Se Pedro Abrunhosa metesse um didgeridoo no seu Bandemónio o resultado poderia aproximar-se de temas como “Serotonality” ou “Retro rockets”, deste novo trabalho assinado pelo doutor Graham Wiggins (licenciatura em Física) com os Outback. Tomando como ponto de partida técnicas de trabalho e de improvisação que, ao vivo, assentam num complexo jogo de samplagens e utilização de “loops”, bem como na interactividade com o público (cujos ruídos, aplausos e gritos são samplados e integrados na mistura), a música dos dr. Didg não é tão complicada como pode parecer à primeira vista.
O didgeridoo, instrumento ritual dos aborígenes australianos, remete-se a um papel rítmico, inserindo estruturas repetitivas num “funky” elástico, aberto às aragens da “world music”. Bill Laswell, num dia de folga com os Material, ou os System 7 menos pastilhados aprovariam estes balanços do corpo que nunca chegam a ser exaltantes. O “reggae”, simulações jazz e batimentos descolados dos Can friccionam, por seu lado, as “drones” do didgeridoo, obrigando-as a fazer flexões de castigo. Dança-se bem, ouve-se de preferência com a cabeça no ar e faz-nos recordar que a grande música de “didgeridoo”, fora do seu contexto étnico, está em alguns dos projectos de Stephen Kent, como os Trance Mission e os Lights In A Fat City.
28.02.1998
O Som Da Respiração, Da Seda E Do Bambu
Não tem a sensualidade, nem o corpo, nem o rosto de Kathryn Tickell, mas também não se pode ter tudo quando o assunto em questão é a gaita-de-foles. No caso do escocês Gordon Duncan e do seu segundo trabalho a solo, “The Circular Breath”, temos que nos contentar com a música e dispensar outro tipo de fantasias. Gordon Duncan apresenta no seu currículo diplomas passados pelos Tannahill Weavers, Wolfestone, Dougie MacLean Band e Ceolbeg. “the Circular Breath” mostra vários aspectos do “approach” de Gordon Duncan às Highland Pipes. Um extraordinário domínio temporal da digitação na ponteira e da emissão contínua dos bordões não têm correspondência na solução e diversificação dos timbres, aspectos em que Duncan se revela mais próximo do estilo rude, ou “mal temperados”, dos gaiteiros tradicionais, perdoe-se-nos a expressão, do que alguns dos seus conterrâneos que conferem uma expressividade mais contemporânea e actualizada às mesmas Highland Pipes, como acontece com os actuais gaiteiros dos Tannahill Weavers, Ceolbeg ou Iron Horse. O que não espanta, se levarmos em conta a filiação prévia de Duncan na tradição das bandas militares, concretamente na Grade 1 MacNaughton’s Vale Of Atholl Pipe Band. Alternando temas em solo absoluto na gaita-de-foles com arranjos mais sofisticados onde predominam o banjo tenor, de Gerry O’Connor, as percussões africanas de Jim Sutherland e, nos temas mais “folk rock”, o baixo e a bateria, “The Circular Breath” é acima de tudo um álbum de um genuíno gaiteiro que, inclusive, fez questão de deixar publicadas no livrete todas as partituras. (Greentrax, distri. MC – Mundo da Canção, 7)
Proveniente do imparável cadinho editorial em que se transformou a editora Greentrax, chega-nos também “I Sang That Sweet Refrain”, com a voz e as baladas tradicionais de Kevin Mitchell, nativo do condado de Derry. Um irlandês, portanto, reinando nas terras altas do Norte escocês. Mas Kevin vive há anos em Glasgow, daí a sua aceitação nas fileiras do Norte guerreiro. A primeira evidência que ressalta dos vários temas em canto “a capella” é a de um enraizamento profundo na tradição dos velhos “songwriters”, correspondente aliás a uma longa aprendizagem e convívio com mestres como Sean Gallagher ou Francie Brolly. Curiosamente, o tema de abertura, “Paddy in Glasgow”, que traduzido de forma muito livre para português dá “um irlandês na Escócia” ou, ainda mais livre, “um intruso que olhamos com desconfiança”, recorda nas suas entoações outro irlandês, Christy Moore, dos Planxty, e um … inglês, Martin Carthy… Um álbum para apreciadores de vozes curadas, cheio de substância, que poderá se de audição difícil para ouvidos mais habituados à papinha toda feita. (Greentrax, distri. MC – Mundo da Canção, 8)
Correspondente ao número 36 da série World da Network, “Rhythms of the Outer Core”, dos Ankala, revisita a música de raiz tradicional dos aborígenes australianos, o mesmo é dizer que traz para o centro do palco sonoro as sonoridades do didjeridu, neste caso soprado por Mark Atkins. Como principal parceiro de Atkins nos Ankala encontramos Michael Atherton, no bouzouki, darabuka, dje,be, dobro, sanfona, marimba, flauta de bisel tenor e tapan. O som dos Ankala é menos tradicional do que seria de esperar numa colecção essencialmente vocacionada para registos mais étnicos. Em vez disso, a proposta musical vai no sentido de suavizar os sons, dispondo-os com toda a delicadeza na mesa da “world music” de tendência mais “new age2, como em “Stock route”, outras vezes procurando abrigo num “jazz” suave e delicadamente swingante (“One Tree Plain”), outras ainda, como em “Road Train”, inserindo-os no contexto da música celta tratada com o mesmo respeito de uns Blowzabella. A maioria das faixas explora conteúdos improvisacionais ou técnicas de didjeridu específicas, adequando uns e outras a uma visibilidade de expressão que procura, essencialmente, tornar cativante uma música cujas autênticas bases são, por vezes, pouco perceptíveis. A visceralidade mágica do didjeridu faz o resto. (Network, distri. Megamúsica, 8)
Na mesma série da Network encontramos, com o número 39, a música da China, através de instrumentos vários, mas onde predomina a presença de Louis Chen, reputado executante de “zheng”, instrumento da família dos saltérios, e de Ya Dong, na “pipa” (alaúde chinês). “The Sound of Silk and Bamboo”, título característico de uma forma de sensibilidade musical chinesa muito próxima do Zen, apresenta toda a suavidade e subtilezas de um arranjo floral, seja nos duetos do “zheng” com a “pipa” ou em solos tão cristalinos como a água de um regato. O álbum inclui ainda pequena speças para “erh-hu” (violino chinês), “sheng” e “ti-tse” (flauta). Sem ser um álbum de pôr os olhos em bico a qualquer um, “The Sound of Silk and Bamboo” é uma das primeiras andorinhas a anunciar a Primavera. (Network, distri. Megamúsica, 7)
Outras Recomendações
Se gostou do álbum de Gordon Duncan experimente ouvir também “The Northumberlan Collection”, de Kathryn Tickell, “Chabretas – Les Cornemuses à Miroirs du Limousin”, de Eric Montbel, “Obrigado”, dos Gaiteiros Treixaluma, “O’er the Border”, de Gordon Mooney, “Stepping on the Bridge” de Hamish Moore, “Trio Cornemuse”, dos Trio Cornemuse e a colectânea “Mestres da Gaita”.
Se é adepto do didjeridu comece por “Tjilatjila”, de Charles McMohan e termine com “Somewhere” dos Lights In A Fat City.
Que o rapaz era doido varrido, já toda a gente sabia. Que os Pink Floyd sem ele passaram a ser uma banda diferente (para melhor, dizem uns, para pior, dizem outros) também é do conhecimento público. Que após a sua saída do grupo apenas conseguiu gravar – e a muito custo – dois álbuns a solo, antes de voltar a arrastar-se para debaixo das asas da mãe e de se enclausurar no sótão onde parece que passa actualmente o tempo a jogar dominó sozinho, também é assunto documentado. Agora o que nunca tinha acontecido antes, e já devia ter acontecido, era a possibilidade de escutar as canções de Syd Barrett em reedição remasterizada. Por fim, aconteceu, naquela que é a primeira colectânea de sempre do músico. E o prazer que constitui acompanhar em segurança a decadência dourada de um cérebro intoxicado pelo ácido e por visões demasiado enormes para caber lá dentro, é agora mais forte do que nunca. Assiste-se mais de perto e com maior nitidez à combustão criativa, à fragilidade, aos solavancos do baloiço desequilibrado mas suficiente para servir de trave-mestra a todo o psicadelismo. Dos anos 60 até hoje. Não importa se a caminhada no estúdio para chegar à versão definitiva de cada canção era penoso. Isso também já dolorosamente o sabíamos através da caixa-antologia editada aqui há tempos. Syd arrastava a voz e a guitarra ao longo de 20, 30 takes antes do sol entrar de súbito e iluminar cada palavra aparentemente sem sentido, cada nota da guitarra que insistia em deslizar pelos acordes do desconhecido. “Wouldn’t you Miss Me?” acena-nos de lado escuro da Inglaterra dos anos 60, agitando a solidão colorida de clássicos-do-asilo como “Octopus”, “Terrapin”, “Baby lemonade”, “Gigolo aunt”, “Dominoes” ou “Waving my arms in the air”, tirado sde “The Madcap Laughs”, “Barrett” e “Opel” (o disco de raridades). Faltam pedaços da loucura mais negra e vampírica, de “Rats” e “Maisie”, os blues como Syd os arrumava na sua cela privativa, na sua câmara de tortura decorada com estrelas, mas o que se oferece neste “best of…” lança-nos ao rosto o rosto da demência e estilhaços de génio. E faz-nos perceber como é fácil o juízo de alguém desaparecer. O de Syd Barrett ficou a pairar no dorso de um elefante efervescente.