Vários – Folk ‘n’ Hell (conj.)

23.01.1998
FOLK
A Ronda Dos Injustiçados
1997 já lá vai, 1998 ainda agora começou mas já se amontoam na nossa estante de discos os discos da música do nosso contentamento. Muitos dos compactos que aí se foram amontoando não chegaram a ser criticados neste suplemento. Não porque não o merecessem mas porque outros, em princípio mais importantes, lhes foram apssando à frente. Assim, procuraremos hoje dar baixa, digamos assim, de uma boa parte do que ficou por escrever mas não ficou esquecido, do ano que passou. Discos muito bons, quase todos eles, fazem aqui valer o seu direito de se darem a conhecer. Em pequenas notas, bastante sintéticas, sobre cada um. Porque o espaço, como sempre, escasseia, e já outras maravilhas se perfilam no horizonte. Como o novo de Kathryn Tickell, com muitos amigos e mais próximo das raízes e sensual do que nunca, “The Nothumberland Collection” do qual faremos a crítica muito em breve. Bem como de “Paralaia”, de Xosé Manuel Budino, um álbum que obriga a repensar o papel da gaita-de-foles na Galiza. Porque esta é a semana da ronda dos injustiçados.

Lá muito para trás no ano de 1997 ficou um disco de luta. “Folk ‘n’ Hell”, uma colectânea da Hemisphere onde se batem alguns dos electrofolkers escoceses mais radicais da nova geração. Gente como os Búrach, Shooglenifty, Seelyhoo, Rock, Salt & Nails, …, Iron Horse, Tannas, Karthoum Heroes e Old Blind Dogs, lado a lado com os consagrados Ceolbeg e Dougie MacLean, entre outros. (Hemisphere, distri. EMI-VC, 8).

Oriundos da Catalunha, os Tralla são um sexteto de múltiplos registos e larga instrumentação que, em “Cançons de Ronda”, vão desde a canção à Juan Manuel Serrat às sonoridades medievais de uma tarota e de alaúdes, contando ainda com uma voz, de Mirna Vilasís, que evoca a sularidade quente de Rosa Zaragoza. Sem deixar de puxar o lustro à pop e de ligar à electricidade, quando é caso disso, ou de fazer lembrar, por vezes, os Verd e Blu ou, em “Els Carretons”, os ares provençais dos saudosos Mont-Jóia. Um daqueles discos que nos faz sentir culpados por não lhe termos dado, na altura, a atenção que ele, de facto, merece. (Actual, distri. MC – Mundo da Canção, 8)

Sobre os Milladoiro temos escrito muito. Mas não do seu velhinho disco de estreia, “Milladoiro” o qual, com a sua capa singela, terá, se calhar, passado despercebido. Agora que vale tanto a pena como quase todos os outros da banda, lá isso vale. Sanfonas, harpas, gaitas e o génio de Anton Seoane e Rodrigo Romani, antes da entrada em cena das orquestras e da coroação da banda como embaixatriz oficial da Galiza. Uma pequena maravilha que, valha-nos isso, os fãs do grupo não terão deixado passar em claro. Histórico e fundamental. Mea culpa. (Serdisco, distri. MC – Mundo da Canção, 10)

A reedição de “Sheepskins”, de John Kirkpatrick, grão-mestre inglês das “squeeze boxes” também não terá passado despercebida aos apreciadores da música “morris” em geral e dos talentos deste “virtuose” do “melodeon” e da anglo-concertina em particular, nesta sua obra com a data de 1988. Kirkpatrick, velha sombra e antigo parceiro de Ahley Hutchings, é um dos nomes paradigmáticos da folk britânica, por vezes ferrenhamente regionalista. “Sheepskins” não entrará de rompante no ouvido mais adoçado pela “world” de cetim mas fará saltar de alegria os incondicionais deste eterno amante da “morris” e das canções amarguradas do seu velho amigo Richard Thompson. (Music & Words, distri. MC – Mundo da Canção, 7)

Para quem gosta de voar pelos “airs” da música irlandesa deve prestar atenção a “Traditional Irish Music On Flute And Tin Whistle”, do pouco conhecido Laurence Nugent. Tem nome de francês mas é genuinamente esmeraldino. Mick Moloney faz-lhe o elogio. Na ficha técnica aparecem Liz Caroll, Arty McGlynn e Eoin O’Neill. não chega? Então ouçam. É “Irish Music” da pura e dura, como nós todos gostamos. Certo? Ceeerto! (Shanachie, distri. MC – Mundo da Canção, 8)

Tão pura e dura como “Traditional Music Of Ireland” (é maravilhosa a imaginação posta em alguns dos títulos destes álbuns mais tradicionalistas…) do trio formado por James Kelly, na rabeca, Paddy O’Brien, no acordeão, e Daithi Sproule, na guitarra. Não fará mudar o mundo nem a Irlanda, mas sabe tão bem como a indispensável “pint” do fim do dia no “pub” ao fundo da rua. Tem a duração de um duplo e fará dançar até de madrugada. Uma autêntica “session”, tão longe dos holofotes da “world music” quanto é possível. À vossa! (Shanachie, distri. MC – Mundo da Canção, 8)

“Dancin’ Chantin’” de Janet Russell e Christine Kydd é dos álbuns menos falados da recentemente rejuvenescida editora escocesa Greentrax. Duetos vocais, “a capella” ou com acompanhamento instrumental, em temas “standards”, encantamentos em gaélico e incursões na Bretanha, por duas vozes que ligam como morangos e chantilly. Imaginem umas Silly Sisters “unfashionables” ou, noutras ocasiões, Kate & Anna McGarrigle, mas incomparavelmente mais celtas. Como é que pudemos deixar para trás uma jóia deste quilate? (Greentrax, distri. MC – Mundo da Canção, 8)

Pretensões mais modernistas tem Derk Warfiled, elemento dos Wolf Tones, que em “Legacy” canta naquele registo entre o ligeiro e o interventivo caro a Christy Moore sem contudo ter uma voz que chegue aos calcanhares do antigo vocalista dos Planxty. As histórias são duras, o som, por vezes, eléctrico num daqueles álbuns em que a mensagem vale tanto ou mais do que os sons. Mas temas como “I’ll Speak To Gran” deixam-se cantarolar com impressioinate facilidade. Uma espécie de Dubliners e Clancy Brithers para “yuppies”. (Shanachie, import. Strauss, 7)

Dos escoceses The Iron Horse já tínhamos escrito a propósito de “Voice of the Land”. “Five Hands High” é anterior mas não muito diferente. Música de fusão, entre os Clanna, Talitha McKenzie e uma “new age” musculada. Terá, mesmo assim, uma energia e um tipo de doçura mais convincentes que as do seu sucessor. Faixas como “This Is No’ My Plaid” poderiam fazer parte de um álbum de Folk Progressivo dos anos 70, de uma banda como os Mellow Candle. Outras vezes, como em “The Linguist” o cavalod e ferro galopa a um ritmo genuinamente tradicionais. Um caso em aberto. (Locshore, distri. MC – Mundo da Canção, 7)

A colectânea “Early Classics”, a par de “Basket of Light”, é um dos poucos discos da fase inicial dos Pentagle disponíveis em Portugal. Serve, sobretudo, para introduzir este grupo – que, ainda nos anos 60, juntou a “folk” inglesa ao “jazz” e mostrou ao mundo a voz de rouxinol de uma das poucas genuínas inovadoras do canto tradicional nas Ilhas Britânicas: Jaqui McShee – aos que ainda não puderam ouvir um álbum, de beleza quase sobrenatural, como “Cruel Sister”. Ouçam um tema como “Mirage” e perceberão logo o que queremos dizer. (Shanachie, distri. MC – Mundo da Canção, 8)

“Com’ Acqua Linda” é um belíssimo título, capaz de dar vontade de ouvir a música que lhe está adjacente, neste caso dos Cinqui Só, grupo da Córsega do qual já havíamos escrito sobre o álbum posterior, “Tarraniu”. Achamos este, de 1994, bastante mais belo e completo. A maneira como os Cinqui Só enquadram a solenidade telúrica das polifonias corsas em baladas de extrema suavidade confere-lhes uma sonoridade peculiar, entre o drama, o sangue, o oceano e o Sagrado. Temas como “Ma da chi saraghju natu” ou a polifonia “Versu d’Orezza” estão perto da perfeição. Álbum fundamental de um grupo para seguir com muita, muita atenção. De novo “mea culpa” por só agora termos reparado. (Riccordu, distri. MC – Mundo da Canção, 9)

Ainda no Sul, o flamenco arde na Andaluzia e na guitarra de Gerardo Nunez, no seu álbum de 1994, “Jucal”. O “duende” está lá, bem como a presença, como cantor convidado numa das faixas, de Ramon El Portugues. Gerardo Nunez é um dos nomes mais importantes do flamenco da transição do velho para o novo estilo. Indispensável para os amantes do género. (El Gallo Azul, distri. MC – Mundo da Canção, 8)

Ainda mais para Sul e ainda de 1994 encontramos a formação de Bustan Abraham, em “Pictures Through the Painted Window”, fusão inspirada das várias músicas do Médio-Oriente com o “jazz” (fazem lembrar os germânicos Embryo, numa faixa como “Jazz ker-kurd”) e alguma tradição clássica ocidental por uma formação que junta músicos judeus e árabes, sob a égide do bíblico Abraão/Ibrahim. Uma boa companhia para “Assouf” de Baly Othmani com Steve Shehan ou “sultan’s Secret Door”, dos Istanbul Oriental Ensemble. (Crammed, distri. Megamúsica, 8)

Ponto de chegada nos Balcãs, com o duplo “Dusha – The Soul of Bulgaria” pela Bulgarian All Star Orchestra, uma formação de nove elementos, num trabalho que alterna solos de “gaida” (de foles, obviamente…) e “gadulka” (espécie de violino tocado na vertical), além do “cimbalon” (grande saltério) húngaro, com longas “suites” que traem a formação clássica dos seus executantes. Se por vezes se sente a mão do academismo, tal não impede a música de nos proporcionar visões, por vezes bizarras, de paragens já de si tão pouco familiares, como a Valáquia (no Sul da Roménia). (Network, distri. Megamúsica, 7)

NOTA: Além de Kathryn Tickell e de Xosé Manuel Budino estão na calha novos álbuns de Kevin Mitchell (“I sang that Sweet Refrain”), Dick Gaughan (“Sail On”), gordon Duncan (“The Circular Breath”), Henry Kaiser & David Lindley (“The Sweet Sunny North, Vol. 2”), Eric Bogle (“Small Miracles” e “The emigrant & The Exile”, com John Munro), Brendan Power (“Plays the Music of ‘Riverdance’”), Nawang Khechog (da série de Kitaro, “World of Music”), Louis Chen & Ya Dong (“The Sound of Silk and Bamboo”), Ankala (“Rhythms of the Outer Core”) e Nenu! (klezmo-copter”). Uf!

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