Arquivo mensal: Maio 2009

Paula Cole – This Fire

07.05.1997
Paula Cole
This Fire
IMAGO, DISTRI. WARNER MUSIC

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proliferam os discos de cantantes femininas nos quais a produção passa para a primeira linha. Mal surge uma voz com atractivos, inventam-se mil e um esquemas de produção que a enfeitem, de maneira a criar a ilusão de originalidade. Quase sempre a música assim formatada não resiste quando se remove esta camada de maquilhagem. Mas que os discos soam bem, lá isso soam. O interessante, no caso de Paula Cole, é que é ela própria que se auto-produz, actuação pouco vulgar, se levarmos em conta que “This Fire” é o seu segundo álbum, sucedendo a “Harbinger”. Paula é uma “hippie” tardia que não esconde as suas tendências místicas e ecológicas. Como tal, a sua música oferece um lado elegantemente tribal que, embora pouco profundo e algo decorativo, tem a vantagem de variar os ambientes e distrair o ouvido. Há em “This Fire” uma costela de Peter Gabriel (vocalista convidado em “hush, hush, hush”), as “ulean pipes” de Seamus Egan caem bem e, no geral, fica um gosto acentuado pelo exotismo. Além de que a menina toca uma quantidade de instrumentos cuja natureza é, no mínimo, pouco vulgar: piano, sintetizador, órgão de foles, caixa de ritmos, xilofone de brinquedo, didjeridu e clarinete. Um disco colorido que deixa um rasto de simpatia. (6)

Fausto – Atrás dos Tempos Vêm Tempos

11.12.1996
Fausto
Atrás dos Tempos Vêm Tempos
2XCD COLUMBIA, DISTRI: SONY MUSIC

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Considerado um dos nomes de maior importância na música de raiz popular portuguesa, em que operou uma verdadeira revolução, na obra-prima “Por Este Rio Acima”, Fausto retomou recentemente a mesma temática dos Descobrimentos em “Crónicas da Terra Ardente”, sem, contudo, atingir o brilhantismo daquele. A Fausto terá faltado, então, a coragem, ou a vontade, de descobrir mais novos caminhos para a música portuguesa. Este seu novo trabalho – uma colectânea de temas compostos originalmente entre 1974 e 1994, em álbuns como “O Despertar dos Alquimistas”, “Por Este Rio Acima”, “A Preto e Branco” e “Para Além das Cordilheiras” – apresenta novos arranjos de todas as composições, além de três inéditos, “Um Outro Olher Sobre Caxias”, “Eu Casei Com a Bonita” e “Os Mandamentos do Vinho”. As novas versões soam, na maior parte dos casos, mais descontraídas, aproximando-se ora da música de variedades, ora de uma serenidade capaz de permitir um outro ângulo de aproximação auditiva. Quanto aos inéditos, poderão, ou não, fornecer indicações acerca de eventuais reorientações estéticas do seu autor, antes da chegada da prometida terceira parte da trilogia sobre os Descobrimentos. Se “Um Outro Olhar Sobre Caxias” se inquieta com nostalgia sobre guitarras de fado, sem romper com o passado, já “Eu Casei com a Bonita” e “Os Manadamentos do Vinho” parecem indiciar uma nova e estimulante maneira de perspectivar a música tradicional. O primeiro deste stemas é uma rafa de guitarras e percussões onde se cruzam a rítmica tipicamente portuguesa e ambiências orientais, enquanto o segundo aprofunda ainda mais a vertente étnica, desde o registo vocal ao solo de sanfona de Fernando Meireles. Seria interessante verificar até que ponto Fausto estará disposto a romper com o lado mais urbano da sua música, precisamente aquele que mais tem sofrido o desgaste do uso e do tempo. Pois “Já é Tempo de Partir”, mensagem que fica a pairar no ar, no fecho desta viagem de ultrapassagem do tempo, através do clássico “Navegar Navegar”. (7)

Procol Harum – A Salty Dog (conj.)

17.03.2000
Reedições
Visões de Mescalina
Bernard Parmegiani é um dos mais importantes compositores de música electro-acústica franceses, da geração de nomes que se acolheu sob a égide do GRM (Groupe de Receherches Musicales) criado em 1958 por Pierre Schaeffer, como François Bayle, Michel Chion e Michel Redolfi. “Pop’Eclectic” é uma colagem de gravações de linguagens musicais díspares, como a pop, o jazz ou a ópera, integradas por Parmegiani em vinhetas de largo espectro sonoro e ideológico, aumentadas e alteradas através de processamentos electrónicos. Dois destes quatro temas, gravados entre 1966 e 1973, contam com a participação de Michel Portal e Bernard Vitet, um dos actuais elementos dos Un Drame Musical Instantané. Anos antes dos Residents, em “The Third Reich ‘n’ Roll”, e dos Nurse With Wound, em “The Sylvie and Babs High-Tigh Companion”, criarem os seus próprios Frankensteins, Bernard Parmegianni fazia esta declaração definitiva sobre a música enquanto fenómeno de autofagia, alterando e devorando contextos para, a partir de órgãos soltos, criar novos organismos autónomos. “Pop’Eclectic” é uma destas criaturas, que, passados 30 anos, mantém intactas todas as suas funções. Depois das recuperações recentes de Oskar Sala, Tom Recchion e Arne Nordheim, a presente reedição vem uma vez mais alertar para a importância e o pioneirismo de compositores como Bernard Parmegiani em correntes estéticas como o krautrock, o pós-rock ou a electrónica francesa dos anos 70. (Plate Lunch, distri. Matéria Prima, 9/10)

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Os Procol Harum tiveram no final dos anos 60 o seu momento de glória, inundando os tops britânicos com o romantismo protogótico de “A whiter shade of pale” e “A Salty Dog”, repetindo o êxito, em larga escala, na década seguinte, com o álbum “Grand Hotel”. “Shine on Brightly” (na foto) e “A Salty Dog” respectivamente segundo e terceiro álbum da sua discografia, ambos lançados em 1968 e agora reeditados em luxuosos digipaks, são representativos da melhor fase do grupo, numa época em que a combinação entre a música de Gary Brooker (o organista que parecia tocar como se estivesse numa missa…) e os textos de Keith Reid deu origem a grandes canções. “Shine on Brightly” é o álbum mais experimental e progressivo dos Procol Harum. As canções espalham-se em várias direcções e, em comparação com o álbum de estreia, “Procol Harum”, tiram maior partido das possibilidades oferecidas pelo estúdio, mantendo-se o dramatismo das vocalizações e o ecletismo. O estilo clássico aflora em “Rambling on” e “Magdalene (my regal zanophone)”, uma das canções mais belas e tristes de “Shine on Brightly”. Mas é o longo tema (mais de 17 minutos) “In held twas in I” que volta o velho mundo dos Procol Harum de pernas para o ar. Um tema progressivo/psicadélico (o verde da capa poderia ser a cor das alucinações de mescalina…) que junta declamações ao estilo dos Moody Blues, ambientes clássicos tocados numa veia soturna, partes instrumentais incongruentes, divagações religiosas, libações de cabaré, sons de trovoada, sinos e sirenes (muitos anos antes de os Pink Floyd fazerem descer helicópteros nos discos…), e bocados de canções que escorriam do cavalo que Lucy cavalgava no céu com diamantes.
“A Salty Dog” impõe o estilo classizante de tons sombrios que caracterizaria daí para a frente a música do grupo. Além do já citado título-tema (que chegou a servir de matéria para uma tese de doutoramento que nele encontra 17 significados diferentes…) encontram-se neste álbum um punhado de excelentes canções, como “The milk of human kindness” (a fazer lembrar os Gracious, aliás como algumas sequências de “In held twas in I”), “Too much between us”, “The devil come from Kansas” e “All this and more”, num álbum onde os blues ainda estavam presentes mas em que o grupo usava pela primeira vez uma orquestra, opção que viria a ser explorada a fundo no álbum ao vivo de 1973, “Live in Edmonton”. (Repertoire, import. Lojas Valentim de Carvalho, 8/10 e 7/10).

Os The Move foram uma notável e, por vezes, bizarra banda pop dos anos 60, criadores de clássicos como “Flowers in the rain”, “Blackberry way” e “Brontossaurus”. Roy Wood era o seu hirsuto mentor, a ele se devendo a incorporação de instrumentos como o clarinete, o oboé e o fagote no meio de uma inofensiva canção pop. Quando os Move evoluíram para os Electric Light Orchestra (ELO) e, a seguir, formou os Wizzard, já Roy Wood arrastava atrás de si uma quantidade inacreditável de outros instrumentos. “Message from the Country” foi gravod em 1072, por imposição da editora, numa altura em que já todos pensavam nos ELO. Apesar de não ter a frescura dos dois primeiros álbuns, “The Move” e “Shazam”, “Message from the Country” contém alguns momentos especiais como “No Time” (ao nível e na mesma linha da pop insinuante dos The Kinks), “It wasn’t my idea to dance” (neste caso as semelhanças são com os Sparks), “The Minister” (com um solo de oboé arabizante) e “The words of Aaron” (o tema mais próximo dos clássicos “Flowers in the rain” e “Blackberry way”), acentuando-se a faceta camaleónica do grupo em paródias aos estilos vocais de Elvis presley (“Don’t mess me up”) e Johnny Cash (“Bem crawley steel company”). Para os ELO, estava reservado o caminho dos milhões. (BGO, distri. Megamúsica, 7/10).

Michael McGear não era nenhum camaleão nem um imitador, mas simplesmente o irmão mais novo de Paul McCartney. Fez parte de duas bandas para levar a brincar, os Scaffold (de “Lily the pink”, um “hit” absurdo de 1969) e os Grimms, e gravou a solo dois álbuns, “Woman” (1972) e “mcGear” (1974). Há quem diga que não ficava atrás do irmão em matéria de talento. “Woman” dá razão aos que pensam assim. McGear aliava ao talento de melodista do irmão o gosto pela excentricidade, o que, em “Woman”, resulta num leque de canções que seria de toda a justiça retirar do anonimato. Onze canções que são outras tantas pérolas de delicadeza, humor e sensibilidade, numa espécie de apêndice do “álbum branco” dos Beatles que também pode ser definido como um parente rock de outro ilustre McCartniano, Gerry Rafferty. Entre os músicos participantes em “Woman”, encontram-se Zoot Money, Gerry Conway (Fairport Convention, Fotheringay) e Brian Auger. (Edsel, import. Virgin, 7/10).