Arquivo mensal: Janeiro 2010

Sergej Auto – Achtung Auto

15.06.2001
Sergej Auto
Achtung Auto
Saas Fee, distri. Ananana
8/10

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Capa kitsch? Rosto de galã com olhos de carneiro mal morto? Não há que enganar. É mais um agente russo infiltrado no mundo, até há pouco tempo bem comportado, da electrónica. Melhor dizendo, é um agente checo, cartoonista de profissão, que se vem juntar às hostes circenses de Felix Kubin, Oleg Kostrow, Oleg Gitarkin e Messer Fur Frau Muller. O som é idêntico, um arranjo de pop electrónica temperada por easy listening, música de spots televisivos dos anos 50 e 60 e todo o imaginário retro-futurista que Raymond Scott antecipou como coisa séria. Mas Sergej Auto ousa introduzir o mau humor no seio da brincadeira, conferindo-lhe um lado sombrio e mais conceptual. Sob o postal ilustrado esconde-se uma sensibilidade aberta ao minimalismo, à house mais dark e à sujidade electrónica como foi esguichada pelos Suicide.

Ozric Tentacles – Curious Corn

20.02.1998
Ozric Tentacles
Curious Corn (6)
Snapper Music, import. Planeta Rock

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Tecno mais psicadelia, dois dedos de Gong mais três de Hawkwind, um charro de meio metro e uma entrada na discoteca a ver estrelinhas. A fórmula dos Ozric Tentacles permanece inalterável desde os tempos em que engrossavam a sua discografia à custa de cassetes coloridas. Numa primeira audição, a música do grupo deixa uma sensação agradável, através de uma sucessão, inavriavelmente acelerada, de “beats” sintéticos pontuados por solos pseudopsicadélicos de guitarra e solos de percussão ritual. Nota-se o cuidado com o som, a articulação de ritmos e timbres polidos que procuram reproduzir a nostalgia do analógico e de sequenciações requentadas no fogão dos Tangerine Dream. Mas é só fumaça. A imaginação é escassa e percebe-se que durante 95 por cento do tempo os Ozric vão com o piloto automático ligado. Os épicos de ficção científica que os Hawkwind faziam correr pelo espaço sideral com músculo, suor e ácido e as fábulas de “nonsense” psicótico que os Gong inventavam no espaço cerebral com pele, saliva e chá de haxixe, são mimados pelos Ozric Tentacles com pinças e muitos botõezinhos coloridos. “Curious corn”, embalado nos já habituais desenhos de um Roger Dean ressacado e ostentando no título a também já habitual fixação pelos cereais, descola na superfície mas afunda-se nas profundidades. Não é carne nem peixe, nem passadista nem futurista, mas uma manta de retalhos que, de tanto se ter depurado, acabou por criar a ilusão de um estilo original. “Curious Corn” até é melhor que o álbum anterior, recuperando alguma da mística do período das cassetes.

Circadian Rhythms – Internal Clock

20.02.1998
Circadian Rhythms
Internal Clock (7)
Word, distri. Megamúsica

“Electronic jazz” e “digital jazz”são duas designações já utilizadas para descrever a música dos Circadian Rhythms, um projecto liderado por Charles Bullen, antigo elemento dos proto-industriais dos finais dos anos 70, This Heat, com a colaboração de Gwen j, “disc jockey” dos Coldcut, e Jean-Dominique Nkishi, baterista dos pós-rockers germânicos Mouse On Mars. “Internal Clock”, envernizado ainda com citações a Pharoah Sanders e Alice Coltrane, acentua uma tendência recente para a liberalização das “grooves” electrónicas no sentido do que, à falta, por enquanto, de outro termo, se tem chamado “jazz”. É toda a reconversão dos conceitos de fusão, jazz-rock e afro-rock dos anos 70 que aqui são postos em prática, através de sequenciações electrónicas libertinas que tanto podem explorar as florestas de surdina semeadas por Jon Hassell em “Dressing for Pleasure” e o “acid jazz”, na sua depuração máxima, vertido por Brian Eno em “Nerve Net”, como anestesiar o “funky” plastificado e Herbie Hancock e entrar por esquemas rítmicos cuja complexidade não deixa de fazer lembrar os National Health (“Cymbophone” e “Timeslice”). Se a organicidade do “jazz” dos “Circadian Rhythms” é a doença da improvisação ou se, pleo contrário, a demonstração de que a liberdade se confina cada vez mais ao monitor de um aquário de vida artificial, eis uma questão para a qual ainda não é possível adiantar uma resposta concreta. Os Circadian Rhytms desviam-se da tecno, fazem solar os “breakbeats” e deitam água na fervura do “drum ‘n’ bass”. Uma banda “cool”?!…