Arquivo mensal: Maio 2009

Chuck E. Weiss – Extremely Cool

26.02.1999
O Diabo Com Sapatos De Camurça
Chuck E. Weiss
Extremely Cool (8)
Rykodisc, distri. MVM

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LINK (Old Souls & Wolf Tickets – Rykodisc – 2002)

“Foi numa noite de lua cheia que escrevemos metade destas canções. Por entre o intermitente coaxar das rãs, ao cósmico decote dourado das estrelas, as luminosas gotas da humidade dos pauis cruzavam a paisagem em insinuantes adornos e abrupta lascívia celeste. Tínhamo-nos conhecido há 25 anos num registo nocturno de maior obscuridade: roubávamos anões de jardim nos relvados de Beverley Hills. O espólio obtido era cuidadosamente empilhado no beco ao lado dos 69ers, um ‘late bar’ no centro de Los Angeles, e era então que nos libertávamos das agruras do mundo. Éramos uma dupla bem conhecida na cena noctívaga da cidade, e não só pelos nossos méritos musicais (…) De novo no centro da cidade, e com emprego fixo num casino aberto 24 horas por dia, pudemos explorar novos caminhos e experimentar inesperadas combinações: shows com animais, coristas, travestis, enfim… a nata do showbiz do submundo. Com o passar dos anos, esta imagem atenuou-se cada vez mais, até ficar como uma qualquer história que se ouve numa conversa casual entre copos, cigarros e música de ‘jukebox’.” É com esta spalavras que Tom Waits explica a sua relação pessoal e artística com Chuck E. Weiss, um compositor/intérprete que ao fim de um longo período de gestação das canções que escreveu (18 anos, desde o momento em que foram concebidas) editoy finalmente o seu primeiro álbum de originais, tendo como produtor executivo o actor Johnny Depp e a participação vocal do próprio Waits.
Para além de explicar alguns pedaços de vida desta relação, a citação dá um tom bastante aproximado do ambiente geral que caracteriz este trabalho. Chuk E. Weiss, como Tom Waits, ou mais ainda do que este, é um vagabundo das horas mortas (ou demasiado vivas) afogadas em álcool e loucura.
“Extremely Cool” passa pelo meio do fumo e cheio de rouquidão, com o passo acertado pelos “blues” (Chuck tocou com Lightin’ Hopkins, Willie Dixon e Muddy Waters), o jazz de cabaré, o “cajun”, o rockabilly, o rock ‘n’ roll e a música de variedades, como em geral é entendida a partir das cinco horas da madrugada. Chuck E. Weiss é um Alan Vega sem a metralha dos Suicide, um apaixonado pelo “bourbon” e pelos abismos (é raro ouvir chorar tanto um trompetem, como acontece em “Deeply Sorry”). E, já agora, por uma boa piada assassina. Um “crooner” de pacotilha que gosta de swingar e pôr a alma a nu. Aquecida por um corpo ou por um copo, tanto faz. Imagine-se uma luz tão velada e um coração tão ferido como o do seu companheiro de estrada, Tom Waits, em álbuns como “Small Change” ou “Blue Valentine”, sem a orquestra, mas aos tropeções nas mesmas ruas e nos mesmos camarins. Só que Chuck E. Weiss chegou depois e o seu passo é mais angustiado. Como no blues de abertura “Devil with blue suede shoes”. Faz sentido. Voltando a pegar nas palavras de Tom Waits: “Ainda me lembro da primeira vez que, numa saudável euforia alcoólica, o Chuck abandonou o seu lugar habitual na bateria, colocando-se ao meu lado na frente do palco e… quem diria! O Chuck cantava! E, meu Deus, cantava como se o próprio diabo o perseguisse.

Embryo – Father, Son & Holy Ghost (conj.)

14.07.2000
Reedições
O Embrião “Freak”

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LINK

Por incrível que pareça, os alemães Embryo foram a primaira banda a actuar ao vivo, no início dos anos 70, em Portugal, no cinema Alvalade. A sessão de free rock ‘n’ jazz então oferecida foi acolhida com alguma frieza, para não dizer hostilidade.
Numa altura em que o termo “krautrock” ainda não se generalizara, corria então no circuito de importação o álbum “Embryo’s Rache” (1971) e os mais conhecedores discutiam se o nome da banda se devia pronunciar “à inglesa”, “embraio”, ou no alemão aportuguesado, “embrio”.
Porém, com a chegada a Portugal da primeira vaga do krautrock, através de álbuns de Klaus Schulze, Tangerine Dream, Neu!, Harmonia, Cluster ou Popol Vuh, o nome Embryo caiu no esquecimento. Mesmo Julian Cope, no seu livro “Krautrocksampler” não faz qualquer menção ao grupo.
Quando o krautrock se transformou numa caricatura, assistindo-se a bandas como os Eloy ou os Atlantis a obterem no mercado internacional o suceso que nunca tiveram os revolucionários do movimento, os Embryo prosseguiram a sua carreira impávidos e serenos. O jazz adoptou-os.
“Father, Son & Holy Ghost” (1972) evidencia os mesmos atributos que caracterizam “Embryo’s Rache”, o gosto pela improvisação colhendo elementos do rock, do jazz e do psicadelismo, em “jam sessions” semi-estruturadas à boa maneira 2freak”, como em “Free”, incofundivelmente da casta dos Amon Düül, embora imbuída do espírito do jazz. Não por acaso Miles Davis chamava aos Embryo “o grupo hippie alemão com o qual Mal Waldron costumava tocar” capaz de fazer “coisas interessantes”. “Mariambaroos” explorava um lado mais étnico que ompregnaria posteriormente toda a música do grupo, enquanto “Forgotten sea” percorre os caminhos de fusão abertos pelos Soft Machine e que outra banda alemã incorporara de forma não menos interessante, os Release Music Orchestra (Disconforme, import. Megamúsica, 7/10).
“Steig’aus”, de 1972, é um dos álbuns mais recomendáveis dos Embryo. Ao lado dos líderes Burchard e Edgar Hoffman (sax soprano e violino) estavam agora Roman Bunka na guitarra e Jimmy Jackson (convidado habitual nas sessões dos Amon Düül), no mellotron e órgão, para sintonizarem na frequência da “Radio Marrakesch” e das sonoridades ligadas ao transe. Três longos temas criam uma música mesclada de exotismo e de deambulações pelo jazz na sua veia mais psicadélica e experimental (como os Et Cetera, de Wolfgang Dauner), cortada por efeitos electrónicos, passagens funky e fragmentos cósmicos, nos quais o vibrafone de Burchard encontrava cada vez mais terreno livre para se exercitar. Mal Waldron, pianista de jazz, entra pela primeira vez no grupo, com a composição da primeira parte de “Call”, 17 minutos de jam alucinada que deitavam por terra quantos insistiam em ver no grupo uma versão teutónica da Mahavishnu Orchestra (Repertoire, import. Lojas Valentim de Carvalho, 8/10).
Depois de “We Keep On”, onde os Embryo reforçavam a sua tendência para o jazz, integrando nas suas fileiras, além de Maldron, o saxofonista Charlie Mariano (faria carreira a solo na ECM, colaborando assiduamente com o grupo indiano de percussões Karnathaka), “Rock Session” (1973) é mais uma peça fundamental dos Embryo, com Mal Waldron, no piano eléctrico, e Jimmy Jackson, no órgão, a empurrarem a locomotiva de ritmos funky pelo deserto africano. Os cânticos dos Amon Düül juntam-se às fumaças de haxixe dos ainda mais freaks Agitation Free (uma das bandas injustamente ignoradas do krautrock). Os Can também não andavam longe, em “Entrances”, um quarto de hora de proto-groove tribal, boa companhia para safaris pelo cérebro. Confundidos com uma “banda rock afro-asiática”, antes de Jah Wobble, antes dos Loop Guru, os Embryo juntaram os continentes (Repertoire, import. Lojas Valentim de Carvalho, 8/10).
Já sem Edgar Hoffman, faltou a Christian Burchard a capacidade para orientar sozinho a música dos Embryo, em “Apo-calypso”, álbum de 1977 que surge na sequência de uma visita do percussionista à Índia e que conta com o percussionista Trilok Gurtu. Em vez das longas aventuras em busca dos tesouros da imaginação, surgem canções alimentadas pelos lugares-comuns do jazz rock, permeáveis a alguma nostalgia pela escola de costumes de Canterbury e arrancadas da pasmaceira por intempestivas irrupções de irracionalidade. Um álbum de contrastes, onde as boas ideias (e os excepcionais solos de Burchard no vibrafone) emergem para logo se apagarem num mar de indefinições (Disconforme, import. Megamúsica, 7/10).

Com cheiro a enxofre, os Atomic Rooster, nasceram das cinzas dos Crazy World of Arthur Brown. O guitarrista John Caan e o organista Vincent Crane, émulo diabólico de Keith Emerson, eram as principais figuras desta banda, da qual Carl Palmer também fez parte antes de transportar a sua bateria para os Emerson, Lake & Palmer. Em “In Hearing Of” (1971) o demo apenas levanta a voz no “bonus-track”, “The Devil’s Answer”, mas o álbum mantém intactos a vitalidade e o talento para fabricar riffs irresistíveis que fizeram dos Atomic Rooster uma das bandas pioneiras e mais originais do hard rock inglês dos anos 70 (Repertoire, import. Lojas Valentim de Carvalho, 7/10).

Soberbo, “Kanguru”, de 1972, é o melhor álbum dos Guru Guru. Adeptos da liberdade, da cacofonia, do riff de arame farpado electrificado, de Hendrix e, em geral, de todo o tipo de libertinagens autorizadas pelo LSD (o grupo gravou mesmo um hino/marcha dedicado a esta substância, no álbum de estreia, “UFO”), os Guru Guru eram um “power trio” accionado pelas operações percussivas de Mani Neumeier, em conjunto com as descargas de electricidade tripante do guitarrista Ax Genrich e a lava do baixista Uli Trepte (passou pelos Faust…). Mas “Kanguru” é mais do que o “free rock” (ou “freak” rock?) que a banda cultivou não só em “UFO”, como em “Hinten” e “Guru Guru”, dando um salto em direcção ao cosmo. É o álbum mais electrónico dos Guru Guru e os quatro temas que o compõem são outras tantas viagens através dos pulsares, burcaos negros e galáxias de uma mente em combustão, no ponto em que “Electronic Meditation” dos Tangerine Dream entra em curto-circuito, passando para outra dimensão. Jimi Hendrix, onde estiver, deve tocar uma música como esta. Um clássico do krautrock (Metronome, import. Lojas Valentim de Carvalho, 9/10).

Pelo contrário, os Quintessence tocavam a luz. Formado por músicos indianos residentes em Londres, o grupo cultivava uma música fluida onde os cânticos de louvor a Buda e a Shiva deslizavam ao ritmo suave de instrumentais jazzy e de flautas flor de lótus. A colectânea “Epitaph for Tomorrow” junta composições dos álbuns “In Blissful Company” (1969), “Quintessence” (1970) e “Dive Deep” (1971). Envoltos numa nuvem de incenso, os Quintessence sonhavam com a conversão dos Jethro Tull ao budismo mas, curiosamente, soavam amiúde a uma versão angélica dos Hawkwind… Hare-Krishna (Drop Out, import. Lojas Valentim de Carvalho, 6/10).

Isabel Silvestre – Eu

05.05.2000
Isabel Silvestre
Eu (7/10)
Ed. e distri. EMI-VC

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LINK (A Portuguesa)

Não há nada a fazer, Isabel Silvestre possui uma daquelas vozes, misto de força, inocência e fragilidade, às quais é difícil resistir. Ouvi-a pela primeira vez no Grupo de Cantares de Manhouce, no clássico “Cantares da Beira”. O seu nome tornar-se-ia mediático através da participação num álbum dos GNT, “Rock in Rio Douro”, onde interpreta um tema que ficou no ouvido de todos, “Pronúncia do Norte”, gravando, depois disso, o seu primeiro álbum a solo, “A Portuguesa”, no qual dá a voz a originais de autores nacionais como José Afonso, José Mário Branco, António Variações e Rui Veloso. Neste seu novo trabalho a solo – produzido por João Gil e Mário Delgado e com as participações de Mário Delgado, João Nuno Represas e Rão Kyao -, a cantora de Manhouce interpreta apenas temas populares portugueses. Um passo lógico, atendendo a todo o percurso e antecedentes da cantora, mas que não deixa de suscitar algumas interrogações. Não pela voz mas pelo modo como o reportório escolhido parece por vezes não se enquadrar com o tratamento “modernizador” que os produtores lhe quiseram conferir, como acontece em “Ora mexe na casaca, mexe”, onde o eco final colado à voz não acrescenta grande coisa ao tema, ou em “Senhora da Saúde”, com a flauta muito R. Carlos Nakai de Rão Kyao e a voz subjugados pelos excessos de reverberação. Funcionam melhor a simplicidade dos arranjos de “São Gonçalo de Amarante”, “carinhosa”, “esta noite fui ó Fontelo”, “Ó povo deste lugar”, der sabor mais popular. Sabendo-se que Isabel Silvestre e os músicos que a “acompanharam” em estúdio gravaram em momentos diferentes, é impossível deixar de pensar no artificialismo de algumas destas ligações (o que faria Holger Czukay com esta voz?…) entre uma voz do povo e os operadores de maquilhagem.