Arquivo mensal: Maio 2009

The Beau Hunks – The Beau Hunks Play The Original Laurel & Hardy Music (2XCD) (self conj.)

28.05.1999
Jazz
Camaleões Na Sombra Dos Anos 30
The Beau Hunks
The Beau Hunks Play The Original Laurel & Hardy Music (2XCD) (8)
Celebration On The Planet Mars – A Tribute To Raymond Scott (9)
Manhattan Minuet (9)
The Beau Hunks Saxophone Soctette (9)
Basta, distri. Matéria Prima / Ananana

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A editora Basta é perita em descobrir objectos discográficos bizarros, sacudir-lhes o pó e devolvê-los como novos, envoltos em brilho e com cheiro a novidade. Primeiro foi Raymond Scott, compositor norte-americano “marginal”, nascido em 1908 em Brooklyn e actualmente residente na Califórnia, de quem a Basta reeditou uma trilogia, dos anos 60, de música electrónica para bebés, e uma colectânea de temas de jazz escritos entre 1937 e 1939 para o seu Raymond Scott Quintette, “Reckless Nights and Turkish Twilights”.
Sessenta anos mais tarde, um grupo holandês, The Beau Hunks Sextette (“sextette”, como o “quintette” – com pronúncia francesa – de Raymond Scott), fascinado pela música deste excêntrico, dedicou-se à interpretação do seu reportório, através da gravação, em 1994, de “Celebration on the Planet Mars – A Tribute to Raymond Scott” e, dois anos mais tarde, de “Manhattan Minuet”.
No caso dos Beau Hunks, o fascínio por Scott ganhou a forma de uma abençoada fobia. Não satisfeitos com recriarem os temas do norte-americano, o grupo holandês foi mais longe e, como um camaleão, confundiu-se com o estilo e o som da sua música, na época em que foi composta.
Quando do seu aparecimento na cena musical dos Estados Unidos, nos anos 30, o choque foi violento, embora Scott tenha trabalhado com nomes como Charlie Shavers, Bem Webster, Frank Sinatra, Bo Diddley, Mel Torme, e Gloria Lynne. O crítico Harold Taylor escrevia em 1939 na revista “Rhythm”, sobre o Quintette: “Não é que sejam maus, mas estão sempre a tocar as composições de Raymond Scott. Suponho que são obrigados a isso, uma vez que Scott é o líder, mas penso que o melhor seria despedi-lo, ou então pedirem-lhe para compor jazz verdadeiro, em vez de patetices.”
A “patetices” soam hoje como alucinações de uma originalidade extrema, à margem dos grandes nomes de então. O jazz de Raymond Scott não respeitava as normas das “big bands” e orquestras de dança mais respeitadas, como as de Benny Goodman, Duke Ellington ou Count Basie. Estava mais próximo de Bugs Bunny e, como os Beu Hunks intuíram, do planeta Marte. Aliás, o próprio Carl Stalling, autor da música das séries da Warner, “Looney Tunes” e “Merrie Melodies”, adaptou temas de Scott.
A sintonia entre os originais de Scott e as interpretações do Beau Hunks Septette é tal que, por vezes, se torna difícil distinguir entre ambos, até porque muitos dos temas da colectânea dos holandeses faz parte do alinhamento da colectânea “Reckless Nights and Turkish Twilights”, de Raymond Scott. Mais do que uma simples fotocópia, a música dos Beau Hunks é um objecto sonoro que, embora idêntico, é diferente da música de Scott. Exactamente como o “Quixote” de Pierre Ménard, segundo Borges, o era em relação ao “Quixote” de Cervantes. Elvis Costello é outra das personalidades cativadas pela música não só de Raymond Scott, como dos próprios Beau Hunks. Nas notas de capa e “Manhattan Minuet”, conta como se processou o seu contacto com o grupo holandês: “em 1995, na qualidade de director artístico do Meltdown Festival, em Londres, fiz questão de apresentar a música de Raymond Scott e foi-me dito que os únicos que tocavam a sua música eram um grupo de Amsterdão que, nessa altura, dava pelo nome de The Wooden Indians. Assisti a dois concertos deles a horas tardias. O público ficou ao mesmo tempo siderado, assustado e encantado.”
“Manhattan Minuet” prolonga a estética de identificação com Scott do álbum anterior, constituindo uma verdadeira obra-de-arte de reconstituição histórica e estética de um compositor genuinamente original. Mas é preciso recuar até 1991 para conhecer os motivos que conduziram à génese dos Beau Hunks. O grupo formou-se nesse ano por iniciativa do baixista e produtor Gert-Jan Blom. Na sua primeira apresentação em público, em Janeiro do ano seguinte, os Beau Hunks ressuscitaram a música de Leroy Shield, compositor de dezenas de temas para comédias realizadas por Hal Roach nos anos 30, em particular a série “Laurel & Hardy” (“Bucha e Estica”).
Precisamente, “The Beau Hunks Play the Original Laurel & Hardy Music” constitui a estreia discográfica da banda. No início editado em dois volumes separados, com o intervalo de um ano, a presente edição apresenta um pacote duplo com a totalidade das 76 composições que, pela primeira vez, reproduzem com absoluta fidelidade as partituras dos temas originais de Leroy Shields e das orquestrações de Marvin Hatley. Escutar os efeitos sonoros e a veia cómica ou dramática (a edição inclui um “Shiled suspense medley”), deste swing tresloucado significa entrar num mundo a preto e branco que, de súbito, se abre em fulgurações de cor, num constante cruzamento de épocas diferentes. Bizarra coincidência em que, uma vez mais, o pecado original se confunde com o pecado da actualidade.
Robert Crumb, autor famoso de banda desenhada (“Fritz, the cat”, por exemplo) é outro dos que se ajoelham aos pés dos Beau Hunks: “Esta é a música por que tenho esperado toda a minha vida!”
Por isso, Robert Crumb assinou o “cartoon” que serve de capa a “The Beau Hunks Saxophone Soctette” (agora uma formação alargada a 18 elementos), o mais recente trabalho do grupo holandês. Voltaram a pegar em reportório de segunda linha e a confundirem-se, de forma que para alguns poderá parecer doentia, desta feita com sete arranjos originais escritos entre 1938 e 1939, por Nathan Van Cleave para a Paul Whiteman’s Sax Soc-Tette, formação de nove saxofonistas liderados por Whiteman, o inventor de uma espécie de “jazz sinfónico” que procurava rivalizar com a música clássica erudita.
Utilizando a sua estratégia habitual de reproduzir com máxima fidelidade os mínimos detalhes das fontes originais, os Beau Hunks recorreram neste disco a técnicas e material de gravação antigos, explicando que estas interpretações, ao vivo, do reportório de Paul Whiteman, mas também de, entre outros, Irving Berlin, Leon “Bix” Beiderbecke, Harry Creamer, Rube Bloom, Ralph Erwin e … Raymond Scott (com o já obrigatório “The Toy Trumpet”), foram “gravadas segundo uma técnica pioneira de regresso às origens”.

Dave’s True Story – Sex Without Bodies

16.07.1999
Dave’s True Story
Sex Without Bodies (8)
Chesky, distri. Ajasom

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O compositor David Cantor e a cantora Kelly Flint formam o duo Dave’s True Story cuja génese remonta a uma noite regada a álcool num bar da parte baixa de Manhattan em Nova-Iorque. No início de 1994 a dupla gravou o seu álbum de estreia, “Dave’s True Story”, conquistando nesse mesmo ano o prémio Kerrville New Music, depois de, nos anos anteriores, este galardão ter sido atribuído a Lyle Lovett, Suzanne Veja e Michelle Shocked. Dave e Kelly definem a sua música como “beat-lounge” e a crítica nova-iorquina naquilo a que chama cultura “neo-cocktail”, definindo a voz de Kelly como uma combinação de pêssegos e licor Cointreau. “Sex Without Bodies” mistura num copo alto Astrud Gilberto, Julie London, Peggy Lee e Chet Baker, com muito sal do mar, chantilly jaz e uma cereja pop no topo. “Baby Talk”, “Spasm”, “Once Had a Woman”, “Repentant” e “Nirvana” lançam-nos para o meio de um “drive-in”, para uma piscina de vibrafones, para o fogo de um trompete trôpego. Em “Rue de Lappe”, o cenário muda no fole de um acordeão para um baile musette de Paris do princípio do século. Depois, a voz de mil especiarias e respiração de nuvens, de Kelly Flint mostra-nos a existência de uma sensualidade sem carne, no título-tema, “sexo sem corpos”, uma bossa-nova de swing absolutamente transparente: “sexo sem corpo, sexo sem ódio, de uma paixão impossível de descrever por palavras”. Mesmo a versão de “Walk on the wild side”, de Lou Reed, mergulha na mesma névoa inebriante. O disco perfeito para este Verão.

Maddy Prior – Ravenchild (conj.)

09.07.1999
World
Verdadeira instituição no seu país, os Whistlebinkies cumprem, pela enésima vez, o papel que já interiorizaram, os dos Chieftains da Escócia, com “Timber Timbre”, um álbum de nuances delicadas onde os sets de dança alternam com ambientes de introspecção, respectivamente personificados pela gaita-de-foles de Rab Wallace e a harpa de Judith Peacock, ao longo de onze temas irreprensivelmente executados e produzidos. Um dos focos de interesse de “Timber Timbre” é a voz de Judith Peacock, cuja frescura, num tema como “The Sailor’s Wife”, nos faz recuar ao prodigioso “Old Hag You Have Killed Me”, dos Bothy Band, e às vocalizações de fada de Triona Ní Dhomnaill. (Greentrax, distri. MC – Mundo da Canção, 8)

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Outra das vozes da música tradicional britânica que continua a fazer história é a de Maddy Prior, cuja obra a solo deixou, finalmente, de se desenrolar em paralelo com a dos Steeleye Span, não participando já no último álbum do grupo, “Horkstow Grange”. “Ravenchild” reforça a tendência da cantora para assinar álbuns conceptuais, com a inclusão de duas “suites”, “With Napoleon in Russia” e, sobretudo, a mais longa “In the Company of Ravens”, ciclo de canções em torno da simbologia do corvo, onde é posto em evidência o ponto de maturação a que chegou a sua voz. Entre diversos momentos de excepção, destaca-se “Rigs of the Time”, um clássico, ao nível dos melhores temas se sempre interpretados pela cantora, que tanto evoca a solenidade da sua antiga parceira, June Tabor, como a classe pura de Martin Carthy, que, curiosamente, gravou um álbum com este nome. “In The Company of the Ravens” é uma história a várias vozes que vai da balada clássica acompanhada ao piano até ao tom Grace Slickiano de “Young Bloods”, passando pelo “prog folk” de “Rich Pickings” e a pausa “new age celtic” de “Dance on the Wind”. (Park, distri. Megamúsica, 8)

Kathryn Tickell tem o rosto, o corpo e a música mais sensuais da folk actual. Ainda para mais, desde “On Kielder Side”, só grava obras-primas, como “The Gathering” e “The Northumberland Collection”. “Debatable Lands” volta a fazer-nos babar de prazer. Confessamos a nossa fraqueza: não conseguimos resistir a esta mulher que toca gaita-de-foles e violino como uma deusa e que, recentemente, destroçou mais do que um coração (o nosso há muito que está reduzido a cacos) no festival Multimúsicas realizado em Lisboa. Que fazer quando a perícia e sensualidade de execução nas “Northumbrian Pipes” nos esmaga, o que acontece logo no tema de abertura, “the wedding / Because he was”? “Our Kate” (quem nos dera, suspiro…) provoca suores frios, tal a graça da melodia e a delicadeza com que Kathryn a executa. O violino é uma fonte de carícias, em “Road to the North / Hanging Bridge / All at Sea”, o mesmo acontecendo ainda no mesmo “set”, com a gaita-de-foles, antes de ser abruptamente despertada pelo acordeão de Julian Sutton. Não nos responsabilizamos pelos espasmos que as “pipes” possam causar, em “The magpie” e “Stories from Debatable Lands”, da mesma forma que achamos negativa toda e qualquer dependência que esta música possa provocar. O álbum termina com uma segunda versão de “Our Kate”, mais uma massagem erótica das “pipes”. Mas elea faz de propósito, ou quê? (Park, distri. Megamúsica, 9)

Eram umas moçoilas do campo, mas a fama transformou-as num grupo de profissionais da “world-music”. Falamos das norueguesas “Varttina”, que também actuaram no festival Multimúsicas, onde foram comparadas a Madonna e às Spice Girls, salvaguardadas as devidas distâncias, é claro. “Vihma” soa melhor que a sessão quasi-tecno de Lisboa, embora seja evidente que o quarteto vocal se está a afastar cada vez mais das raízes, ainda que as melodias mantenham o traço tradicional e o timbre das vozes conserve o típico “vibrato” rural. Entre a ânsia de fazer dançar a todo o custo e a simplicidade da maior parte dos arranjos, “Vihma” respira melhor em baladas como “Emoton”, “Uskottu ei Uupuvani” e “Aamu”. As concessões das Varttina podem desagradar a alguns – na verdade, apenas o tema final, “Vihmax (Vihma Remix)”, uma descarga redundante de “etno tecno”, descamba na facilidade sem contrapartidas – mas é impossível escapar à alegria que a sua música e as suas interpretações transmitem. Estas raparigas são fogo. (Ed e distri. BMG, 7).

Os La Bottine Souriante (nas fotos em cima) já actuaram duas vezes em Portugal, a última delas no festival Cantigas do Maio, no Seixal. Como as Varttina, também estes canadianos transbordam de alegria, quer ao nível do reportório quer da vivacidade das execuções. A diferença está em que, no seu caso, tudo soa mais espontâneo, como uma festa onde a música tradicional é a forma mais rápida para fazer as pessoas felizes. Em Rock & Reel”, versão actualizada e com nova distribuição do álbum do ano passado editado no Canadá com o selo Mille-Pattes, os “reels” do Quebeque rolam rolam como o de locomotiva, os jigs saltam como aguardente na garganta (“Ami de la boteille” é um verdadeiro hino a Baco), a secção de metais é um lança-chamas de “swing”, enquanto as canções francófonas exalam o charme que lhes confere o característico sotaque do Quebeque. Folia garantida! (Hemisphere, distri. EMI-VC, 8).