Arquivo mensal: Outubro 2011

June Tabor – “An Echo Of Hooves”

02.01.2004

June Tabor
An Echo Of Hooves
Topic, distri. Megamúsica
8/10

June Tabor – Sonhos De Uma Noite De Inverno

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pwd: folkyourself.blogspot.com

Mais embrenhada na folk do que nunca, June Tabor adapta em An Echo of Hooves a tradição lírica dos cancioneiros inglês e escocês à sua própria personalidade de diva da noite.

Com a passagem dos anos, o rosto foi-se tornando mais sereno ao mesmo tempo que uma luz difusa se desprende da expressão. June Tabor não receia expor as mudanças do corpo – deixando-se, mais uma vez, fotografar em grande plano para a capa do novo álbum, “An Echo of Hooves” – porque estas não são mais do que a medida, a forma extrerior de um brilho e de uma voz que, cada vez com maior intensidade, vão lavrando uma obra ímpar na música popular dos nossos tempos.
June Tabor tornou-se a cantora folk que transcendeu as geografias da tradição. E, no entanto, “An Echo of Hooves” parte das canções e do imaginário folk das Ilhas Britânicas, como se estes se confundissem com os caminhos da sua própria alma. “As baladas em língua inglesa e escocesa representam a ‘story telling’ na sua expressão mais pura e premente. Quando as estiverem a ouvir – porque estas são canções em que a letra e a música são igualmente importantes – sintam o vento e a chuva, contemplem o nascer da lua e captem ‘an echo of hooves’ no ar da noite”, escreve na contracapa do disco. Palavras cuja poesia é, de certa forma, traída quando o dicionário propõe como única tradução para “hooves”: “meteorismo, doença do gado com dilatação do estômago provocado por gases”. Tratar-se-á de meteoritos cheirosos que ao deflagrarem emitem os característicos, mas tão bucólicos, odores da bosta de boi, metáfora poética para o excesso de beleza (a “dilatação do estômago”…) e as virtudes da vida no campo? Seja como for, abandonemos este momento de enlevo e penetremos no âmago da coisa, que é como quem diz, na música. Que é como quem diz, num sonho. Que é como quem diz, na voz de June, uma voz que, como os raios da lua, provoca esse efeito de abrir uma fenda na realidade para dar passagem a uma dimensão onde tudo está suspenso. A música tradicional, na sua vertente mágica e onírica, respeita e diz respeito, precisamente, a esta condição.
“An Echo of Hooves” reúne onze temas tradicionais, incluindo “Lord Maxwell’s Last Goodnight”, que June Tabor já seleccionara para “Ashes and Diamonds”, de 1977, e, a fechar, “Sir Patrick Spens”, que não escutávamos desde o clássico “Full House”, dos Fairport Convention. Ausência total de originais numa imersão a cem por cento no cancioneiro. Na lista de acompanhantes, a par dos habituais Huw Warren (piano, violoncelo, acordeão), Mark Emerson (violino, viola, piano) e Tim Harries (contrabaixo), estão também Martin Simpson (guitarra), 23 anos depois do seu dueto com a cantora em “Cut Above” (1980), e, maior e mais agradável surpresa, Kathryn Tickell, nas “Northumbrian Pipes”.
Para trás ficaram heterodoxias como o punk-folk enfiado num blusão de cabedal de “Freedom and Rain”, com os Oyster Band, colecção de “standards” “Some Other Time” (onde é possível saborear a inolvidável experiência que é escutar June a cantar “All tomorrow’s parties”, dos Velvet Underground) ou, em menor grau, as cintilações estelares de “Aqaba”, “Angel Tiger”, “Against the streams”, “Aleyn” ou “A Quiet eye”. June Tabor fez a viagem interior para emergir, mais bela, centrada e lúcida do que nunca, ao ar livre da vida, num retorno (que a cada novo álbum parece tornar-se irreversível) às raízes profundas do seu canto, a música tradicional.
June Tabor está, de certa forma, só nesta viagem. Do outro lado do horizonte apenas se vislumbra Norma Waterson. São elas as sobreviventes de uma devoção e integridade sem limites. Shirley Collins desapareceu perdida num medo de papões e infortúnio que alguns “homens de negro”, como David Tibet ou Steven Stapleton, procuram congelar como emanação de um outro tipo de magia… Maddy Prior diverte-se com os mitos e constrói uma “new age folk” porventura chocante pelo excesso de colorido. Outras, como Linda Thompson, Jacqui McShee ou Mandy Morton perduram como fogos-fátuos cuja lembrança continuamos a estimar.
June, não. June permanecerá até ao fim na senda da noite que conduz ao silêncio. Silêncio que impregna cada nota, cada inflexão, cada pausa, cada acentuação, cada ornamentação da voz em “An Echo of Hooves”.
“The Battle of Otterburn” e “Hughie Graeme” destacam-se pela simples razão de neles se fazerem ouvir a “erotic pipes” de Kathryn Tickell – a sereia. “Bonnie James Campbell” é outra inflexão no génio de “Ashes and Diamonds” com o piano de Huw Warren a emprestar-lhe as cores do impressionismo. Para quem se quiser ficar nos arranjos “folky” com o selo dos anos 70 há “The duke of Atholl’s nurse” e “Young Johnstone”, ambas com a guitarra de Simpson. O momento de canto “a capella” acontece em “Bare Willie”, enquanto a continuação do processo de interiorização e renovação encetado com “Aqaba” chega com “The cruel mother”. Por fim, não vale a pena tentar encontrar semelhanças entre “Sir Patrick Spens” dos Fairport Convention de 1970 e o mesmo tema vocalizado por June Tabor. O que naqueles era profusão de vestes e ambiente medievais em June é drama, tempestade e morte. “for I saw the old moon late last night/ With the new moon in her arms/ Oh master dear if you set to sea/ I fear you’ll come to harm”. A velha lua morreu ontem com a nova nos braços. June Tabor traz a eternidade no seu canto. Curioso: A sua voz soa em “An Echo of Hooves” menos grave. Como se tivesse subido um degrau das escadarias que conduzem ao céu.

La! Neu? – “Rembrandt” (self conj.)

24.07.1998

La! Neu?
Zeeland (7)
Rembrandt (8)
Die With Dignity: Kraut? (8)
Captain Trip, distri. Ananana

O Novo Também Morre

LINK (Goldregen)

“I’m trying to get you real when you are not”. A frase é cantada obsessivamente por uma voz feminina, ao longo dos oito minutos do tema de abertura, “To get you real”, de “Zeeland”, segundo álbum dos La! Neu?. ”Estou a tentar-me tornar-te real quando tu não o és”. É exactamente o que tem feito Klaus Dinger, o ex-Kraftwerk fundador dos Neu!, banda emblemática do “krautrock” dos anos 70 e dos La Düsseldorf, que fizeram a ligação do “krautrock” com o “punk”. Ao criar, já nos anos 90, os La! Neu?, uma aglutinação do nome destas duas bandas, Dinger perpetuou uma ilusão que no álbum de estreia, adequadamente intitulado “Düsseldorf”, levava ao absurdo um som característico que alguma crítica estrangeira apelidou de “motorika”: Batida seca e repetitiva, electrónica minimalista e tonalidades de folclore bávaro que nos La Düsseldorf chegaram a rondar o “kitsch”. A ilusão funcionou mas a realidade acabou por se impor. Os La! Neu? Nunca foram um grupo na verdadeira acepção da palavra (ao contrário dos Neu! e dos La Düsseldorf, onde era indispensável a presença do irmão de Klaus, Thomas Dinger) mas um projecto provisório que o próprio Klaus Dinger acabou por abandonar.
Os posteriores desenvolvimentos com a designação de La! Neu?, agora chegados em simultâneo ao mercado nacional, demonstram facetas curiosas da investida recente do “krautrock” nos anos 90. “Zeeland”, gravado ao vivo em estúdio no ano passado, reúne Klaus Dinger, a vocalista Viktoria Wehrmeister, Rembrandt Lensink e Andreas Reihser, teclista dos Kreidler. Viktoria canta como Xana, dos Rádio Macau, no já citado tema de abertura. Os 15 minutos de “Dank je sane” alternam entre a batida dos Neu! e “Ralf & Florian” dos Kraftwerk. Os Can, os Neu! e os Stereolab cruzam-se em “Champagne”, tipicamente “pós-rock”, se nos é permitido o paradoxo. Há ainda os típicos momentos de distensão com guitarra acústica e vozes desmaiadas que em “Neu175” eram puras ondas de prazer e a mãe de Klaus Dinger, Renate, a ressuscitar Marlene Dietrich e velhas grafonolas da 2ª Grande Guerra, em “Zeeland”. Um álbum em que só a voz de Viktoria parece estar a mais…
“Rembrandt”, editado já este ano, intitulado a partir do nome de Rembrandt Lensing, é uma colecção de 25 miniaturas electrónicas gravadas em directo que já estão muito para lá das sonoridades arquetípicas do “krautrock”. É o álbum mais experimental dos La! Neu? Construído a partir de colagens de fragmentos sonoros que resultam numa imensa riqueza imagística, nas proximidades do ambientalismo industrial. Não aparece indicada a constituição do grupo.
“Die With Dignity: Kraut?”, também de 1998, ostenta um novo título paradigmático que, neste caso, é também o epitáfio dos La! Neu?. Pelo menos enquanto veículo de expressão de Klaus Dinger que já não participa neste disco, funcionando apenas como uma espécie de consultor e supervisor musical. Uns tais Brenner, Broszat e Guderia surgem como os três elementos principais da mais recente encarnação dos La! Neu?. Ou tratar-se-á, simplesmente, de uma brincadeira? Seja como fôr, “Die With Dignity” é uma deliciosa sinfonização de ruído, melodias “naif”, colagens (uma coz de criança sobre uma espécie de “scratch”, em “Kinderlied”), pós-rock saturado(“Kochrezept”, “Feuertag”), folk teutónico com sabor cósmico, a la Hoederlin e Emtidi (“Anruf aus brasilien”, “Magischer Traum”), Jazz com influências dos Faust, de “So Far” (“Ein Wahn”) e furiosas torrentes de ritmo pós-punk (“Es tut mir leid, ich bin normal”, “Peço desculpa por ser normal”), de uma brutalidade ainda mais intensa que a do álbum de estreia do grupo, “Düsseldorf”. A morte com dignidade do “krautrock”, segundo os La! Neu?, funciona como o derradeiro dos paradoxos, um exercício de ginástica que faz coincidir a sua negação com uma recuperação notável do “novo” – “neu” – que desde sempre o grupo de Klaus Dinger perseguiu.
Pela Captain Trip chegaram também álbuns dos Amon Düül II e La Düsseldorf (discografias completas), Klaus e Thomas Dinger a solo, Mani Neumeier, Spacebox (de Uli Trepte), Workshop (e se os Can, afinal, estivessem vivos?), Cluster (ao vivo no Japão), Die Krupps, Dunkelziffer (novo, ao vivo), Space Explosion, Tiere der Nacht e S.Y.P.H. (com Holger Czukay).

Pluramon – “Bit Sand Riders” (conj.)

08.12.2000

Pluramon
Bit Sand Riders
Mille Plateaux, distri. Ananana
8/10

The Tied + Ticked Trio
EA1 EA2 RMX
Morr Music, distri. Ananana
8/10

O Gabinete do Dr. Frankenstein

LINK (“The Monstrous Surplus” – 2007)

Bem vindos ao salão de espelhos das remisturas. Depois do produtor e do dj, é a vez do remisturador se assumir como o novo demiurgo, qual dr. Frankenstein capaz de insuflar vida a mostros, com a diferença de que, neste caso, não se trata de corpos mortos mas de criaturas bem vivas (exceptuando Jim O’Rourke que em “Rien” ressuscitou o cadáver dos Faust…). Há quem se oponha, como J. Swinscoe, dos Cinematic Orchestra, e quem ferre com brasão próprio a carne alheia, como Autechre, Atom Heart, Photek ou Kruder & Dorfmeister. Mas quando ao laboratório do remisturador chegam entidades complexas como os Pluramon, a tarefa do mago revela-se tanto mais estimulante quanto complicada.
O objecto em questão chama-se “Bit Sand Rider” e reúne remisturas de temas dos álbuns “Render Bandits” e “Pickup Canyon” da banda de Marcus Schmickler, com a lista de remisturadores a apresentar os Sensorama, Mogwai, Florian Hecker, Atom Heart, The High Llamas, Lee Ranaldo, Matmos, SND, FX Randomiz, Merxbow e os próprios Pluramon. Entre os reactores fractais dos Sensorama e as guitarras ambientais pós-rock dos Mogwai, o paisagismo digital de Hecker e as pulsações surpreendentemente rock de Atom Heart, a recusa do easy-listening dos High Llamas e o tom Faustiano com dub de cristal de Lee Ranaldo, o drum ‘n’ bass da central eléctrica dos Matmos e o swing torococoiano dos SND, a electrónica residual de FX Randomiz e o noise industrial dos Merzbow, “Bit Sand Riders” prolonga a sensibilidade pós-pós-rock dos Pluramon através dos meandros de um experimentalismo marcado por uma abordagem orgânica plenamente interiorizada da parte de todos os intervenientes.
O caso dos Tied + Ticked Trio é diferente. Não se trata aqui de remisturas mas de versões de temas do álbum do ano passado desta banda alemã, “EA1 EA2”, cujo Jazz electrónico se estende até às margens mais insuspeitas. Se as paráfrases dos Opiate se mostram inofensivas, já o desempenho de Christof Kurzman – com uma recuperação do “sinfonismo” saxofonístico dos Urban Sax transposto para o jazz galáctico dos Orchester 33 1/3 – se revela absolutamente estimulante. Max Ernst (leia-se Thomas Brinkmann,…), o único com participação dupla no disco, opta num dos temas pelo “dub” e no outro por uma tecno a duas velocidades, em ambos os casos, como sempre, atirando-as de encontrão para a pista de dança. Pós-house introvertida, com vibrafones a ecoar secretamente é a proposta dos Console, o groove electrónico em contraste com o jazz livre de Weschel Garland (o homem por detrás dos Winder) onde as vozes, o saxofone e de novo o vibrafone discorrem suspensos no espaço. Kandis (de Jens Messel, dos Fumble) remete sem surpresas para a electrónica lúdica que actualmente prolifera na Alemanha para finalmente Gustavo Lamas, da escola electrónica argentina (consultar a colectânea “Elektronische Musik aus Buenos Aires”) fazer as vezes de Thomas Brinkmann, embora sem o golpe de asa do mestre.
Dois álbuns com matéria fértil para reflexão que acima de tudo constituem uma imensa fonte de prazer.