Arquivo mensal: Outubro 2009

Tonton Macoute – Tonton Macoute

18.07.1997
Tonton Macoute
Tonton Macoute (8)
Repertoire, import. Torpedo

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Nos anos 70, em matéria de “jazz”, ou de algo parecido, quem transbordasse de ideias mas a quem faltas o virtuosismo dos mestres ou o desejo de recolher ao academismo, caía invariavelemnte nos braços do Progressivo. Não faltam exemplos: Soft Machine, Nucleus, Caravan, Bob Downes Open Music, Affinity e tantos outros. No escalão abaixo, lutava a categoria, inevitavelmente condenada ao malogro comercial, dos que se afadigavam em sínteses absurdas (mas não raras vezes fascinantes) de um discurso com raízes oblíquas no “jazz” mas infectadas por mutações aberrantes. Estão neste grupo grupos coko os Cmus e East Of Eden, ambos excelentes, aliás, Catapilla, Ben e estes Tonton Macoute, como se chamavam os praticantes e vudu e tenebrosos guardas policiais do ditador haitiano Papa Doc. Os Tonton Macoute misturavam solos e flauta e sax inspirados (e electrificados, em “Natural high, part 1”), com divagações aleatórias, mas sempre curiosas de seguir, de teclados e vibrafone, à maneira dos Catapilla, de “Changes”, ou dos Ben, com ecos ocasionais de Bo Hansson ou Tasavallan Presidentie e vocalizações musculadas com a marca dos Chicago. As variedades de jazz de Sting eram, por seu lado, antecipadas num tema como “You Make My Jelly Roll”. A fórmula resulta nalguns casos feliz, noutras afunda-se na indigência, desequilíbrio que resulta do álbum ter sido gravado em diversas ocasiões, com intervalo de anos, acabando por ficar como testemunho de uma carreira curta, marcada pelo anonimato mas também por algumas intuições fulgurantes.

Spirogyra – St. Radigunds

18.07.1997
Spirogyra
St. Radigunds (8)
Repertoire, import. Torpedo

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Sustentado pelas composições de Martin Cockerham e pelas combinações vocais deste e de Barbara Gaskin (posteriormente requisitada para fazer apoios vocais com os Hatfield & The North, Gilgamesh e National Health), em solo ou combinadas, os Spirogyra constituíram uma das bandas menos conhecidas da cena Canterbury. Com três álbuns gravados, o primeiro dos quais é este “St. Radigunds”, aqui reeditado em versão remasterizada, o som do grupo aproximar-se-ia, nos álbuns seguintes, da folk progressiva, com participações de Dave Mattacks, dos Fairport Convention, em “Old Boot Wine”, e da diva Shirley Collins, no derradeiro “Bells, Boots and Shambles”.
Em “St. Radigunds”, o som era dominado pelo violino, muito Darryl Way (Curved Air, Wolf), de Julian Cusack, que viria a abandonar o grupo, e pela estranha veia melódica de Cockerham, um daqueles talentos típicos dos anos 70, ao qualq terá faltado apenas um maior sentido de equilíbrio para fazer vingar a originalidade das suas propostas. A voz de Barbara Gaskin andava então longe do sentido “jazzy” das bandas mais intelectuais de Canterbury, notando-se, também no seu caso, algumas semelhanças com os Curved Air, na pessoa da vocalista Sonjia Kristina. Peça rara, em vinil, impressa com o selo B & C, para os coleccionadores, “St. Radigunds” não perdeu uma mística própria e uma originalidade que, indubitavelmente, colava com as estranhas visões de Martin Cockerham, cujo timbre vocal se comparava a uma espécie de Dylan em “trip” permanente. Como Dylan, também Cockerham afinava com dificuldade, mas dele sairam alguns dos sonhos mais belos do progressivo.

Witthüser & Westrupp – Trips Und Traume

27.06.1997
Witthüser & Westrupp
Trips Und Traume (7)
Der Jesus Pilz (6)
Ohr, import. Torpedo

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Bernt Witthüser e Walter Westrupp formaram uma dupla cuja música se encaixa no movimento “krautrock” original. Gravados no auge da “kosmische musik”, em 1971, estes dois álbuns impresionaram Rolf-Ulrich Kaiser, patrão e ideólogo da Ohr e do psicadelismo germânico em geral, levando-o à criação selo subsidiário Pilz, especializado em música cósmica de tendência “folk”. No seu livro “Krautrocksampler”, Julian Cope inclui “Trips Und Traume” no seu “top” pessoal. O primeiro contacto com a música de Witthüser e Westrupp pode ser desmotivante. Sons secos suportam vocalizações, muitas vezes declamadas, em alemão, nua tecla “folk” teutónica de arestas cortantes. O próprio Cope refere no livro que, no caso de “Trips Und Traume”, a música está mais próxima do tom declamatório de Tim Buckley do que das “cosmic jams” da época. Mas a diferença instala-se na progressão de bandolins e vozes alucinadas de “Orienta” ou na cosmovalsa “Karlchen”, com Gille Lettman, a favorita do “kaiser” (Rolf-Ulrich…). Também disponível nesta importação, o álbum seguinte, “Der Jesus Pilz”, mistura cogumelos alucinogéneos com textos dos Evangelhos. É nesta combinação herática de elementos “sérios” com o desregramento formal provocado pelas substâncias psicadélicas que reside a maior provocação, mas também a principal debilidade, da música de Witthüser e Westrupp, um objecto estranho, entre o misticismo e a anedota, incrustado no corpo do “krautrock”.