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Sétima Legião – “O Fogo”

POP ROCK

27 DEZEMBRO 1992
DISCOS PORTUGUESES DE 1992
DESILUSÃO

SÉTIMA LEGIÃO
O Fogo

Edição EMI-VC

SL

Faz pena ver uma boa ideia reduzida a cinzas. Os Sétima Legião trouxeram para a música portuguesa, na altura em que editaram o primeiro álbum, “A Um Deus Desconhecido”, um conceito. Da mesma forma que os Heróis do Mar o fizeram e o fazem hoje grupos como Madredeus e Resistência. Conceito que tanto pode ser assumido de dentro, como uma intenção prévia, ou formar-se “a posteriori”, à semelhança das peças de um “puzzle” que encaixam de forma espontânea. Os Sétima incluem-se neste último caso. Melhor dizendo, incluíram-se.
Considerados de início um cruzamento inovador do eixo urbano-depressivo de Manchester, representado pelos Joy Division/New Order, com um Portugal de reminiscências celtas (não tivessem arranjado uma gaita-de-foles!), a banda encravou ao quarto disco no ponto morto. “O Fogo” não anda nem desanda. Quer ser “etno” mas não tem coragem do o admitir. Não é triste nem alegre, nem quente nem frio. É morno. Sem extremos nem dinâmica. É esse o mal maior, a ausência de força interior que a produção sofisticada não disfarça.
São retomadas as temáticas de outrora, os épicos, os assombros e a melancolia que então fazia sentido. Hoje, da forma que são ditas em “O Fogo”, deixam de fazer. São cascas vazias, invólucros sem conteúdo. Fogueira apagada. Muito pouco para quem muito prometeu. As ideias onde estão? As canções que ardem? A “glória de lutar”. “O Fogo” é um disco preguiçoso. Cinzas ao mar.

a partir daqui



Sétima Legião: “Sexto Sentido” Muda Sonoridade Do Grupo – entrevista –

19.02.1999
“Sexto Sentido” Muda Sonoridade Do Grupo
Legião Estrangeira

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Seis anos depois de “O Fogo”, os Sétima Legião voltaram a reunir-se para gravar um novo álbum, “Sexto Sentido”, um trabalho marcado pela tecnologia e pelo tratamento de samples que funde a alma da Sétima numa alface virtual. Música menos física e mais mental, nas palavras do grupo. E muito mais internacional.

Tão ou mais surpreendente do que a mudança radical nos métodos de trabalho e gravação deste novo álbum da Sétima é o facto de, passado um interregno de seis anos, os intervenientes serem os memso e, ainda por cima, estarem sintonizados na mesma onda musical. Um caso de fé inabalável num projecto e num conceito que passou a ter forma exclusiva nas máquinas e nas mentes dos músicos. “Sexto Sentido” existe apenas enquanto utopia sonora e espaço convergente de diversas sensibilidades unidas pelo propósito da descoberta e reconversão. Daquilo a que, com boa vontade, ainda poderemos chamar tradição, mas agora já transmutada num mutante abstracto que se alimenta do imaginário planetário. O PÚBLICO samplou as ideias de três dos alquimistas, Gabriel Gomes, Pedro Oliveira e Paulo Abelho.
FM – Ao escutar-se “Sexto Sentido” tem-se a impressão de que a música se esgota numa dimensão exterior, não só à anterior realidade do grupo, como à própria fisicalidade do som. Como conceitos a pairarem num mundo de imponderabilidade…
GABRIEL GOMES – Isso deve-se ao diferente método de produção que utilizámos. Nem toda a gente estava disposta a ir para uma garagem passar quatro meses a ensaiar. Foi muito mais fácil agarrar nos compositores e respectivas composições e juntá-los consoante a disponibilidade de cada um.
PAULO ABELHO – Além do facto de cada um de nós ter desenvolvido, entretanto, diferentes métodos de trabalho.
FM – As composições deixaram de ser assinadas pelo colectivo para passarem a ser assinadas pelos nomes próprios dos músicos, em diversas combinações.
GABRIEL GOMES – O que não quer dizer que não haja um intercâmbio e uma comunhão.
FM – Querem dizer que, embora tivessem seguido carreiras separadas, acabaram todos por convergir ao mesmo tempo numa estética comum?
PAULO ABELHO – O que acontece é que, desde o início, há 15 anos, que somos amigos. Continuámos todos a andar juntos, a sairmos à noite, com negócios comuns…
GABRIEL GOMES – O Pedro, sobretudo, serviu de elo entre todos. Mas o que uniu tudo foi a matéria musical. E isso é que foi o mais engraçado. Embora separados, quando nos juntámos para estúdio, estávamos todos no mesmo sítio.
FM – Como é que surgiu a ideia de erguer toda a arquitectura de “Sexto Sentido” com alicerces nos samplers? É um mundo alheio à Sétima Legião antiga…
PAULO ABELHO – É verdade que operámos com base em samples e nos sintetizadores, mas sem qualquer sentido arquivista.
PEDRO OLIVEIRA – Deixámos de respeitar as regras de um grupo pop. Este disco é um disco de vários compositores com um elo comum.
FM – Mas não acham que álbum soa um pouco a produto de laboratório?
GABRIEL GOMES – Usámos métodos diferentes para trabalhar o som. É evidente que, quando se trabalha com tecnologia, tem que se utilizar métodos laboratoriais. Mas acho que, por exemplo, nas figuras da gaita-de-foles ou do acordeão, tentámos criar “takes” o mais espontâneos possível, gravados á primeira. Inclusive, deixámos algumas coisas que não quisemos corrigir. A grande inovação deste disco é, de facto, o som.
FM – No caso das vocalizações sobre vozes sampladas, de que forma é que esta interacção modifica a interpretação em tempo real? Esta questão dirige-se, como é óbvio, ao Pedro.
PEDRO OLIVEIRA – É intuitivo. Quando sentes que alguém está a cantar ao teu lado, de uma maneira não física, isso molda a nossa maneira de cantar. Se não houvesse a voz de uma senhora do campo a cantar, eu cantaria, de certeza, e outra maneira.
FM – Até que ponto “Sexto Sentido” foi composto, não só no, mas com o próprio estúdio?
PAULO ABELHO – Sobretudo na fase final, nos últimos meses, começámos a simplificar as coisas. Sem dúvida que houve pormenores que só apareceram no estúdio.
FM – Concordam que, com este disco, a Sétima respira já alguns ares de música de dança?
GABRIEL GOMES – Há uma sonoridade mais contemporânea, mais próxima de algumas correntes actuais. Mas não se trata de um “beat” de música de dança. Mas, se reparar, todos os concertos da Sétima Legião eram de dança, as pessoas dançavam do princípio ao fim…
FM – “Sexto Sentido” é um disco de fusão. Em que sentido é que aceitam, se é que aceitam, este termo?
GABRIEL GOMES – Não se tratou de agarrar em tudo e meter numa panela, mas de fundir as sonoridades, os instrumentos acústicos com os electrónicos.
FM – Mas naõ concordam que a sonoridade global do disco se insere numa vertente internacional bastante identificável?
PEDRO OLIVEIRA – Não foi propositado. Mas o que é isso de ser ou não português? Os Gaiteiros de Lisboa, por exemplo, estão cada vez menos portugueses.
GABRIEL GOMES – Tem a ver com a produção, com a forma de tratar os om. E aí, concordo, é um som mais interbnacional do que português. Outro exemplo: ouvi no outro dia os DNA, têm um som exactamente igual aos U2… Incrível. Mas são portugueses. O som de uma banda de recolha?
PEDRO OLIVEIRA – Desde o início tivemos sempre a preocupação de não ter como objectivo estético o aproveitamento da portucalidade, da tradição, etc… Há 15 anos usávamos uma gaita-de-foles apenas porque ficava bem. Nunca quisemos fazer qualquer transposição da tradição para música pop.

Alfaces e Fractais

FM – Existem facções diferentes na Sétima, uma mais tecnológica e outra mais acústica? Referimo-nos ao Paulo Marinho…
PEDRO OLIVEIRA – Não, embora não exerça muito, também tem o fascínio pelos computadores. Aliás, o papel dele, neste disco, foi o mais ingrato, por ser o único músico cem por cento acústico. Ingrato, por não poder repetir neste caso o que sempre fez. No passado havia algumas coisas prvisíveis, sabia-se sempre onde é que entrava um solo de gaita. Neste disco ele fez um esforço de não ser previsível, no sentido de produzir um som muito menos trabalhado. É uma contradição com alguma graça, inclusive há algumas “gralhas” que optámos, ou optou ele, por aproveitar. Muitas vezes esperávamos que ele fizesse de determinada maneira e ele fazia exactamente o oposto.
FM – A capa do álbum insiste na tecla tecnológica. É um fractal?
PAULO ABELHO – Não. É uma alface. Com filtros.
GABRIEL GOMES – reflecte a dualidade da terra e da tecnologia. Ema simbisose biológica.
FM – Têm opinião sobre o actual retorno aos sintetizadores analógicos?
PAULO ABELHO – Houve uma altura em que se passou do analógico para sistemas como o “PCM”, com pequenas amostras de som pré-programados no sintetizador. Acabou por acontecer uma certa saturação disso. Eram aqueles sons e só aqueles. Agora, construir algo a partir do zero, que é o que acontece no analógico, é muito mais fascinante, em termos de criatividade.
FM – Usaram sintetizadores analógicos neste disco?
GABRIEL GOMES – Sim, como um JP 8000, dos anos 80, que recupera todos os analógicos da Roland antigos, sintetizados na mesma máquina.
FM – Nada de Moogs nem A.R.P.?
PAULO ABELHO – Eu tenho um Korg MS-10 onde é possível criar qualquer coisa de raiz. Posso partir do ruído branco e daí construir um novo som em tempo real. O que vai acontecer na próxima fase é o aparecimento de uma nova tecnologia que utiliza estes métodos de síntese, mas já em conjunto com samplersd. Todas as marcas estão a lançar analógicos, mas mesmo isso vai chegar a um limite. É preciso inventar novos métodos de síntese, como já acontece com a Yamaha, com síntese FM, que recorre a algoritmos. Mas nunca vou samplar uma gaita-de-foles (a não ser que pretenda desmontar ou manipular o seu som), se puder usar o instrumento real.

Sétima Legião – Sexto Sentido

26.02.1999
Portugueses
O Império Dos Sentados
Sétima Legião
Sexto Sentido (5)
Ed. e distri. EMI-VC

setimalegiao_sextosentido

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Portugal já tem, finalmente, a sua banda de etnose…, etnotecno. É bom que assim aconteça, estar a par do que se faz, ou se fez, lá fora, já há uns bons anos. Coube aos Sétima Legião, numa inesperada ressurreição e consequente regresso às lides discográficas, essa honra, com “Sexto Sentido”, um álbum cuja fórmula não poderia ser mais excitante: misturar “samples” de música tradicional com ritmos electrónicos de dança. A originalidade está em que os Sétima se lembraram de algo em que nenhuma outra banda do planeta tinha pensado antes e que consiste em usar samples, não uns samples quaisquer, mas samples de – pasme-se – música tradicional portuguesa! Deste facto, aparentemente tão simples, advém toda a estranheza e ousadia do projecto. Assim, é com algum espanto e não contida admiração que vemos as recolhas de Giacometti ganharem a luz da contemporaneidade em arriscada simbiose com programações que ora pedem emprestados os sequenciadores aos Tangerine Dream (“A volta ao mundo”, com a voz de Né Ladeiras a dar polimento) ora descambam em batidas cuja principal virtude é não pedirem demasiado esforço, nem às máquinas nem à imaginação (“Eclipse”, “Sem Perdão”). Mas os Sétima Legião vão mais longe, assumindo até às últimas consequências as ligações perigosas entre a tradição e a computorização, não só através do grafismo da capa, uma alface virtual, como, em “Em pedra dura”, pela proeza de juntar a voz e a gaita-de-beiços de um amolador (recolha de Ernesto Veiga de Oliveira) a uma batida “hip hop”. Em “O Factor Humano”, os Sétima Legião invadem declaradamente a pista de dança, enquanto em “A Caminho da Lua” funciona o tom declamatório do vocalista sobre uma paisagem arabizante. Entre o “drum ‘n’ bass” e o “chill-out”, “O louco do mar” demonstra que o grupo está atento às penúltimas tendências internacionais, o mesmo acontecendo em relação às antepenúltimas, em “Tempestades do Senhor”, um ritual de ceifa do Vimioso emticulosamente encaixado numa batida tecno. Ao fim de 14 audições, o tema revela pormenores escondidos como sejam a incrível subtileza inerente a toda a batida tecno (dita “martelinhos”) ou uma série de outras, ainda menos evidentes, que apenas muitas mais audições depois se darão a conhecer em toda a sua plenitude. Nova dose de “drum ‘n’ bass”, em “Canção da erva”, e “ambient tecno”, em “Abril em Batavia” elevam ainda mais a fasquia da originalidade, soando tão originais como, pelo menos, outros 543 projectos semelhantes, todos originais e todos da mesma maneira. Deste modo, conseguiram os Sétima pôr a música portuguesa e eles próprios em sentido. Há um sexto sentido assim, uma intuição do som exacto que, em determinado momento, faz mover as alavancas. “Sexto Sentido” é o triunfo da alface segundo uma fórmula de sucesso. Venham daí mais legumes e sentidos. A música portuguesa agradece.