Arquivo mensal: Fevereiro 2011

Tori Amos – “Tales of a Librarian”

05.12.2003
Tori Amos
Tales of a Librarian
2xCD Atlantic, distri. Warner Music
7/10

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Na Biblioteca de Deus

Como faria uma bibliotecária, Tori Amos organizou esta antologia abrangente de dez anos de carreira em forma de auto-biografia. Escolheu canções dos álbuns “Earthquakes”, “Under the Pink”, “Boys for Pele”, “From Choirgirl Hotel”, “to Venus and Back”, juntou-lhes a remistura de dança para o single “Professional widow” e os inéditos “Angels”, “Snow cherries for France”, “Mary” e “Sweet Dreams” e ainda teve o bom gosto e a generosidade de nos presentear com um álbum de fotografias (incluído, juntamente com interpretações a solo, ao piano, efectuadas no ensaio de um concerto, no DVD inserido no pacote) que faz jus à sua fotogenia, de resto patente na extraordinária série de fotos seleccionadas para a capa e restantes páginas do livrete.
Tori, a bibliotecária em confronto com a s suas taras pessoais e as agonias do Cosmos, tem os olhos turquesa de uma criança velha, a pose de um anjo perverso e uma voz e forma de cantar que, por mais que tentemos contornar a questão, soa amiúde como um decalque de Kate Bush. É o mesmo timbre, o mesmo vaivém entre os graves e os agudos, o mesmo sentido operático do canto, ainda por cima servidos por arranjos (“Silent all these years”, “Cornflake girl”, “God”, “Winter” e “Spark” são apenas alguns exemplos de uma semelhamça que chega a ser alarmante) que não destoariam de álbuns da inglesa como “The Dreaming” ou “hounds of Love”, com as características dobragens de voz ou os floreados na zona dos ultra-agudos. Porém, se ignorarmos a existência da outra, “Tales of a Librarian” tem tudo para nos satisfazer porque, tal qual a… essa… ela…, Tori Amos não descura a escolha de material de altíssima qualidade que dê garantias de satisfação (“Deus, precisas de uma mulher que cuide de ti”, chega a cantar em “God”…). Satisfação que consiste em sermos arrastados por uma sensualidade feita de mistérios, melodias bruxuleantes e subentendidas perversidades. Tori é a professora que abre a sua alma para consulta, desfolhando e guiando-nos através dos capítulo de uma carreira ainda curta mas carregada já de iluminações. Evidentemente, de entre o anúncio das dez principais categorias de arrumação por temas dos livros de uma biblioteca/vida, é fácil escolher os que melhor ilustram as histórias da sua encarregada: “Philosophy & Psychology” e “Religion”. Deus já encontrou a tal mulher que cuide d’Ele.

Saturnia – “Hydrophonic Gardening”

28.11.2003
Saturnia
Hydrophonic Gardening
Mellow, importação

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Viajar para Saturno torna-se fácil, ouvindo a música dos Saturnia. Após um promissor álbum de estreia, Luís Simões e Francisco Rebelo refinaram o alcance destas “trips” que mergulham o espírito num oceano de sinestesias. Ainda que em “Kozmische (parts 1 e 2)”, a batida se esgite no psicadelismo de pacotilha dos Ozric Tentacles, desprende-se do álbum uma energia genuinamente indutora de estados alterados que vão da euforia de danças dervíxicas ao intimismo de secretas alucinações. “Hydrophonic Gardening” transporta ecos dos Pink Floyd, Klaus Schulze e Steve Hillage, mas filtrados por uma visão capaz de transmutar estas influências numa música personalizada. “Sunflower” lembra o misticismo dos Yatha Sidhra. “Lava” fará as delícias dos viciados na “new age” da Hearts of Space, bem como “Planetarium”, ideal para assistir à chegada de um ovni, como “the Way Home”, de Kevin Braheny. “Vimana” e “Omnia”, os mais tripantes frutos cósmicos desta jardinagem hidrofónica, disparam ao espaço, acolhendo Syd Barrett e as ondas aquáticas de “Meddle”. “Regulem os comandos para o coração do sol” volta a ser a palavra de ordem. Os Saturnia levam-nos lá.

Mola Dudle – “O Futuro Só Se Diz Em Particular”

28.11.2003
Mola Dudle
O Futuro Só Se Diz Em Particular
Ed. e distri. Ananana
7/10

Consumada a cisão nos Mola Dudle, Nanu é agora o porta-voz de uma música que diverge radicalmente do anterior álbum do grupo, “Mobilia”. A palavra e as vocalizações tornaram-se essenciais na economia do projecto ainda que as “canções” continuem a pautar-se pelo esforço em “fazer diferente”. Mas algo se perdeu no desfazer da mobília. A música parece ter-se deixado apanhar pelo vírus do “estilo”, caindo em tiques de uma certa pseudo-modernidade pop que afasta “O Futuro só se Diz em Particular” do anterior experimentalismo, considerando, apesar de tudo, que um tema como “Redrock one:um” possa ser uma leitura irónica desse mesmo universo de referências. Num álbum em cuja lista de convidados constam Manuela Azevedo, dos Clã, e Armando Teixeira, presenças que, de certa forma, ajudam a compreender a mudança de orientação, ajuste-se a sensibilidade ao chique de arranjos de cordas à la Kronos Quartet, versos em francês, atmosferas de “film noir”, valsas, Nova Huta, e um tema, “Diva”, digno dos A Fúria do Açucar. A Mola não quebrou mas faz agora parte de um maquinismo pronto a usar.