de-foles, a frequência regular das festou-noz e as fileiras dos Sonerien Du, Alain Pennec enveredou por uma carreira a solo da qual já recolhera dividendos no excelente “Alcoves”. Em “Turbulences” retoma o imaginário céltico trabalhado em moldes inovadores através de uma selecção de temas que abrange Bach, Dan Ar Braz, composições próprias e da harpista Aurore Breger (em evidência nos belíssimos “Trois garçons du Lion d’Or” e “Luna llena”, poalha de estrelas capaz de atrair as fadas) e os inevitáveis tradicionais, da Bretanha mas também dos Balcãs, como em “Taraf de trentemoulk”, ou da Escócia, em “The Abercairney highlanders”, com o acordeão a desdobrar no solo e no acompanhamento do bordão tradicionalmente desempenhados pela gaita-de-foles. “The white petticoat”/La jig de la guilde/Lost by Laggan moor” entra nos domínios do folk rock mas os puristas sentir-se-ão recompensados com uma “Suite plinn” como mandam as regras. (Keltia, distri. Megamúsica, 8)
Também da Bretanha, os Skeduz mostram-se menos excitantes que Pennec neste seu segundo álbum de genérico “Livioù” (“Cores”). Armados com os tradicionais bombarda e gaita-de-foles (a biniou-koz bretã), não se permitem grandes ousadias, contentando-se com o arredondamento rítmico das percussões e da guitarra, demasiado “light” para o nosso gosto, ou com a introdução de algum exotismo, como em “Liv”, estranha união do canto bretão com a hipnose das Arábias. Uma produção algo débil contribui para que “Livioù” não seja de molde a provocar grande entusiasmo. (Keltia, distri. Megamúsica, 6)
Ainda da Bretanha neste caso das ilhas Vendée e com um enfoque diferente, chegam os La Marienne, formados em 1979, como parte da Association de Recherche et d’EXpression pour la Culture POpulaire” de Vendée (A. R. EX. C. PO.). “Chap’Ti, L’Va Loin” foi editado em 1986, mas só agora encontrou lugar nos escaparates nacionais. Mas como mais vale tarde do que nunca, justifica-se plenamente uma audição atenta desta combinação, absolutamente deliciosa, de sanfona, gaita-de-foles, violino e acordeão diatónico – principais instrumentos solistas – com sabor a mar, teatro de histórias umas vezes felizes, outras tenebrosas, desenroladas entre neblinas misteriosas e lugares insondáveis. Onde os La Bottine Souriante se riem na praia os La Marienne dançam de noite no meio de feiticeiras no alto das falésias. (Mémoire des Vendées, distri. MC – Mundo da Canção, 8).
Mas a França não é só a Bretanha, prova-o a existência de uma tradição ilustre de grupos que contribuíram para a importância de que a folk francesa goza hoje no panorama europeu. E se é indiscutível que Alan Stivell foi o primeiro embaixador gaulês no velho continente não é menos verdade que, desde muito cedo, as atenções começaram a recair no resto do hexágono, em nomes como os Malicorne, Mélusine, Maluzerne, Le Grand Rouge ou La Bamboche, para nomear apenas os principais. Os Gentiane pertencem a essa fornada, com uma formação de luxo da qual fazem parte Jean Blanchard e Bernard Blanc, dos La Bamboche, e Emmanuelle Parrenin, dos Mélusine. “Musique d’Auvergne”, gravado originalmente para a editora Cezame em 1976, concentra-se no reportório da região de Auvergne, privilegiando as danças (bourée, valsa, mazurka, marcha, scottish) e, segundo as notas de capa, a “combinação original de instrumentos, a par da pesquisa ao nível dos arranjos e a valorização de temas menos conhecidos”. Os amantes da sonoridade da cabrette (uma das várias modalidades de gaita-de-foles francesas), superiormente executada por Blanchard (um dos nomes mais importantes de sempre da folk francesa), e da voz multitexturada de Parrenin (que também toca sanfona e espineta) encontrarão em “Musique d’Auvergne” – álbum complementar do seminal “Le Galant Noyé” do colectivo do clube “Le Bourdon”, do qual, aliás, a cantora fazia parte – motivos de sobra para entrar em órbita. Heréticos, abstenham-se. (Music & Words, distri. MC – Mundo da Canção, 8).
E como o Inverno está à porta, nada melhor do que abrir a porta do frigorífico e deixar entrar ar, da Escandinávia, através do mais recente trabalho dos Garmarna, “Vedergällningen”, no qual, é triste dizê-lo, se deixaram, desta feita sim, infectar pela síndrome Hedningarna. Tecnofolk e o adequado naipe de vozes femininas (na realidade é apenas uma, de Emma Härdelin, mas houve o cuidado de a gravar em multipistas para parecer um coro…) preenchem tempo e gastam a paciência até se chegar a coisas mais relevantes como “Halling Jaron” ou “Sorgsen ton”. Mais em virtude da qualidade intrínseca dos temas (tradicionais) do que pela originalidade da interpretação, usado e abusado pelas Värtinnä. “Herr holkin” é assustadoramente medíocre e “Bläck” mostra que os Garmarna estão atentos aos truques de produção em voga. Bill Laswell e Jah Wobble, estão à espera de quê para deitar as mãos aos Garmarna? Já se nota a falta do álbum de remisturas… (Massproduktion, distri. MC – Mundo da Canção, 6).
Não basta ter técnica para vingar numa cena, a da folk galega, onde a concorrência é cada vez mais forte e o nível de exigência se aproxima já do da Irlanda. Cristina Pato sabe tocar gaita-de-foles, é um facto, mas quem decidiu lançá-la às feras aos 18 anos de idade e com um gosto musical ainda longe de estar formado, decidiu mal. “Tolemia” é um apanhado de géneros musicais com um magote de convidados (entre os quais Carlos Castro, dos Fia na Roca, e Paço Juncal, ex-Berrogüetto) que serve de pretexto para apresentar a gaiteira e vocalista Pato como uma estrela. Que Cristina ainda não é mas poderá ser. Folk rock sinfónico, celtismos vários adocicados e digeridos para consumo imediato, os convenientes cruzamentos com o flamenco e a música árabe não convencem e quase conseguem fazer esquecer o facto de Pato ser uma executante com uma margem enorme de progressão. Umas “Muiñeiras” servidas com bateria rock mostram virtuosismo gaiteiro e uma simplicidade que Pato poderia e deveria ter explorado mais antes de se aventurar por caminhos que, por agora, ainda não domina. E será pedir demais a Cristina para deixar de cantar melodias folk pimba? É que assim não consegue, sequer, fazer sombra à sua compatriota Susana Seivane. (Fonofolk, distri. Distrimusic, 6).
Deixemos a Pato à mercê dos caçadores e passemos a outras Muxicas. Com “Naturalmente”, sétimo álbum desta banda galega agora já sem a gaiteira e construtora Maria Xosé López, os Muxicas continuam a desenvolver um trabalho cuja consistência e seriedade constituem um caso raro de persistência e integridade no panorama da folk na Galiza. É um a música viva e vibrante, em contacto íntimo com a Natureza e com os homens, de uma jovialidade que a cada tema se renova. Pássaros, flautas, sanfonas, gaitas-de-foles e bombos dançam uma ronda da Primavera com uma força, uma alegria e uma luz que não saboreávamos desde o inesquecível “Cant e Musica de Provenca” dos Mont-Jóia. “Naturalmente” possui o fascínio das cores, dos sabores e dos gestos naturais. A dança eterna dos seres, dos sentimentos e das forças que os animam. Um álbum que nos reconcilia com a vida. (Punteiro, distri. MC – Mundo da Canção, 8)
Ainda da Galiza, o regresso de outro grupo lendário, os Fuxan os Ventos. Do lusitanismo e da vertente intervencionista dos primeiros álbuns, gravados ainda na década de 70, como “O Tequeletequele”, “Galicia Canta ó Neno” e “Sementeira”, os Fuxan os Ventos evoluíram para sonoridades mais sofisticadas em trabalhos como “Quen a Soubera Cantar” e “Noutrosa”. “Sempre e Mais Despois” mostra o grupo na sua melhor forma, pondo fim a um período de longa inactividade. Não poderia começar de melhor maneira, este álbum apresentado num luxuoso digipac, com “Rorró”, uma das mais belas baladas cantadas por uma voz feminina que nos foi dada a ouvir nos últimos tempos com origem no Noroeste da Península Ibérica. Menos concentrados nas danças e mais no canto e nas cadências intimistas, os Fuxan os Ventos inspiraram-se nos textos do poeta Manoel Antonio para a criação de uma obra que, por mais de uma vez, denota a mesma densidade de expressão e a profundidade que caracterizam um dos momentos marcantes de toda a folk galega, “Caravel de Caravels”, de Amancio Prada. Quem escutar a ternura dos arranjos e o diálogo das vozes de um tema como “Romance de Doña Eusenda”, um clássico do reportório tradicional galego, perceberá o que queremos dizer. O melhor Fuxan os Ventos de sempre. (Fonofolk, distri. Distrimusic, 8)
De Espanha, mas agora vinda do Sul, da Andaluzia, chega a reedição de “Aynadamar – La Fuente de Las Lagrimas”, álbum não datado mas ao certo gravado nos anos 80, da cantora Aurora Moreno, a par de Maria Del Mar Bonnet e de Rosa Zaragoza, uma das principais representantes do canto feminino do Sul de Espanha. Com apresentação detalhada a cargo de um musicólogo da Universidade de Granada e do músico e teórico Joaquin Diaz, “Aynadamar” reúne composições “jarchas”, género poético do cancioneiro sefardita, recolhidas de Marrocos e da Turquia, filtradas pela canção andaluza e recriada em composições da própria à luz da cultura do Al-Andalus. Sensualidade e melancolia misturam-se num álbum quase sempre marcado pela tristeza e por lágrimas que parecem, de facto, brotar de uma fonte. (Several, distri. MC – Mundo da Canção, 8)
Não sei por que razão mas a verdade é que as artistas da folk estão cada vez mais bonitas. Kathryn Tickell, Eileen Ivers, Equidad Bares, Susana Seivane, eu sei lá (só Eliza Carthy destoa um bocadinho…) além de extraordinárias cantoras ou executantes impressionam pela beleza que irradiam. Natalie MacMaster é uma loura encaracolada que toca violino, talvez sem a sensualidade de Kathryn Tickell, mas dando mostras de um domínio técnico e de um rigor insuperáveis que já tinham impressionado no álbum anterior, “No Boundaries”. O novo “My Roots are Showing”, como o título indica, recupera material mais tradicional, oriundo da ilha de Cape Breton. Uma colecção exclusiva de danças para violino no estilo sincopado característico da região, composta pelos inevitáveis jigs e reels mas também por hornpipes e strathspeys. Puro e duro, “My Roots are Showing” tem como óbvios destinatários os coleccionadores de reportório violinístico ou os que, simplesmente, não dispensam amealhar a mais pequena migalha de virtuosismo instrumental. (Greentrax, distri. MC – Mundo da Canção, 7)
Shirley Collins dispensa apresentações. É, juntamente com June Tabor, Maddy Prior e Norma Waterson, uma das vozes emblemáticas da folk inglesa. Assinou trabalhos notáveis, a solo, ao lado da sua irmã Dolly Collins ou com o seu então marido Ashley Hutchings, na Albion Country Band, como “The Sweet Primeroses”, “For as many as Will”, “No Roses” e as obras-primas “Love, Death and the Lady” e “Anthems in Eden”, esta última recentemente reeditada em CD pela BGO em versão remasterizada. “Sweet England” constitui a estreia discográfica da cantora, gravada em 1959 com o acompanhamento de John Hasted (banjo), Ralph Rinzler e Guy Carawan (guitarras), numa época de intenso trabalho de campo na Inglaterra mas também no Sul dos Estados Unidos. 40 anos volvidos permanece intacta a magia que se desprende do registo vocal de Shirley Collins, com um timbre e entoações onde a fragilidade e uma solenidade velada se confundem. A folk rural da velha Inglaterra na sua expressão mais despojada e, por força da poesia, depurada até um silêncio comovido. Essencial para se compreender tudo o que veio depois.
Cinco anos mais tarde, em 1964, Shirley Collins gravou com o guitarrista Davy Graham – um admirador dos blues de Big Bill Broonzy e Leadbelly mas também de Thelonious Monk e Charles Mingus – o clássico “Folk Roots, New Routes”, percursor do jazz-folk dos Pentangle e, em geral, peça fundamental da génese do movimento revivalista que eclodiria na Grã-Bretanha na transição para a década seguinte. Ao fraseado fluido do guitarrista respondia a cantora com um registo vocal mais límpido e frontal do que noutras obras da sua discografia, como se ao prazer da descoberta de uma expressividade mais livre correspondesse a transgressão de regras que antes a seguravam. Outra peça determinante no desenvolvimento de uma música que muito deve a esta voz que transporta em si os mistérios mais antigos da velha Albion. (Topic, distri. Megamúsica, 8 e 8)
O mesmo se pode dizer de Martin Carthy, outro dos pilares da folk britânica, dos anos 60 até aos nossos dias. Mas enquanto Shirley Collins representa o lado mais velado e trágico desta música, em Martin Carthy brilha um discurso épico, uma grandiosidade e um tom afirmativo que lhe granjearam o estatuto de Bob Dylan das Ilhas Britânicas, tal a importância e longevidade da sua obra. “A Collection” é uma colectânea que reúne material gravado entre 1965 e 1970, a solo, dos álbuns “Martin Carthy”, “Second Album”, “Prince Heathen” e “Landfall”, e três colaborações com o violinista Dave Swarbrick que, anos mais tarde, se notabilizaria nos Fairport Convention, dos álbuns “Byker Hill” e “But Two Came by”. Anos antes de formar os Steeleye Span, os Albion Country Band e os Brass Monkey, a combinação entre a voz e a guitarra de Carthy era, já nessa altura, letal. Cada balada era um hino à Inglaterra e uma manifestação efusiva do prazer de tocar e de cantar. Ouça-se “Seven yellow gypsies”, por exemplo. Ninguém mais seria capaz de cantar uma balada desta maneira. Como se estivesse a fazer amor. A combater na derradeira guerra. E a música fosse a única prova de que estamos vivos. (Topic, distri. Megamúsica, 9)