Arquivo mensal: Fevereiro 2017

Alastair McDonald – “Velvet & Steel”

POP ROCK

22 Janeiro 1997
world

Alastair McDonald
Velvet & Steel
GREENTRAX, DISTRI. MC-MUNDO DA CANÇÃO


am

No imaginário ocidental relativo à Escócia aparece destacada a figura do guerreiro de “kilt” e espada erguida, marchando contra o inimigo ao som de uma gaita-de-foles. É este lugar-comum e esta imagem unidireccional que o cantor Alastair McDonald procura desmistificar, numa obra épica, dividida em 15 segmentos temáticos, que passa em revista a história guerreira da Escócia, mas agora centrada nas suas manifestações menos turísticas e mais intimistas. “Sem uma afeição genuína e sentido de responsabilidade em relação ao companheirismo e ao lar, a actividade do soldado não é mais do que a mera fanfarronice do mercenário”, escreve o músico nas notas de capa. A este sentido de interiorização e de desagravo da figura do soldado escocês que percorre, em termos conceptuais, “Velvet & Steel”, não correspondem sons exaltantes, nem especialmente inovadores. A veia vocal de Alastair McDonald está, por vezes, próxima da de um Brian McNeill, no seu caso, fazendo-se sentir, ainda com maior intensidade, a ausência da “verve” instrumental dos Battlefield Band. Mas, se a versão do clássico “Haughs O’ Cromdale” não faz esquecer uma outra, “folk rock” – essa sim, exaltante –, dos Five Hand Reel (de Dick Gaughan), no já velhinho “For A’ That”, não é difícil descortinar no meio desta batalha sem vencedor nem vencido, entre declamações e a (infelizmente) parca utilização das “border pipes” de Hamish Moore, baladas de singular beleza, como “The seer” e “Culloden’s harvest”. (7)



Varttina – “Kokko”

POP ROCK

15 Janeiro 1997
world

Mulheres de armas

VӒRTTINӒ
Kokko (7)
Elektra Nonesuch, distri. Warner Music


varttina

O crítico da “Folk Roots” não gostou de “Kokko”, despachando o disco com o argumento de que a sua música já não se dirige aos leitores da revista. Tal excomunhão tem, em parte, razão de ser. À semelhança do que aconteceu aos suecos Hedningarna, as Värttinä ascenderam progressivamente de tranquilo grupo nacional, ou mesmo regional, no caso das finlandesas, a atracção internacional. A este alargamento da esfera de influência correspondeu, em ambos os grupos, um realinhamento dos respectivos projectos estéticos originais. Tanto o álbum de estreia dos Hedningarna, como o das Värttinä, “Musta Lindu”, são abordagens convencionais à música tradicional, contendo embora, sobretudo no caso dos suecos, as sementes do que viria a seguir.
Quando “Kaksi!”, dos Hedningarna, e “Oi Dai” e, sobretudo, “Seleniko”, das Värttinä, explodem na cena internacional, orgulhosos da inovação da das suas propostas, isso corresponde a um ponto de equilíbrio que, a partir daí, será difícil de gerir. A entrada num mercado que, a nível de projectos mais comerciais, se pauta cada vez mais pela uniformização dessa quase aberração em que se tornou hoje o termo “world music”, determinou o reajustamento das facetas mais regionais e específicas da música, a regras de produção que passam, em primeiro lugar, pela normalização da faceta rítmica, de modo a fazer chegar mais facilmente e mais longe a música dos “grupos de sucesso” aos ouvidos do consumidor de “world”. Mas se no caso dos Hedningarna esta “desvirtuação” corresponde, afinal, a linhas de força que já estavam, desde o início, implícitas na evolução do grupo, no caso das Värttinä, isso correspondeu, de facto, a uma simplificação e empobrecimento do projecto inicial. “Aitara”, o álbum anterior, era já um álbum de popfolk sofisticada, em que a beleza das melodias e as intocáveis capacidades vocais do grupo compensavam a ausência de uma leitura da tradição mais aprofundada. “Kokko” continua pelo mesmo caminho, abrindo às Värttinä uma fatia ainda mais alargada do mercado mas, provavelmente, deixando pelo caminho alguns dos seus apoiantes da primeira hora.
Ritmicamente previsível, para não dizer mecânico (é preciso esperar até ao último tempo para se deparar com a honrosa excepção, na maravilhosa polifonia de “Emoni ennen”), “Kokko” joga ainda na sedução e autenticidade das vozes como último recurso para manter a ligação à obra do passado, mas é óbvio que foi pensado e feito para ser mais facilmente digerível e arrumado nas gavetas da “world” sem fronteiras. Boa sorte para elas e volte-se a atenção para os novos (e alguns antigos mas, por enquanto, desconhecidos no resto na Europa) grupos da cena escandinava, como Garmarna, Hoven Droven, Den Fule, Troka, Tallari, Loituma, Norrlatar, Niekku, Ottopasuuna, Sirmakka, JPP ou Pirnales, para se encontrar renovados motivos de fascínio e descoberta. Já agora, compare-se com o álbum das duas irmãs do grupo, Sari e Mari Kaasinen, criticado algures nesta mesma página… .



Sari & Mari Kaasinen – “Joko Joulun Alkaa Saa?”

POP ROCK

15 Janeiro 1997
world

Sari & Mari Kaasinen
Joko Joulun Alkaa Saa?
MIPU, DISTRI. MC-MUNDO DA CANÇÃO


joko

Longe ainda da fama e da adulação do mundo que viriam a bafejar as Värttinä, as irmãs Sari e Mari Kaasinen enamoravam-se em 1993 das baladas da tradição finlandesa. Sem pressas nem ânsias de conquista, mais preocupadas em fazer uma música directamente inspirada no folclore do seu país do que em ocupar um lugar no alto das listas de vendas. Há quem prefira entrar na música escandinava de roldão com os Hedningarna ou com os recentes atropelamentos cometidos em conjunto pela totalidade das valquírias das Värttinä. E há quem prefira aceder devagar aos abraços mais íntimos de uma música que também nasce nos recantos, num contacto feito por fases e aderências sucessivas. Como na música irlandesa, ou bretã, ou galega, ou portuguesa, como afinal em todas as músicas com raízes na terra, a adesão nasce em primeiro lugar de uma simpatia natural, de uma predisposição para receber e equacionar gestos musicais, por vezes com origem comum. A seguir, a familiaridade fará o resto, com a decifração da arquitectura de base de cada tradição e a consequente entrada no seu interior. Sem ser um grande álbum, “Joko Joulun Alkaa Saa?” (“Podemos Começar o Natal agora?”), com a sua sobriedade, agradará aos ouvidos dos apreciadores da sonoridade do kantele, bem como aos adeptos da balada “folk”, neste caso, de Natal. Se as Värttinä gesticulam no fogo, as irmãs Kaasinen oferecem a sua visão límpida e depurada – acompanhada pelo kantele mas também pelo classicismo de um piano de concerto ou de um violino – como contraponto. Experimente-se pegar por “Joulun taikaa”. (7)