Arquivo mensal: Julho 2009

Gaiteiros de Lisboa – Chama Viva

01.12.2000
Gaiteiros de Lisboa
Chama Viva

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LINK (CD1)
LINK (CD2)
pwd: oneil

“Dançachamas”, é um duplo ao vivo e, mesmo sem canções originais, faz jus à criatividade do grupo. Na capa um pormenor de “Jardim das Delícias” de Bosch. É tão bom que apetece usar o slogan de Alexandre O’Neill: “Bosch é brom”.
E perguntam vocês em coro: “Porquê um disco ao vivo”? Boa pergunta. Porquê? Carlos Guerreiro, um dos cinco Gaiteiros que responderam ao convite do “Y” para falar do seu novo álbum “Dançachamas”, gravado ao vivo nos dias 19 e 20 de Outubro no Pequeno Auditório do Centro Cultural de Belém, em Lisboa, foi o primeiro a responder: “De facto, apenas com dois discos de originais pode parecer pretensioso fazer já um disco ao vivo. Digamos que resultou de uma negociação com a editora no sentido de nos vermos livres uns dos outros”.
Só por isso? Calma! O compositor, sanfonineiro e inventor dos “Túbaros de Orfeu” ainda não acabou: “Mas achámos também que as pessoas que só conhecem os discos de estúdio poderiam encontrar algo que desconhecem, e este álbum documenta a verdade do grupo neste momento”.
“Resumindo”, acrescenta José Salgueiro, mestre percussionista do grupo, “os Gaiteiros ao vivo são mais emotivos.
Das duas sessões, terá sido a segunda a mais produtiva já que dos 20 temas que compõem “Dançachamas” apenas dois foram gravados na véspera. Salgueiro realinhou posteriormente as canções de forma diferente da que foram interpretadas no CCB, segundo a lógica do dj, “sem necessidade de muitos ‘overdubs’ e com a preocupação de encadear os temas uns nos outros. “O ambiente que uma deixa inspira a que vem a seguir”.
Em “Dançachamas”, por motivos ligados à produção, o som da gaita-de-foles está mais em evidência do que nunca. Neste ponto da conversa Paulo Marinho, gaiteiro-mor do grupo, lançou-se numa longa dissertação sobre o celtismo ou não celtismo dos Gaiteiros (eles inclinam-se mais para a segunda escolha), concluindo Carlos Guerreiro que o grupo tem mais pontos em comum com a música árabe e africana do que com as sonoridades bárdicas do Norte. “Somos uma banda mediterrânica”, afirma com um enorme ponto de exclamação, “e mais, assumimo-nos como os criadores de uma música Neo-bárbara!”. Sentimo-nos obrigados a concordar deixando para já de parte a sugestão para os Gaiteiros gravarem um dia um “reel”. Apesar de tudo participaram há pouco tempo no mais recente álbum do grupo galego Chouteira, “Folla de Lata”, mas a verdade é que a colaboração resultou numa notória gaiteirização da música, o que só abona a favor da personalidade dos portugueses. “A nossa preocupação é fazer coisas que nos dêem gozo, se amanhã pegarmos numa guitarra e acharmos que um acorde até é giro, não temos problemas em ir para a frente”, acrescenta o multinstrumentista José Manuel David, numa alusão a um possível rompimento com a exclusividade, mantida nos três primeiros álbuns, das palhetas e percussões no som dos Gaiteiros. “Desde que esteja dentro do espírito do grupo”.

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Chave tripla. Como não podia deixar de ser num álbum com estas características, os Gaiteiros chamaram para as sessões de gravação um naipe de convidados. Sem surpresa, colaboram em “Dançachamas” as Vozes da Rádio, Danças Ocultas, Tocá Rufar e José Mário Branco, este último, com alguma estranheza, bastante apagado no seu papel de elemento do coro. “Foi uma coisa íntima. Sentimos que era mais importante saber que o José Mário estava connosco do que propriamente fazê-lo sobressair. Esteve nos nossos corações”.
Em relação ao próximo trabalho de estúdio, “já há ideias” e ninguém sente a mínima ponta de pressão. Até porque, como Carlos Guerreiro garante na brincadeira, “já existe material de sobra para lançar nos próximos tempos em triplo-álbum semanal”. Nos intervalos desta “verve” criativa, Guerreiro continua a investir na sua faceta de construtor de novos instrumentos, como os Túbaros de Orfeu, o orgaz ou o cabeçadecompressorofone. “Estou permanentemente a pesquisar coisas, ainda não houve foi uma que resultasse” (risos). Já pronta para entrar na fase de ensaios está um novo modelo de harpa da sua autoria – “uma harpa fálica!”.
Se existe algo que jamais desaparecerá da música e da atitude dos Gaiteiros de Lisboa é o sentido de humor. “Dançachamas” esteve para se chamar “uma Chama Viva onde quer que Viva”.

Eric Montbel – Le Jardin de L’Ange (conj.)

07.05.1999
World
Os Anjos Não Recebem Herança

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“Le Jardin de L’Ange”, o jardim dos anjos, é o mais recente álbum a solo de Eric Montbel, dos Lo Jai, depois de “Charbretas, les Cornemuses à Miroirs du Limousin” e “Ulysse”. Executante de várias modalidades de gaita-de-foles (“cornemuse”), mas também, neste caso, de flauta e órgão de foles, Montbel subintitulou este seu trabalho, “Noels, Cantiques, Miracles & Merveilles”, uma colecção de instrumentais e temas vocalizados das regiões de Nivernais, Périgorde e Provença, em que a religiosidade se casa com um sentido estético apurado e uma dose equilibrada de erudição. A entrada, muito Lo Jai, com “D’où vient-tu betrgère?” evolui com subtileza para uma música de carácter religioso, acentuado por um par de vocalizações da soprano Marie Rigaud e pelo órgão de igreja. Sylvie berger, pelo contrário em temas como “D’où vient-tu betrgère?”, “Saint Pierre qui porte la croix” ou “Le jour de Pâques Fleuries”, faz lembrar a saudosa Marie Yacoub. Contando com a presença de Renat Jurie (vocalista convidado em dois temas) e com outro músico dos Lo Jai, Guy Bertrand (voz, sanfona, flautas e clarinete de bambu), “Le Jardin de L’Ange” combina, de forma admirável, o sagrado e o profano, indo, decerto, corresponder às expectativas, quer dos apreciadores de folk, quer dos de música antiga. (Al Sur, distri. Megamúsica, 9).

Um salto até à Irlanda para verificar o estado de evolução de Cathie Ryan que, no seu álbum de estreia, “Cathie Ryan”, deixara já boa impressão. O novo \, frase inspirada num ciclo da mitologia irlandesa em que Oisin e Fionn discutem entre si qual é a melhor música do mundo, mostra uma cantora mais amadurecida. A voz de Cathie tanto faz lembrar June Tabor, como Dolores Keane ou Sandy Denny. Por vezes as três juntas, como em “At the foot of Knocknarea”. Mas o que poderia significar descaracterização acaba por provocar um efeito de familiaridade difusa. Os arranjos, repartidos entre a cantora e Gerry O’Beirne, cultivam uma abordagem leve que, nalguns casos (“I’m going back”, “Understanding love”), se aproxima da folk ligeira de uma Mary Black, enquanto “Coaineacht na dtri muire” repousa nas mesmas fantasias célticas de Enya e dos Clannad. Uma voz com a naturalidade e a versatilidade de Cathie Ryan merece enveredar por um caminho mais nobre e com outro tipo de exigências. Para já, aprecie-se a excelência instrumental do convidado Seamus Egan, dos Solas, ou divague-se ao som de “Lovely Willie”, num registo sobrenatural idêntico ao de June Tabor em “Angel Tiger” e “Against the Streams”. (Shanachie, distri. MC – Mundo da Canção, 6).

Ainda no domínio dos novos celtas, o bretão Dan Ar Braz insiste na mesma fórmula, que tantos dividendos lhe rendeu, de “L’Heritage dês Celtes”, uma mega-produção feita a pensar no mercado, seguindo as pisadas de “Riverdance”, de Bill Whelan, e “A Irmandade das Estrelas”, de Carlos Nunez. Este novo capítulo da “Herança dos Celtas” foi gravada ao vivo no Zénith, de Paris, até preencher dois compactos inteiros, o que significa seca a dobrar. Porque se “L’Heritage des Celtes”, na sua concepção inicial, era um álbum sem dúvida afectado pela megalomania mas que conseguia equilibrar o excesso de meios com uma apreciável dose de bom-gosto, esta sequela, pelo contrário, descamba num tipo de mediocridade que, infelizmente, já conhecemos vinda de um tipo chamado Alan Stivell… Ouça-se “Evit Ar Bars” e perceber-se-à de imediato o que queremos dizer. Ou “Dir há tan”, na melhor tradição rock circense dos actuais Tri Yann. O facto de “Zénith” ser gravado ao vivo (mas misturado no mítico Windmill Lane de Dublin) não serve de desculpa. É um desconsolo verificar a desproporção entre a importância e quantidade dos convidados presentes (Karen Matheson, Gilles Servat, Carlos Nunez, Donald Lunny, Nollaig Casey, Jacques Pellen, Donald Shaw e a Bagad Kemper, entre outros) e a fraca qualidade musical daí resultante. Dancemos, enfim, com um suspiro nos lábios, ao ritmo do pesadote “The chesnut tree – The Dreraming Sea”, composto por Maire Ní Chatasaigh. Ou deixemo-nos esmagar pelo poder da Bagad Kemper que se rende aos deuses da Galiza em “Aires de Pontevedra”, um dos melhores temas desta herança céltica lançada ao desbarato. (Saint George, distri. Sony Music, 5).

A esperança de que nem tudo está perdido no reino da fusão regressa com “Le Grand Encrier”, de Alain Genty. O naipe de músicos, entre os quais, Jacky Mollard (violino e guitarra), Jean-Michel Veillon (flauta), Patrick Molard (gaita-de-foles escocesa e breta~) e Yann-Fanch Kemener (voz), é do melhor que se pode encontrar na Bretanha. Genty encarrega-se de modernizar o “ensemble” através do recurso ao baixo eléctrico, guitarra, teclados e programações. Entre o jazz, a electrónica e o típico canto tradicional bretão, com modulações “new age”, não faltam em “Le Grand Encrier”, exemplos de como fazer experimentação com modelos tradicionais sem os destruir. Ouça-se, a este propósito, “L achasse au tigre”, um tema que, ainda por cima, sabe rir de si próprio, em tropeções pelo reggae, a música indiana, o jazz-rock a la Gong e a dança de casino. Quem quiser pode conferir se está tudo nos conformes da tradição, pela gaita-de-foles de “Peklenig”. Um solo de se lhe tirar o chapéu. (Keltia, distri. Megamúsica, 7).

O Sol nascer a oriente, como se sabe. Mas talvez nem todos saibam que também pode nascer da garganta inglesa, com ascendência indiana, Sheila Chandra, rotulada na colectânea “Monsung: A Real World Retrospective”, pelo jornal de música “Billboard”, como “uma das vozes mais maravilhosas à face da Terra”. “Monsung”, título inspirado no primeiro grupo da cantora, Monsoon, reúne temas dos seus três ´lbuns gravados para a editora de Peter Gabriel, “Weaving my Ancestors Voices” (1993), “The Zen Kiss” (1994) e “ABoneCroneDrone”. Neles a cantora exibe o seu estilo vocal inconfundível em que as tradições e técnicas vocais indianas e célticas se confundem, “a capella”, em jogos com efeitos de reverberação ou sobre “drones” criadas electronicamente que nos dois excertos da longa peça “ABoneCroneDrone” se aproximam do puro minimalismo. LaMonte Young adoraria. E quem pensar em Noirin Ní Riain ao escutar “Sacred Stones” não está muito longe da verdade. Meditemos pois, banhados por esta voz luminosa. (Real World, distri. EMI-VC, 7).

XTC – Apple Venus, Volume One

30.04.1999
O Que Se Esconde Na Pena De Um Pavão
XTC
Apple Venus, Volume One (9)

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LINK

Libertos finalmente da Virgin, editor para a qual gravavam há mais de 20 anos mas com a qual entraram em diferendo depois da edição de “Nonsuch”, em 1992, os XTC regressaram para se cobrir de glória. “Apple Venus, Volume One” é o melhor álbum da banda, agora reduzida ao duo formado por Andy Partridge e Colin Moulding (embora Dave Gregory ainda tivesse participado nas gravações), desde “Skylarking”, produzido por Todd Rundgtren e considerado o seu trabalho mais sofisticado.
Para os ouvidos é um manjar dos deuses. Andy Partridge assina aqui o seu diploma de herdeiro legítimo dos mestres sagrados da pop, enquanto arte de encantamento supremo: Paul McCartney, Ray Davies e Brian Wilson. Equipado com uma orquestra e com toda a artilharia sónica do estúdio e, sobretudo, a atravessar uma fase de inspiração como já não se via desde os magistrais “English Settlement” e “Mummer”, Partridge montou o seu palácio de ilusões com o requinte e o engenho de um artista renascentista, fazendo com que cada canção soe como uma entidade completa, carregada de cores e de sabores.
O estúdio é usado como uma paleta, ou como um laboratório do alquimista, com o objectivo de descobrir e concretizar a quinta-essência da pop. Harmonias vocais intricadas e esculpidas até ao mais ínfimo detalhe, a par de orquestrações sumptuosas (que podem ir do pastoril ao épico, numa mesma canção) e de uma criatividade constante na procura de arranjos originais, tornam “Apple Venus, Volume One” numa catedral que se começa a admirar pelo lado de fora para, progressivamente, se deixar ver pelo interior, enquanto organização espacial e temporal de um entrançado de emoções e ambiguidades semânticas que a cada audição se vão organizando subjectivamente num “puzzle” de luxúria.
A quantidade de elementos e memórias musicais com os quais Andy Partridge vai montando os seus quadros atinge, nalguns casos, a esquizofrenia iluminada, como em “Greenman”, onde o sinfónico, o psicadelismo, a complexidade harmónica e o barroco das ornamentações se unem num corpo de medusa, um pouco à maneira do que fizeram, nos seus tempos áureos, os Gentle Giant. Mas, logo a seguir, a simplicidade de uma melodia que parece ter estado connosco desde sempre, como “Your Dictionary”, irrompe com a força de uma evidência. Ou de um raio de luz. “Fruit Nut” faz a demonstração de que os anos 60 não tiveram o exclusivo da criatividade em estado puro, aquela que dispensa todos os artifícios menos os da imaginação, para criar raízes e voar.
Não faz sentido perguntar o que há de novo na música dos XTC. Trata-se tão-só de uma nova forma de manipulação dos sentimentos, do reencontro do classicismo e da confirmação de uma forma única de dispor os ingredientes que fazem de uma canção pop algo de especial e indefinível. Não por acaso, em entrevista recente ao PÚBLICO, Colin Moulding referia-se, a propósito da construção de “Aplle Venus, Volume One”, ao facto de as canções parecerem, em alguns casos, ter saído de uma grande produção teatral, ou de um musical dos tempos de ouro de Hollywood. Canções como “I Can’t Own Her” nascem, de facto, com a vocação do palco, com enredos intricados, mas onde a acção se desenrola, como num passe de mágica, através dos sons.
Como quase todos os álbuns dos XTC, “Apple Venus” não se revela numa primeira audição. Exige tempo e atenção. A recompensa vale, porém, o esforço. Os XTC convidam-nos para a descoberta das formas que se escondem, como segredos, no âmago de outras formas. Como a vulva, a maçã ou o olho que são possíveis de vislumbrar incrustados no centro de uma pena de pavão.