Arquivo mensal: Junho 2015

Perlinpinpin Folc – “Ténarèze” + Verd E Blu – “Música De Gasconha”

Pop Rock

29 Abril 1992

GASCONHA NAS ALTURAS

PERLINPINPIN FOLC
Ténarèze (10)
CD, Compas, distri. Megamúsica

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VERD E BLU
Música de Gasconha (10)
CD, Menestrèrs Gascons, distri. Megamúsica

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No mapa, a Gasconha fica situada entre o Golfo da Biscaia e o Mediterrâneo, ao lado dos Pirinéus. Da música tradicional desta região (na década de 70 chegaram até nós alguns discos de Joan Pau Verdier e “Camas de Boi” de Peir Andreu Delbeau) a Oeste da Provença, onde outrora se falava a língua d’Oc dos trovadores medievais, apetece dizer que não é deste mundo. Porque as emoções que provoca também não o são.
Os Perlinpinpin Folc estiveram duas vezes em Portugal, por ocasião dos I e II encontros da Tradição Europeia. Para quem teve o privilégio de assistir aos seus concertos, a simples visão do seu nome é razão suficiente para correr de imediato à procura do disco.
“Ténazère”, designação de “uma via pré-histórica sem pontes nem vaus”, dá a conhecer uma música diferente, servida por músicos não menos diferentes. Viagem iniciática por polifonias vocais parentes por vezes do canto corso, embora menos imbuídas do seu sentimento trágico, pela delicadeza e expressividade da gaita-de-foles e por arranjos onde impera a diversidade permitida por uma panóplia instrumental onde o acordeão, a gaita, o mandolocello, o violino, o oboé e o clarinete coabitam com a sanza africana, o bamboulak ou o “escovofone”, que os Perlinpinpin trouxeram aos encontros – uma vassoura de sopro, cuja sonoridade se assemelha à de sax barítono.
Os Perlinpinpin primam pelo sentido lúdico e pela religiosidade. No passado, as duas andavam sempre juntas. Então, como em “Ténazère”, o corpo e a alma vibravam em comunhão, soltos em serpentes e águias melódicas e em transportes harmónicos que, por fricção interior, nos ensinam que ouvir e fazer música se complementam num movimento único. É isso o amor.
Os Verd e Blu chegam-se mais à música antiga e às origens trovadorescas da Gasconha. O som evoca lagos de estrelas reflectidas em forma de canções pela pureza da voz de Marie-Claude Hourdebaigt e sublimadas ao fogo pela sanfona de Jean Baudoin. Os Mant-Jóia, grupo da Provença com um disco editado na Le Chant du Monde podem servir de ponto de comparação a estes “Verdes e Azuis” pintados pela gaita-de-foles, pelo acordeão, pela sanfona e por percussões que tomam o Mediterrâneo pelos trópicos. Há sons de serrote, respirações de vento, polirritmos de palmas e de novo polifonias vocais que radicam em cânticos e evocações perdidos no tempo.
“Ténarèze” e “Música de Gasconha” não se explicam por palavras. Sentem-se como se sente aquilo que temos por mais profundo: o divino.


Gabriel Yacoub – “Bel”

Pop Rock

22 Abril 1992

A BELEZA DAS COISAS SIMPLES

GABRIEL YACOUB
Bel

CD, Keltia, distri. Mundo da Canção

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Não sejamos avaros na apreciação: “Bel” é o melhor álbum de canções, sem mais, de há muitos anos a esta parte. Quanto à voz do seu autor, Gabriel Yacoub, é ao mesmo tempo vibrante e pungente, uma espécie de sortilégio cintilante que se insinua, audição após audição, no sujeito que ouve.
Gabriel Yacoub acompanhou Alan Stivell, à época de “Chemins de Terre”. Com o bardo bretão aprendeu o gosto pela música tradicional. Depois, com a irmã Marie Yacoub, formou uma banda que se viria a tornar lenda, os Malicorne, para muitos, incluindo o autor destas linhas, uma das mais importantes de sempre, em toda a Europa, do movimento de renovação de música tradicional.
Os Malicorne deixaram para a posteridade seis obras geniais, três denominadas simplesmente “Malicorne”, “Almanach” (obra-prima absoluta baseada em 12 rituais agrícolas e religiosos, correspondentes aos 12 meses do ano), “L’Extraordinaire Tour de France d’Adélard Rousseau” (périplo iniciático de um “maçon” pelo mapa oculto da França) e “Le Bestiaire”, antes da decadência e da cedência a um pop electrónico de eficácia duvidosa, com “Le Balançoir en Feu” e “Les Cathédrales de L’ Industrie”.
Extinta a chama Malicorne, Gabriel Yacoub enveredou por uma carreira a solo com resultados desiguais. Os dois primeiros álbuns não poderiam ser mais opostos. “Trad. Arr.” marca o retorno à simplicidade de arranjos e a uma veia declaradamente folk, enquanto “Elementary Level of Faith”, gravado nos Estados Unidos, investe de novo sem deixar grandes recordações, numa via electropop semelhante à de “Cathédrales”.
“Bel” dá o grande salto em frente e atinge, como um raio, a perfeição. São 11 temas em estado de graça que não cabem em qualquer categoria possível senão na do génio. Num disco que apenas inclui dois tradicionais, o quebequiano “Ma délire” e “Nous irons en Flandres”, é toda a arte do canto de Yacoub que se eleva a alturas insuspeitadas e aos extremos de emoção que caracterizam as obras maiores.
Partindo de fontes de inspiração tão díspares como um texto do filósofo Gaston Bachelard (“L’ Eau et les rêves, essai sur l’ imagination de la matière”, em “L’Eau”), uma história do autor simbolista Gustave Meyrink (no instrumental “Le jeu des grillons”) ou uma das muitas viagens a Nova Iorque, em que aprendeu a sentir pela cidade “uma amor irracional” (“Je pense à toi”), “Bel” impressiona sobretudo por ter essa qualidade que distingue um bom disco de uma obra-prima: o sopro da inspiração.
Chamem-lhe génio, chamem-lhe outra coisa qualquer, mas quando se escuta e sente uma canção como “Les Choses les plus simples” compreende-se que o absoluto está ali mesmo, num refrão celestial, numa voz como não há igual no universo, no amor que se desvela numa rosa sem espinhos. E logo no tema seguinte, de novo o paraíso, em mais uma peregrinação vocal de sonho, na comoção levado ao épico de “Nous irons en Flandres”.
Os arranjos servem cada canção com requintes de esplendor. “Bon an, mal an” e “Je serai ta lune” elevam-se sobre um quarteto de cordas (do qual faz parte René Werneer, antigo companheiro de Yacoub nos “caminhos de terra”), em teias harmónicas que recordam a obra capital dos primeiros Gentle Giant (de “Acquiring the Taste” e “Three Friends”). “Ma delire” é um novelo vocal complexo feito de texturas vocais sobrepostas da voz de Yacoub. “Words” consubstancia a glória harmónica da voz, das vozes, da “magia das palavras” além da língua e do significado. Sublime a gaita-de-foles de Jean Blanchard no tradicional “Nous irons en Flandres” ou nos sonhos povoados de “lobos negros” que uivam durante a “estação das estrelas” de “D’abord je ne me souviens plus”.
E volta-se sempre, uma e outra vez, a “Les choses les plus simples”, ao mistério de uma melodia que reconhecemos ter sido nossa desde sempre. “Bel”, nome de uma divindade celta solar, também quer dizer “Belo”. (10)

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pwd: folkyourself.blogspot.com



Buckwheat Zydeco – “On Track”

Pop Rock

22 Abril 1992

BUCKWHEAT ZYDECO
On Track

CD, Charisma, distri. Edisom

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Stanley “Buckwheat” Dural Jr., acordeonista, fundador dos Buckwheat Zydeco em 1979, é um dos nomes lendários da música zydeco, tendo tocado durante alguns anos com o mestre dos mestres, Clifton Chenier. E perguntam vocês: “Meistre, que é a música zydeco?” Pois bem, a música zydeco é parente da cajun (“Meistre, o que é a cajun?”), menos afrancesada do que esta e com menos vergonha de utilizar instrumentos de rock, como o baixo eléctrico e a bateria.
O zydeco (o nome dá um pouco vontade de rir), surgido em meados do séc. XIX no Sudoeste do Louisiana e a oeste do Texas, mistura cajun com ritmos africanos e das Caraíbas. O “cocktail” soa a country blues que, no caso dos Buckwheat Zydeco, não desdenha o rock’n’roll nem uma ou outra balada açucarada a piscar o olho às rádios FM.
Para os apreciadores do género não faltam em “On Track” os típicos ritmos sincopados do acordeão, os solos de saxofone e de rabeca ou os fraseados quase arcaicos do órgão Hammond. Aqui até cabem uma versão de “Hey Joe”, de Jimi Hendrix e um imparável “The midnight special” em velocidade expresso. Zydeco do caneco. (7)

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