04.06.1997
FACTO DE DOMINGO
O dia de domingo foi passado por Sérgio Godinho a escrever mais um punhado de excelentes canções que reuniu no seu novo álbum, “Domingo no Mundo”. Onde a dança das palavras se vestiu de experiências musicais partilhadas com uma série de outros músicos e arranjadores. Afinal, como o seu autor as define, “canções como entidades autónomas”. Ou como seres vivos.
Convidámos Sérgio Godinho a contar, uma a uma, as histórias de cada canção de “Domingo no Mundo”. Canções diversas. Canções abertas. A muitas vozes. Com direcção musical de Manuel Faria e participações, entre outros músicos, de Manuel Faria, Nuno Rafael, Bárbara Lagido, Carlos Guereiro, Tito Paris, André Sousa Machado, João Nuno Represas, Kalu, Rui Júnior, Tomás Pimentel, Flak, Luís San payo, Carlos Azevedo, João Aguardela, Sandra Baptista, Irene Lima e Ricardo Rocha. “Um rsico mais do que assumido, mas aliciante, de fazer um disco em que várias pessoas tomassem conta dos arranjos.” Um risco que acohe o “hip-hop”, a electrónica industrial e o arraial dos Sitiados e acabou por resultar num dos álbuns mais diversificados, mas também mais estimulantes, do autor de “Pano-Cru”. É um facto. De domingo.
“Ser ou não ser”
Arranjo: Kalu
“uma canção que existia já nos disco dos Gaiteiros mas com um nome diferente. Não foi inocentemente que pus o Carlos Guerreiro a tocar gaita-de-foles no meio, de repente provoca uma quebra estilística, a contrastar com aquele universo martelo do ‘loop’ do início (…) É uma canção sobre os artesãos, dos sopradores de ferro e vidro.”
“Não respir!”
Arranjo: Kalu
“Tem uma parte ‘rapada’. Prescindir da melodia é, neste caso, uma certa urgência. É a história em três tempos de um jovem ‘junkie’. Uma espe retrato, não moralista. A primeira parte passa-se num bairro, estilo Casal Ventoso, a segunda é a sua descida à cidade, para viver ‘na Rotunda do Marquês de Sade’ e a terceira, a ressaca disso tudo e a constatação de que vive num sítio onde não há ninguém que o aopie. Há a falta de respostas mas também uma certa autocomplacência, no universo de um ‘junkie’. E um certo fascínio, muito dúbio, porque senão as pessoas não era atraídas para a heroína. Há que retratar isso também ,sob pena de não se estar consonate com um fenómeno que perpassa todo o tecido social português e que é uma tragédia, para a qual as actuais respostas são completamente desadequadas. É um permanente desassossego, de ter e não ter as coisas, entre ter e não ter a dose. Uma angústia que é também uma metáfora para o desassossego de uma geração. Em termos musicais, o uso da ‘slide guitar’, pelo Nuno Rafael, dos Despe e Siga resulta bastante enriquecedora.”
“Correio Azul”
Arranjo: Manuel Faria
“As minhas palavras devem algo à poesia de Camões. O Camões tem uma grande clareza, joga com os conceitos de uma forma muito simples. Tem uma modernidade por vezes assustadora, mas muito estimulante. Muitas vezes não nos apercebemos de quantas frases dele bailam no nosso inconsciente. Ao escrever esta canção, de repente o refrão surgiu todo feito e eu nem me apercebi que o Camões se estava a insinuar. É uma história de um encantamento e da normalização desse encatamento de uma forma muito positiva. O Tito Paris aparece porque sola muito bem na guitarra, num disco em que estas praticamente não existem. Não pretendi utilizá-lo como um músico especificamente africano.”
“Domingo no mundo”
Arranjo: Manuel Faria
“Uso aqui um ‘loop’ que determina o que vai ser a canção. Um ‘loop’ industrial, um bocado assustador. O Manuel compreendeu muito bem o que havia nos quatro tempos desta canção. Há uma descompressão, depois uma parte mais pesada, com guitarras em distorção e onde eu uso um megafone. Dá-me gozo usar sons que evocam atmosferas teatrais. Trata de um tema candente, embora em Portugal em vias de diminuição, que é o trabalho infantil. Em termos narrativos, a ideia é um rapaz que trabalha num sítio, que em princípio seria a coisa mais festiva do mundo, fogo-de-artifício, mas é a coisa que o faz penar. Há uma sugestão de que ele teria deitado fogo à fábrica… Ou nao… Gosto destas histórias em que há ambiguidade, com um final aberto…”
“As armas do amor”
Arranjo: José Mário Branco
“Aqui o universo das coisas ditas, declamadas, está em consonância com o ‘rap’, com rima livre e depois uma parte lírica cantada. Comecei a escrever este texto – de certo modo, um rio, que vai avançando e apanhando coisas pelas margens – sobre a sida e, mais do que a sida, sobre os aliados da sida: o preconceito, a ignorância, a incompetência e a condescendência, que fazem com que a sida prospere. É uma denúncia. (…) Já não trabalhava com o José Mário há muitos anos. adfastámo-nos em termos criativos. Neste caso fui ter com ele, apeteceu-me que ele trouxesse uma outra contribuição. A ideia surgiu quando estava a ouvir um daqueles discos do Zeca que ele arranjou, nomeadamente o ‘Venham mais cinco’, um dos melhores que ele fez, bastante superior ao ‘Cantigas do Maio’. Apeteceu-me que ele trouxesse as suas ousadias. Esta canção prestava-se a isso.”
“É a vida (o que é que se há-de fazer?”
Arranjo: Manuel Faria
“São ‘flashes’ da adolescência. Representa um repouso no disco. É uma canção pop muito simples sobre um adolescente à procura de caminhos para a vida. Não tem história, com um refrão superpositivo. Tenho filhos na adolescência e elees e eos seus amigos dão-me um espelho distorcido daquilo que eu sou. Procuro olhar para a minha própria adolescência e ver como é que tinha reagido há uns anos atrás, como é que eu era, o que é que perdi pelo caminho, o que é que encontrei…”
“Mesa”
Letra: Alexandre O’Neill
Arranjo: Tomás Pimentel
“Já trabalhara com o O’Neill em “Pré-Histórias”. Tive uma ideia, que não foi para a frente, de fazer um disco só com poetas musicados, por uma vez prescindir das minhas palavras, mas tenho alguma dificuldade em encontrar as minhas músicas nas palavras dos poetas. Mas o O’Neill é uma referência importante, era um tipo com uma musicalidade nas palavras enorme, com um prazer lúdico nas palavras que tem a ver com o meu. Aqui achei engraçado também pegar nos sopros de uma maneira um bocado desconstruída, como o próprio texto é, e fazer uma amálgama algo pontilhista.”
“Lamento de Rimbaud”
Arranjo: Rádio Macau
“Basicamente, é a mesma versão do espectáculo ‘Filhos de Rimbaud’, embora um pouco melhorada. As percussões são mais bem trabalhadas. Não havia registos, nem gravados nem filmados, e achei que era uma pena perder-se pelo caminho. É o exemplo d euma canção que eu não faria sem um contexto bem determinado. Em Rimbaud encontrei uma liberdade poética extraordinária. As últimas coisas que escreveu, ‘Iluminações’ e ‘Uma Estação no Inferno’, têm muito a ver com a poesia contemporânea, uma espécie de torrente poética que se vai ordenando à medida que vai saindo. Esta canção é sobre o mistério de alguém qu efez tudo até aos 21 anos, e dpois, até aos 37, foi traficante de armas e até, dizem, de escravos. A frase ‘E apoesia? mera alínea?’ foi inspirada numa das poucas fotos que existem de Rimbaud, tirada em África.”
“Os Afectos”
Música e Arranjo: Jorge Constante Pereira
“O Jorge Constante Pereira, que já tinha trabalhado comigo, inclusive no álbum anterior, ‘Tinta Permanente’, é um músico com uma visão muito pesoal e para quem sempre tive vontade de escrever uma letra, fora do contexto dos discos infantis. a ideia para esta canção surgiu quando me lembrei do teorema de Pitágoras, sobre a relação entre os lados de um triângulo. Há o conhecimento científico e os afectos, que nos fazem mover de uma maneira diferente.”
“Aguenta Aí”
Arranjo: João Aguardela
“É uma chula onde falo do Porto como património mundial, pelo lado feliz, mas também pelo das desigualdades sociais nas cidades. É preciso ter consciência que, ao incrementar a qualidade d euma cidade, se deve também incrementar a vida das pessoas. Achei que o João Aguardela casava bem neste universo.”
“Dias Úteis”
Arranjo: Manuel Faria e Sérgio Godinho
“Fala da alegria e do prazer. As últimas palavras são: ‘Por motivos talvez claros / O prazer é o que nos torna os dias raros / Por pretextos talvez fúteis / Por motivos talvez claros.’ É uma canção d epuros sentimentos em que a guitarra portuguesa e o violoncelo lhe conferem uma certa gravidade.”
Todas as letras e música, exceptuando nos casos indicados, são da autoria de Sérgio Godinho
24.12.1999
World
Balanço 1999
Música Portuguesa
E Depois De Amália?
Morreu Amália, o fado ganhou novos rostos e novas vozes. Dulce Pontes, Mafalda Arnauth, Sofia Varela e Cristina Branco fizeram nascer ramos diferentes a partir da raiz comum. Na folk, o compasso de espera foi interrompido por um grupo de veteranos que recuperou de forma brilhante romances tradicionais.
No ano da morte de Amália o fado acabou por estar no centro das atenções no capítulo das músicas ligadas à tradição. Mesmo antes do desaparecimento da maior voz de sempre do fado, na ânsia de se descobrir uma sucessora, lançaram-se “slogans” e catalogações despropositadas que, por muito lisonjeiras que sejam, acabam sempre por se tornar limitativas, quando não inibidoras dos artistas visados. Do grupo das nomeadas “herdeiras” ou “sucessoras” de Amália destacaram-se Dulce Pontes e Mafalda Arnauth. Ambas senhoras de grandes vozes, apostaram em caminho divergentes. A primeira, já com um percurso assinalável na música popular portuguesa, enveredou no seu último trabalho, “O Primeiro Canto”, pela via da world music, rodeando-se de estrelas internacionais e experimentando vocalmente registos que parecem estar-lhe destinados desde o início e onde o fado parece, cada vez mais, fixar-se unicamente como referencial de uma autenticidade que permanece umbilicalmente ligado à cantora. Já Mafalda Arnauth – cuja espiritualidade e modo como interioriza o fado a aproximam verdadeiramente do que de mais profundo habitava em Amália – baralhou por completo as expectativas, assinando um álbum de estreia preenchido na íntegra com originais da sua autoria, quando se esperaria, porventura, a menor dose de risco que implicaria um disco de versões. Na sala de espera, perfilam-se outras jovens vozes femininas das quais o fado poderá esperar num futuro próximo feitos de vulto, com Sofia Varela e Cristina Branco (estria com “Murmúrios”) na dianteira. Já Maria Ana Bobone, trazida para o fado pelo braço de João Braga, distancia-se gradualmente deste género de música, à medida que se vão sucedendo as incursões discográficas (este ano, “Senhora da Lapa”, para uma editora estrangeira) numa espécie de música de câmara, sem dúvida de ressonâncias fadistas, mas definitivamente voltada para um ambientalismo de rosto new age. Mísia manteve-se à distância com a pós-modernidade das suas “Paixões Diagonais”.
Da área da folk esperar-se-ia mais quantidade editorial. Escassearam os trabalhos de fôlego. E, se o campo da fusão esteve bem servido – por mais polémicos que tivessem sido os resultados – pelos novos álbuns dos Sétima Legião (“Sexto Sentido”) e João Aguardela, com o segundo volume do seu projecto Megafone, os mesmos não fizeram esquecer a ausência da continuação das obras encetadas pelos Vai de Roda, Realejo e Gaiteiros de Lisboa. Descontando as semidesilusões de João Afonso, com o “Barco Voador”, e dos Quadrilha, com “Quarto Crescente”, acabou por ser a “velha guarda” constituída por Amélia Muge (também activa no grupo galego Camerata Meiga), Brigada Victor Jara (autores do prodígio que foi terem revelado Lena D’Agua como cantora folk promissora), Sérgio Godinho e os já mencionados Gaiteiros de Lisboa e João Afonso a salvar a honra do convento, com o excelente naipe de versões originais de romances tradicionais contido em “Novas Vos Trago”. Acontecimento à margem de todas as pressões do final de século foi a reedição em caixa de cinco CD da mítica “Música Regional Portuguesa”, recolhida e compilada por Michel Giacometti e Fernando Lopes Graça.
19.03.1999
Droga, Loucura, Morte
Toda a gente sabe que a principal causa de mortalidade entre a população rock é a droga. Janis Joplin, Jim morrison, Jimi Hendrix, Sid Vicious e uma quantidade de outras estrelas rock (Tim buckley, Gram Parsons, Tommy bolin, Andy Gibb, Billy Mercia, dos New York Dolls, Paul Gardiner, dos Tubeway Army…) morreram devido à mesma praga, a droga. Bastaria esta realidade para desencorajar os mais novos de alguma vez pegarem numa guitarra eléctrica ou numa bateria. Porque o rock é o caminho mais curto para a droga e, de onde se depreende, para a morte. O rock, como a droga, mata. Mentes mesquinhas garantem que, sem a droga, músicos como os acima citados jamais teriam feito a música (quiçá, perniciosa) que fizeram. Não fora assim e sabe-se lá se não teríamos hoje elementos produtivos, úteis à sociedade, excelenetes empregados de escritório ou agentes de seguros, talvez mesmo advogados de sucesso.
Mas não é só a droga a mãe de todos os amles. Outras causas existiram que levaram desta para melhor nomes mais ou menos gloriosos da história do rock. Desastres de viação (Alan Barton, dos Smokie, Marc Bolan e Steve Curry, ambos dos T. Rex, Clarence White, dos Byrds, Harry Chapin, Eddie Cochran, Jerry Edmonton e Rushton Morebe, dos Steppenwolf, os rockers Johnny Kidd e Dickie Valentine; inclusive de bicicleta, como é o caso de Nico) e de avião (Buddy Holly e Ritchie Valens, ambos no mesmo voo, Patsy Cline, Jim Reeves, Otis Redding, Jim Croce, Ronnie Van Zant e Steve Gaines, dos Lynyrd Akynyrd, Paul Jeffreys, dos Cockney Rebel, Rick Nelson, John Denver…), overdose, queda de escadas (Sandy Denny), consumo desenfreado de substâncias ilícitas, enforcamento (nada mais nada menos do que cinco – Ian Curtis, Peter Ham, dos Badfinger, Phil Ochs, Michael Hutchence, dos INXS e Richard Manuel, dos The Band), ingestão desmesurada de psicotrópicos, hipnóticos, ácidos, antipiréticos e afins, enfim toda uma série de acidentes trágicos que puseram fim a tantas e tão promissoras carreiras.
Quanto ao álcool, pode gabar-se de ter acabado com as vidas de Bon Scott (dos AC/DC), John Bonham (Led Zeppelin), Brian Jones (Rolling Stones), Clyde McPhatter (Drifters), David Byron (Uriah Heep), Gene Vincent e Keith Moon (The Who). Uma anorexia nervosa levou Karen Carpenter, dos Carpenters. A sida fez o mesmo a Freddie mercury, dos Queen. Frank Zappa e Bob Marley não resistiram ao cancro. De Divine pode afirmar-se que comeu demais.
Há mortes mais estúpidas do que outras. John Lennon, baleado à porta do seu apartamento em Nova Iorque, é um exemplo deste tiupo de estupidez letal. Al Jackson (dos Booker T and the MGs), Peter Tosh, um dos heróis da soul music, Sam Cooke e Marvin Gaye foram igualmente mortos por tiros. Os dois primeiros, por gatunos. Cooke, por uma mulher que perseguia um pretenso violador. Gaye sucumbiu a um tiro disparado pelo seu próprio pai. Michael Mensom, dos Double Trouble, foi atacado por um “gang” de adolescentes que o regaram com gasolina e lhe pegaram fogo. Vivain Stanshall, do grupo cómico Bonzo Dog Doo Dah Band, e Steve Marriott, dos Small Faces, morreram em incêndios nas respectivas casas. Keith Relf, guitarrista dos Yardbirds, caiu electrocutado. Johnny Ace, um obscuro baladeiro norte-americano dos anos 50, perdeu a vida numa jogada infeliz de roleta russa. Graham Bond, músico inglês de jazz e blues dos anos 70, foi atropelado pelo metropolitano. O rocker Johnny Burnette morreu num acidente de pesca.
Mas há o reverso da medalha. Morrer cedo, para um músico, significa a sua mitificação, nalguns casos a santidade. Na condição, bem entendido, de a circunstância ser devidamente acompanhada por uma apropriada campanha promocional e pelo apoio dos “media”. Morrer é, nesta profissão, o caminho mais curto para o sucesso. Para a indústria a morte possui ainda o atractivo adicional de diminuir vitaliciamente as despesas com o artista e de garantir muitos e bons ganhos a longo prazo, graças à sábia administração de todo o material gravado que se conseguir sacar do caixote do lixo e guardar em arquivo para poder dedicar-se ao lançamento de futuras reedições com “material inédito” do falecido, constituído por demos, versões alternativas, ensaios, conversas de cama e outros rasgos de génio antes incompreensivelmente escondidos do público.
Claro que as vítimas sabem o que fazem e no que se metem. Acontece que muitas não aguentam. Ian Curtis, por exemplo, ou Krt Cobain (cujo quinto aniversário da morte, em Abril próximo, está já a ser devidamente preparado) não aguentaram a suprema dor de estar vivo, as pressões do “show business” e os fracassos pessoais. No seu caso a aura de “românticos” assenta-lhes bem. Como, de resto, a todos os susicidas: Nick Drake, Peter Ham e Tom Evans, dos Badfinger, Terry Kath, dos Chicago, Marge Ganser, das Shangri-La, Del Shannon, Paul Williams, dos Temptations, Richard Manuel, dos The Band e Phil Ochs.
A outros, porém, a morte apanhou-os de surpresa, sem aviso prévio. Esses não tiveram tempo de preparar o testamento, vítimas que foram da estupidez do destino. Talvez por isso, como no caso de Sandy Denny, que morreu ao cair de uma escada, a entrada na galeria dos mitos demorasse mais e necessitasse de requerimento, ficando em primeiro lugar para a eternidade a música, no lugar dos episódios, mais ou menos agitados e escandalosos, da vida de “star”.
Seja qual for, porém, a circunstância da morte, ficará para sempre a dúvida do que poderia ter sido a vida e obra dos que se foram antes de tempo. O que seriam hoje, se fossem vivos, Brian Jones, Jimi Hendrix, Jim Morrison? Conseguiriam eles sobreviver ao seu próprio passado ou, pelo contrário, teriam feito as pazes com a existência, aproveitando as suas benesses? Seriam ainda géniso malditos ou estariam a jogar golfe com Alice Cooper e Phil Collins, a fazer duetos com Pavarotti ou a compor bandas sonoras para filmes de Walt Disney? Ninguém sabe. Ficaram a música e as lendas. Sobretudo a música, como única verdade absoluta capaz de sobreviver ao seu criador. E, paradoxalmente, à aura, tantas vezes mistificadora, criada em torno dela pela morte, essa entidade assustadora que chegará inevitavelmente para nos confrontar com o nada. E com o que sobrevive para além dele. Para os registos de necrofilia ficam as fichas de algumas das mortes mais bem documentadas. Fichas secas. Como a morte.
“Too Old To mRock’n’Roll, To Young To Die” (título de um álbum dos Jetthro Tull)
Hank Williams (1923-1952)
Sofrendo de uma dor crónica nas costas, Hank procura alívio no consumo sistemático de analgésicos, tornando-se rapidamente viciado. Começa a falhar concertos, chegando aos recintos atrasado e bêbedo. no último dia do ano de 1952 a estrela da country sente-se mal durante uma viagem de carro e é transportado paraum hotel de Knoxville, no Tenessee, onde chega já inconsciente. É chamado um médico que lhe ministra uma injecção com uma mistura de morfina e vitamina B. No dia seguinte, Williams é transportado, ainda inconsciente, de novo de automóvel, para o Ohio, numa viagem atribulada. Um polícia de trânsito obriga o condutor a parar por excesso de velocidade e pergunta, com ironia, se o músico está ou não vivo. Williams é conduzido finalmente a um hospital, na Virgínia, onde é declarado morto.
Buddy Holly (1936-1959) e Ritchie Valens (1941-1959)
Dia 3 de Fevereiro de 1959. A meio de uma digressão , a “Winter Dance Pary Tour”, Buddy Holly decide animar o estado de espírito da sua banda e recusa viajar num desconfortável autocarro. Aluga um voo “charter” num pequeno aparelho Beechcraft Bonanza que o deveria levar de Clear Lake, Iowa, a Moorhead, no Minnesota. Com ele seguem Richi Havens (que ganhara esse dirteito no jogo da moeda ao ar com o guitarrista do grupo. Tommy Alsup, e o disc-jockey Big Bopper, autor de “Chatilly Lace” (que consegue o lugar por troca com Waylon Jennings). O avião descola às duas da madrugada no meio de uma tempestade de neve e cai pouco tempo depois, embatendo contra um muro e matando todos os que seguiam a bordo. O acidente serviu de inspiração ao “hit” de 1972 de Don McLean, “American Pie”.
Jimi Hendrix era um génio da guitarra. Com ou sem a ajuda da heroína, a sua Fender Stratocaster falava, gritava, explodia e incendiava-se num dos discursos virtuosísticos mais inovadores de sempre deste instrumento. Uma acumulação de excessos que se estendia à sua vida privada. Passa o dia 17 de Setembro com a sua namorada, Monika Dannemann. No dia seguinte, de manhã, ingere alguns comprimidos para dormir e, algum tempo depois, Monika repara que ele se está a sentir mal. Tenta acordá-lo. Em vão. No hospital diagnosticam uma mistura mortal de alcoól e barbitúricos.
Janis Joplin (1943-1970)
Os Kozmic Blues da cantora que engolia garrafas inteiras de whisky nos concertos deixam de se ouvir a 4 de Outubro. Janis é encontrada morta num quarto do Landmark Hotel, em Hollywood, com marcas recentes de agulha no braço. “Overdose” de heroína. Tinha agendado a gravação das partes cantadas de “Buried alive in the blues”, “enterrada viva nos blues”. Anos antes proferira a seguinte frase, quando da morte do presidente Eisenhower, impedindo, deste modo, a publicação de uma foto sua na capa da “Newsweek”: “Depois de resistir a 14 ataques de coração, tinha logo de morrer na minha semana. Na MINHA semana!”
Jim Morrison (1943-1971)
Circunstâncias da morte: o mistério e a dúvida ainda hoje permanecem cerrados em torno da morte do carismático cantor dos Doors. Há mesmo quem afirme que ele continua vivo, retirado da vida pública, e que a sua “morte” não passaria de um embuste destinado a camuflar o seu desaparecimento. No dia 5 de Julho o empresário dos Doors, Bill Siddons, chega a casa de Jim, em Paris, onde o músico se tinha exilado, e encontra a Pamela, a sua namorada da altura, já com o caixão selado e uma certidão de óbito assinada por um médico francês. Causa da morte: ataque de coração motivado por “overdose” de heroína. O túmulo no cemitério de Père Lachaise, onde Jim Morrison se encontra enterrado (ou não se encontra, de acordo com a teoria dos que afirma que ele está vivo…) tornou-se, ao longo dos anos, num lugar de culto.
Marvin Gaye (1939-1974)
Problemas de impostos, conflitos com a editora, a mulher que o engana com Teddy Pendergrass e o consumo desregrado de cocaína provocam em Marvin, autor de “What’s going on” e “Sexual healing”, uma paranóia crescente que o leva a desconfiar de toda a gente e a amontoar armas em casa. Na manhã de 1 de Abril de 1984, o pai, alcoólico, força a entrada em casa do músico, que o considera um intruso. A mãe de Marvin separa os dois mas Marvin Gaye sénior volta à carga e dispara um primeiro tiro de revólver que atinge o filho no peito. Volta a disparar já com ele caído no chão.
Nick Drake (1948-1974)
“Não consigo pensar em quaisquer palavras. Não sinto emoções sobre coisa nenhuma. Não quero rir sem chorar. Sinto-me dormente. morto por dentro.” São declarações de Nick Drake, confrontado com uma eterna depressão e a dificuldade em arranjar letras para o seu álbum de estreia, “Five Leaves Left”. Na manhã de 25 de Novembro de 1974 o poço engoliu-o de vez. A mãe, Molly Drake, dirige-se ao quarto de Nick para o acordar. Tarde de mais. Nick sucumbira a uma dose exagerada de sedativos. No gira-discos ainda rolava um dos concertos brandeburgueses de Bach. À cabeceira descansavam as páginas de “O Mito de Sísifo”, de Albert Camus.
Tim Buckley (1947-1975)
O autor das fantasmagorias “Happy Sad” e “Starsailor” corria velozmente atrás da noite. Encontra-a na noite de 29 de Junho. Tim dirige-se, meio ébrio, a casa de um “amigo”, Richard Keeling, à procura de heroína. Richard, apanhado prestes a drogar-se, reage com alguma agressividade e prepara-lhe uma dose com uma mistura de heroína e morfina, desafiando-o: “Toma, fica com tudo!” Tim aceita o desafio, convencido de que se trata apenas de cocaína e snifa o pó todo de uma vez. Morre no hospital de Santa Mónica. Longe das estrelas com que costumava sonhar. O seu filho e digno sucessor, Jeff Buckley, morre a 29 de Maio de 1997, afogado nas águas do porto de Mud Island, a ouvir “Whole Lotta Love”, dos Led Zeppelin. Em “You and I”, canção do seu segundo álbum, canta: “Ah, calma que existe por baixo daquele rio selvagem e envenenado.”
Marc Bolan (1947-1977)
A 16 de Setembro, o ex-hippie e rei do glam rock sai de carro com a sua amiga Gloria Jones e alguns amigos para ouvir música no clube Speakeasy e jantar no restaurante Morton. Ele e Gloria arrancam de regresso às 4 da manhã no Mini 1275 GR roxo de Gloria. Uma hora depois o automóvel esbarra contra uma árvore, numa curva a seguir à ponte de Queen’s Ride, no Sudoeste de Londres. Gloria fica gravemente ferida. O fundador dos Tyranossaurus Rex morre.
Sandy Denny (1941-1978)
Cair de uma escada abaixo é uma morte pouco gloriosa, mas foi esta a maneira que o destino encontrou para pôr fim à vida da maior voz de sempre da folk inglesa. Sandy sofreu o acidente no dia 21 de Abril, na casa de um amigo. Partiu a cabeça e entrou imediatamente em coma, falecendo pouco tempo depois, já no hospital, vítima de uma hemorragia cerebral, sem voltar a recuperar a consciência. O desastre aconteceu quando ela e o marido planeavam mudar-se para os Estados Unidos, para um relançamento da carreira. A morte da cantora dos Fairport Convention e dos Fothergay aconteceu nove meses depois do nascimento da primeira filha do casal, Georgia.
Sid Vicious (1957-1979)
Sid Vicious, para falar verdade, parece nunca ter estado vivo. Da anarquia punk dos Sex Pistols, lado a lado e aos encontrões, com Johnny Rotten, às convulsões a solo e ao romance infectado com o seu grande amor, Nancy, tudo na existência de Sid apontava para o descalabro e para o niilismo. Nancy é encontrada no dia 12 de Outubro de a978 na casa de banho de sua casa, encharcada numa poça de sangue com uma faca de mato a seu lado. Sid admite à polícia ter sido ele o assassino. É acusado de assassínio em segundo grau. Desesperado com a korte de Nancy, Sid é preso por causar desacatos num clube nocturno, mas sai em liberdade no dia da audiência.
Vai a correr para o apartamento da sua mais recente namorada, Michelle Robinson, injectar-se. Segue-se nova dose, com material mais puro, o que, a seguir a um período (forçado) de abstinência (na prisão), não costuma dar bons resultados. Sid entra em colapso. Mas volta a si e adormece. Acorda a meio da noite para mais um chuto. O último. Alguém disse de Sid Vicious que “cultivava uma imagem de antagonismo”. Ele preferia cantar uma versão de uma canção de Frank Sinatra e dizer: “This is my way.”
John Lennon (1940-1980)
Depois de conseguir, na manhã de Dezembro de 1980, um autógrafo de Lennon, Mark David Chapman, que viajara de Havai para Nova Iorque só para ver o seu ídolo, permanece seis horas em frente ao apartamento do ex-Beatle aguardando a sua chegada. Lê “Uma agulha no palheiro”, de J. D. Salinger, enquanto espera. Quando Lennon chega e sai da sua “limousine”, Chapman dispara sobre ele uma sequência de sete tiros. Lennon morre sete minutos depois. Chapman é preso e o seu livro confiscado. Numa das páginas escrevera: “Esta é a minha declaração!”
Ian Curtis (1956-1980),
Phil Ochs (1940-1976)
Peter Ham (1947-1975)
Enforcaram-se o três. Ian Curtis, líder da mais famosa banda do eixo neurodepressivo de Manchester, enrola a corda ao pescoço imediatamente antes de um concerto. A morbidez das letras que escrevia, juntamente com a epilepsia e a depressão crónica de que padecia contribuíram para o desenlace fatal.
Phil Ochs, cantor de protesto, autor do hino anti-Vietname dos anos 60, “I ain’t marching”, sofre, numa viagem a África, um misterioso ataque de um estrangulador que o leva às portas da morte. como consequência as suas cordas vocais ficam danificadas para sempre, facto que acentua a depressão de que já sofria. não resiste, enforcando-se na casa da sua irmã.
No caso de Peter Ham, o insucesso de vendas dos álbuns dos Badfinger, depois d euma fase inicial marcada por canções de êxito, aliado a dissensões no seio do grupo, levam à rescisão de contrato com a editora e ao aparecimento da depressão. Problemas familiares fizeram o resto. Ham põe ponto final na amargura e enforca-se.
Bob Marley (1945-1981) e Peter Tosh (1944-1987)
Em finais dos anos 80, num dos primeiros concertos de uma digressão pelos Estados Unidos, Bob Marley tem uma síncope em pleno palco. A digressão é cancelada e a Marley é diagnosticado um cancro no cérebro e nos pulmões. Morre sete meses mais tarde vitimado pela doença.
Peter Tosh, outra das lendas do reggae, é atingido a tiro por um gatuno quando este tenta assaltar a sua residência na Jamaica.
Karen Carpenter (1950-1983)
Aos 31 anos a cantora da dupla pop The Carpenters tomava laxantes e remédios para a tiróide, como resultado de tensão em demasia (provocada pela carreira e pela vida familiar), a par da dependência de drogas. Pesa nessa altura 35 quilos. após algumas tentativas de tratamento e um internamento, parece melhorar e aumenta o seu peso para 41 quilos. No princípio de 1983, a 4 de Fevereiro, Karen faz uma visita à mãe, Agnes. Conversam sobre roupas. No dia seguinte a mãe encontra-a desfalecida no quarto. A autópsia menciona como causa da morte uma paragem cardíaca provocada por anorexia nervosa.
Nico (1940-1988)
Chamavam-lhe a deusa da lua. Nico, modelo, actriz e, acidentalmente, cantora, era um espectro. A sua figura de diva do outro mundo que assombra o álbum da banana dos Velvet Underground esfumou-se como a sua vida, entre drogas, alternando entre excitantes e calmantes, uma insónia permanente e uma carreira que todos manipulavam, sem, todavia, penetrarem na essência do mistério. A 18 de Julho, Nico, na altrura a viver com o poeta John Cooper Clarck, embate com a sua bicicleta numa árvore e sofre uma hemorragia cerebral. A deusa da lua encontrou a morte sob o sol de Ibiza, onde estava a passar férias.
Fredy Mercury (1946-1991)
É uma das primeiras vítimas mediáticas da sida, doença que o cantor dos Queen apenas admite ter 24 horas antes do desenlace fatal, através de uma declaração pública: “Desejo confirmar que fui considerado seropositivo e que tenho sida. Achei correcto manter esta informação privada, até agora, para proteger a intimidade dos que me rodeiam. Contudo, chegou a altura de os meus amigos e fãs saberem a verdade. Espero que todos se juntem a mim e aos meus médicos contra esta terrível doença.”
Kurt Cobain (1967-1994)
Uma incompatibilidade crónica com a vida conduz o músico dos Nirvana à heroína, juntamente com a sua mulher, Courtney Love. Uma primeira tentativa de suicídio, por “overdose” voluntária, definida pelo casal como “um acidente”, falha. Os restantes elementos do grupo convencem Kurt a tentar a desintoxicação numa clínica. Kurt acede mas foge de imediato para Seattle deixando um bilhete a Love: “Lembra-te, aconteça o que acontecer, amo-te.” A 5 de Abril de 1994 Kurt barrica-se em casa. Deixa a carteira aberta no chão, com a carta de condução à vista, para facilitar a identificação. Injecta-se com heroína, encosta o cano de uma espingarda à testa e dispara. O corpo é descoberto apenas dois dias e meio mais tarde por um electricista que trabalhava em sua casa.
Jerry Garcia (1942-1995)
Consumidor compulsivo de cocaína, heroína, ácidos (recebera a alcunha de “Capitão Trips”) e tabaco (três maços por dia), Jerry Garcia tinha uma obsessão pela morte, chamando ao seu grupo grateful Dead e enchendo as capas dos discos com caveiras. Após várias tentativas frustradas de desintoxicação (uma delas deixa-o em coma) faz um derradeiro esforço para se libertar da heroína numa clínica da Califórnia. Durante uma visita de rotina um advogado do centro encontra o músico já sem vida na sua cama, vítima de um ataque de coração.
Outras Mortes Nada Naturais
Por Abuso De Drogas E Álcool
1968 – Frankie Lymon
1969 – Brian Jones (rolling Stones)
1973 – Gram Parsons (Byrds e Flying Burrito Brothers)
1974 – Robbie McIntosh (average White Band)
1976 – Paul Kossoff (Free)
1978 – Keith Moon (The Who)
1979 – Tommy Bolin (Deep Purple)
1980 – Tim Hardin
1980 – John Bonham (Led Zeppelin)
1981 – Mike Bloomfield
1986 – Phil Lynott (thin Lizzy)
1987 – Paul Butterfield (Butterfield Blues Band)
1988 – Andy Gibb (The Bee Gees)
1995 – Rob Stinson (Replacements)
1998 – Rob Pilatus (Milli Vanilli)
Por Acidente
1960 – Eddie Cochran, num desastre de carro
1967 – Otis Redding e cinco membros da banda de suporte Bar-kays, num desastre de avião
1969 – Martin Lamble (Fairport Convention)
1971 – Duane Allman (Allman Brothers), num desastre de moto
1977 – Quatro dos Lynyrd Skynyrd, num desastre de avião
1985 – Rick Nelson, num desastre de avião e D Boon (Minutemen) num desastre de carro
1998 – Sonny bono (Sony & Cher), num acidente de sky
Por Assassínio
1964 – Sam Cooke
1974 – Harry Womack
1987 – Scott La Rock
1995 – Selena
1996 – Tupac Shakur
1997 – notorious BIG
Por Suicídio
1954 – Johnny Ace
1973 – Paul Williams (Temptations)
1976 – Phil Oachs
1979 – Donny Hathaway
1986 – Richard Manuel (The Band)
1997 – Billy mcKenzie (associates)
1997 – Michel Hutchence (INXS)
1998 – Wendy O. Williams (plasmatics)
Esta lista inclui celebridades tão estimadas quanto as antes referidas, mas também artistas e culto, uns já esquecidos, outros sobretudo lembrados depois da morte. Também não pretende ser exaustiva, mas apenas acrescntar-se à primeira lista (Luis Maio)
Informações compiladas dos livros “dead before their time”, de Diana Karanikas harvey e Jackson Harvey (ed. Metrobooks, 1996) e “Eles morreram cedo demais”, de Tony Hall (ed. Edinter, 1996).