Arquivo mensal: Abril 2017

Segredo Dos Deuses / Grupo De Inês Santos / Inês Santos – Entrevista

Pop Rock

12 Março 1997

Grupo de Inês Santos estreia-se em disco

Guardadores de rebanhos

Durante dois anos, na “Garagem”, em Coimbra, mantiveram a música no segredo dos deuses. A designação ficou, num disco de canções intimistas com a poesia de Florbela Espanca e Fernando Pessoa e a voz de uma Inês Santos, vencedora da Chuva de Estrelas, liberta da crisálida de Sinead O’Connor.


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Deixou de ser segredo. O Segredo dos Deuses é o nome do grupo e de um álbum de estreia onde a voz de Inês Santos – vencedora em 1995 do concurso televisivo de descoberta de novos talentos Chuva de Estrelas – é o alvo das atenções. Ela a o baterista Nuno Pinto falaram ao PÚBLICO do prazer que sentiram nesta sua primeira gravação. O terceiro elemento presente, o guitarrista Francisco Caetano, falou que se fartou…
PÚBLICO – Depois da vitória no Chuva de Estrelas, seria de esperar uma opção por uma carreira a solo. Mas, ao invés disso, acabou por gravar integrada num coletivo. Porquê?
INÊS SANTOS – Já conhecia os cinco elementos do grupo que, aliás, já existia antes, os Euterpe. Decidi convidá-los quando o Tó Zé, da BMG, me convidou, por sua vez, para fazer o disco, ganhasse ou não o Chuva de Estrelas. Significa que este disco não é o do prémio do concurso. É outro contrato.
NUNO PINTO – Além de que, durante o tempo que estivemos a trabalhar neste projeto, na “Garagem”, a arranjar as músicas, verificámos que existiu uma envolvência grande entre nós os seis. Não faria sentido o disco sair em nome da Inês Santos.
P. – Os Euterpe perderam a sua autonomia…
N.P. – Foi um risco, obviamente. Quando entrámos no projeto sabíamos que isso iria acontecer e vai continuar a acontecer. Mas aceitámos de bom grado, não queremos notoriedade. O grupo até já tinha ido ao Rock Rendez-Vous. Quando demos início a este projeto, é claro que tivemos de começar a fazer música direcionada para a voz da Inês.
P. – O facto de a Inês ter ganho o concurso trouxe vantagens para a sua carreira ou, pelo contrário, poderá de futuro constituir um entrave?
I.S. – A curto e médio prazo representa uma dificuldade. A longo prazo deixa de o ser, passando a ser uma facilidade, porque as pessoas irão deixando de me conhecer como a Sinead O’Connor.
P. – De resto, a sua imitação da cantora irlandesa não tem nada a ver com os registos vocais em que canta neste disco…
I.S. – Sim, tem muito pouco a ver, realmente. Considero que nem sequer fiz uma boa imitação. Fiz uma boa interpretação, mas a voz que estava lá era a minha. Mas no CD nota-se uma grande diferença. Eu sou mezzo soprano e o meu registo é bem, bem agudo. O que eu queria ser é cantora lírica. Tem tudo a ver com a minha formação clássica de Conservatório.
P. – Um registo e um timbre que num tema como “Fugaz” lembram bastante Annie Haslam, a cantora de um grupo de rock sinfónico dos anos 70, os Renaissance.
I.S. – Tem graça, sempre que canto esse tema lembro-me da Viviane, dos Entre Aspas…
P. – O disco insiste na tónica do intimismo e de algum secretismo.
I.S. – O que está lá é tudo natural. Vem bem do fundo de cada um de nós. Não foi propositado fazer mistério ou mostrar essa intimidade. O nome tem a ver com a maneira como tudo se passou, em que estivemos dois anos na “Garagem”, uma sala de ensaios em Coimbra, sem ninguém conhecer as músicas, sem ninguém entrar lá dentro. Foi tudo com muito segredo… Mas as composições e as letras também têm misticismo.
P. – Foi por isso que utilizaram poemas de Fernando Pessoa e Florbela Espanca?
I.S. – São dois dos grandes poetas portugueses e dois dos nossos grandes ídolos. A primeira música que o grupo me apresentou foi, precisamente, “Se tu viesses ver-me”, com poema de Florbela Espanca. Foi o grande impulso.
P. – Em termos musicais, nunca se afastam muito desse registo. Não quiseram arriscar?
N.P. – Não houve a preocupação de fazer uma coisa comercial, com um “single” para passar na rádio. Apenas fizemos as músicas e as letras da maneira que gostamos. Com grande responsabilidade e apoio, nos arranjos e na produção, de Fernando Júdice.
I.S. – A minha irmã diz que é um daqueles discos de que se aprende a gostar. Não é um disco imediato. Há uma homogeneidade, um todo que queremos mostrar às pessoas.
P. – Quando é que pensam mostr-alo ao vivo?
I.S. – Estamos a trabalhar com a União Lisboa na marcação de espetáculos. Temos marcados para Março, incluindo uma apresentação em Coimbra, no dia 21, no Scotch.
P. – Há alguma canção de “Segredo dos Deuses” que lhe tivesse dado especial prazer cantar?
I.S. – Todas têm a ver comigo. Mas talvez haja uma especial, “Nos céus de Coimbra”, porque é uma homenagem à cidade onde crescemos e vivemos. Convidámos cinco músicos, na guitarra da Coimbra, viola, teclas e ainda uma voz característica de Coimbra.
P. – O tal intimismo que atravessa todo o disco foi induzido pelo ambiente da cidade?
N.P. – É capaz. Não de uma forma consciente, mas é verdade que não somos indiferentes a uma certa nostalgia.
P. – O Francisco tem alguma coisa a acrescentar?
FRANCISCO CAETANO – Até agora eles não têm falhado… Tenho estado atento para ver se não dizem nenhuma asneira. Mas não, esteve tudo correto.



The Iron Horse – “Voice of the Land”

POP ROCK

26 Fevereiro 1997
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The Iron Horse
Voice of the Land
LOCHSHORE, DISTRI. MC – MUNDO DA CANÇÃO


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Os escoceses The Iron Horse formaram-se em 1990 e, nesse mesmo ano, foram a banda-revelação do festival de Lorient. Estão nos antípodas dos The Cast: onde estes jogam da suavidade e na subtileza, os The Iron Horse preferem aumentar o volume dos sequeciandores e saturar as vozes com efeitos de “multitracking” e reverberação. “Voice of the Land” tem por base a banda sonora que o grupo compôs para a série da BBC “The Gamekeeper”, em que a música retrata a vida selvagem e o clima da região do atol de Blair. Há fusões eletrónicas de ritmos computadorizados com canto gaélico, guitarras elétricas sintetizadas, algumas boas gaitadas encaixadas nos sequenciadores de ritmo e até “hip hop” céltico. O quinteto toca uma variedade de instrumentos, incluindo rabeca, sintetizadores, “whistles”, vários tipos de gaita de foles escocesa, das “small pipes” às “half long pipes”, bandolim, cistro, bouzouki eletrificado, sequenciadores de ritmo, guitarras, baixo elétrico e percussão. Antes da “acid-croft mix” do título-tema que fecha o álbum, a Escócia surge, por uma vez, radiosa, nas “scottish pipes”, por uma vez libertas do espartilho dos sintetizadores, em “The sheepwife”. Apetece dançar. Uma experiência, de qualquer modo, interessante. (6)

“Comprar A Qualquer Preço” : Guerra Entre Distribuidoras Nacional E Espanhola – Artigo de Opinião

POP ROCK

26 Fevereiro 1997

Guerra entre distribuidoras nacional e espanhola

COMPRAR A QUALQUER PREÇO

Os espanhóis estão a fazer ocupação hostil do mercado discográfico português, ao venderem diretamente às lojas editoras sobre as quais não detêm direitos de distribuição. É a acusação lançada pela Música Alternativa à distribuidora espanhola Mastertrax. Estes negam. Será que “exclusividade” é mesmo um conceito subjetivo?

Com as facilidades de intercâmbio facultadas pela adesão de Portugal ao mercado comum, baralharam-se as regras de distribuição. Para os retalhistas e lojistas, a questão resume-se a comprar onde sai mais barato. Ou não será bem assim?
Os protestos mais recentes chegam da editora independente Música Alternativa, que se queixa de algumas das editoras que afirma representar chegarem às lojas por via da venda direta dos armazéns e distribuidoras espanholas. É o caso da Roadrunner – cujo lançamento mais próximo será o álbum dos Machine Head, “The more Things Change…” – Music for Nations e Earache, as quais, segundo os seus responsáveis, são distribuídas pela Música Alternativa, depois de o terem sido pela Sony Music. Mas um anúncio publicado no jornal “Blitz” da semana passada anunciava a Mastertrax como “representante exclusiva para a Península Ibérica” destes e doutros catálogos.
Para Samuel Carlos, diretor da Música Alternativa, contactado telefonicamente pelo PÚBLICO, trata-se de um problema que “já vem de longe”. Desde logo, acusa os espanhóis de “fazerem exportação indevida, sem direitos para isso, para Portugal, através de pessoas que têm negócios menos lícitos”. Embora reconhecendo que, a nível da Constituição, tais operações sejam legais, Samuel Carlos critica-as de um ponto de vista ético. “Era a mesma coisa que nós exportarmos para Espanha coisas sobre as quais não temos direitos. Eles têm os mesmos direitos para o país deles, mas é um facto que quebram esses direitos”.
Confrontado com a possibilidade de os discos obtidos por compra direta poderem sair mais baratos ao lojista, Samuel Carlos refuta-a. “Sinceramente, a nível de preços, não percebo… Se eles comprar exatamente ao mesmo preço, ou até, no nosso caso, ligeiramente mais barato, não percebo como é que poderão comprar mais barato aos espanhóis!…” Qual é o interesse dos lojistas? “Uma boa pergunta! Talvez tenham vários interesses… um deles, por exemplo até pode ser o de comprar discos sem faturas…”. Samuel Carlos reconhece a existência de lojas que se mantêm “fiéis” à sua distribuição, enquanto que noutras, diz, é a “selvajaria”, onde cada qual compra sem olhar a quem.
Em relação à Mastertrax, Samuel Carlos dirige um ataque mais violento ao seu representante em Portugal, a quem acusa de “querer lixar” a Música Alternativa. “Só pode ser uma doença. Analisando o percurso dessa pessoa no passado, verifica-se que passou a vida a fazer o mesmo a outras pessoas. Tem que ter sempre alguém para chatear. E nós, em vez de andarmos a fazer o que devíamos, promover artistas, criar editoras, perdemos tempo com estas chachadas, com cromos destes que aparecem a tentar desestabilizar. E até conseguem. Enquanto neste país se viver na ignorância, sem saber como as coisas realmente funcionam. Depois, os portugueses vivem de costas uns para os outros. Ao contrário do que acontece em Espanha”. O responsável máximo pela Música Alternativa adianta ainda um dado curioso sobre a nacionalidade do diretor da Mastertrax: “É indonésio!”.
António Seara, da Bojarda, representante da Mastertrax em Portugal, põe a questão em termos simples: “A Roadrunner deixou de ser distribuída pela Música Alternativa desde Janeiro deste ano. Temos um fax da Roadrunner a prová-lo”. Embora, a seguir, adiante que “a exclusividade é uma coisa um bocado subjetiva”: “Apesar de sermos exclusivos para Portugal da Roadrunner, a Música Alternativa pode continuar a vender, basta ir comprar a um armazém qualquer da Inglaterra, da Holanda ou da Alemanha. Se telefonarem para a Música Alternativa a perguntar se têm a Roadrunner, eles vão dizer que sim… Mas a distribuição oficial, para a Península Ibérica, pertence à Mastertrax. Em relação à Music for Nations e Earache, a Mastertrax apenas tem a distribuição para Espanha, independentemente de as podermos vender, se quisermos, como há mais pessoas a fazê-lo. Mas nós não o fazemos, atenção!”. Porque, no fundo, a exclusividade “o que é que dá?”. Para António Seara, a única coisa que pode dar é “melhores preços, melhores serviços e melhor publicidade”. Acontece que “as discotecas em Portugal vão muito aos armazéns, como se fossem a um supermercado, escolher dois discos destes, três daqueles. E os armazéns podem fazer importação direta…”.