Arquivo mensal: Abril 2009

Anthony Rother – Simulationszeitalter

30.06.2000
Anthony Rother
Simulationszeitalter (5/10)
Pso49net, distri. Symbiose

anthonyrother_simul

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pwd: mov-world.net

Nome com algum crédito na cena tecno, Anthony Rother perdeu parte desse prestígio quando decidiu fazer este “Simulationszeitalter”. A embalagem em digipak é fantástica e faz, de facto, jus ao título: uma simulação quase perfeita de.. uma embalagem de CD, vista à transparência. A música também é uma simulação mas está longe de ser perfeita. Das programações aos timbres de sintetizador, das vocalizações filtradas por Vocoder aos textos/curtos manifestos de alerta contra os perigos da idade do plástico e da informação, passando pelos próprios títulos das faixas (“Data base/Nuclear winter”, “Bio mechanics”, “The age of simulation”…), “Simulationszeitalter” é uma cópia descarada dos Kraftwerk, da fase “Trans Europe Express” e “The Man Machine”. O mal não está tanto na “simulação2 em si (contar-se-ão por centenas os obcecados em clonar a música da dupla Ralf e Florian) como na absoluta falta de ideias que a atravessa de ponta a ponta. Rother tenta correr pela auto-estrada analógica dos magos de Düsseldorf mas é visível que o motor da sua viatura não está à altura da via de circulação. Onde a música dos Kraftwerk consegue fazer a maquinaria planar (um segredo e uma técnica que até hoje ninguém conseguiu decifrar…) Anthony Rother pisa com estrondo o alcatrão, jamais conseguindo descolar. A diferença entre um protótipo de desporto e um carro de assalto.

Funkstörung – Appetite for Destruction (conj.)

21.04.2000
Destruição, Gelados e Diversão
Funkstörung
Appetite for Destruction (8/10)
Studio !K7, distri. MVM
Solvent
Solvently one Listens (7/10)
Suction, distri. Matéria Prima
Tele:Funken
A Collection of Ice Cream Vans Vol. 2 (8/10)
Domino, distri. Ananana
Tone Rec
Demo Pack Démoli (8/10)
Quatermass, distri. Ananana

funkstroung_appetite

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Sexo, violência, confusão e disciplina, a electrónica agita-se num paroxismo sanguinolento na música dos Funkstörung, uma dupla constituída por Michael Fakesh e Chris de Luca. Funk industrial, consistente, num conglomerado que em “Try dried frogs” e “A8 KM 34” arrasa por completo a arquitectura hip hop e em “Sounds like a breakrecord” e “Grammy winers” (ambos com a participação de Triple H) assume um lado activista através de um rap e scratch demolidores. Lembramo-nos de Mark Stewart e da sua “máfia”. “Think”, “1/10” (swing de metal percussivo) e “Red shirt, white shoes” (música industrial em levitação, coisa rara) contam com as vocalizações aéreas de Greenwood e Carin sobre massas incandescentes. “A bottle, a box and a mic” larga a mesma energia dos Einstürzende Neubauten combinados com os Public Enemy num “drum ‘n’ bass” pegajoso e residual que se cola à pele, antes de os 16 minutos finais de “Mind the gap” abrirem uma cratera de poeira radioactiva em suspensão no trip hop dos Portishead. Uma torneira de escape para tanta tensão.
O som dos Tele:Funken é mais analítico, proporcionando outro tipo de estímulos. Electrónica swingante na linha dos Shabotinski, FX Randomiz, Isan e Holosud que do krautrock extraiu a filosofia e do uso lúdico das novas tecnologias fez uma síntese para usar no imenso parque de diversões em que se transformou a música electrónica neste final de milénio. “Theme from Tele:Funken” abre em carrossel num convite a Gary Numan para se divertir com as suas “replicas” numa montanha-russa.
Os Solvent é que não escondem o seu fervor pelo passado, citando como influências os Human League, Depeche Mode, Soft cell, Fad Gadget, Yazoo e os Skinny Puppy, além de Lowfish e Aphex Twin. Pop electrónica, polida e ritmada, para fazer dançar robôs. Arrumar, depois de gasta, ao lado dos Mikron 64 e Nova Huta.
Em fase de reconhecimento nos meios da electrónica europeia, os radicais franceses Tone Rec, surgem pela primeira vez menos radicais, num álbum de remisturas, metade a cargo deles próprios, metade assinada por Fennesz, pelos primos Dat Politics e pelos To Rococo Rot. Da operação saíram experiências mais dançáveis do que o habitual no mundo angular dos Tone Rec, mais anarquizantes no caso de Fennesz, dos Dat Politics e nuns surpreendentemente virulentos To Rococo Rot do que na própria banda francesa que em “Trend” rubrica a faixa mais irresistível de toda a sua carreira – uma coisa viciante e oleada, alimentada a mel e gasolina, que é uma resposta absolutamente imparável à “auto-estrada” aberta pelos Kraftwerk. E quem quiser brincar ao giroflé e ao mesmo tempo dançar tecno à maneira dos Tone Rec só tem que ouvir “Giroflex”, saltar como um doido e ser conduzido em seguida ao manicómio.

Pole – Pole 3

30.06.2000
Pole
Pole 3 (6/10)
Kiff, distri. Megamúsica

pole3

Pole 1 – 2 – 3
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LINK (parte 2)
LINK (parte 3)
LINK (parte 4)

Sempre que ouço a música dos Pole, alter-ego de Stefan Betke, que recentemente actuou no Museu Serralves, no Porto, imagino os sons amplificados de uns intestinos em plena actividade digestiva, captados através de um microfone ligado a um estetoscópio. O “click-dub” dos Pole é esse aglomerado em constante mutação de estalidos, zumbidos, pancadas e raspagens electrónicas, música de dança para vísceras atiradas para uma centrifugadora. Depois de um primeiro volume azul carregado de estática e de um segundo volume vermelho que escorria sangue sintético, o terceiro volume dos Pole é todo em amarelo-bílis, como uma glândula desenvolvida em laboratório. Com uma dose reforçada de imaginação e o corpo já suficientemente massacrado por um número excessivo de exposições a esta música pouco recomendável para pessoas saudáveis, é mesmo possível descortinar em “Pole 3” algo parecido com “Groove”. Temas como “Karussell” (ter-se-ia Stefan Betke lembrado dos Cluster?), “Uberfahrt” ou “Rondell Zwei” (teria Stefan Betke estado a ouvir Bob Marley enquanto fumava um charro de quilo?) conseguiriam talvez fazer levantar um cadáver numa sessão techno na morgue. Há com certeza movimento nesta música criada nas entranhas do computador, se está viva ou não, essa já é outra questão. Algo mexerá ainda depois de extintas todas as funções vitais, provavelmente, como no banquete de carne morta enlouquecida de “Braindead”, as tais vísceras, réplicas horríveis do corpo principal. Gestos reflexos de órgãos mortos, postos em actividade por choques eléctricos.