Arquivo mensal: Junho 2015

Mickey Hart – “Planet Drum”

Pop Rock

25 MARÇO 1992

MICKEY HART
Planet Drum

CD, Ryko, distri. MVM

O conceito não é novo: um álbum de percussão. O resultado, porém, é brilhante. Mickey Hart, percussionista dos Grateful Dead, juntou vários percussionistas de origens culturais e estilísticas diversas, pediu-lhes que trouxessem consigo tudo o que fosse passível de percutir e assinou um álbum estimulante, que poderá ser classificado de “world” porque, de facto, é todo um mundo que aqui vibra nas peles, nas madeiras, nos metais ou no próprio corpo dos intérpretes – batidos, esfregados, roçados e espancados de toda a maneira e feitio.
Tambores, conchas, sinos, ashikos, ngomas, tarangs, madals, dholaks, ghatams, gudugudus, tamancos (sim, sim, os típicos xanatos portugueses) e outros instrumentos com nomes ainda mais ridículos juntam-se aos sons do vento, da água e de uma gruta paleolítica, às vozes humanas e às pulsações do corpo transformado em tambor ritual. África, Índia, Brasil, misturam-se e dançam em ritmos que abraçam o planeta inteiro. Zakir Hussain, Airto Moreira, Babatunde Olatunji, Sikiru Adepoju e “Vikku” Vinayakram, são, juntamente com Hart e a vocalista Flora Purim, os mestres oficiantes. A Terra tem coração. Ouçam os seus batimentos. (9)

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Paco De Lucia – “Concierto De Aranjuez”

Pop Rock

29 JANEIRO 1992

PACO DE LUCIA
Concierto de Aranjuez

LP/CD, Philips, distri. Polygram

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Integrada nas comemorações do “Quinto Centenario del Descubrimiento de América – Encuentro de Dos Mundos”, a edição deste “Concierto” cumpre ainda uma promessa antiga de Paco de Lucia, um dos grandes intérpretes de guitarra flamenca da actualidade, ao lado de nomes como os de Manitas de Plata ou Pepe Habichuela, de gravar a maior obra composta por um dos seus reconhecidos mestres: Joaquín Rodrigo. Ao fulgor da improvisação e às aventuras de fusão com outras linguagens musicais, como acontecia no recente “Zyryab”, sobrepõe-se o rigor da pauta e as exigências da interpretação. “Concierto de Aranjuez” mostra um Paco de Lucia introvertido na forma como dialoga com as massas orquestrais (a cargo da orquestra de Cadaqués, com direcção de Edmon Colomer), no papel de solista “virtuose” que põe a sua arte ao serviço de uma inspiração que, sendo alheia, se inclui na tradição do flamenco, embora na sua vertente erudita, e por isso na sua própria sensibilidade. O lado 2 do disco é ocupado por “Iberia”, de Isaac Albéniz, interpretado pelo trio de guitarras de Paco de Lucia, José Bandera e Juan Manuel Cañizares.
Recomendado com algumas reservas aos que, no flamenco, apreciam sobretudo o fogo. Fogo cujas chamas este “concierto” de certa forma aprisiona e domestica. (7)

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Loreena McKennitt – “The Visit”

Pop Rock

15 JANEIRO 1992

VERNIZ CELTA

LOREENA MCKENNITT
The Visit

LP/CD, WEA, distri. Warner Music

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“Sempre considerei o impulso criativo como uma visita”. É Loreena quem o diz, explicando deste modo o enigma do título. Loreena Isabel Irene (assim mesmo, em português) McKennitt nasceu no Canadá e desde muito nova, quando tocava num clube “folk” em Winnipeg, começou a interessar-se pela música céltica. Loreena tem o cabelo louro e longo aos caracóis, toca harpa e teclados e canta, na sua bela voz de soprano. Jura que se apaixonou pela harpa quando ouviu pela primeira vez o álbum “Renaissance de l’Harpe Celtique”, de Alan Stivell. Não descansou enquanto não adquiriu uma, que por acaso encontrou, a um preço em conta, na montra de uma loja perto do hospital de onde acabara de ter alta.
“The Visit” é o quarto álbum da senhora, primeiro distribuído por uma multinacional, depois de “Elemental”, “To Drive the Cold Winter away”, (uma colectânea de temas de Natal gravados num mosteiro irlandês) e “Parallel Dreams”, todos editados na sua própria editora Quinlan Road Productions.
Neste novo disco, Isabel Irene procurou ir ao fundo, que é como quem diz, às raízes da questão celta, e descobriu, encantada, a pólvora no lugar certo – a oriente. Por pouco não ia mesmo ao fundo. A solução musical que encontrou para o problema da distância geográfica não podia ser mais simples: juntar o som de umas “sitars” sampladas ou de uma “tamboura” indianas à harpa e à gaita-de-foles e esperar que a voz fizesse o resto. Bem pode Isabel gritar aos sete ventos que até visitou a exposição sobre os celtas em Veneza. “The Visit” pouco difere das xaropadas do sétimo céu de Enya, incorrendo nos mesmos tiques e na mesma visão “Walt Disney” da música tradicional.
Alguma crítica estrangeira embandeirou em arco, o que não espanta, atendendo à memória curta de que costuma dar mostras e que a faz tomar por “novo” ou por “original” aquilo que, neste caso, não passa de polimento de uma ideia antiga. Se fosse Mike Oldfield a fazer o mesmo que Loreena (e já fez parecido), eram capazes até de lhes chamar nomes. Nada melhor do que escutar o clássico de John Renbourn (com Jacqui McShee e um percussionista indiano, entre outros músicos) “A Maid in Bedlam” (1977) para refrescar a memória e ajudar a distinguir entre “mistura” e “síntese”.
Irene dá tudo por tudo – não faz mais do que o seu papel – para dar ares de princesa de Avalon, mesmo se na interpretação de “Greensleeves” se diz inspirada por Tom Waits – dotada pela natureza com um visual adequado (com o senão do queixo, demasiado proeminente), apenas teve de se preocupar em encaixar nas canções textos de Tennyson (“The lady of Shalott”) e Shakespeare (“Cymbeline”), deixar-se fotografar com a harpa entre as pedras de uma quinta portuguesa em Azeitão (onde, numa laranjeira, viu materializada a árvore representada na mítica tapeçaria “The Lady and the Unicorn”) e falar a torto e a direito do rei Artur e dos cavaleiros da Távola Redonda, sem esquecer a mensagem ecológica, veiculada num dos temas, contra a destruição das florestas de carvalhos na Irlanda.
Tudo isto é belo, tudo isto é (mais ou menos) celta, tudo isto é positivo e defensável e onírico, etc., mas infelizmente a música não está à altura dos adereços. Fica a promessa do tema de abertura, “All Souls Night”, a fazer lembrar glórias passadas dos Pentangle e de Jacqui McShee, um ou outro apontamento do violinista Hugh Marsh e a voz de ouro de McKennitt a prometer “visitas” de outra envergadura. O resto é luz reflectida. Muito brilho para pouca substância. (6)

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