Arquivo mensal: Outubro 2009

Ao Vivo | Goldfrapp – Gotas de Perfume

09.03.2001
Ao Vivo | Goldfrapp
Gotas de Perfume

goldfrapp

goldfrapp_feltmountain

LINK

Amor. Pop. Amor. Luzes. Amor. E um intenso aroma de perfume. “Felt Mountain”, montanha de estranhos encontros amorosos iluminados por ainda mais estranhos astros, é a primeira enunciação, fragrante mistura de amor e variedades, de Alison Goldfrapp.
“Acredito nos extremos. Quando se quer fazer uma canção doce, vale a pena que ela seja realmente doce. Todas as coisas têm um lado doce e romântico, mas também um lado negro. Nos melhores romances de cada vida existe sedução, drama, doçura, perigo, solidão, corações destroçados” disse ao Público o ano passado. Para Goldfrapp a vida é feita de contradições. Mas se a vida – e, já agora, a música – não se resolve numa via de sentido único, ao menos que o caminho se faça com elegância. E uns olhos puros voltados para o passado. Aromatizado num filme em 3D em que ela podia fazer de heroína, boa ou má – que importa, se são a mesma pessoa? – de uma aventura de James Bond.
“Pilots”, uma das muitas canções de amor de “Felt Mountain”, lança no éter palavras como “the sound of you and me, time twitching, murmurs of our, friendly machine”. Podiam ilustrar um filme de David Lynch e saborear-se ao mesmo tempo que uma banda Sonora de Nino Rota, Ennio Morricone ou Angelo Badalamenti. Porque a música de Alison Goldfrap corre devagar como um filem ao “ralenti”, com o céu, a noite estrelada e um toucador (que deverá ter fixo um espelho e onde deverão estar dispostos uma peruca, frascos de perfume e muitas jóias espalhadas) em pano de fundo.
Tudo isto se combina para formar a música que Alison Goldfrapp diz “escutar dentro da cabeça”. E para se penetrar numa cabeça, não existe melhor porta de entrada do que uma alucinação de Lynch. “Gosto de filmes que consigam criar contradições, desconcerto. Os filmes de David Lynch têm isso. São oníricos, mas ao mesmo tempo contêm sempre uma boa dose de absurdo. Parece uma banalidade, mas a vida também é assim. Aquilo que nos parece branco e preto é muitas vezes cinzento ou lilás. Amor.” Amor lilás. Como o de ‘Blue Velvet’”.
O cabaré de Kurt Weill, a pop francesa dos anos 60 de Serge Gainsbourg e Françoise Hardy, o “easy listening” de John Barry e Lalo Schfrin, a esquizofrenia romântica de Scott Walker e os lustres vocais de Shirley Bassey e Liza Minelli baralham-se num rodopio de citações em que o tempo deixa de fazer sentido. Foi ontem ou será amanhã a data marcada para a escalada ao cume da montanha dos afectos?
Embora já tenha colaborado com Tricky, Orbital, Add N To (X) ou no último álbum de Ian Simmonds (Jutyman), esta antiga estudante de arte na Universidade de Middlesex é alheia ao alcance da pergunta. Ela está noutro lugar, nãos e sabe bem onde, mas de certeza longe, num mundo de sonhos.
“Não compreendo muito bem a maior parte da música moderna. Os ritmos e esses tipos de coisas são um universo estranho para mim”. Perfume de lilases.

CMU – Open Spaces / Space Cabaret

18.07.1997
CMU
Open Spaces / Space Cabaret (8)
See For Miles, import. Torpedo

cmu_spacecabaret_openspaces

LINK (Parte 1)
LINK (Parte 2)

Em edição dois em um (extirpada de um tema de “Open Spaces”), surgem os C.M.U., ou Contemporary Music Unit, um dos grupos mais inclassificáveis e menos conhecidos do Progressivo inglês de segunda linha. “Open Spaces”, de 1971, e “Space Cabaret”, de 1983, escapam às definições, embora permitam aproximações. Para baralhar ainda mais: Um dos seus elementos, Pete Cook, baixista do primeiro álbum, chegou a tocar com os Soft Machine, enquanto outro, o percussionista Roger Odell, entraria para aformação de “soul disco”, Shakatak. “Open Spaces” junta os “blues” polvilhados pela loucura de Captain Beefheart com a longa “suite” psicadélica que dá título ao álbum, um mantra com violino étnico, que tanto se afunda em ácido como flutua num minimalismo de cristal.
Com a entrada no grupo de Ed Lee (autor maníaco de uma “História da Música Popular”), para substituir Cook, os CMU enveredariam pelo dexonhecido de uma pop progressiva que tanto evoca uma mistura dos Caravan com os cabarés sofisticados de Anna Domino (“Space Cabaret”) como deriva para terminais sem saída de Canterbury. Ora retorcidos como os Comus (de “To Keep From Crying”, não do infernal “First Utterance”…), ora num quase plágio de Peter Hammill, em “A Distant Thought, a point of light”, os CMU passearam-se, com elegância, por onde quiseram. Seguir-lhes o rasto é caminhar por uma estrada onde, a cada passo, o reconhecimento tropeça na surpresa.

Dunkelziffer – In The Night (conj.)

Missa nos Claustros de Düsseldorf

Kluster
Eruption (7)
MARGINAL TALENT, DISTRI. SYMBIOSE

Dunkelziffer
In The Night (7)

dunkelziffer_inthenight

LINK

Dunkelziffer III (7)
FUNF UND VIERZIG, DISTRI. MEGAMÚSICA
La Düsseldorf
La Düsseldorf (8)
GERMANOFON, IMPORT. CARBONO
Yatha Sidhra
A Meditation Mass (7)
TEMPEL, IMPORT. PLANETA ROCK


“Kluster und Eruption”, gravado 25 anos antes, em 1971, é uma obra rodeada de alguma controvérsia. Embora na ficha técnica conste o nome de Kluster, é opinião corrente que o disco (com a indicação de ter sido gravado ao vivo) é na realidade o resultado da manipulação, por Conrad Schnitzler, de fitas do grupo gravadas previamente. Seja como for, não se está longe da sonoridade dos dois primeiros trabalhos dos Kluster, atrás citados. São 56 minutos (separados em dois temas sem título) de ruído, ou melhor, de “elektroakustische Musik”, que se acompanham como a um corpo sinistrado. Ruído sim, mas do bom e genuinamente revolucionário.
Os Dunkelziffer existiram nos anos 80, podendo ser considerados “clones” dos Can, o que se compreende, atendendo a que da sua formação fazem parte o vocalista japonês Damo Suzuki, que integrou os Can, nos álbuns “Soundtracks”, “Tago Mago”, “Ege Bamyasi” e “Future Days”, e elementos dos Phantom Band, banda do baterista dos Can, Jaki Liebezeit. Nos Dunkelziffer é tudo mais leve e menos profundo do que nos Can. a batida é semelhante mas nota-se uma tendência para o “jazz rock”, relacionada com a preponderância no som do grupo do saxofonista Wolfgang Schubert. Damo Suzuki também se mostra bastante mais comedido, enquadrando a sua voz num formato de canção, o que raramente fazia nos Can. É a diferença entre a improvisação orgância e mágica dos originais e a composição planeada dos Dunkelziffer.
“In The Night” é mais calmo, com incursões no reggae e na música árabe (“Orientsal Cafe”) e um tema inicial longo, “Retrospection”, na linha da música produzida pela banda de Irin Schmidt e Bruno Spoerri, os Toy Planet. “Dunkelziffer III”, editado a seguir (terceiro de uma discografia total de cinco álbuns), tem maior consitência e é ainda mais parecido com os Can. O ritmo adensa-se, Suzuki arrisca chegar ao registo gutural que usava nos Can, os teclados e o saxofone dispensam a facilidade e a beleza, por vezes fútil, do álbum anterior. Um bom sucedâneo dos resi de Colónia.
Os La Düsseldorf, trio liderado pelo dissidente dos Neu!, Klaus Dinger, conseguiram criar, com o seu álbum homónimo de estreia, um clássico do “krautrock”. Protótipo do rock minimal, influenciou irectamente o punk rock e, duas décadas mais tarde, o pós-rock. A electrónica rodava numa pista de corridas, as guitarras e a bateria metronómica funcionavam com a precisão de um motor. A música dos La Düsseldorf fez divergir a mecânica futurista dos Kraftwerk para o terreno duro de uma cidade, Düsseldorf, hipnotizada pela sua própria paranóia.
O oposto aplica-se aos Yatha Sidhra, com “A Meditation Mass”, de 1973, filho único de um projecto idealizado pelo multinstrumentista Rolf Fichter (“Moog”, flauta indiana, vibrafone, piano eléctrico, guitarra eléctrica, voz) com o seu irmão Klaus (bateria e percussão), cuja música é típica da vertente mais cósmica do “krautrock”. Considerado por alguns uma das obras-primas da “kosmische musik”, entre os quais os autores da enciclopédia “A Crack In The Cosmic Eye”, “A Meditation Mass” é uma suite dividida em quatro movimentos que cativa enquanto o grupo se mantém fiel à electrónica planante, de pendor místico, à la Popol Vuh, mas se torna penosamente embaraçosa quando Rof Fichter decide que também sabe tocar jazz e solar no vibrafone e no piano eléctrico.
De rsto, os jovens “krautrockers” era, regra geral, executantes com óbvias limitações (e, amiúde, inaptos para dominar o mais simples 4/4, fruto da tal falta de convívio com as raízes negras do rock’n’roll), embora óptimos conceptualistas e manipuladores de som, quando se tratava de disparar automatismos (Kraftwerk, Tangerine Dream pós “Phaedra”, Cluster, …).
Exemplos não faltam, inclusive em obras e autores considerados marcantes. Veja-se os casos dos Tangerine Dream e do Edgar Froese guitarrista, antes de optarem pela electrónica total, do Klaus Schulze baterista, dos Mythos, dos próprios Faust… Há excepções, claro: Manuel Göttsching (apesar do ácido…), Michael Rother, Achim Reichel, Ax Genrich (o Hendrix alemão), Michael Karoli, Jaki Liebzeit, Jürgen Dollase, Uli Trepte, Mani Neumeier…
Apesar desta lacuna, “A Meditation Mass” conserva uma aura indefinível e uma originalidade que a faz atravessar relativamente incólume a passagem do tempo. Ao Planeta Rock, especializado na área do progressivo, chegaram também – em quantidfade reduzida – “Malesch” e “2nd”, dos Agitation Free, “Traum”, dos Hölderlin, “Broselmaschine”, dos Broselmaschine, “Saat”, dos Emtidi, “UFO” e “Hinten”, dos Guru Guru, “Trauma”, dos Gomorrha, “Motherfucker gmbh”, dos Xhol, “Schwingungen” e “Le Berceau de Cristal”, dos Ash Ra Tempel, “Irrlicht”, “Cyborg” e “Picture Music”, de Klaus Schulze, e toda a discografia – historicamente importante mas musicalmente irrelevante – dos Amon Düül (com pouco ou nada a ver, em termos musicais, com os Amon Düül II…). Enquanto isto, a Torpedo prepara-se para receber Whithuser & Westrupp, Harmonia e Liliental. A MVM, a Música Alternativa e a Megastore da Valentim de Carvalho começam a disseminar os discos e a mensagem do pós-rock, dignos continuadores do experimentalismo e da atitude do “krautrock”. A propósito: se gostam dos Neu! e acham, como nós, que “Surrender To The Night”, dos Trans AM, é uma das obras-chave do movimento, comecem, desde já, a procurar o “álbum branco” dos Fridge. E a procissão ainda vai no adro…