Panegyris
Greek Folk Favorites
TRADITION, DISTRI. MVM
Subdividido nos capítulos “Danças populares”, “Canções”, “Pontos”, “Epirus”, “Ilhas do Mar Egeu”, “Danças e canções” e “O Peloponeso”, a presente reedição percorre as diferentes vertentes da música grega mais tradicional, por um grupo cuja data de formação remonta a 1954. Música austera, possui todas as condições para seduzir sem, no entanto, nunca o fazer pelo lado da superficialidade (e apesar de um título tão infeliz como o escolhido) com que, habitualmente, a música da Grécia é apresentada, enquanto atracção turística, pelos menos escrupulosos na matéria. Evidenciando toda a mescla de influências que permeiam, de Ocidente ao Oriente bizantino, estas melodias e danças em forma de cobra, a música dos Panegyris mergulha na antiguidade e nos mitos, aproximando-se, nos “Pontos”, dos Balcãs, quer nas vocalizações, quer na complexidade dos compassos de sete, nove e cinco por oito, quer ainda na sonoridade da gaita-de-foles, parente da “gaida”. A voz da solista Dora Stratou é, por si só, um mundo de delícias a descobrir. Não serão, talvez, muitos os que ousarão investigar este misterioso e discreto objecto de fascínio. Então não é só Zorba, o grego? Não, não é. Podem crer que o planeta é outro, muito mais vasto e profundo do que possam imaginar. Uma perfeição a descobrir pelos eleitos. (10)
“Seven” é o sétimo sentido que cura e o título do novo trabalho das Zap Mama, filhos das viagens de Marie Daulne pelo hip hop, o reggae, a soul e a cultura tuaregue. Polifonias dos mundos antigos e modernos para encher os pulmões.
Para Marie Daulne, mentora do grupo vocal feminino Zap Mama, agora com uma secção instrumental e contrato assinado com uma nova editora, é tudo uma questão de descoberta e aprendizagem. Se “Seven” é o seu álbum mais acessível, tal não acontece por uma questão de moda, mas porque ela descobriu a existência de outras maneiras de dar a ouvir as polifonias do mundo tradicional ao mundo moderno. Com a mesma paixão pelo som do hip hop. “O importante é fazer com que as pessoas cantem.”
PÚBLICO – Por que razão escolheu “Seven” para título do terceiro álbum das Zap Mama?
MARIE DAULNE – Sete é um algarismo que está presente em inúmeras culturas. Além disso, há os sete pecados mortais e toda a espécie de conotações simbólicas. Em África, acredita-se na existência de um sétimo sentido, concedido aos artistas, que têm o poder de curar as almas.
P. – A mudança de editora, da Crammed para a Virgin, significa que estavam descontentes com o trabalho da primeira? A mudança implicou alterações no estilo e métodos de trabalho do grupo?
R. – Sim, a Crammed é uma editora pequena e nem sempre dispunha dos meios financeiros para poder assumir a dimensão internacional que pretendíamos. A Virgin é maior e creio que poderá assegurar-nos o sucesso a esse nível. Quanto à nossa música, nada mudou…
P. – Mas é o vosso álbum mais acessível…
R. – Sim, porque cantamos em inglês e temos agora uma secção rítmica que ajuda a uma leitura mais fácil dos ritmos, recorrendo em simultâneo a cadências que toda a gente conhece.
P. – Ao ponto de haver uma série de temas com base no hip hop. Não é, um pouco, encostar-se a uma moda?
R. – Não tem nada a ver com ser ou não uma moda, mas apenas com o facto de gostar imenso de hip hop. A moda surgiu posteriormente, na world music, com grupos como os Deep Forest. Quanto ao hip hop, ouço imenso, sobretudo Spearhead, que é o Michael Franti, com quem, aliás, trabalhei [na banda sonora de “Blue in the Face”]. Também gosto dos US 3 e dos The Roots. Sinto que está a chegar uma nova geração, que aceita, em primeiro lugar, o som, em detrimento da melodia. É o som que fala por si. Se for a um concerto dos The Roots verifica que tocam uma caixa-de-ritmos com a boca ou fazem uso intensivo do “scratch”. Servem-se de tudo o que têm à mão para produzir som. Esta é a filosofia do hip hop e também a minha. A diferença está em que, enquanto os americanos recorrem a todas as máquinas que têm à sua disposição, na Europa fazem-se coisas bastante mais acústicas, mais naturais, mesmo mais silenciosas. Mas, repito, oponho-me a seguir qualquer moda, por isso recuso integrar-me no universo do hip hop ou do jazz.
P. – Apesar disso, nota-se, em “Seven”, que houve um trabalho de produção minucioso. Como é que o grupo trabalha em estúdio? Gravam uma voz de cada vez ou cantam logo em conjunto?
R. – Trabalho sozinha. Todos os discos do grupo foram feitos por mim, sozinha. Gravo uma voz de cada vez, sozinha, mas sabendo de antemão o som que pretendo. É um processo que vivo apaixonadamente, passo o tempo todo a intrometer-me, a mexer em tudo, a escutar o mínimo pormenor. Mas não sou como Bobby McFerrin, que não precisa de mais ninguém. Não resultaria se fizesse como ele. É preciso misturar timbres, vozes diferentes, uma graves, outras agudas, umas outras roucas. Pedi às outras raparigas que cantassem como eu queria. Em “Sabsylma” mudei as raparigas, porque quis usar outros timbres diferentes. Fiz o mesmo neste terceiro álbum, em que pretendi misturar o timbre das vozes com outros instrumentos.
P. – Essa presença instrumental mais forte não descaracterizou o grupo? As Zap Mama deixaram de ser o grupo de vozes “a capella” dos dois primeiros álbuns…
R. – É simples, as Zap Mama não são um grupo no sentido restrito do termo, mas um conceito que eu própria inventei. No início, a ênfase era posta nas polifonias do mundo inteiro e foi isso que fiz. Presentemente, numa altura em que toda a gente tem a cabeça voltada para a polifonia, decidi cantar de outra forma e voltar-me para o mundo moderno.
P. – Ao vivo, as coisas funcionam da mesma maneira?
R. – Quem já ouviu as novas Zap Mama já comprovou a existência da nova componente rítmica e instrumental. Digamos que, hoje, tocamos para um público mais intelectualizado, enquanto, no início, o fazíamos para uma plateia mais simples, talvez mais próxima do mundo africano. Hoje tocamos para toda a gente. Todos têm direito a escutar polifonias.
P. – Como conheceu o “rasta” U-Roy, que participa em “XXX”?
R. – O meu empresário é também organizador de concertos e falou-me de um com U-Roy, um músico que ouço e adoro desde os meus 14 anos. Larguei tudo para ir ao concerto, encontrei-me com ele e convidei-o a tocar connosco. Felizmente, ele concordou…
P. – Como surgiu a ideia de fazer a versão de “Damn your eyes”, de Etta James?
R. – Quando era adolescente, ouvi esta canção na altura em que sofri uma desilusão amorosa e foi ela que me ajudou a sair da tristeza. Ao inclui-la em “Seven” achei que talvez pudesse, de novo, ajudar outros adolescentes a sair da mesma situação…
P. – Agora que o fenómeno da world music está firmemente implantado, é mais fácil fazer chegar ao público a música das Zap Mama?
R. – Sem dúvida que sim, mas o meu objectivo não é tirar partido da sorte, mas sim descobrir e divulgar os sons de outros povos. Se um maior número de pessoas ouvir a música das Zap Mama, o importante é poderem dizer: “Ah! Olha a música dos tuaregues!” Ou: “Oh, é assim a música dos pigmeus?” Este é o meu objectivo principal. Pessoas que nunca tiveram antes qualquer contacto com a música étnica, vão descobrir e apreciar outros povos e culturas e tomar consciência de que não estão sós sobre a Terra.
P. – “Sabsylma” tem como conceito base a luta contra a injustiça. “Seven” parece inclinar-se mais para o lado do misticismo. É verdade?
R. – Não sei se há misticismo… A única diferença que sinto em relação ao que era quando fiz “Sabsylma” é que agora sou mãe. Tenho a impressão de ser mais realista neste álbum. No primeiro disco do grupo, vivia num mundo que, embora sendo real, era um mundo que ninguém conhecia.
P. – “Zap Mama” e “Sabsylma” jogaram, em grande parte, no efeito da surpresa. Agora que ela se desvaneceu, as Zap Mama investigam novos caminhos?
R. – Estou sempre a descobrir coisas novas. Novos músicos, como Stéphane Galland e Michael Hatzigeorgiou, com quem aprendi muito. Com os tuaregues, descobri novas maneiras de funcionar. Fez-me abrir os olhos para novas realidades.
P. – O estilo vocal das Zap Mama fez escola, com seguidores como as Évasion, por exemplo. Como encara este facto?
R. – É verdade. Quanto mais pessoas houver para fazer este estilo de coisas, melhor. Desde que o façam bem, claro. Se não fosse assim, não fazia sentido gravar discos. Por mim, gostaria de fazer cantar as pessoas que sentem desejo de o fazer.
P. – Para acabar, que força é que a faz cantar?
R. – Saber que, através do canto, se cura muitas doenças. Que a melodia tem um poder de cura. As pessoas têm falta de ar, em vez de tomar remédios, deviam encher os pulmões. E o canto é, na essência, encher os pulmões.
A oitava edição do festival Cantigas do Maio termina este fim de semana no Seixal. Em grande, depois de ter arrancado, a semana passada, com um programa dedicado às músicas de expressão latinas. Mas os cabeças de cartaz chegam agora: Vasmalom, Tellu Virkkala, Purna das Baul & Bapi, Bisserov Sisters e Kocani Orkestar.
Conquista pergaminhos, ano após ano, este festival que se realiza no Seixal, entre o Intercéltico do Porto e os Encontros, em memória a José Afonso. Coisa importante: Sente-se que tem mística, um ar próprio para respirar além dos sons. A zona antiga, ribeirinha, da vila, presta-se a isso. É lugar convidativo. Mais uma razão para o convívio em pleno com as músicas do mundo.
Inicia-se o percurso com as Bisserov Sisters, da Bulgária, que actuam amanhã, às 22h, no Fórum Cultural do Seixal. Antes, às 17h, 18h e 19h, há teatro de fantoches de luva (manuseados por Raul Constante Pereira), pelo Teatro Dom Roberto, na Praça dos Mártires da Liberdade. Leve os seus filhos para se divertirem juntos.
Sexta-feira, não falte aos concertos dos Purna das Baul & Bapi, de Bengala, Índia, e dos Kocani Orkestar, orquestra de metais cigana, da Macedónia. Por detrás do edifício da antiga fábrica de cortiça, Mundet, às 22h. Pode fazer os preparativos durante a tarde. Às 19h e 21h o Grupo de Bombos Almacena desfila pela rua Paiva Coelho. Pelas 20h o Grupo de Cante Alentejano dos Mineiros de Aljustrel eleva as vozes no mesmo local, seguindo até à Praça da República.
A companhia do Teatro Dom Roberto regressa na tarde de sábado, às mesmas horas e no mesmo local da véspera. Ainda de tarde pode assistir à actuação da Banda Plástica de Barcelos (com os seus 22 músicos vestidos como se fossem as célebres figuras de barro da região), na Praça da República, pelas 18h30, e na rua Paiva Coelho, pelas 21h. 20h é a hora marcada para o Seixal estremecer com o Grupo de Bombos de Lavacolhos, o mesmo acontecendo uma hora e meia mais tarde. Para terminar em beleza, nada melhor como dirigir-se, depois do jantar, às 22h, até à antiga fábrica Mundnet, para ouvir alguma da melhor música de raiz tradicional que se faz actualmente na Europa, através de Tellu Vikkala, uma das antigas vocalistas do fenómeno Hedningarna, agora numa aventura partilhada com outras duas ex-vocalistas deste grupo sueco, Sanna Kurki-Suonio e Anita Lehtola, Anna – Kaisa Liedes e Liisa Matveinen. O festival fecha no sábado, pelas 22h, na fábrica Mundnet, com os húngaros Vasmalom. Entre os sons do “cymbalon”, de uma gaita-de-foles ou de um “hitgardon”, nunca mais esquecer a voz de Éva Molnár. A entrada é livre em todos os espectáculos, excepto o das Bisserov Sisters, sábado, no Fórum Cultural.
O festival tem também para oferecer as Manifestações Paralelas: A exposição de cerâmica “7 Pecados e 7 Virtudes”, de Júlia Ramalho, uma intervenção de teatro de rua por alunos da Escola José Afonso, com orientação da Art’Imagem, e uma oficina de construção de cabeçudos para crianças orientada por Sabino Pires e Alfredo Teixeira. Pode ainda dar um passeio de barco varino ou num bote de fragata pela baía do Seixal. A organização das Cantigas do Maio cabe à Associação José Afonso em conjunto com a Câmara Municipal do Seixal. Apresentado o programa geral, vamos aos pormenores.
Irmãs, fanfarras e menestréis
As Bisserov Sisters, como o seu nome indica, são irmãs. Lyubimka, Neda e Mitra Bisserov. Nasceram na vila montanhosa do Pirin, no Sudoeste da Bulgária, junto à fronteira com a Macedónia e a Grécia. É desta região a música que se pode ouvir nos seus álbuns “Music from the Pirin Mountains” (com distribuição nacional) ou na colectânea “The Hits of the Bisserov Sisters, vol. 1”, que estará à venda na banca do festival. Canções rituais – a duas vozes e com dois textos diferentes em simultâneo – constituem um dos elementos importantes da tradição do Pirin. Fazendo inicialmente parte de outras formações, as irmãs Bisserov restringiram, desde 1990, a sua actividade ao seu próprio trio. Ao vivo contam com uma formação instrumental que inclui a “gaida” (gaita-de-foles), “tambura” e “tapan” (tambores), “kaval” (flauta) e “gadulka” (violino). O timbre vocal búlgaro, com o seu vibrato característico, esse é inconfundível.
Ouvimos pela primeira vez os Purna das Baul, da região de Bengala, no nordeste indiano, junto ao Bangla Desh, através do álbum “Bauls of Bengal” (com distribuição nacional). O novo chama-se “Songs of Love & Ecstasy” (nas bancas do festival). São ambos magníficos. Não esperem “ragas”, nem incenso, nem ladainhas “aum”. A música dos “bauls” (menestréis nómadas) tem outra aproximação ao divino. Pelo canto e pela extroversão, num ritual celebratório que partilha com os ouvintes as suas canções de amor e êxtase. Os Purna das Baul, no Seixal acompanhados pelo músico convidado Bapi, pertencem a uma “gharana” (família) já com sete gerações de músicos, cada uma sempre sob a educação de um mestre.
Em Kocani, cidade da Macedónia, antigo território da ex-Jugoslávia, nasceu a Orkestar (fanfarra) fundada por Naat Veliov. Como todas as “orkestar”, criadas nos Balcãs no séc. XIX à imagem das orquestras militares turcas, a Kocani Orkestar é constituída por músicos ciganos, nómadas, com a sua leitura própria das tradições da Turquia, Albânia, Grécia e Bulgária. Aproveitando os vários estilos musicais destas regiões, mantendo viva a inspiração oriental do povo cigano, Naat Veliov confere à sua Orkestar um cunho de autenticidade, presente nas diversas combinações entre o trompete, saxofone, clarinete, tuba, acordeão, cornetim e tambor. Uma festa de metais, de cores aguerridas, que fazem jus à sua origem militar.
Tellu Virkalla é finlandesa mas começou por tocar violino num grupo sueco, os Hedningarna, entre 1990 e 1996. Estudou na Academia de Música Sibelius, como quase toda a gente, na Finlândia. Depois de uma passagem pela Noruega, para aperfeiçoar a sua técnica no violino, decidiu-se por uma carreira a solo. Ou quase, já que, habitualmente, Tellu se faz acompanhar por Sanna Kurki-Suonio e Anita Lehtola, as duas também ex-Hedningarna, além de Anna – Kaisa Liedes, professora de canto na Academia Sibelius (é favor ouvirem o seu álbum a solo “Oi Miksi”) e Liisa Matveinen, vocalista dos Tallari, Niekku e Etnopojat (é favor ouvirem o seu álbum a solo, “Ottilia”). No álbum de estreia de Tellu Virkkala, “Suden Aika”, “O tempo do lobo”, (nas bancas do festival), não participam Anita Lehtola e Anna – Kaisa Liedes, ocupando o seu lugar Tina Johansson e Pia Rask. “Suden Aika” é um álbum de polifonias e solos vocais arrevesados (por vezes com acompanhamento de percussões, que tanto podem ser um “bodhran” irlandês como um “ghatam” indiano ou um berimbau), estranho, agreste e misterioso. Como um lobo. Ou uma loba, Tellu, a voz iniciática das estepes.
Louvores e vénias aos Vasmalom, uma das formações de música de raiz tradicional da Hungria que mais longe e de forma mais divertida tem levado a tradição deste país para regiões insuspeitadas. Da música dos Vasmalom desprende-se a mesma sensação de liberdade do jazz. Álbuns como “Vasmalom II” (distribuição nacional) e “Vasmalom III” (na banca) caracterizam-se por uma síntese interiorizada de influências sortidas, do “jazz” aos “blues”, do rock à balada e ao pormenor humorista. Sempre com uma fluência que dispensa os formalismos de escola e faz parecer esta música como pertencendo a uma Hungria imaginária e sem fronteiras. Sob a liderança de Gábor Reӧthy, os Vasmalom contam na sua formação com uma cantora que ombreia com Márta Sebestyén no grupo das melhores: Éva Molnár. A instrumentação do sexteto, com formação clássica, inclui as cores da “darabuka”, “tapan”, “zurna” (flauta), “hitgardon” (parecido com um grande violino tosco, de cordas percutidas, construído em tronco de árvore), gaita-de-foles, violino, saxofone, harmónica, contrabaixo e o indispensável “cymbalon” (variante magiar do saltério). Éva acrescenta o pecado e a magia. É ela que dará a trincar o maior gomo da maçã do prazer, no que será, certamente, um dos momentos mais altos do festival.