Arquivo mensal: Fevereiro 2010

Incredible String Band – Be Glad For The Song Has No Ending

16.10.1998
REEDIÇÕES
Incredible String Band
Be Glad For The Song Has No Ending (8)
Edsel, distri. Megamúsica

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Para os admiradores dos Incredible String Band, constitui um acontecimento a reedição, primeira em compacto, de “Be Glad For The Song Has No Ending”, editado originalmente em 1970 como banda sonora de um documentário de cosmologia realizado por Peter Neal, que antes já dirigira “Experience”, sobre Jimi Hendrix. “Be Glad” é um álbum estranho dentro da estranheza prevalecente no interior de toda a música dos ISB. Separado, na edição original em vinilo, em duas partes distintas, a primeira inclui algumas das composições mais brilhantes de Robin Williamson (“Come with me”, “Veshengro”, “Waiting for you”) e de Mike Heron (“All writ down”, com temática inspirada na Scientologia) e uma versão ao vivo de “See all the people”, gravado em 1968 no Royal Albert Hall, em dueto de voz e guitarras de Robin e Mike. Menos contrastantes que noutras ocasiões, em que se tornam evidentes as diferenças de estilo composicional desta dupla cuja produtividade resultava, amiúde, do confronto das respectivas personalidades, sobressai, no entanto, deste conjunto de composições, o lado bárdico de Williamson, cujo espírito era capz de albergar um lote de referências – da música indiana e céltica ao jazz e aos “blues” – superior ao do seu companheiro.
O segundo lado era ocupado na íntegra pelos 26m45s de “The song has no ending”, colagem de nove fragmentos inspirados na fábula “The Pirate and the Crystal Ball” (preenchia a segunda parte do filme de Neal), onde está condensada toda a estética de contrastes harmonizados como por magia por um dos grupos seminais da década. Recorrendo à habitual pan´plia de instrumentos tradicionais, de rock e da música clássica (bandolim, sarangi, bouzouki, tin whistle, órgão de foles, tablas, violino, gimbri, órgão electrónico, cravo, sitar, etc.), os ISB criaram um painel de “acid folk” cujo folclore cósmico pairava numa onda “hippie” que apenas tem paralelo no universo dos “pot head pixies”, embebido em erva e haxixe, dos Gong.

Procol Harum – A Whiter Shade Of Pale (conj.)

16.10.1998
Porco Doce
Saber conviver com o passado pode ser um exercício salutar. Ainda para mais quando algumas das fatias antigas do bolo pop surgem limpas e remoçadas por cuidadas remasterizações. Os anos 70 continuam a dar lições.

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Em 1967, o ano do “Verão do amor”, a pop descobriu o poder do sexo, das drogas e do sonho. Os Beatles, com “Sgt. Pepper’s”, não deixaram respirar mais ninguém do lado de cá do Atlântico. São Francisco e as bandas da “West Coast”. Grateful Dead, Jefferson Airplane, Quicksilver Messenger Service reinavam do outro. Em Inglaterra, os Procol Harum aparecem sem aviso com “A Whiter Shade Of Pale”, cujo “hit” com o mesmo nome era inspirado numa melodia de Bach. Aguentaram-se nos anos vindouros, experimentando novos sons em “Shine on Brightly”. Aqui variavam entre os “blues” levemente psicadélicos e as carícias do órgão Hammond de Gary Brooker, coloridos pela poesia de Terry Reid. Outros tmas a reter: “Conquistador”, “Something following me”, “Kaleidoscope” e “Salad Days (are ere again)”. Edição mono, em digipak, com quatro temas extra, incluindo o lado A do single “Homburg”. (Repertoire, import. Virgin, 7).

Mick Abrahams foi guitarrista dos Jethro Tull antes de abandonar este grupo para formar os Blodwin Pig, uma das bandas mais injustamente ignoradas da Música Progresiva. “Ahead Rings Out”, de 1969, estabelece uma aliança poderosa do “rhythm’n’blues” com o rock progressivo onde pontificavam o saxofone e os arranjos para sopros de Jack Lancaster (que também tocava flauta, trompa e violino eléctrico). Imagine-se uma variante possúída pelo delírio dos Chicago e dos Blood, Sweat & Tears, ou a fase “Bare Wires”, de John Mayall com os Bluesbreakers. Destaque para o instrumental “The Moderna Alchimist”, pelo arrojo do discurso jazzístico. O segundo e último álbum dos Blodwin Pig, “Getting to This”, de 1970, expande-se com a mesma força. Os arranjos tornam-se mais complexos mas a energia que irradiam não é menor que a do primeiro álbum. Além dos sopros de Jack Lancaster, sempre em proeminência, abundam os efeitos de estúdio, como nos oito minutos de “San Francisco sketches”. Mas a jóia da coroa é “See my way2, uma canção de “hard rock” que ilustra todo o espírito de uma época. (BGO, import. Megamúsica, 8 e 8).

Muito antes de se tornarem reis da sequenciação e embaixadores da música electrónica no mundo, graças ao bom acolhimento internacional de “Phaedra” e “Rubycon”, os Tangerine Dream eram uma das bandas que mais longe levara o experimentalismo da escola teutónica de Berlim. No seu álbum de estreia, “Electronic Meditation”, editado em 1970, estava longe o registo planante que viria a impor-se gradualmente a partir do álbum seguinte, “Alpha Centauri”, e se consolidaria nos seguintes, “Zeit” e “Atem”. Em “Electronica Meditation” vingavam a estética de colisão num “free-rock” cósmico determinado pela guitarra psicadélica (que Julian Cope considera ter ido mais longe que qualquer das “acid jams” das bandas californianas da época) de Edgar Froese e pela batida angular de Klaus Schulze. A tecla espacial era conferida pelo órgão electrónico de Conrad Schnitzler, a contrastar com o industrialismo sufocante que punha em prática nos Kluster, ao lado de Dieter Moebius e Joachim Roedelius. De “Journey through a burning brain” a “Cold smoke”, “Electronic Meditation” é a trip de um cérebro em combustão que dá a conhecer as entranhas antidiluvianas do “Kosmische rock”. (Castle Communications, import. Lojas Valentim de Carvalho, 8).

De saída da folk estavam os Strawbs, depois de Sandy Denny (que participara em “All our Own Work, de 1967) trocar o grupo pelos Fairport Convention e com a entrada, no álbum anterior, ao vivo, “Just a Collection of Antiques & Curios”, de Rick Wakeman, nos teclados. Forjados no mesmo molde dos Fairport, Steeleye Span e Pentagle, os Strawbs sofriam, porém, de uma certa indefinição e de uma queda para o sinfonismo que descaracterizaram a sua música a partir de “Hero & Heroine”. Mas em “From the Witchwood”, de 1971, o grupo encontrava-se no auge, reunindo uma colecção de selos ilustrados que encaixavam às mil maravilhas no “vibrato” e teatralidade inatas de David Cousins, uma voz em muitos aspectos semelhante à de Peter Gabriel. Podemos, de resto, tomar os Genesis como exemplo das projecções fantasmáticas que emanavam da caixa-de-música de “From the Witchwood”, recordando peças como “Harlequin” e “For absent friends”, do álbum “Nursery Crime”. Junte-se a esses recortes de gravuras antigas o imaginário e as lendas folk, a par do virtuosismo, aqui plenamente dominado, de Wakeman. “From the Witchwood” é uma galeria de vitrais atravessados pela luz de um duende. “Bursting at the Seams”, de 1973, editado a seguir a “Grave New World”, já com Blue Weaver (ex-Amen Corner) no lugar de Rick Wakeman, resvala para o tipo de canções que ficam facilmente nos ouvidos, sendo considerado o primeiro disco “rock” dos Strawbs, que nesta altura eram já presença regular nas “charts” inglesas. O melhor exemplo é “Lay Down”, cuja edição em single se tornou num enorme sucesso. O tema, que recorre a citações bíblicas, nasceu na estrada, da ingestão de cogumelos alucinogéneos que alguém atirara para dentro de uma lata de sopa. “From the Witchwood” e “Bursting the Seams” (com três temas extras) surgem pela primeira vez remasterizados, notando-se uma notável melhoria de som em relação às edições japonesas anteriormente disponíveis no mercado. (A&M, import. Lojas Valentim de Carvalho, 9 e 7).

“Berlin” é a obra-prima de Lou Reed que, também aqui pela primeira vez, aparece remasterizada e com uma capa decente, que inclui fabulosas fotografias da mesma série da capa. Disco que antecipa o fim de um mundo, celebrando as suas exéquias com o esplendor de um ritual, começa com um brinde e acaba em tragédia, no palco de Berlim, “by the wall”, símbolo de uma fronteira que o ex-Velvet Underground procurava nessa altura ultrapassar, montado na heroína. “Lady day”, “Man of good fortune”, “Caroline says”, “The kids”, são as canções de um amor sem esperança emborcado com sofreguidão. Nesse cabaré da morte que se extingue são apagadas as mesmas velas. “The bed”: “This is the place where she lay her head / and this is the place our children was conceived / candles in the room brightly at night / And this is the place where she cut her wrists / that odd and fateful night”. Em surdina e devagar, sangrando por uma guitarra acústica, em busca de lenitivo através de uma orquestração que acena de longe e cresce até tornar a dor insuportável. Tudo termina com uma “Sad Song”, que é um hino e um exorcismo. Fica a imagem de um retrato. “I Thought she was Mary, queen of the scotts…”. (RCA, import. Virgin, 10)

“The Wind Rises” (título inglês que substitui o húngaro, na versão original, em vinilo, de 1987, pela Hungaroton), diário electrónico de memórias do compositor húngaro István Mártha, insere-se numa área difusa da música contemporânea que mistura a colagem acusmática (manipulação de gravações de sons naturais), o ambientalismo e desmontagens étnicas, onde cabem nomes como Steeve Moore, Jocelyn Robert, Philip Perkins, Charles W. Vrtacek ou o seu compatrirota Boris Kovac. Religiosidade e experimentalismo unem-se neste salão privado onde, entre outros, entram a cantora Márta Sebestyen e o grupo de percussões Amadinda. (Recommended, distri. Ananana, 8).

Dinossauros excelentíssimos, os Deep Purple insistem em mostrar que no seu Parque Jurássico a vida está longe de poder ser considerada extinta. “30: Very Best of” embrulha de novo, a propósito dos 30 anos de carreira do grupo, um punhado de êxitos da fase mais criativa deste grupo que as gerações actuais do “heavy metal” veneram como heróis, dos álbuns “Fireball”, “Deep Purple in Rock” e “Machine Head”. A estes juntaram-se canções da fase anterior e mais psicadélica (“The Book of Taliesyn”) e temas dos posteriores “Burn”, “Stormbringer”, “Perfect Strangers”, “The Battle Rages On” e do mais recente “Abandon”, a par de remisturas, como a de “Highway star”, um clássico do “speed metal”. (EMI, distri. EMI-VC, 7)

Com “The OMD Singles”, os Orchestral Manoeuvres In The Dark, sobreviventes dos anos 80, do lado mais pop e comercial da “cold wave”, assinam o ponto com uma colectânea dos seus singles de maior sucesso, como “Electricity”, “Enola Gay”, “Souvenir” ou “Joan of Arc”, que repete, praticamente, o alinhamento do anterior “Best of” da banda. Excessos de reciclagem… (Virgin, distri. EMI-VC, 5).

Lisa Germano – Slide

16.10.1998
Altas Vibrações
Lisa Germano
Slide (9)
4AD, distri. MVM

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Ao cabo de quatro álbuns Lisa Germano criou um espaço próprio na canção de autor no feminino equivalente a contrapolar ao de Suzanne Vega, com quem partilha uma introspecção ao mesmo tempo lúcida e apaixonada. Mas enquanto a autora de “Luka” vem retirando sucesivamente o peso à sua música, num processo de depuração que em “Nine Objects of Desire” a levou a aproximar-se da bossa-nova, Lisa continua a carregar nos tons e num surrealismo sonoro que neste seu novo trabalho marca pontos em relação ao anterior e algo repetitivo “Excerpts from a Love Circus”.
“Slide” nasce em vagas de “feedback” a chapinhar na água, com “Way below the radio”, ritual de contacto e de chamamento dos espíritos, com Lisa expectante diante do desconhecido, um pouco à maneira das invocações tribais de Peter Gabriel: “I am here (…) going nowhere (…) Give me some personality.” “No color here”, no seu registo seco e acústico, cantado quase em sussurro, lembra o estilo e as fantasmagorias de Kristin Hersch, para. logo a seguir, “Tomorrowing” dar a conhecer a mesma ironia e o tipo de inquietações de “Happiness”, álbum de estreia da cantora. “Do you thimk it´s fun?”, pergunta, em tom de acusação. “Electrified” apresenta um arranjo de sinos, órgão de foles em cadência de realejo e harpa, com uma segunda prte preenchida por um apontamento instrumental no mesmo tom de brinquedo quebrado de Pascal Comelade.
A canção clássica aflora no título-tema e em “Wood floors”, um dos mais belos temas do disco, monólogo de sombras de alguém perdido num quarto de sonhos, a fazer lembrar “House with no door” de Peter Hammill. O choro de realejo regressa em “If I Think Of Love”, num andamento de passeio triste pelas alamedas da alma. Depois de “Crash”, dilúvio de emoções carregado de tensão, surge “Turning into Betty”, outro dos momentos deslumbrantes de “Slide”, valsa de dúvidas e aproximações, marcada por uma incrível interpretação de Lisa Germano no papel da menina prestes a deixar entrar no seu sonho de boneca o papão Freddy Kruger, sabe-se lá com que inconfessáveis intenções. O tom folclórico da sequência final acrescenta ao tema uma nota de exotismo e de perturbação adicional.
“Guillotine” é outra canção ferida de poesia e de interrogações, à deriva num vibrafone nocturno: “After the storm where is my heart? How can I touch without my hands?” O tema final, “Reptile”, é o mais afirmativo e o único onde a bateria faz notar a sua presença. Se a viagem teve início no vazio de uma emissão de rádio fantasma, o seu término deixa um rasto de estrelas e de esperança, na visão aérea – “higher vibrations, frequency flying, living in light” – de uma alma extraterrestre. Nesse estado de lucidez descarnada e de separação que marca a sensibilidade e o olhar de uma autora que em definitivo se afirma como das mais originais e criataivas da sua geração.