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Artigo de Opinião: “O Futuro Sem Fantasmas” – Brigada Victor Jara, Gaiteiros De Lisboa, Realejo, Quadrilha

POP ROCK
3 de Janeiro de 1996

Especial Balanço 95 Da Música Portuguesa

O FUTURO SEM FANTASMAS


realejo

Uma colheita de ouro, a do ano que findou, de música portuguesa com as raízes mergulhadas na tradição, só comparável à da segunda metade dos anos setenta, com a digestão consumada da ressaca da revolução de Abril.
Três grupos recolheram os louros, assinando trabalhos discográficos notáveis que fizeram a música de raiz tradicional portuguesa avançar um passo de gigante: Brigada Victor Jara, Gaiteiros de Lisboa e Realejo, por ordem cronológica de edição dos respectivos discos, “Danças e Folias”, “Invasões Bárbaras” e “Sanfonia”. Num registo menor, os Quadrilha garantiram o apoio logístico aos generais, com o seu folk rock sem pretensões de maior, em “Até o Diabo se Ria”.
O que faz dos álbuns atrás mencionados obras que vão ficar na história é o facto de cada um deles apontar um caminho no sentido da renovação do legado tradicional. Nenhum está anquilosado no passado. Logo, nenhum deles sofre de artrite, reumatismo ou esclerose. Tal não significa, porém, que se possa passar ao lado, ou, por inépcia, massacrar a música tradicional, por natureza sensível aos maus tratos. Quem conhecer os músicos que compõem tanto a Brigada como os Gaiteiros, verificará que todos eles se submeteram ao longo de anos e anos a um processo de evolução e aprendizagem que se poderá considerar alquímico. Do trabalho de recolha dos primórdios às liberdades tomadas no presente, vai uma jornada longa e, amiúde, dolorosa. Recuperar e actualizar a tradição é perpetuar essa mesma tradição. Criar novas formas a partir do barro exige o conhecimento do barro e as suas técnicas de manipulação. A alma esconde-se na pedra. A luz habita no âmago das trevas. Picasso demorou uma vida até conseguir pintar como uma criança. Umas “uillean pipes” demoram anos até ganhar vida e voz próprias. Não é quem quer, mas quem sabe, quem tem o direito – e o dever – de arrancar a erva daninha e o “folclore”, enquanto deterioração enfeudada a um qualquer poder político, que fazem definhar a verdadeira música – os seus gestos, as suas melodias, as suas cadências, os seus rituais – das comunidades rurais ainda existentes. Não é quem quer, mas quem sabe, quem tem o direito – e o dever – de inventar novas vozes, sobrepondo-se às vozes que levam de vencida e se incrustam no tempo.
A Brigada evitou as rupturas bruscas, apostando no reformismo. Os festejos, sem convulsões, do seu 20º aniversário não poderiam ter sido melhores, não só pela edição de “Danças e Folias”, como pela reedição em compacto de “Eito Fora” e “Contraluz”, culminando num concerto memorável, em Dezembro, no São Luiz. Os Gaiteiros entraram a matar, com a voracidade de predadores. “Invasões Bárbaras” é uma aposta no excesso e na diferença que não deixa ninguém indiferente e volta a agitar as águas mornas de algum contentamento, representando para os anos 90 o que o GAC representou para os 70.
Deixámos para o fim os Realejo, projecto de Fernando Meireles, que partiram de outro lugar e de um outro modo de olhar. Se o objectivo primeiro foi recuperar a dignidade e o prestígio perdido em séculos passados, da sanfona, a verdade é que o som de “Sanfonia”, até pela ênfase colocada naquele instrumento, apresenta características que o aproximam de uma certa forma de “fazer tradicional” disseminada pela Europa, algures entre a música antiga e o folk progressivo das grandes bandas, sobretudo francesas, dos anos 70 (Malicorne, Mélusine, La Grand Rouge, La Bamboche, La Marienne, Maluzerne).
Entre as várias conclusões possíveis de extrair desta trindade que em 1995 ganhou um corpo novo e um novo alento para a música portuguesa, não só tradicional, uma há que se reveste de particular importância. A dessacralização de Michel Giacometti, acompanhada por uma visão mais lúcida e, sem dúvida, mais frutuosa do seu trabalho no campo das recolhas e catalogação dos espécimes étnicos. O seu espólio deixou de ser considerado um mito e, como tal, um dogma, passando a constituir um ponto de referência e de consulta, enquanto material de trabalho prático, à disposição de todos, na condição de não terem mãozinhas de chumbo.
Foi este, aliás, um dos principais tópicos do debate sobre música tradicional e de raiz tradicional portuguesa promovido pelo pop Rock no mês de Novembro, com a presença dos convidados Tentúgal, dos Vai de Roda, Carlos Guerreiro e José Manuel David, dos Gaiteiros de Lisboa, Amélia Muge e José Martins (Ó que Som Tem). “O futuro, já!”, título que escolhemos para ilustrar o referido debate, poderia ser, de resto, o lema de uma nova atitude perante a tradição, carregada em simultâneo de sabedoria, ousadia e espírito de inovação. Neste cenário de promessas cumpridas, acompanhado da separação do trigo do joio (1995 foi um mau ano para a “MPP – música popularucha portuguesa”, ou então não se deu por ela, o que vai dar no mesmo…), ficou ainda reservado um lugar de honra para um disco de recolhas onde é possível desfrutar o canto e a música genuínos da população rural de uma localidade de Trás-os –Montes, “Idanha-a-Nova, Toques e Cantares da Vila”, considerado pelo Pop Rock um dos melhores discos de música tradicional do ano, resultado da investigação de José Alberto Sardinha.
A última boa notícia é que o ano que agora se inicia, a confirmarem-se as expectativas, vai ser pelo menos tão bom como o anterior.



Brigada Victor Jara – Entrevista

Pop Rock

20 de Setembro de 1995

Brigada Victor Jara lança “Danças e Folias”

“Desconfiai de um Deus que não sabe dançar”*

O Deus da Brigada Victor Jara sabe dançar. “Danças e Folias”, o novo álbum desta banda coimbrã, representa desde já um marco na evolução da nossa música da raiz tradicional. O violinista Manuel Rocha explica que há danças que já desaprendêramos de dançar.


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É a segunda idade de ouro da música portuguesa de inspiração tradicional, na continuação do “boom” dos anos 80. Depois de Né Ladeiras ter escancarado a porta astral que dá para Trás-os-Montes e numa altura em que estão prestes a rebentar as estreias discográficas dos realejo e dos Gaiteiros de Lisboa, a pioneira Brigada Victor Jara vem ocupar o trono que por direito lhe pertence. O violinista Manuel Rocha explicou ao PÚBLICO que existem maneiras de se dançar mais com os ouvidos do que com os pés.
PÚBLICO – Seis anos de intervalo entre “Monte Formoso”, o anterior disco da Brigada, e este “Danças e Folias” é muito tempo. A par da tal “preguiça” já referida por Aurélio Malva (ver entrevista no PÚBLICO do dia 1 deste mês), há outras razões que expliquem a demora?
MANUEL ROCHA – Realmente, a par dessa “preguiça” em pegar no material há outras razões que envolvem um grupo que não tem uma ocupação profissional enquanto tal. As pessoas neste grupo conservaram sempre os seus trabalhos. Por outro lado existem algumas questões do foro musical. Este disco até nasceu de uma forma curiosa. Normalmente os discos da Brigada nascem para ser tocados ao vivo. Este nasceu para ser um disco, com características que envolviam logo á partida a consulta e um pedido de participação aos músicos convidados.
P. – “Danças e Folias” é um disco conceptual?
R. – Inicialmente tínhamos a intenção de fazer um disco com os espécimes mais diversos de música tradicional. Só que a alma do disco estava a sair muito triste. Numa certa altura pensou-se então – o Aurélio deu a ideia – em fazer um disco de danças. As nossas danças estão muito mal-tratadas, foram associadas indevidamente a uma versão transformadora dos ranchos folclóricos em que de facto a dança permaneceu mas a música foi sendo corrompida. Pareceu-nos interessante pegar no aspecto propriamente musical da dança. Se se reparar bem, há muitos temas no disco em que não se percebe a característica dançante…
P. – Nos temas vocalizados?
R. – Exacto. Aquilo que privilegiámos, sendo música de dança, foram as características altamente modais da nossa música e, como tal, explorá-las no seu lado “bonito”, mais complexo, com arranjos que avançam para o modalismo em vez de darem importância à questão da cadência, do ritmo.
P. – Essa tónica no modalismo levou a resultados como o tema “O mineiro”, tradicional da Estremadura, onde são espantosas as semelhanças com a música da Bretanha…
R. – É engraçado, porque temos em Portugal música que quebra a quadratura, isto é, em que o tempo é arrevesado. É como diz, de repente encontramos em Portugal sons que não têm a ver com aquilo que nos habituámos a ouvir.
P. – Em Portugal ou no seio transmutador da Brigada?
R. – Em Portugal! Em particular esse tema que refere foi tocado na sua forma original num instrumento de cana [sevina] por um tocador da Estremadura. Não tem nada a ver com aquilo que geralmente identificamos com um som português. O que nos faz ao fim e ao cabo pensar na origem tão diversificada das nossas músicas. Acontece também que em Portugal, ao contrário de outros países, não tivemos a possibilidade de explorar aquilo que é mais “bizarro” no caminho do aperfeiçoamento. Houve a clivagem musical dos anos 60 e 70, em que o acordeão funcionou como instrumento monopolizador, quer da tonalidade quer da sonoridade. A tal música mais “estranha” nunca foi explorada.
P. – Em comparação com discos mais antigos, como “Contraluz” ou “Monte Formoso”, obras que se podem considerar de fusão, “Danças e Folias” aposta no regresso a um certo classicismo.
R. – Apesar de ser um disco, como disse, feito com arranjos preparados pelo Ricardo Dias e o Aurélio Malva, acaba por apontar para esse classicismo, para um regresso à canção enquanto canção, com princípio, meio e fim. Enquanto que em “Contraluz”, por exemplo, a canção se encontrava dissimulada no ambiente musical geral.
P. – Não será também uma defesa vossa, no sentido em que é menos perceptível uma identidade própria, um som imediatamente reconhecível como pertencendo à Brigada?
R. – Isso é uma característica do grupo. Então se pegarmos na sua história discográfica ainda se nota mais, já que cada disco é diferente dos outros. Tem a ver, por exemplo, com a dispersão dos elementos do grupo, enquanto ouvintes e assimiladores de música. É uma heterogeneidade que acaba por se reflectir no trabalho do grupo. Não há um “som Brigada”. A nossa grande preocupação tem sido, até, de alguma forma, de complicar as coisas…
P. – Complicar como?
R. – Ir ao encontro da complexidade da música portuguesa e, cada vez mais, estudar para chegar lá. Além de que o encontro com os músicos convidados que tocam neste disco, acabou por ser para nós muito enriquecedor, na medida em que nos “complicou” também a vida… Por exemplo, o António Pinto a trabalhar nas harmonias ou o Tomás Pimentel a tocar um solo lindíssimo permitiram descobrir novos caminhos que uma melodia pode ter dentro de uma harmonia que é subvertida.
P. – Complexidade e profundidade que se tornaram notórias na imensa riqueza de “Danças e Folias”…
R. – Pois, a nossa música não é como a de grupos que dão ênfase às chulas ou ao vira. Se queremos fazer um trabalho sobre a música portuguesa, na extensão territorial daquilo a que chamamos Portugal, chegamos à conclusão que é preciso pegar no seu lado “incómodo”, o seu modalismo e a sua polirritmia.
P. – A alegria e a diversidade de registos que percorrem “Danças e Folias” podem ser uma resposta ao cinzentismo que se está a instalar numa facção da nossa música popular?
R. – Deve haver alguma reacção a esse cinzentismo que acaba por desenterrar outra vez os valores do céu carregado de nuvens e dos pescadores que se arrastam pela estrada de costas vergadas a puxar o barco. Na música dita de inspiração tradicional não precisamos de pegar nesse lado negro. Isso seria lustrar uma só faceta da nossa própria vida.

* Friedrich Nietzsche, em “Assim Falava Zaratustra”



Brigada Victor Jara – Colectânea de Versões Festeja 25 Anos de Carreira

28.04.2000
Colectânea de Versões Festeja 25 Anos de Carreira
Na Senda de Estranhas Melodias


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Apagaram as velas do 25º aniversário com a edição de uma colectânea de versões de velhas canções que fizeram a história do grupo. Para a Brigada Victor Jara, uma das instituições da MPP, é o início de mais um ciclo de vida que prosseguirá no próximo ano com o lançamento de um novo álbum

“Por Sendas, Montes e Vales”, assim se chama esta colectânea, editada em CD duplo pela Farol Música, inclui 26 temas retirados de toda a discografia anterior da Brigada, regravados numa única sessão de estúdio com a presença de convidados como André Sousa Machado, António Pinto, Catarina Moura, João Paulo e Silva, Jorge Reis, Luísa Cruz, Manuel Freire, Minela, Tomás Pimentel, Vitorino, José Medeiros e o Grupo de Etnografia e Folclore da Academia de Coimbra (GEFAC).
Manuel Rocha, violinista e, actualmente, o elemento mais antigo da Brigada, conversou com o PÚBLICO sobre a data de aniversário, o disco e o futuro do grupo que, no próximo ano, lançará um novo álbum de originais.
“Pensámos fazer um disco de 25 canções [na realidade são 26] que marcassem o percurso da Brigada. Em vez de repescar outra vez velhas canções, como fizemos no 15º aniversário, pensámos que seria engraçado fazer um disco ao vivo, só que não encontrámos nenhum sítio, no devido tempo, um espaço com público, acabando por fazermos num só dia, no estúdio, toda a gravação, som e imagem, fez-se também um vídeo”, explica Manuel Rocha, que não nega ter havido uma certa “preguicite” na escolha desta fórmula. Mas justifica: “Este disco foi um disco de percurso, ainda por cima a Câmara de Coimbra resolveu dar-nos a medalha da cidade, de mérito cultural, e havia necessidade, segundo a editora, de criar um produto comemorativo, mais do que outra coisa qualquer.”
Mas as baterias, garante o violinista e porta-voz da Brigada, estão já todas apontadas para o próximo disco que irá sair daqui a um ano. “A solução era fazer sair uma coisa que correspondesse a uma novidade que era pôr versões ao vivo e, por outro lado, convidar, para dar mais assunto e nos dar mais prazer, uma data de malta amiga.”
A propósito deste próximo álbum, Manuel Rocha defende que “há espécimes tradicionais que importa ‘atacar’ ou desenvolver pelo lado mais telúrico, menos elaborado e urbano”. Será esse o caminho a seguir num disco que, apesar de poder vira a enfatizar, mais do que é costume, um lado instrumental, continuará a explorar aquela que é uma das características mais interessantes da Brigada Victor Jara, as baladas que, embora recolhidas do cancioneiro, soam pouco familiares. “Procurámos sempre trazer para o nosso reportório coisas que sejam mais ou menos estranhas, como o ‘Bento airoso’, por exemplo”, diz Manuel Rocha para quem, nestes casos, o mais difícil é “dar a estas músicas uma forma, uma leitura interessante, sem desvirtuar o que lá está”.
A mesma estranheza sentida quando, no álbum “Novas vos trago”, editado no ano passado, se ouviu um tema a ser vocalizado por Lena D’Água. “Resultou muito bem”, reconhece o violinista, que conta a história dessa colaboração: “O Ricardo Dias estava a trabalhar com ela, num espectáculo, como pianista. No convívio com ela, percebeu que aquele estereótipo da Lena D’Água de cantora pop que toda a gente conhece, ligada a uma imagem de beleza feminina, afinal tinha outro lado, de uma mulher que canta bem. Achámos óptima a ideia de ela cantar connosco.”
Poderá a música da Brigada, bem como de outros grupos portugueses da mesma área musical, ter possibilidade de ser bem aceite no estrangeiro? Para o violinista, a resposta é afirmativa, com alguns senões. “A música tradicional portuguesa, enquanto produto de exportação, tem possibilidades, não pode é continuar a filiar-se na música céltica, como nós próprios fizemos algumas vezes. Além da competição ser esmagadora, por outro lado, é preciso abandonar – e é isso que temos feito – uma certa tendência pop que pretende, mesmo que inconscientemente, responder a pseudo-solicitações de público. Mas nem sequer será isso o que o público quer… O desafio é fazer com que a música soe a qualquer coisa de consistente sem ter que namorar de forma descarada as sonoridades mundialmente aceites.”
Vinte e cinco anos passados e muitos músicos que entraram e saíram do grupo, a Brigada prepara-se para enfrentar o futuro sem deixar de recordar os tempos heróicos da sua génese, “em 1975, numa jornada de trabalho numa estrada da Lousã”, onde, recorda Manuel Rocha, “a malta se juntou para tocar umas modas e foi incorporada como testa de um camião do MFA”. A partir do mítico “Eito Fora!” a estrada mudou diversas vezes de direcção, mas ainda há quem, “no fim dos espectáculos, pergunte quem foi Victor Jara” e nas lojas, nalguns casos, os discos do grupo aparecem arrumados na secção de música chilena, “de preferência sob o nome de Victor Jara” (risos)…
Quem quiser juntar-se à Brigada Victor Jara nos festejos de comemoração poderá assistir aos próximos espectáculos do grupo em Faro, no Largo da Sé (no próximo dia 24), no Porto, no Teatro Rivoli, a 28, e em Lisboa, na Aula Magna, a 29. Vai valer a pena, mesmo que para tal seja necessário trilhar sendas, montes e vales.