Arquivo mensal: Março 2010

Realejo Montam Novos “Cenários”

20.03.1998
Realejo Montam Novos “Cenários”
Deu A Mosca Na Sanfona

Demorou, mas finalmente vai ver a luz do dia o segundo álbum dos Realejo, intitulado “Cenários”. Excelentes executantes, uma sonoridade única e o prazer intenso de tocar combinam-se num dos grandes álbuns folk portugueses de sempre. Os seus autores explicaram ao PÚBLICO as razões da demora, em que a editora tem culpas no cartório, e a nova postura em palco que trouxeram de Saint Chartrier. Na Galiza, os Realejo estão a provocar uma pequena revolução.

Fernando Meireles, construtor de instrumentos, tocador de sanfona, bandolim e cavaquinho, e Amadeu Magalhães, arranjador, gaita-de-foles, ponteira, flautas, concertina, cavaquinho, bandolim, braguesa e percussões, constituem o núcleo principal dos Realejo, grupo de música de raiz tradicional originário de Coimbra e um dos mais originais da cena folk nacional. A estes e a Ofélia Ribeiro, que já participara no álbum de estreia do grupo, “Sanfonias”, juntaram-se os novos elementos José Nunes, guitarra e bandolim, e Miguel Areia, violino. Prosseguindo um trabalho de renovação cujo espírito vai muito além de uma prospecção do passado, os Realejo são, juntamente com os Vai de Roda e os Gaiteiros de Lisboa, um dos grupos cuja existência permite acreditar que a música portuguesa pode avançar no mesmo passo do resto da Europa.

FM – Por que razão foi preciso esperar tanto tempo pela edição deste vosso segundo álbum?

FERNANDO MEIRELES – No nosso contrato temos uma cláusula em que não podemos dizer mal da editora! [Risos.] De facto já tínhamos este disco preparado desde 1996 e gravado desde o ano passado. Digamos que houve alguns dos chamados “problemas técnicos” que atrasaram todo o processo… A verdade é que temos gravado imenso material e estamos a metê-lo na gaveta. Gravámos o primeiro disco em 95, o segundo deveria ter sido gravado em 1996, em 97 poderíamos ter gravado o terceiro e tínhamos agora o quarto… Mesmo o primeiro disco poderíamos tê-lo feito dois anos antes…

FM – Esse atraso sistemático não tem prejudicado a carreira do grupo?

FERNANDO MEIRELES – Obviamente que sim. São paragens forçadas.

AMADEU MAGALHÃES – O grupo está sempre em evolução. A editora, fazendo este tipo de coisas, não nos deixa progredir em termos de trabalho. Não conseguem acompanhar o nosso ritmo.

FM – De acordo com essa evolução, o que é que mudou de “Sanfonias” para estes novos “Cenários” dos Realejo?

FERNANDO MEIRELES – estamos a tocar cada vez melhor os instrumentos e a experimentar, com eles, sonoridades e ritmos novos.

FM – O som do grupo sugere uma grande cultura e hábitos de audição regulares da vossa parte. É verdade?

FERNANDO MEIRELES – Eu ouço muita música. O Amadeu não ouve tanto, o que é bom, porque acaba por fazer as coisas sem sofrer grandes influências exteriores.

AMADEU MAGALHÃES – Sou o controlador… Faço os arranjos e componho os temas originais.

FERNANDO MEIRELES – Em relação aos novos elementos fui eu que lhes incuti o gosto por esta música. Tenho e ouço imensos discos, que estou sempre a mostrar aos outros. Por exemplo, comprei ultimamente o novo “Hippjock”, dos Hedningarna”, dos quais gosto imenso, embora reconheça que estão a entrar um bocado em demasia nos ritmos de discoteca… Também comprei o disco de estreia de um novo grupo irlandês, os Danú, que adquiri no Festival de Saint Chartrier deste ano, no qual participámos. Também comprei um álbum dos franceses Yole. E estamos a ouvir muito os Berroguetto. Em relação à sanfona, gosto de Nigel Eaton, e, dos franceses, Gilles Chabenat, Patrick Bouffard…

AMADEU MAGALHÃES – Também ouvimos muito o Júlio Pereria. Na guitarra, gosto de Preston Redd. Na gaita-de-foles, Carlos Nunez.

FM – Os mais novos do grupo, o que é qu eouvem? Têm alguns heróis?

JOSÉ NUNES – Júlio Pereira! Sou o fã número um dele.

MIGUEL AREIA – Eu ouço outro tipo de coisas, devido à minha formação clássica. No violino clássico admiro o Isaac Stern. Na tradicional ainda não encontrei referências.

OFÉLIA RIBEIRO – Violoncelistas da clássica: Pablo Casals, Rostropovitch, Misha Maiski.

FM – No início de carreira assumiam-se como um grupo de folk de câmara. Mantêm a mesma postura, sobretudo em palco?

FERNANDO MEIRELES – Não, estamos mais voltados para o público, há uma empatia maior. Em certos temas tocamos de pé. E o novo reportório é mais dançável, mais extrovertido.

FM – Mas esse lado mais intimista, pelo menos a julgar pelo álbum, não desapareceu…

FERNANDO MEIRELES – Claro, não deixámos nunca de assumir esse lado. Continuamos a actual, sempre que nos pedem, em igrejas ou em salas de museus. Só que agora, quando tocamos ao ar livre, o som é diferente, a dinâmeica mudou completamente, amplificámos os instrumentos…

FM – Podendo parecer odiosas as comparações, é lícito afirmar que, em oposição ao lado mais conceptual dos Vai de Roda ou dos Gaiteiros, os Realejo são mais espontâneos, mais estritamente “musicais”?

AMADEU MAGALHÃES – Para nós é simples. O que gostamos tocamos – com toda uma vivência cultural implícita. O que precisamos, e o que queremos, é tocar bem,
tirar o maior partido possível dos diversos instrumentos. Não queremos sintetizadores para fazer a chamada “cama”. Preferimos desenvolver ao máximo os instrumentos tradicionais. Só depois é que poderemos, eventualmente, partir para outros caminhos.

FM – Em Portugal, e em particular neste género de música, essa exigência técnica não faz parte dos hábitos da maioria…

FERNANDO MEIRELES – Nunca houve preocupação dos construtores em fazer bons instrumentos. E as pessoas que os tocam não têm a preocupação de os tocar bem. O único que deu um pontapé nesta situação foi o Júlio Pereira. A partir dele é que apareceu muita gente a aperceber-se de que era possível fazer melhor com os nossos instrumentos, a nossa cultura e as nossas vivências. Em Portugal começa a acontecer agora o que há muito já acontece na Irlanda e, mais recentemente, na Galiza, em que o nível técnico médio dos executantes é elevadíssimo. Em Coimbra está a acontecer um pouco isso. O Amadeu dá aulas. Eu ensino a fazer instrumentos. Já há gente que aparece a querer tocar o bandolim ou o cavaquinho como eles devem ser tocados. Mas tem sido um trabalho apenas custeado por nós, os apoios oficiais são nulos.

FM – Os Realejo têm, cada vez mais, um som europeu, na linha de timbres quentes (gaita-de-foles, sanfona, violino, ausência quase total de percussões) de grupos como os Yole ou os Ad Vielle Que Pourra. Concordam?

AMADEU MAGALHÃES – Sim, e as referências tradicionais estão, sobretudo, implícitas. Um tema como a “Cantiga do realejo” não soa a tradicional mas a música de câmara ou a música antiga.

FERNANDO MEIRELES – Não vamos tocar a música de um cavador como ele a tocava na origem. Pegamos nos temas apenas porque gostamos deles. É a única forma de manter viva uma tradição.

FM – Qual tem sido a recepção da vossa música no estrangeiro?

FERNANDO MEIRELES – Como já dissemos, tocámos o ano passado em Saint Chartrier. Foi uma experiência muito intensa para todos nós. Nunca tínhamos estado num ambiente musical tã intenso. Apercebemo-nos de muitas coisas. Mesmo a nossa nova postura em palco mudou um bocado por causa disso.

FM – E a Galiza?

FERNANDO MEIRELES – Já tocámos lá várias vezes. Aconteceu mesmo uma coisa muito gira. Conhecemos muita malta da Galiza e, quando os conhecemos, os galegos eram muito fundamentalistas. Agora já não são tanto; se calhar, um bocadinho por causa da nossa influência. Já não é só a gaita com gaita, começam a meter guitarras. Tocam na sanfona temas para gaita. Até já querem a “mosca” [pormenor técnico que permite, por uma espécie de sacudidela brusca na manivela, obter um timbre adicional e contrastante com a “drone” de fundo] na sanfona!

Tortoise Implodem Com “TNT”

13.03.1998
Tortoise Implodem Com “TNT”
Para Acabar De Vez Com Os AC/DC

LINK

Música que vem do nada, música que se basta a si própria, música desligada da realidade. Parece óbvio que o novo trabalho dos Tortoise, “TNT”, está a provocar em alguma crítica nacional e internacional uma dose razoável de perplexidade. Talvez seja apenas a falta de hábito da pop em lidar com álbuns, como este, inteiramente instrumentais. “TNT” é, tão só, um excelente disco de música e, possivelmente, uma gigantesca anedota. não chega?
Para John Herndon, com quem o PÚBLICO falou, é mais do que suficiente. Aliás, o simples acto de falar parece ser um esforço demasiado intenso para o multinstrumentista dos Tortoise.

Na ausência de John McEntire, mentor e ideólogo dos Tortoise, coube a John Herndon o papel de porta-voz do grupo. Parco em palavras, lá foi dizendo que é apreciador de heavy metal (jurou a pés juntos que não estava a brincar…) e de Herbie Hancock e que a maior dificuldade na gravação de “TNT” foi conferir-lhe um “ar de coesão”.

FM – O som do novo álbum é bastante diferente do anterior, “Millions now Living will never Die”. Houve mudanças nos métodos de trabalho?

JOHN HERNDON – Começámos a gravar há dez meses e acabámos há cerca de dois meses e meio. O som é, de facto, diferente, mas não tentámos fazer nada de especial para além de ser um álbum novo.

FM – Foi um trabalho de intuição de momento ou o fruto de uma planificação prévia?

JOHN HERNDON – Foi algo que se foi revelando e desenrolando à medida que íamos gravando.

FM – O termo pós-rock ainda faz algum sentido para o grupo? Há ainda algo de comum entre bandas tão diferentes como os Tortoise, Isotope 217º, da qual, aliás, também faz parte, ou Stars of the Lid?

JOHN HERNDON – Não fomos nós que inventámos essa designação. Pessoalmente, não me diz nada. Não passa de uma maneira fácil de os jornalistas expressarem algo que não é fácil de explicar. Nunca procurámos ser uma banda rock ou pós-rock… Somos apenas um grupo de música.

FM – Há quem critique essa opção da música pela música, como uma coisa abstracta…

JOHN HERNDON – Não é suficiente?…

FM – Pode ser, mas as pessoas têm a tendência para querer conhecer mais pormenores, ideias, perspectivas. Os Tortoise não se preocupam com estas questões comezinhas?

JOHN HERNDON – A nossa única preocupação é tocarmos os nossos instrumentos da melhor maneira que pudermos.

FM – Que música é que costuma ouvir em casa?

JOHN HERNDON – “The Dream Police”, dos Cheap Trick, “Back in Black”, dos AC/DC, “Hail to England”, dos Manowar…

FM – Por que razão escolheram um título como “TNT” para um álbum tão pouco explosivo?

JOHN HERNDON – Precisamente, é o título de um álbum dos AC/DC. É uma espécie de homenagem de um fã…

FM – Influências. Tentemos por aqui. Por vezes, o som do disco é muito parecido com o dos Stereolab. Não acha?

JOHN HERNDON – Ocasionalmente, usamos o mesmo tipo de sintetizadores.

FM – E Steve Reich, não me vai dizer que os temas “Ten-day interval” e “Four-day interval” não são directamente inspirados na música deste compositor, pois não?

JOHN HERNDON – São, sem dúvida. Durante a nossa última digressão, andávamos a ouvir “Music for 18 Musicians”. pareceu-nos uma boa música de fundo para uma viagem através dos Estados Unidos. Soa muito bem quando se atravessa o deserto… Sei também que John McEntire dedicou algum do seu tempo ao estudo do minimalismo.

FM – “Swung from the gutter” tem o mesmo tipo de “drive” instrumental de algum jazz-rock, uma aproximação que também está presente nos Squarepusher ou nos Isotope 217º…

JOHN HERNDON – Essa é, sem dúvida, uma influência. Ouço bastante o Squarepusher, mas também jazz-rock dos anos 70, como Herbie Hancock.

FM – “TNT” apresenta um interessantíssimo trabalho de produção. Como é que trabalharam este disco em estúdio?

JOHN HERNDON – Usámos dois tipos de trabalho. Umas vezes, desmontámos secções de música, pedaço por pedaço, noutras fomos juntando as partes até chegar a um todo. Não se trata bem, como alguém disse, e nos remisturarmos a nós próprios, mas de tentarmos criar sons novos. Uma das tendências é pegarmos num excerto de música mais forte que já tenha sido gravado, ampliá-lo, manipulá-lo e processá-lo ao ponto de, no final, o som se ter tornado totalmente irreconhecível em relação ao original. Mas é apenas uma parte do processo…

FM – Como é que transportam esse “approach” para o palco?

JOHN HERNDON – É diferente. No estúdio é como se estivéssemos num laboratório. A partir daí, é como se aprndêssemos diferentes versões dos temas que possam funcionar ao vivo.

FM – Em “XXX faster light” trabalham de forma bastante original uma “groove” de “breakbeats”…

JOHN HERNDON – Foi estranho… Gravámos primeiro o núcleo desse tema e depois fomos experimentando por cima as partes de bateria. Tentámos vários ritmos, mas nada parecia resultar. Por fim, decidimos aproveitar uma dessas tentativas, basicamente um “break”, para funcionar como medida do tema inteiro. Gravámos essa parte e processámo-la através de um filtro de um sequenciador de ritmos. Depois eu próprio toquei bateria sobre essa sequenciação electrónica. É como se eu fosse a banda a tocar bateria…

FM – Há uma diferença entre a abordagem rítmica das bandas germânicas como os Mouse On Mars ou To Rococ Rot e a dos músicos de Chicago, como os Tortoise, Trans AM ou Gastr Del Sol?

JOHN HERNDON – Não tenho bem a certeza… Não conheço muito bem a música dos To Rococ Rot. Os Mouse On Mars, sim, são bastante mais electrónicos.

FM – Questão inevitável: em que ponto se encontram as relações dos Tortoise com o legado musical do “krautrock”?

JOHN HERNDON – Não conheço nada. Dave Pajo [um ex-membro dos Tortoise] será a pessoa mais indicada para falar desse assunto.

FM – Sabe por que é que ele deixou o grupo?

JOHN HERNDON – Penso que quis dedicar mais tempo ao seu projecto a solo, os Aerial M.

FM – Há alguma razão especial para o uso intensivo de sintetizadores analógicos na maior parte dos grupos de… hã… pós-rock?

JOHN HERNDON – Uma certa aleatoriedade na criação das texturas musicais.

FM – Qual foi a maior dificuldade com que se depararam na gravação de “TNT”?

JOHN HERNDON – Dar ao álbum um ar de coesão, de maneira a não parecer uma colagem de elementos díspares. Por vezes foi díficil alcançar essa unidade, juntar todas as partes separadas que já estavam gravadas, sobretudo ao nível das misturas e do “editing”.

TNT

John McEntire

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Tocam Guitarra Mas Não São Guitarristas: Flak + Fernando Cunha – Entrevista –

06.03.1998
Tocam Guitarra Mas Não São Guitarristas
O Outro Lado Existe
Fernando Cunha, guitarrista dos Delfins, e Flak, antigo guitarrista dos Rádio Macau, vão lançar os seus álbuns de estreia a solo, intitulados “O Invisível” e “Flak”. O primeiro está cheio de estrelas convidadas, instalando-se confortavelmente no cadeirão do “mainstream”. O segundo investe no psicadelismo e na reconversão do “easy listening”.

Nem um nem outro se consideram verdadeiros guitarristas, mas antes compositores de canções. Mais ou menos afastados da ortodoxia, tanto Flak como Fernando cunha renegam o hermetismo do discurso. Os seus heróis e amigos é que pertencem a círculos diferentes.

FLAK

FM – considera-se um guitarrista ou outra coisa qualquer?

FLAK – Estou mais exposto como guitarrista. Nos tempos de escola comecei por tocar bateria. Depois houve um assalto à sala de ensaios e ficámos todos sem o material. Fiquei sem a bateria e comecei a tocar guitarra. Sempre toquei guitarra, não como guitarrista, mas porque era um instrumento que me permitia compor canções.

FM – tornou-se conhecido nos Rádio Macau, um grupo de rock, mas a partir de determinada altura começou a notar-se que os seus horizontes musicais earm outros…

FLAK – Nos anos 90 resolvi que me queria dedicar à música. não queria pertencer só a uma banda de rock daquelas que chegam aos 30 anos e cada um vai fazer outras coisas porque a música já não dá. Fui alargando os meus horizontes musicais, perceber por queé que tocava aquele tipo de música. Comecei a estudar música e a frequentar o Hot Club, não para tocar jazz, mas para aprender determinadas ideias sobre harmonia. E ouvia música clássica, música contemporânea, música improvisada. E guitarristas como Fred Frith e Robert Fripp. A música pop e rock já não me chegavam.

FM – Quando começou a integrar a electrónica na sua música?

FLAK – Foi na mesma altura. Aliás, coincidente com uma viragem no som dos Rádio Macau através da utilização de samplers e de computador. Antes de usar samplers, já fazia outro tipo de montagens, em fita magnética e gravadores de quatro pistas. Só mais tarde é que tive dinheiro para comprar um sampler, um Akai que, na altura, era caríssimo. Juntei o dinheiro todo para o comprar. A partir daí tenho-o usado sempre. Mais do que tocar, gosto de ouvir as coisas que faço. Aliás, muitas vezes, tocar desconcentra-me um bocado, tira-me a noção do conjunto.

FM – Porque é que demorou tanto tempo a gravar um disco a solo?

FLAK – A certa altura propus-me fazer um disco em que eu próprio iria cantar as canções. Nos Rádio Macau limitava-me a tocar e a compor. Teria sido mais fácil para mim ir para outra área, mais instrumental, mas resolvi cantar. só que não tinha experiência. Então arranjei uma banda. Não eram muito bons músicos, mas eram músicos que escolhi mais por empatia e porque tinham paciência para me aturar. E comecei a cantar, a princípio, muito mal. Mas resolvi não desistir. Com os concertos, as coisas foram melhorando, nas demos fui colocando a voz de maneira mais satisfatória. Até chegar a uma altura em que achei que estava em condições de gravar.

FM – O ambiente geral de “Flak” aponta para uma revisão psicadélica, em particular nas quase citações aos Pink Floyd com Syd Barrett.

FLAK – Quis juntar no formato de canções pop todas as coisas de que gostava. Há 15 anos ouvi pela primeira vez, em cassete, “The Piper at the Gates of Dawn”, dos Pink Floyd, que adorei. Naquela altura, costumava dizer à Xana que haveria de fazer um dia um disco assim. Sabia que era impossível fazê-lo com os Rádio Macau. Depois houve a coincidência de no princípio dos anos 90 surgirem bandas que recuperavam algumas noções do passado, como os Mercury Rev ou os Boo Radleys, que misturavam as guitarras “noise” ao tipo de sons do “Sgt. Peppers” ou do “Pet Sounds”.

FM – Noutros temas do álbum, é notória uma apropriação da estética do “easy listening”, à luz dos anos 90, de bandas como os Stereo lab e os High Llamas…

FLAK – Gosto dessas duas bandas, mas não foi nada intencional. Tem tudo a ver com sonoridades que vêm de trás. Pode encontrar-se essa influência até em bandas como os Blur. Mas o disco inclui outro tipo de coisas, desmontagens várias, ou aproximações ao “trip-hop”.

FM – Os textos que canta parecem não fazer sentido para além do som das palavras. Foi esse aspecto fonético que o interessou?

FLAK – Quase todos os textos foram construídos com base em “cut-ups”. Utilizei aquela ideia da linguagem que é um vírus que veio do espaço. Resolvi cortar uma quantidade de frases e ir colando nas músicas. À medida que ia ouvindo as gravações, ia juntando mais frases, até ter o caixote do lixo cheio de frasezinhas cortadas que iam sendo substituídaspor outras. As letras nem sequer vão surgir na capa do disco.

FM – “Flak” é uma “trip” sonora que parece ter sido feita de propósito para ouvidos alterados pelo ácido…

FLAK – Sob o efeito de drogas as coisas soam sempre de outra maneira. Tem a ver com as pessoas. Eu tenho muita sorte, não tenho qualquer síndrome de dependência. Acho que já experimentei as drogas todas, pelo menos as que são acessíveis, e nunca fiquei dependente. E não há droga que eu tome regularmente. Mas é verdade que, quando comecei a ouvir música, a droga teve um bocado de influência. Até 1974, 75, havia muita erva. Quando fumava aquela erva angolana ouvia determinados sons que não conseguia ouvir quando estava no estado normal. Fumava, punha o disco e ficava a ouvir horas e horas, quase que ouvia, ou imaginava, os dedos do teclista a tocar nos teclados…

FM – Concorda que a música de uma geração corresponde sempre ao tipo de droga que está mais em voga?

FLAK – Sim. apesar de neste momento as coisas estarem mais comercializadas. As pessoas agora são levadas por determinados caminhos, não porque elas escolham, mas porque o aspecto social as empurra para esses caminhos. A música dos anos 60 tinha muito a ver com o ácido, aquelas bandas todas da West Coast, os Grateful Dead e, do outro lado, os Pink Floyd, com o Syd Barrett. Uma coisa acabava por modelar a outra. Se calhar, se não estivesse debaixo daquelas drogas ninguém suportar aqueles longos solos de guitarra das “acid jams”. Havia um determinado estado de espírito, um tempo de concentração próprio. Hoje já não tenho paciência para aturar um improviso de meia hora.

FM – Então que discos é que costuma ouvir? Quais foram os últimos?

FLAK – Ouço todos os tipos de música e compro regularmente discos. Tantos que é difícil apontar um. O último que comprei foi o dos Air. Ouvi outro, de um músico americano, Todd Levin, com a orquestra Sinfónica de Londres, para a Deutsch Gramophon, com uma batida de dança, de “disco”. Não sei como é que conseguiu editar aquilo na Deutsch Gramophon…

FM – Considera-se um músico “outsider”?

FLAK – Sou completamente “outsider” por uma razão: para as pessoas que gostam de música mais “mainstream”, a minha música é um bocado esquisita, e para as vanguardas sempre fui olhado como um músico pop.

FERNANDO CUNHA

FM – Tendo estado ligado a grupos de grande projecção mediática, como os Resistência, e no presente aos Delfins, não deve ter esse tipo de problemas?

FERNANDO CUNHA – É preciso não esquecer que os Delfins, no início da carreira, foram considerados um grupo de “personas non gratas”, embora já fizessem o mesmo tipo de canções que fazem actualmente…

FM – Gravou este seu primeiro disco a solo por algum problema de afirmação do ego?
FERNANDO CUNHA – Não. O disco nasceu muito para trás, em 1992, na sequência do sucesso dos Resitência. Houve na altura um interesse da editora para que eu e o Miguel Ângelo assinássemos um contrato para um disco a solo. Sem uma data fixa de edição e com total liberdade estética. Fui adiando enquanto pude, até que tive mesmo que cumprir o contrato, desse por onde desse…
É óbvio que num disco destes, posso fazer mais coisas além das que faço nos Delfins. Por exemplo, o luxo de poder convidar todos os amigos que quis. [N.R.: E são de peso, alguns destes amigos: Miguel Ângelo, Pedro Ayres de Magalhães, Olavo Bilac, Marta Dias, General D, Boss A.C., Afrikan Voices e Rui Velosos, entre outros.]

FM – Mas não gostava de ser uma estrela?

FERNANDO CUNHA – Nos Delfins, eu e o Miguel sempre fizemos uma dupla fortíssima, porque cada um sabe perfeitamente qual é o seu lugar. O Miguel é quem aguenta apressão mediática, o que me liberta para poder produzir os discos. Além disso, qualquer um que faça parte dos Delfins acaba por ser já uma estrelinha [risos]. Ser o “front man”? Já passei por isso, um bocadinho, nos Resistência. Eram uma quantidade de “front men”, mas a música que calhou ser eu a cantar, “Não sou o único”, dos Xutos, foi a que teve maior sucesso do álbum…
Nessa altura nem podia andar na rua, toda a gente me reconhecia.

FM – “O Invisível” não é propriamente um disco de guitarras…

FERNANDO CUNHA – É um disco de canções pop em que todos os instrumentais foram construídos primeiro. Por essa razão, os primeiros exemplares vão incluir um segundo disco de oferta só com essas partes. Provavelemente poderei fazer remisturas a partir delas. As melodias que lá estão são diferentes das que foram depois aproveitadas pelas vozes.

FM – Então também não se considera um guitarrista, como o Flak?

FERNANDO CUNHA – Não, nunca me considerei um guitarrista, em termos de instrumentista, ou de “guitar hero”. Aliás, comecei por tocar baixo. Só passei para a guitarra porque contratámos outro músico para o baixo, que tocava melhor do que eu, e não havia ninguém para tocar guitarra. Mas o que eu gosto mesmo de fazer é de escrever canções.

Fernando Cunha – 10 Estrelas Para Um Produtor
1986 – Produz “Libertação”, dos Delfins.
1987 – Produz “U Outro Lado Existe”, dos Delfins.
1990 – Produz “Desalinhados”, dos Delfins.
1990 – Integra o projecto Resistência, do qual produz alguns temas.
1993 – Produz “Ser Maior – Uma História Natrural”, dos Delfins.
1995 – Produz o álbum de estreia dos Pólo Norte, “Expedição”.
1995 – Produz a estreia dos Santos e Pecadores, “Onde Estás”.
1996 – Produz “O Caminho da Felicidade”, dos Delfins.
1997 – Produz “Saber Amar”, dos Delfins.
1997 – Produz “Os Químicos do Céu”, dos Astronautas.

Flak – 10 Estrelas Para Um Conceptualista
1983 – Forma os Rádio Macau com Xana e Alex.
1984 – Grava o primeiro álbum da banda, do qual é o principal compositor.
1988 – Produz o primeiro disco dos Requiem Pelos Vivos.
1988/89 – Colabora no jornal “Sete”, onde escreve crónicas semanais.
1989 – Produz o quarto álbum dos Rádio Macau, “O Rapaz do Trapézio Voador”. Toca com os Sétima Legião.
1990 – Forma A Máquina do Almoço Dá Pancadas, com os quais participa na colectânea “Em Tempo Real”.
1992 – Produz o quinto álbum dos Rádio Macau, “A Marca Amarela”. Actua ao vivo com os Palma’s Gang e integra o projecto Plopoplot Pot.
1994 – Produz o primeiro CD a solo de Xana.
1995 – Participa na colectânea “Espanta Espíritos” com o tema “Mais”.
1997 – Participa no álbum de Sérgio Godinho, “Domingo no Mundo”.